quarta-feira, 28 de outubro de 2009

BOA NOTÍCIA?


Perda da obra de Oiticica é menor que a anunciada



Fabio Cypriano 
da Folha de S.Paulo

Menos de uma semana após iniciar o trabalho de restauro das obras do artista Hélio Oiticica (1937-1980)--atingidas por um incêndio, no dia último dia 17, no Rio--, a avaliação dos técnicos do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) é muito mais positiva do que a inicial. A família Oiticica calculava que 90% da coleção teria sido destruída.

Obras de Hélio Oiticica após incêndio, na casa da família do artista no Rio de Janeiro
"Eles se precipitaram, o que é compreensível, pois tudo estava enegrecido, então foi uma reação normal, de quem estava assustado. O laudo definitivo será divulgado na próxima semana, mas, ao que tudo indica, até agora, entre 70% e 80% do acervo está preservado", disse à Folha José do Nascimento Júnior, presidente do Ibram.

Cinco técnicos do instituto trabalham desde o dia 21 na casa do irmão de Oiticica, César, onde foi montado um laboratório de restauração. "Os "Penetráveis", desenhos e guaches estão em bom estado. Já os "Parangolés" e trabalhos com tinta a óleo foram os mais destruídos, pois estavam próximos do foco inicial do incêndio", contou Nascimento Júnior.

Segundo o presidente, também foram chamados para auxiliar no restauro técnicos do Instituto Moreira Sales. Isso por conta do grande número de fotografias do acervo, inclusive de José Oiticica Filho (1906-1964), um dos pioneiros da fotografia moderna no país e pai de Hélio. Os técnicos também estão comparando o que foi digitalizado do arquivo de Oiticica com o que restou no local.

O acervo privado mantido pela família Oiticica, orçado por ela mesma, no dia do incêndio, em mais de R$ 342 milhões, agora está sendo restaurado por iniciativa pública. Nos últimos anos, obras importantes foram vendidas a instituições do exterior, como a emblemática "Tropicália", um conjunto de "Penetráveis", adquirido pela Tate, em 2007, por 415 mil (R$ 1,16 milhão). O museu comprou ainda dois "Bólides" por 730 mil (R$ 2 milhões), segundo o site da instituição. "Nossa preocupação agora é salvar o que for possível", disse Nascimento Júnior.

Mas qual poderá ser a contrapartida do restauro? "Junto com o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e a Funarte [Fundação Nacional de Artes], estamos propondo que o Ministério da Cultura tome algumas medidas, que ainda estão sendo analisadas pelo Juca Ferreira [ministro da Cultura] e devem ser anunciadas em breve", afirmou ainda Nascimento Júnior.

Hoje Francis Bacon faria 100 anos

Para o pintor Francis Bacon, homem é carne e carcaça em potencial; leia trecho


A representação da carne humana de forma nua e crua, em tons sanguíneos e funções orgânicas palpáveis diante do olhar do espectador. Foi assim que o irlandês Francis Bacon (1909-1992) destacou-se na pintura figurativa do século 20 com seus quadros. Hoje, comemora-se o centenário do nascimento do pintor.

Bacon pincelava temas polêmicos com uma inusitada visão modernista que possuía do mundo. Fantasias masoquistas, pedofilia, desmembramento e dissecação de corpos e tensão homoerótica eram comumente tratados por ele em suas obras. Essa liberdade autoral está relacionada, em parte, à repressão que sofreu quando criança. O pai era um homem violento e o agredia. A infância traumática do pintor transformou-se em arte transgressiva, permeada por fluídos naturais --sangue, bílis, urina e esperma-- e sexo e religião contrapondo-se em intensa velocidade de traços.



Em "Entrevistas com Francis Bacon", o crítico de arte inglês David Sylvester reuniu nove entrevistas que o pintor lhe concedeu entre os anos de 1962 e 1986. Os relatos são o testemunho do processo de criação e concepção do artista.
No trecho abaixo, extraído do volume, Sylvester trata do tema corporal e de como o pintor irlandês lida com a questão da carne humana. "Quando você entra num açougue e vê como as carnes podem ser bonitas e depois pensa nisso, é que percebe todo o horror da vida-- da coisa que come uma a outra", explica Bacon.

David Sylvester: Quando você pinta uma crucificação, você acha que aborda o problema de uma maneira muito diversa daquela que usa para abordar outras pinturas?

Francis Bacon: Bem, claro, você está então lidando realmente com seus sentimentos e emoções. Você poderia dizer que chega quase a ser um auto-retrato. Você está lidando com sentimentos muito particulares que têm a ver com o comportamento e com a vida como ela é.

D.S.: Uma configuração recorrente e muito pessoal em sua obra é o entrelaçamento da imagística da crucificação com a imagística do açougue. A conexão com a carne deve ter um significado muito forte para você.

F.B.: É verdade. Se você for a um desses grandes açougues e andar por aqueles salões enormes cheios de cadáveres, encontrará carne, peixe, aves e outras coisas mais ali deitadas, mortas. E, como pintor, você não pode deixar de perceber toda a beleza do colorido da carne.

D.S.: A conjunção da carne com a crucificação parece acontecer de duas maneiras: pela presença na cena de flancos de carne e pela transformação da própria figura do crucificado numa carcaça pendurada.

F.B.: Bem, claro, nós somos carne, somos carcaça em potencial. Sempre que entro num açougue penso que é surpreendente eu não estar ali no lugar do animal. Mas usar a carne dessa maneira particular talvez seja igual à maneira como alguém usaria a coluna, porque estamos sempre vendo imagens do corpo humano através de chapas de radiografia e isso obviamente modifica o modo como se pode usar o corpo. Você deve conhecer o belo pastel de Degas na National Gallery, de uma mulher lavando suas costas. E você pode ver bem lá no alto da coluna que o osso quase sai para fora do corpo. Isso dá uma tal força e imprime uma tal distorção que você passa a perceber a vulnerabilidade do resto do corpo, mais do que se Degas tivesse desenhado a coluna subindo naturalmente até o pescoço. Ele quebra a coisa para que ela pareça saltar da pele. Não importa se Degas fez isso de propósito ou não, é este detalhe que torna o quadro ainda mais admirável, pois você de repente passa a perceber tanto a carcaça quanto a carne, que em geral ele simplesmente pintava cobrindo os ossos. No meu caso, não resta dúvida de que essas coisas são influenciadas por chapas de radiografia.

D.S.: É evidente que sua obsessão por pinturas em que aparecem carnes se deve bastante a questões ligadas à forma e à cor... suas próprias obras evidenciam isso. Mas sem dúvida os quadros que têm o tema da crucificação pertencem àquela categoria que levou os críticos a ressaltar o que chamaram de elemento de horror na sua obra.

F.B.: Bem, não há dúvida de que eles sempre ressaltaram esse lado do horror. Mas eu não sinto muito isso em minha obra. Nunca procurei o horror. Basta que se observem as coisas e se saiba ler nas entrelinhas para concluir-se que as coisas que eu fiz não enfatizam este lado da vida. Quando você entra num açougue e vê como as carnes podem ser bonitas e depois pensa nisso, é que percebe todo o horror da vida - da coisa que come uma a outra. É como todas essas idiotices que se dizem das touradas. As pessoas comem carne e depois se queixam da existência de touradas; elas recriminam as touradas, mas estão lá cobertas de peles e com enfeites de pena no cabelo.

"Entrevistas com Francis Bacon"

Autor: David Sylvester

Editora: Cosac Naify

Páginas: 208

Quanto: R$ 62


da Folha Online em 28/10/09

Rosalind Krauss: Alerta contra a fraude nos nossos dias



A crítica americana Rosalind Krauss fez uma palestra polêmica no Paço das Artes

Camila Molina do Estadão

A americana Rosalind Krauss, em curta passagem por São Paulo para realizar palestra anteontem à tarde no 3º Simpósio Internacional de Arte Contemporânea do Paço das Artes - Experiências, Campos, Intersecções e Articulações, foi apresentada na abertura do evento como a mais importante crítica, teórica e ensaísta de arte da atualidade. Aos 67 anos, Rosalind, professora da Universidade de Columbia, Nova York, é uma referência, não só pelos livros que publica desde a década de 1960 - The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths e O Fotográfico -, como a de ser uma das fundadoras, em 1976, da October, influente periódico sobre arte, atualmente, publicado pela MIT Press, e de conceitos, entre eles, o da "escultura no campo expandido" e da defesa da fotografia como gênero - no simpósio, ela se valeu de um termo que agora usa especificamente: "Abandonei a palavra mídia e comecei a usar a expressão suporte técnico."

Dona de uma fala contundente - e voltada para um público preparado -, Rosalind começou sua conferência enfática: "Aqueles que conhecem minha obra sabem quão profundamente sou opositora do trabalho fomentado por essas mostras internacionais e feiras como as Documentas e várias Bienais." Fez sua palestra "testando" declarações da curadora da Documenta X, de 1997, Catherine David, sobre o fim do cubo branco ("as paredes do museu e o espaço da galeria") e da recusa das ideias de pureza, autenticidade e oposição entre arte e mídia. Para tanto, a crítica, por mais de uma hora, fez sua provocação sem interrupção: discorreu sobre sete "artistas rebeldes" da contemporaneidade (Harun Farocki, Ed Ruscha, William Kentridge, Christian Marclay, James Coleman, Sophie Calle e Marcel Broodthaers) que conseguem criar uma obra "contra a ditadura do cubo branco".

A palestra de Rosalind, mediada pelo professor da Unicamp, Márcio Seligmann-Silva, tinha como título Reconfigurações no Sistema de Arte Contemporânea. Valendo-se de uma citação do professor de filosofia de Harvard, Stanley Cavell - "a possibilidade de fraude e a experiência de fraude é endêmica na experiência da arte contemporânea" - Rosalind defende que o trabalho do crítico é "penetrar" e "comunicar" quais seriam os processos de criação genuínos dentro de um sistema que "encoraja o espetáculo". Foi segura ao eleger apenas uma lista de menos de dez criadores que, usando expressão de Walter Benjamin, dão "o salto do tigre" (Tigersprung) abrindo espaço para a reflexão dentro da arte. "Não existe a sobreposição da historicidade", resumiu, depois do término da palestra, Seligmann, o que significa que esse "salto do tigre" pode ser dado mesmo que se permita "um passo para trás".

"O passado dá poder ao presente", afirmou Rosalind, que depois, respondendo a uma das perguntas do público, simplesmente arrematou toda sua palestra dizendo: "Se você está me perguntando se sou uma reacionária a resposta é sim" (Infelizmente, a sessão aberta ao debate com o público foi interrompida abruptamente pelos organizadores do seminário).

Tendo uma vasta formação, no início marcada pelas teorias do formalista Clement Greenberg e das visões mais subjetivas de Harold Rosenberg, sua trajetória de quase 50 anos, marcada pelo engajamento, reflete a passagem do modernismo para a pós-modernidade - já foram temas de seus trabalhos o cubismo e a fotografia surrealista, as esculturas de Brancusi, David Smith e Richard Serra, o minimalismo ou a obra de Cindy Sherman. Rosalind, assim, chamou atenção em sua palestra para a ideia de "pureza" que o modernismo chamou de "especificidade da mídia" - e que tanto a estética relacional quanto as instalações (a grande estrela das bienais e feiras) se alimentaram do fim da especificidade e da narrativa principal. A genuinidade de cada obra elencada por Rosalind Krauss não poderia estar desgarrada do "suporte técnico" escolhido pelos artistas: no caso do checo-alemão Harun Farocki, "cineasta", a edição; do americano Ed Ruscha, a pintura com sua história; do sul-africano William Kentridge, a animação; do americano Christian Marclay, a sonoridade; do irlandês James Coleman, a fita slide; da francesa Sophie Calle, o jornalismo e a vida privada; do belga Marcel Broodthaers, a criação de um museu imaginário.

O 3º Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes termina hoje com a realização de três mesas de debate. A primeira, das 10h às 11h, tem como tema Confluências: Arte, Tecnologia, Indústria, Design e a participação do professor da PUC, Nelson Brissac e Yacine Ait Kaci, da França - depois ocorre debate com Cícero Inácio Silva, da Universidade de San Diego, Califórnia. A segunda, das 14h às 15h30, Redes Sociais, Arquivo e Acesso, terá como palestrantes Rogério da Costa, da PUC, e Alberto Lopez Cuenca, pesquisador espanhol, seguido de debate com o historiador de arte cubano Eugenio Valdés Figueroa, da Casa Daros-Rio. A terceira, Imagens Contemporâneas e Imagens da Arte Contemporânea, contará com as palestras de Lucia Santaella, da PUC, e de André Parente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - o debate, posterior, será com o artista Lucas Bambozzi. Será lançada uma publicação reunindo o conteúdo do simpósio.

ainda sobre Oiticica

Responsabilidade, segurança e trégua

por César Oiticica

Agradecemos, emocionados, às dezenas de mensagens de solidariedade enviadas por pessoas de várias partes do mundo pela tragédia do incêndio que destruiu grande parte da obra de Hélio Oiticica.

Não concordamos, de maneira nenhuma, que cabe culpa ao governo, municipal, estadual ou federal, por esse acidente trágico que deixa o mundo da arte órfão de uma das mais destacadas obras da segunda metade do século XX. Uma tragédia absurda, muitas vezes, tem como reação uma série de protestos contra o governo. É mais ou menos como a revolta do filho contra Deus pela morte prematura do pai.

Nós escolhemos, conscientemente, desde o início, o modelo no qual acreditávamos ser o melhor para gerir a obra de Hélio. Fundamos, em 1981, o Projeto Hélio Oiticica, uma associação cultural sem fins lucrativos, com as finalidades de guardar, conservar, estudar e difundir a obra do artista.

O projeto teve um desempenho excelente, nestes 28 anos, como provam o grande aumento do prestígio da obra a nível mundial, as inúmeras teses acadêmicas elaboradas sobre a obra de Oiticica, as restaurações de grande parte do acervo e o acondicionamento correto com controle ambiental perfeito em sua reserva técnica. O item segurança não foi negligenciado, contando com dois sensores de fumaça ligados ao sistema de alarme.

No interior da reserva, no momento do incêndio, só havia um ponto com energia elétrica ativo: o desumidificador, já que o sistema de ar-condicionado não tinha ponto de energia interno e a iluminação estava sempre desligada quando a reserva se encontrava vazia. Inúmeros especialistas em museus, restauradores, curadores, historiadores de arte e artistas visitaram a nossa reserva técnica e sempre a elogiaram.

Nunca houve uma crítica.

Mesmo assim, sempre nos perseguirá o sentimento de que talvez pudéssemos ter evitado o que ocorreu. A responsabilidade é só nossa e não seria justo tentar dividi-la com alguém.
Não duvidamos, porém, que o caminho que escolhemos para gerenciar a obra de Hélio foi o correto.

A administração da obra de um artista nunca deve ser feita pelo poder público principalmente quando não há o conhecimento e a estrutura necessários para isso.

A obra de Hélio Oiticica é extremamente complexa.


Até hoje é motivo de estudos até pelos mais veteranos pesquisadores e estimula, mais do que qualquer outra, os jovens acadêmicos a elaborarem monografias e teses. A sua ousadia a torna fonte de inspiração e estímulo à liberdade de criação em todo o mundo.

Uma estrutura estatal, burocrática, jamais poderia fazer o que foi feito pelo Projeto Hélio Oiticica nestes 28 anos. Depois do desespero, uma tristeza profunda, doída, tomou conta de todos que se acostumaram a amar a obra de Hélio Oiticica. Mas esse sentimento deve ser substituído pela vontade vital de continuar o trabalho de cuidar e difundir a sua obra.

Agradecemos à imensa ajuda do Ministério da Cultura, que rapidamente acionou o Ibram para nos ajudar a resgatar as obras que sobreviveram ao incêndio.

Essa força, neste momento, transformou a perplexidade diante da tragédia em ação para a recuperação do que restou do acervo.

Temos que pedir uma trégua a todos que, por um motivo ou outro, discordam ou desgostam do Projeto HO ou de nossa família. Por favor, um pouco de solidariedade.

Pedimos também um tempo a todos que, mesmo por motivos profissionais, desejam entrar em contato conosco. Estamos tentando salvar o que sobrou do incêndio.

Contamos com a sua colaboração.

CÉSAR OITICICA é irmão de Hélio e diretor do Projeto HO

O Globo, 21 de outubro de 2009

Políticas Culturais: enquanto no Brasil engatinhamos

No exterior, governos compram acervos

por Silas Martí da Folha de S. paulo

Governos estrangeiros têm mecanismos para evitar que acervos de artistas já mortos fiquem desprotegidos ou sob posse exclusiva de familiares.
Enquanto a legislação brasileira prevê o simples tombamento de um acervo ou a declaração de que as obras são de interesse público, países como França, Espanha, Portugal, Bélgica e Holanda têm medidas específicas para tratar o acervo depois da morte de um artista.
No caso francês, modelo com ampla aceitação mundial, a lei de heranças obriga que um percentual do acervo do artista permaneça na cidade onde ele morreu, como parte do pagamento do imposto sobre os bens legados aos herdeiros.
Esse mecanismo permitiu a criação do Museu Picasso, em Paris, que deteve boa parte das obras do artista espanhol. "Tem um imposto do Estado bem forte e esse imposto é pago em obras", afirma Philippe Ariagno, adido cultural francês em São Paulo. "Mas a decisão de pôr o acervo no museu continua pertencendo à família."
Em Portugal, há um fundo do governo específico para a aquisição de acervos, que prevê como agir no caso da morte de um artista. O mesmo ocorre na Espanha, onde o governo entra em contato com herdeiros para adquirir obras de artistas.
"Quando um artista morre, a família precisa vender obras para partilhar a herança, então o governo dá dinheiro para a compra do acervo", diz Rafael de Gorgolas, conselheiro cultural da Espanha em Brasília. "É uma maneira pública de favorecer as obras, para que elas não acabem sumindo."
Até agora, a legislação brasileira não tem nada parecido. "Do ponto de vista do Estado, a gente não vê um instrumento para isso", afirma à Folha o advogado Rodrigo Salinas, especialista em direitos autorais.
Dirigentes nacionais do setor dizem, no entanto, que modelos como o francês podem ser adaptados à realidade do país.
"Essas são leis interessantes porque buscam um equilíbrio entre o interesse privado das famílias e o interesse do Estado em preservar a obra de um grande artista", diz José do Nascimento Júnior, diretor do Instituto Brasileiro de Museus, órgão do governo federal.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

EXCELENTE


Artista plástica que começou aos 60 anos conquista mercado

Mario Gioia da Folha de S.Paulo

Foi olhando o morro da Mangueira pela janela de casa, em 2000, que a aposentada Lucia Laguna, à época com 60 anos, achou o que buscava desde que abandonara o magistério, sete anos antes.

"Do outro lado, havia um morro. Achei que precisava trabalhar o meu entorno, a paisagem que me rodeia. Essa era a resposta que eu procurava tanto e que talvez aplacasse a minha angústia", conta ela.


Nove anos depois e ainda inquieta, hoje, Laguna, 68, é destacado nome da pintura brasileira e acaba de ganhar sua primeira individual em São Paulo, na galeria Virgilio, em cartaz até 14 de novembro. Com exceção de uma grande tela, que custa em média R$ 40 mil, todos os outros nove quadros foram arrematados por grandes colecionadores de São Paulo.


Lucia Laguna, que tem mostra individual até 14 de novembro na galeria Virgilio, em São Paulo

O estilo da artista é uma complexa mescla de cenas abstratas e figurativas. Planos, linhas e cores se misturam em telas de grande tamanho, algumas com 2 m de largura. O emaranhado urbano da favela é transposto para as pinturas, mas de modo não literal.


"A Laura [Marsiaj, dona de uma das maiores galerias do Rio, que a representa] tem vendido todos os meus trabalhos também. Na verdade, até estou em dívida com ela porque já tem gente procurando as obras e eu não estou dando conta", conta ela, que foi chamada de "pintora de mão cheia" por Paulo Sergio Duarte, 62, ex-curador da Bienal do Mercosul e um dos mais influentes críticos de arte do país. "Lucia é atualmente uma referência da pintura contemporânea no país. Tem um vigor e uma jovialidade admiráveis e é dona de um universo plástico muito original", comenta ele.

Cuspe e giz


Nada mau para uma ex-professora da rede municipal do Rio, nascida em Campos (a 280 km do Rio), formada em letras em São João del Rei (MG) e que administrava, ao lado do marido, uma pequena fábrica de brinquedos educativos próxima à residência, no bairro São Francisco Xavier.


No ano histórico de 1968, Laguna concluiu a graduação e foi morar no Rio. No início, dava aulas da antiga disciplina comunicação e expressão para alunos de colégios particulares da Tijuca. "Eram aulas muito voltadas para teatro, leitura de poesia, interpretação de texto. Cecília Meireles, Drummond e Julio Cortázar eram os meus autores preferidos para dar na classe", lembra ela.

Os estudantes faziam tarefas a partir de peças ou filmes que frequentavam.
Em 1973, passou em um concurso para ser professora da rede municipal e foi dar aulas também em Inhaúma, bairro ainda mais distante da zona norte do Rio. "Aí era só na base do cuspe e giz.

Tudo era muito pobre. Mas nunca deixei de oferecer o melhor que podia. Eram aulas com muita coisa de revistas, jornais. Os adolescentes conseguiam pegar o que eu lançava."
Laguna diz que, na época, não eram comuns os casos de agressões contra professores. "Isso começou a crescer justamente quando eu deixei de dar aulas.

O máximo que havia era ter de esperar os estudantes ficarem quietos e sentados na sala, coisa que às vezes demorava mais de dez minutos."
A vida no magistério transcorreu calma até a aposentadoria, em 1993. "Depois, passei uns seis meses de vazio. Fazia as coisas domésticas, bordava, criava até bijuterias. Também ajudava meu marido na fábrica, mas faltava algo."

O cotidiano modorrento começou a mudar quando Laguna viu na televisão uma reportagem sobre a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Jardim Botânico, bairro nobre da zona sul carioca.
"Disse comigo: 'Vou lá ver isso'. Frequentava raramente museus e conhecia de forma mediana alguns artistas proeminentes, como os impressionistas e Velázquez."

Na escola, conheceu o professor Luiz Ernesto, que ministrava aulas de pintura. "Fiquei fascinada pelo modo como ele falava de arte. Descobri um mundo novo, e foi exatamente por meio da pintura."

No Parque Lage, a pintora encontrou outra grande influência, o professor Charles Watson, que organizava excursões artísticas pela Europa e pelos Estados Unidos.
"No início, não tinha dinheiro e trocava telas pelas viagens. Comecei a ver pintores que passei a admirar, como Sean Scully e Richard Diebenkorn."

Prêmios e participações em salões vieram na década seguinte, com o fortalecimento de estilo mais ligado às paisagens urbanas, algo caóticas, dos morros do Rio. "Por isso, a série que apresento agora se chama 'Janela'. Foi algo que custou a surgir, mas que estava ao meu lado."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NANCY SPERO, ARTISTA DO FEMINISMO, MORRE AOS 83

Nancy Spero, uma artista americana e feminista cuja particular arte figurativa se debruçou sobre a realidade da violência política, morreu no passado domingo(18/10), em Manhattan, onde vivia. Tinha 83 anos. A causa de morte foi uma infecção que levou a problemas respiratórios que por sua vez causaram paragem cardíaca.



Nascida em Cleveland em 1926, Spero estudou na School of the Art Institute of Chicago, onde conheceu o seu marido, o pintor Leon Golub, com quem esteve casada 53 anos até à sua morte, em 2004.

O casal mudou-se para Paris em 1959, onde Spero mergulhou no existencialismo europeu e produziu uma série de pinturas a óleo que tinha começado em Chicago sobre os temas da noite, maternidade e erotismo.

Quando se estabeleceram em Nova Iorque, que se tornou a sua morada permanente, em 1964, a Guerra do Vietnan e as mudanças sociais que esta criava nos Estados Unidos afetaram Nancy Spero profundamente.

Disponível em: www.nytimes.com

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Arte em alerta: Projeto Leonilson



Incêndio que destruiu obras de Oiticica reacende debate sobre a manutenção de acervo por parte de famílias ou instituições


Quando soube do incêndio que destruiu grande parte do legado de Hélio Oiticica, no último fim de semana, a psicóloga Ana Lenice Dias Fonseca da Silva sentiu o coração apertar. Ela é uma das responsáveis pelo projeto Leonilson, que cuida de mais de 1.500 obras deixadas por seu irmão, o artista José Leonilson Bezerra Dias (1957-1993), um dos destaques da Geração 80. As obras estão guardadas numa pequena casa, na Vila Mariana, sem seguro e sem proteção contra incêndio, nem mesmo detector de fumaça.

O NAVIO 1983 /2005 - lâmpadas vermelhas, amarelas e azuis
(montagem póstuma)
125,0 x 150,0 cm. Obra do acervo do PROJETO LEONÍLSON


"Nossa preocupação sempre foi com furto, mas, com esse incêndio, fiquei aflita. Há dois anos, estamos conversando com a Pinacoteca para transferir o projeto para lá, cedendo algumas obras em comodato e doando outras. Agora é a hora de isso acontecer e, se não for lá, vamos encontrar outra instituição", disse Silva.
Na Pinacoteca, o diretor Marcelo Araújo confirma a negociação: "Estamos buscando uma solução jurídica possível para viabilizar esse comodato". A instituição já tem nessa situação a coleção Nemirovsky, que possui obras de Oiticica. Mas sua alocação lá foi mais fácil pois a coleção havia sido doada pelos seus criadores, José e Paulina Nemirovsky, a uma fundação que deveria mantê-la numa instituição pública e nunca vendê-la.


"Creio que os artistas deveriam prever o que fazer com sua obra, pois isso é mesmo um abacaxi para as famílias, receber toda a tralha dos artistas que fizeram o que bem entenderam", conta a artista Anna Maria Maiolino.


De fato, se não fosse a família de Leonilson com os amigos que criaram o projeto, sua obra talvez não alcançasse tamanha repercussão. Hoje, ela está em instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York, a Tate, em Londres, e o Centro Pompidou, em Paris.


"Todo mundo costuma crucificar a família. Quando a Mira Schendel morreu, ela não tinha quase valor e sobrou para a família cuidar de tudo", diz Ada Schendel, filha da artista Mira Schendel (1913-1988). Ela guarda em sua casa o acervo e se recusou a cedê-lo em comodato para o Instituto de Arte Contemporânea (IAC). "Não confio nessa instituição. Colocaram obras danificadas em uma exposição e os artistas em panelas, quando eu passei os últimos 20 anos para tirar a Mira de panelas", diz Schendel.


Roberto Bertani, diretor do IAC, diz que a declaração de Ada parece um contrassenso. "Estamos organizando, no próximo ano, uma exposição da Mira, com aval dela."

Fundação Iberê Camargo apresenta vida do artista sintetizada em mostra


Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo

Quando ainda se vive o choque pela perda de um dos mais importantes acervos de arte do país, com o incêndio das obras de Hélio Oiticica (1937 1940), no Rio de Janeiro, a capital gaúcha torna-se modelo mais evidente na preservação do patrimônio de um artista com a FIC (Fundação Iberê Camargo). 


Inaugurada em maio do ano passado, a sede da instituição, um museu projetado pelo festejado arquiteto português Álvaro Siza, de frente para o rio Guaíba, em Porto Alegre, é um exemplo frente à tragédia ora em curso. 
Os oito mil metros quadrados da construção elegante em concreto branco custaram R$ 40 milhões, 40% pagos por patrocínio direto e 60% financiados pela Lei Rouanet.

Além de três andares com salas expositivas, o museu possui uma reserva técnica que consegue abrigar todo o acervo da FIC: 4.000 obras de Iberê Camargo (1914-1994), em condições de preservação internacionais. 
Durante a Bienal do Mercosul, estão em cartaz duas mostras na FIC: "Iberê Camargo, uma Experiência da Pintura" e "Dentro do Traço, Mesmo".

A primeira segue a tradição do local de sempre ter ao menos uma exposição com obras do acervo da instituição, respeitando-se, afinal, seu objetivo primeiro. 
Com curadoria de Virginia Alta, a exposição apresenta uma síntese da carreira de Camargo, desde suas primeiras influências até suas obras mais misteriosas, do fim de sua carreira.



Gravuras



Já "Dentro do Traço, Mesmo", organizada por Teixeira Coelho, curador do Museu de Arte de São Paulo, reúne obras de um trabalho exemplar da FIC, seu ateliê de gravura. Iberê Camargo trabalhou grande parte de sua vida com gravura e possuía um ateliê em sua casa que, desde sua morte, recebeu a visita de dezenas de artistas, o que acabou sendo estabelecido como um programa de residências, em 1999, com supervisão de Eduardo Haesbaert. 


Com isso, a instituição acabou compondo uma coleção significativa de gravuras, não só com artistas que se destacam nesse suporte, como outros que pela primeira vez o experimentam.

Assim, a mostra em cartaz reúne nomes desde o próprio Álvaro Siza, que criou o edifício sede, para onde hoje foi deslocado o ateliê, como Amilcar de Castro, um mestre da gravura, ou ainda o fotógrafo Miguel Rio Branco e os consagrados artistas argentinos Leon Ferrari e Jorge Macchi.


SERVIÇO

IBERÊ CAMARGO, UMA EXPERIÊNCIA DA PINTURA

Na Fundação Iberê Camargo (av. Padre Cacique, 2.000, Porto Alegre, tel. 0/xx/ 51/3247-8000); de ter. a sex., das 10h às 19h, sáb. e dom., das 11h às 19h; até 31/8; entrada franca

Arte e literatura reinventam Porto Alegre


DE OLHO Capital gaúcha se transforma em polo de cultura com a 7ª edição da Bienal do Mercosul e a 55ª Feira do Livro



Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo

A partir da próxima semana, Porto Alegre se consolida como capital cultural do país, ao menos durante o mês de novembro. Além da sétima edição da Bienal do Mercosul, inaugurada na última sexta, ocupando três grandes espaços da cidade e algumas intervenções pontuais, a capital gaúcha é sede ainda da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. 
Até o dia 15 de novembro, a praça da Alfândega, no centro da cidade, irá reunir 170 editoras e livreiros, promovendo nada menos que 700 sessões de autógrafos, evento que movimenta centenas de pessoas em torno da literatura. 
Já a Bienal do Mercosul reúne mais de 250 artistas, cerca de 120 nos espaços expositivos e os demais participantes da Radiovisual, que diariamente transmite um programa na radio FM Cultura, em Porto Alegre, mas também está à disposição no site do evento (www. bienalmercosul.art.br). 
Em sua sétima edição, a Bienal do Mercosul, denominada "Grito e Escuta", com curadoria da argentina Victoria Noorthoorn e do artista chileno Camilo Yáñez, é uma das mais radicais experiências em arte contemporânea. 



Experimental 


Enquanto no Museu de Arte do Rio Grande do Sul a mostra "Desenho das Ideias" é concebida de forma elegante e tradicional, com trabalhos nas paredes, quatro armazéns do Cais do Porto dão o toque experimental ao evento. Em um deles, o armazém 3, mais de cem toneladas de areia constróem uma cenografia arrebatadora, concebida pela artista Laura Lima, que selecionou os oito artistas desse segmento denominado "Absurdo". 
Há quem ache exagerado, mas para uma artista que trabalha com performance, como Laura, o percurso irregular e desafiador não deixa de ser coerente. No armazém 5, há duas mostras mescladas: "Texto Público", organizada por Artur Lescher, e "Biografias Coletivas", de Yáñez. Na primeira, com 18 artistas, dez realizaram intervenções na cidade e no espaço expositivo estão registros dessas obras. Uma das mais comentadas é a obra de Henrique Oliveira, numa antiga casa com protuberâncias que parecem imensos tumores de madeira, criados pelo artista nas portas e janelas. Localizada na rua da Praia, 400, próxima à praça da Alfândega, será passagem para muitos que visitarão a feira do livro, num interessante diálogo entre os dois eventos.


SERVIÇO

7ª BIENAL DO MERCOSUL
De ter. a dom., das 9h às 21h; até 29/11; nos armazéns do Cais do Porto, Santander Cultural e Museu de Arte do Rio Grande do Sul; tel. 0/ xx/51/3433-7686; entrada franca
www. bienalmercosul.art.br

55ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
De 30/10 a 15/11; para informações sobre horários e locais, ligue para 0/xx/51/3225-5096 ou consulte
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

MinC fará reunião para debater preservação de obras



Caio Barreto Briso da Folha de S.Paulo, no Rio

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, está convocando uma reunião para o próximo dia 9, no Rio, devido à destruição de parte do legado de Hélio Oiticica. "Queremos discutir com todo o setor de artes visuais políticas que envolvam aquisição e preservação de acervos de artistas, pois está claro que, como está, a situação não pode ficar", disse à Folha o presidente do Instituto Brasileiro de Museus, José Carlos do Nascimento Júnior, organizador do encontro.

Entre os convocados para a reunião, estão membros da Receita Federal. Curadores ouvidos pela Folha consideram esta uma medida acertada.
"Creio que é legítimo o direito à herança, mas é legítimo também o Estado cobrar impostos sobre a transferência de legados familiares. Não digo isso apenas no caso das famílias de artistas, mas me refiro a todas aquelas que possuam patrimônio a ser transferido", diz o crítico e curador Tadeu Chiarelli.
Para ele, a experiência de outros países deve servir como modelo: "Sabemos que, em alguns outros países, impostos sobre herança têm possibilitado o incremento de acervos públicos e mesmo a criação de novos museus."

Maior presença do Estado nessa questão também é defendida por Aracy Amaral, que admite que acervos como os recebidos pelas famílias de Hélio Oiticica e Lygia Clark poderiam ser tombados pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Nacional), "para ser protegidos e mantidos em local que garantisse minimamente a sua preservação".

O tombamento poderia ser a chave para um dos principais problemas que envolvem instituições e herdeiros, pois muitas vezes os museus investem para preservar uma coleção, que segue particular, e pode ser vendida a qualquer momento.

Mas o incêndio revela ainda outra faceta que envolve os herdeiros: "É o momento, em função desse desastre, de repensar os direitos das famílias de artistas já falecidos, sobre direitos de divulgação, igualmente, da obra de artistas. Há casos em que as famílias cobram tão elevadas somas que eventos e exposições desistem de reproduzir em catálogos obras de determinados artistas", conta Amaral. Um caso exemplar é o livro "Lygia Clark: Obra e Trajeto", de Maria Alice Milliet, publicado em 1992 e um dos primeiros estudos extensos sobre Clark (1920-1988). O livro nunca foi reeditado porque a família cobra um valor que o torna inviável para uma editora universitária, como a Edusp, que o publicou.

Para Álvaro Clark, filho da artista, o acervo de artistas mortos deve permanecer sob a responsabilidade da família.
"Mas caso a obra fosse adquirida por algum museu, deveria ser cuidada por profissionais da arte, e não por administrações públicas, que mudam de quatro em quatro anos", disse, por telefone, de Paris.

Paula Pape, filha de Lygia Pape (1927-2004), diz que o incêndio no acervo de Hélio Oiticica não é capaz de iniciar uma política de aquisição de obras nos museus brasileiros. "Tudo será igual ao que sempre foi. As famílias continuarão cuidando da obra de seus artistas mortos sem apoio de ninguém."
Já o acervo de Franz Weissmann (1911-2005) está em um galpão no bairro de Ramos, na zona norte do Rio. Quem o mantém é a filha do artista, Wal Weissmann. "Dói ter que entrar naquele galpão, em uma região perigosa da cidade, e ver a obra de meu pai reclusa. Ela deveria estar em algum museu.
Acervo do artista Franz Weissmann

Essa obra não é da família. É um patrimônio cultural da humanidade", disse Wal.
Apesar disso, ela afirma que o acervo de um artista é um bem da família. "Somos nós, os herdeiros, quem passamos por diversas dificuldades para manter as obras preservadas. Ninguém ajuda, nem governos nem empresas. É um direito da família ser a dona do acervo."
Jandira Feghali, secretária de Cultura do município, disse que a secretaria tem interesse em criar um museu a céu aberto para expor a obra de Weissmann, possivelmente na Quinta da Boa Vista.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Irmãos artistas burlam a censura na China

Por Jimmy Wang

Não é o tipo de escultura do líder Mao Tse-tung que se vê comumente na China. Ele está de joelhos, como suplicante, confessando; sua linguagem corporal e expressão facial são indicativas de remorso profundo. E tem mais: a cabeça dessa estátua de bronze em tamanho natural, intitulada “A Culpa de Mao” e criada pelos artistas irmãos Gao Zhen e Gao Qiang, pode ser separada do corpo —ela foi feita assim.

Mao's Guilt -"A Culpa de Mao"


Algumas exposições anteriores dos irmãos Gao, cujo trabalho as autoridades acham politicamente desafiador, foram fechadas, e o ateliê deles foi invadido e revistado. Em função disso, os irmãos guardam a cabeça de Mao escondida num local separado e a juntam ao corpo apenas em ocasiões especiais.


Normalmente a estátua fica acéfala, não identificável e não constituindo risco.
“É algo que eu espero que todos os chineses algum dia consigam aceitar e compreender”, disse Gao Zhen, 53, falando da estátua. “Nossa intenção foi retratar Mao como ser humano, uma pessoa como outras, confessando os males que cometeu.”


Em 3 de setembro, a cabeça foi tirada do esconderijo para ser exibida numa “festa” dos irmãos Gao —codinome dado a uma das exposições que eles promovem várias vezes por ano, com entrada restrita a convidados. O local da mostra só foi revelado algumas horas antes e divulgado boca a boca e por mensagens de texto cifradas.


Cabeças removíveis e exposições underground são apenas duas das táticas “guerrilheiras” empregadas ao longo dos anos pelos irmãos Gao para que seus fãs e amigos possam ver seu trabalho. Os Gao fazem parte de uma geração de artistas chineses de vanguarda que vem ampliando os limites da expressão artística.


No mundo cada vez mais aberto da arte chinesa, a nudez, antes proibida, hoje é corriqueira, e obras de arte parodiando a Revolução Cultural já são tão onipresentes que chegam a ser vistas como ultrapassadas. Mas o caso dos irmãos Gao serve para lembrar a todos que, especialmente neste momento em que a China comemora o 60° aniversário da Revolução Comunista, ainda há limites à expressão. Embora os artistas tenham liberdade cada vez maior para tratar de tópicos sociais e políticos, obras que tecem críticas explícitas a líderes chineses ou a símbolos da China ainda não são permissíveis.


A exposição “Vermelho Cinza”, que os irmãos Gao fizeram em 2006, foi reprimida pelas autoridades. Representantes do governo entraram na galeria e listaram obras “que precisavam ser retiradas”, contou Gao Qiang, 47. Os cartazes e catálogos da exposição foram proibidos.
O Distrito de Artes 798, onde moram os Gao, tem um escritório administrativo local que, entre outras coisas, fica atento para obras de arte que vê como inaceitáveis e prejudiciais ao distrito. “Eles sofrem pressões desde cima”, disse Gao Yuewen, 29, que trabalha no ateliê Gao e observou que as autoridades classificam os irmãos Gao “diferentemente” dos outros artistas —ou seja, os irmãos são vistos como suspeitos.


O trabalho mais abrangente da dupla é ao mesmo tempo explícito e crítico. A ideia é mostrar Mao sob outra perspectiva: como uma figura que tem falhas.


A figura de Mao encerra um significado pessoal para os dois irmãos. Durante a Revolução Cultural, o pai deles foi classificado como inimigo e arrastado para um lugar “que não era prisão nem delegacia de polícia, mas alguma outra coisa”, contou Gao Zhen. Após 25 dias, a família foi informada de que ele cometera suicídio. Seus filhos não acreditam: “Naquela época, se alguém não gostasse de você, lhe dava o rótulo de inimigo”, falou Gao. “Viemos a Pequim para entregar um abaixo-assinado em protesto contra a morte de nosso pai.”


A família recebeu indenização equivalente a mais ou menos US$ 290. “Foi um período muito doloroso”, prosseguiu Gao. “Éramos seis irmãos e uma mãe sem marido; não tínhamos um tostão.”


Kai Heinze, 33, diretor de uma galeria, comentou: “O trabalho dos irmãos Gao sobre Mao é é visto como provocação por muitos chineses. A obra aciona um gatilho, desafiando as pessoas a compreender e tolerar uma visão da história chinesa moderna que admite a ocorrência de falhas”.

http://www.gaobrothers.net/

Abaixo outras obras dos artistas:

The Execution of Christ

Miss Mao trying to poise herself at the top of Lenin's head

Mais de 200 obras de Oiticica são retiradas de casa incendiada


Caio Barreto Briso da Folha de S.Paulo, no Rio


Mais de 200 obras em papel do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980) foram retiradas ontem da casa no Jardim Botânico, zona sul do Rio, incendiada na madrugada de sábado, em incidente que provocou a destruição de grande parte dos trabalhos de um dos mais conhecidos artistas nacionais. As obras resgatadas estão danificadas não apenas pelo fogo, mas também pela água usada no combate ao incêndio.
Os mais de 200 desenhos de Oiticica encontrados em bom estado são das mostras "Grupo Frente" (1954) e "Metaesquemas" (1972), além de dois relevos, dois bilaterais e a maquete do projeto "Cães de Caça", um penetrável (instalação) que nunca foi montado.
Ontem à tarde, uma equipe do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) saiu do imóvel otimista. "Ainda não é possível estimar o percentual do que poderá ser salvo, mas acreditamos que boa parte do trabalho será recuperada", disse Claudia Storino, coordenadora de arquitetura e espaços museais do Ibram.

O início do trabalho de restauração --que, segundo César Oiticica, irmão do artista plástico, será coordenado pela norte-americana Wynne Phelan, que já restaurou quase toda a obra de Hélio Oiticica em 2006-- foi dividido em duas partes.

Enquanto um grupo de técnicos do Ibram irá separar o que ainda se encontra na reserva técnica --há alguns armários com obras, por exemplo, que não foram abertos, por causa dos escombros no caminho--, outro grupo ficará responsável por secar, higienizar e catalogar as obras já encontradas.

"Acreditamos que, até semana que vem, já será possível ter todo o material em papel higienizado", disse Storino.
Por enquanto, a reserva técnica --que fica no primeiro andar da casa, onde o fogo começou-- continua com um cheiro de queimado insuportável.

Hoje à tarde, a família de Hélio Oiticica irá retomar as buscas por fragmentos do acervo do artista, na casa de César Oiticica, responsável pela guarda do material.

A fuligem, impregnada nas paredes da casa, obrigou a família, por ordem médica, a interromper a procura no domingo. "Agora, com as máscaras de proteção, vamos voltar ao trabalho", disse César.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também ofereceu ajuda. A coordenadora de bens móveis e integrados do Iphan chegou ao Rio de Janeiro, de Brasília, ontem à noite. Storino afirma que o Ibram fará um diagnóstico sobre cada peça encontrada. "Ao fim deste processo emergencial, poderemos estimar o custo da restauração."

Destino em dúvida

A secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, reafirmou à Folha que seu desejo é, uma vez restaurado o acervo, levá-lo, em regime de comodato, para o Centro de Arte Hélio Oiticica, no Centro do Rio.
Na contramão da secretária, a gestora do Centro, Ana Durães, afirmou que o espaço tem estrutura para receber exposições temporárias, mas não um acervo permanente. "Somos um Centro de Arte, não um museu", disse.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Galeria Virgilio exibe pinturas de Lucia Laguna

Artista fluminense traz a São Paulo nove recentes

telas das séries Paisagem e Estúdio.

Abertura no dia 20 de outubro, terça-feira, às 19h30

Lucia Laguna, Estúdio 28, 2009 (acrílica e óleo s tela, 138 x 198)

A Galeria Virgilio inaugura no dia 20 de outubro, terça, às 19h30, a mostra individual “Janela” da artista fluminense Lucia Laguna, exibindo nove recentes obras em acrílica e óleo sobre tela, além de uma projeção em vídeo. Texto de apresentação de Marisa Flórido.

Para esta mostra, a artista selecionou duas obras da série “Estúdio”, onde recria o universo íntimo de seu estúdio de trabalho. Além destas, Lucia escolheu cinco telas de “Paisagem”, série em que se dedica a recriar pacientemente, por meio de sucessivas camadas de tinta, vedações e elaborações formais, as belas paisagens que vê a partir do ateliê, localizado no bairro de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro. Por fim, ela traz a público também três delicados trabalhos da série “Pequenos Formatos”, que são telas de 39 x 44 cm em que usa com grande liberdade formal as tintas de suas grandes telas recém acabadas.

“Creio que a pintura pode resgatar um tempo de olhar que se perdeu no caos de imagens que bombardeiam as cidades”, atesta a artista.

Para o crítico e curador Paulo Sérgio Duarte, Lucia segue a tradição não edipiana da grande arte contemporânea brasileira, que, segundo ele, ao invés de negar, guarda fortes relações e interações com a modernidade. “Ela não tem um pai superpoderoso para ser assassinado, que atravessa seu caminho, que passa com a roda em cima do seu pé”. Para ele, esta é uma relação “menos de filho para pai e mais de irmão para irmão, apenas como se o artista moderno fosse o irmão mais velho”, salienta em texto sobre a artista para mostra no Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Ainda segundo Duarte, a pintura da artista se insere naquilo que denomina a “estratégia da delicadeza”, dirigida a uma sociedade urbana, anônima a quem não interessa a origem da pintura ou a forma como foi feita, em oposição à “sociedade do espetáculo”, termo propalado pelo francês Guy Débord.

Segundo Paulo Herkenhoff, no texto “A Economia da Pintura”, de 2006, Lucia Laguna é uma das grandes revelações da pintura no Brasil do século XXI. Ao longo da elogiosa missiva, o crítico não poupa adjetivos à artista, cuja tela, afirma, “pode ser analisada como uma trama de acontecimentos pictóricos em busca do ponto de convivência (...)”. Para ele, “a densidade da pintura está na intensidade de tais acontecimentos e o modo como a artista busca um ponto de equilíbrio da presença deles no espaço pictórico conforme respostas conjunturais que excitam a intencionalidade. Cada acontecimento é um elemento da arquitetura da paisagem. A pintura é o resíduo imaginário deste processo”.

Lucia Laguna

Egressa das letras, a hoje consagrada artista Lucia Laguna foi professora de Língua Portuguesa na rede estadual até ingressar com o pé direito nas artes visuais em 1994, quando começou seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Teve como mestres Luís Ernesto, Charles Watson, João Magalhães, Katie van Scherperberg e Reinaldo Roels. Dando continuidade aos estudos, em 1998 matriculou-se no Curso de Teoria e História da Arte na mesma escola, onde foi aluna de Marco Veloso, Annabella Geiger, Paulo Sérgio Duarte e Paulo Herkenhoff, entre outros. Não à toa, estes dois últimos tornaram-se seus grandes admiradores, tendo lhe dedicado extensos e elogiosos textos críticos em que salientam a qualidade de sua produção. De 1996 a 2009, Lucia participou dos Dynamic Encounters – cursos intensivos de arte organizados por Charles Watson e realizados em viagens por Nova York e Europa.

A trajetória da artista é curta, porém meteórica, uma vez que, desde sua primeira mostra coletiva no Parque Lage, em 1997, Lucia expôs em nada menos que 24 mostras coletivas no Brasil, Espanha (Arco Madrid) e Suíça (Basel), com destaque para a sua participação na itinerância nacional da mostra “Paradoxos: Rumos Itaú Cultural 2005/2006”, além de duas edições da feira SP Arte. Cumpre salientar que a artista também foi uma das cinco vencedoras da edição 2006/2008 do Prêmio CNI-SESI Marcantônio Vilaça. Durante o mesmo período, realizou nada menos que nove mostras individuais em espaços institucionais e galerias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Serviço:

Evento: Janela - exposição individual de Lucia Laguna

Local: Galeria Virgilio

Inauguração: 20 de outubro de 2009, terça-feira, a partir das 19h30

Período expositivo da mostra: de 21 de outubro a 14 de novembro

Endereço: Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426

CEP 05415-020, Pinheiros, São Paulo - SP

Telefones: (55 11) 3061 2999

Horários: de segunda a sexta, das 10 às 19h; e sábado, das 10 às 17h

Entrada franca

www.galeriavirgilio.com.br

Informações para a imprensa:

Adelante Comunicação Cultural

Décio Hernandez Di Giorgi

dgiorgi@uol.com.br

CRÍTICA: Tragédia / Acervo Oiticica


Obra não era preservada como merecia

po Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo




Por mais triste, lamentável e trágica que possa ser, a perda de praticamente todo o acervo do artista Hélio Oiticica representa, finalmente, o fim do fetiche pelo material em suas obras e a libertação de suas ideias.


Oiticica foi um dos mais originais e importantes artistas do século 20. Sua defesa em romper os limites entre arte e vida foi das mais radicais, mas apenas nos últimos 20 anos passou a ter o merecido reconhecimento e repercussão.
Dois momentos fundamentais nesse percurso foram a Documenta, em Kassel (Alemanha), em 1997, que mostrou muitos de seus projetos e obras, e a 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, organizada por Lisette Lagnado a partir de conceitos do artista, mas que já nem exibiu objetos do artista, para atestar que suas ideias estavam proliferadas no circuito da arte.


No entanto, enquanto suas ideias ganhavam importância, um certo desvio de suas propostas também crescia. Oiticica queria que os Parangolés, um de seus mais importantes conceitos, que tinham nas capas uma de suas materializações, fossem usados por todos.


No entanto, o fetiche pelo original -que em seu caso é o menos importante, acabou dominando e em muitas mostras essas capas eram vistas penduradas como tristes espectros de algo muito mais vital.


Do ponto de vista do mercado, algo semelhante ocorria. As obras passaram a subir de preço exponencialmente, enquanto para o artista, durante sua vida, isso não era o fundamental, e seu trabalho passou a ser engessado naquilo que justamente ele criticava: o objetual.


Claro que é inacreditável que tudo tenha se esvaído dessa forma, até porque é a segunda vez que um incêndio destrói um acervo importante no Rio: foi assim que grande parte da coleção do Museu de Arte Moderna do Rio foi perdida, em 1978.


Claro que é lamentável que o precioso acervo de Oiticica não estivesse preservado da forma como merecia, numa instituição, mesmo que já existisse o Centro de Arte Hélio Oiticica, criado pela Prefeitura do Rio, palco de recentes polêmicas.


Durante um bom tempo, parte do que se queimou esteve lá armazenado e poderia estar a salvo. Mas isso faz parte da precariedade institucional que é típica no Brasil e das dificuldades que envolvem herdeiros em casos do tipo.


Recentemente, o Ministério da Cultura havia iniciado contatos para a criação de um museu Hélio Oiticica. Mas, essa institucionalização, se por um lado seria fundamental para preservar sua memória, poderia representar um risco ao institucionalizar sua obra, algo sempre contestado pelo artista.


Em Porto Alegre, artistas que participam da 7ª Bienal do Mercosul lamentavam ontem a perda desse acervo, mas também comentavam que parecia ser uma estranha vingança pelo tratamento que sua obra vinha ganhando.


Agora, se já não há mais original, então todos podem criar seu Parangolé. Felizmente, grande parte de seu acervo foi digitalizado e encontra-se disponível no site do Itaú Cultural, num dos mais importantes projetos de memória da arte brasileira. Os originais -e são milhares deles, pois tudo o que Oiticica pensava era obsessivamente descrito em seus cadernos- podem estar queimados, mas conseguiram sobreviver na internet, onde todos podem ter acesso, como o artista queria que fosse sua obra.

Diretora Centro Municipal Hélio Oiticica quer divulgar obras de Oiticica salvas de incêndio


Maior parte das obras estão guardadas em cofre da família e Centro Municipal já não é mais sede de projeto

Adriana Chiarini - O Estado de S.Paulo

A diretora do Centro Municipal Hélio Oiticica do Rio de Janeiro, Ana Durães, quer divulgar o que existe na reserva técnica de obras do artista que dá nome ao lugar e que se encontra trancada, com as chaves ainda com a família Oiticica, de acordo com ela. São algumas das obras que se salvaram do incêndio na sexta-feira à noite na casa do irmão do artista, César Oiticica, onde estava cerca de 90% do acervo, segundo a família.


Por dificuldades de negociação entre a Prefeitura e a família, o Centro Municipal não é mais sede do projeto de mesmo nome, nem está expondo atualmente nenhuma obra de Hélio Oiticica. Ana disse, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que quer promover um debate sobre os direitos dos herdeiros e do poder público sobre as obras dos artistas.
César Oiticica, irmão de Hélio, observa cômodo incendiado na zona sul do Rio de Janeiro



O que significa o incêndio dessas obras de Hélio Oiticica?

Estamos pesarosos porque a obra do Hélio tem valor histórico uma importância para a arte brasileira que é imensurável. É muito mais que o valor econômico. É uma perda terrível mesmo. Estamos consternados, de luto. Acho que a maioria dos artistas contemporâneos tem uma influência, tem um diálogo com Hélio.



Que obras de Hélio Oiticica estão no Centro?

Eu assumi em fevereiro. Quando eu entrei, o acervo já não estava mais aqui. Na reserva técnica que temos disponível, temos os penetráveis Iemanjá, Tia Ciata, Ninho e Rijanviera. Mas existe uma outra reserva técnica trancada. As chaves estão com a família e só eles sabem o que tem lá. Queremos abrir para a imprensa. As obras que estão aqui no Centro são as que estavam em uma exposição que inicialmente ia de dezembro a junho, chamada Penetráveis 1 e 2. Como tivemos um problema na última parcela de prestação, eles interromperam a exposição em abril e depois retomamos em julho e agosto. A gente tentou negociar uma forma de comodato para ver se o terceiro andar poderia ter as obras de Hélio. A negociação com a família estava complicada.



Que problema foi esse?

Essa exposição Penetráveis teve um valor alto e foi dividida em parcelas. Tinha uma última parcela, em torno de R$ 243 mil, que foi suspensa quando a nossa secretária (de Cultura, Jandira Feghali) assumiu. Ela resolveu fazer uma auditoria, o que é justo, e não foi só no Centro Hélio Oiticica, foi em toda a Secretaria. Eles (o Projeto Hélio Oiticica) teriam que receber em janeiro. Em janeiro, foi a posse e aí iniciou a auditoria. Teve uma demora. Quando entrei, eu nem sabia dessa parcela. Fizemos uma reunião com a família e nela dissemos que terminada a auditoria, eles iriam receber.



Mas o atraso incomodou?

Eles, apressadamente, resolveram fechar a exposição. Aí foi muito desagradável, porque parecia que estávamos querendo expulsá-los daqui, o que em momento algum, aconteceu.



O Chico Chaves, coordenador de Artes Visuais da Funarte, disse que a Secretaria Municipal não estava querendo pagar pela conservação das obras do acervo. Foi isso?

Desconheço. Na nossa gestão, nunca foi proposto conservação e nunca foi negado. Era um acordo para a renovação do contrato, que já tinha vencido na gestão anterior e que não podia ficar nessa forma.



Que contrato era esse? Da exposição?

Não, era um contrato da gestão anterior para o Projeto Hélio Oiticica ficar abrigado aqui. A exposição "Penetráveis" foi paga, tanto que eles retomaram. A exposição custou aproximadamente R$ 600 mil, divididos em cotas. Fora isso, eles recebiam mensalmente uma parcela de R$ 20,5 mil para a manutenção. É um valor considerável. Fomos supercordiais para tentar renegociar. Foi sugerido que eles fizessem nova proposta.



Eram dois contratos, um para o Projeto e outro para a exposição?

Não. Era um contrato só. Porque dentro do contrato do Projeto Hélio Oiticica, fizeram essa exposição. Foram pagas duas prestações e a última que era para pagar em janeiro é que atrasou, mas foi paga, acho que em abril. Nunca agimos de má fé. Eles chegaram a ir para os jornais dizer que estavam sendo expulsos. Tinha manifestação artística para pressionar. Jamais a Jandira disse que eles não receberiam. Queremos realizar um debate sobre essa questão das famílias dos artistas e do Estado sobre as obras.

Entrevista: Ferreira Gullar

Perda do acervo de Oiticica é "catástrofe", diz Ferreira Gullar

Ricardo Westin da Folha de S.Paulo

O poeta Ferreira Gullar, companheiro de Hélio Oiticica nas origens do movimento neoconcreto, chamou de "catástrofe" o incêndio que destruiu boa parte da obra do artista, na sexta. "O lamentável é que o incêndio destruiu uma das contribuições mais originais e audaciosas à arte brasileira."

O parangolé "Capa 23M'way Ke" de Hélio Oiticica, dedicado a Haroldo de Campos

Folha - Qual foi a pior perda?

Ferreira Gullar - Não sei exatamente o que se perdeu. Mas, se as pinturas do Hélio foram destruídas, a própria história do trabalho dele se perdeu. Embora pouca gente conheça, as pinturas estão na origem da experiência, o elemento nuclear do trabalho futuro dele. Eram de muito boa qualidade.

Folha - Qual foi a principal contribuição de Oiticica à arte brasileira?

Gullar - Hélio e Lygia Clark foram os dois artistas do grupo neoconcreto que levaram as experiências dessa proposta às últimas consequências. O grupo nasceu em função de uma superação de certas propostas concretistas, mais racionais e objetivas. O movimento introduziu nessa arte construtiva a experiência subjetiva e a emoção, antes descartadas.

Folha - Como?

Gullar - Eles foram os que levaram essa experiência às últimas consequências. O Hélio fez o "Parangolé", uma capa derivada da porta-bandeira da escola de samba, para o cara dançar com ela nas costas... Isso tem muito pouco a ver com pintura ou escultura. A experiência de Hélio dentro da linguagem neoconcreta chega ao limite com a série de "Bólides", construções em que se misturam formas cúbicas com material quase deletério, como se fossem vísceras. Quando vai para o "Parangolé", no meu ponto de vista, ele sai das artes plásticas. Mas é uma experiência válida.

Folha - De que forma Oiticica influenciou outros artistas?

Gullar - Não é que ele e Lygia tenham influído no desenvolvimento da arte contemporânea, mas foram antecipadores de tendências que vieram a se manifestar em seguida, como o que mais tarde se chamaria de instalações. O labirinto, a obra em que a pessoa penetra... Não é apenas ver a obra. É preciso participar, integrar e usar o próprio corpo como parte da obra. Isso é antecipador.

Folha - Como foi sua participação no movimento neoconcreto?

Gullar - O meu "Poema Enterrado" foi construído na mesma casa que sofreu o incêndio, na Gávea Pequena, atrás do Jardim Botânico, em 59. Hélio viu o meu desenho no jornal e teve de convencer o pai a permitir que o poema fosse instalado na casa nova. Era um poema no subsolo, e você entrava nele. A mesma coisa fez Hélio com "Cães de Caça" e "Labirintos".

Após incêndio, Centro Oiticica critica destino de obras de artistas mortos



Caio Barreto Briso da Folha Online, no Rio

Após o incêndio que destruiu grande parte do acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), na madrugada de sábado no Rio, a gestora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Ana Durães, criticou o destino que é dado ao acervo de muitos artistas mortos no Brasil.

"Não raro, as obras são mantidas pela família, mas elas fazem parte do patrimônio cultural da humanidade", disse em entrevista à Folha. Segundo ela, as obras deveriam ser integradas ao acervo de museus.

O curador do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), Luiz Camillo Osorio, discorda. "Ela diz conceitualmente que é patrimônio da humanidade. Legalmente, a obra é da família."

Osorio diz que falta aos museus brasileiros uma política de aquisição de obras. "É um problema de gestão dos museus."

No entanto, Durães admite que o próprio Centro Hélio Oiticica não teria condições de receber o acervo do artista. As obras dele eram mantidas na casa do irmão, César Oiticica, no Jardim Botânico (zona sul) que se incendiou.

"Nosso espaço é um centro de arte, preparado para receber exposições temporárias, não temos estrutura museológica para manter um acervo permanente", disse Durães.

Na direção oposta, a secretária municipal de Cultura do Rio, Jandira Feghali, disse que o espaço teria condições de manter as obras de Oiticica. Afirmou que a secretaria tentou levar o acervo do artista para o centro várias vezes.
César nega: "Se tivesse acontecido teríamos dado gargalhadas. Lá não há segurança nem controle de umidade."

Restauração

César disse que foram achados ontem, em bom estado de preservação, cinco obras do seu irmão, que estavam no meio das cinzas. São dois relevos (um espacial e um de parede), dois bilaterais e a maquete do projeto "Cães de Caça", um penetrável que nunca foi montado.

A restauração das obras será coordenada pela americana Wynne Phelan, que já fez a restauração de quase toda a obra de Hélio Oiticica em 2006.

CRÍTICA: Bienal do Mercosul

Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, acerta na radicalidade


por Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo


Já em seu início, em 1997, a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, com curadoria de Frederico Morais, era marcada por um caráter experimental. Naquela época, sua pretensão foi reescrever a história da arte a partir de uma visão não-hegemônica, ou seja, fora do eixo europeu e norte-americano.

Montagem de obra de Iran do Espírito Santo, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul

Agora, em sua sétima edição, esse caráter experimental alcança sua maior radicalidade, ao colocar o artista e seu processo criativo --e não mais a figura do curador-- como o centro de organização.

É uma das mostras mais inovadoras dentro do confuso universo das bienais, que costuma transitar entre o apelo fácil para o público e o discurso direcionado a especialistas.

"Grito e Escuta" foi concebida pela curadora argentina Victoria Noorthoorn e pelo artista chileno Camilo Yáñez, ao lado de outros oito artistas cocuradores --uns responsáveis por áreas específicas, como o projeto pedagógico, a cargo da argentina Marina de Caro, outros por segmentos expositivos, como a brasileira Laura Lima.

O resultado é um trabalho efetivamente polifônico, que apresenta exposições surpreendentes e muito distintas umas das outras.

Curiosamente, as mais tradicionais são as organizadas por Noorthoorn: "Ficções do Invisível", no Cais do Porto, e "Desenho das Ideias", no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Isso não significa que sejam menos impactantes.

A primeira, com uma cenografia elegante (de ilhas marcadas por tecidos negros), é uma constelação que tem no teatro e na dança seu começo e seu fim: começa com "Breath" (Respiração), uma peça de 67 segundos de Samuel Beckett encenada por Daniela Thomas, e termina com o coreógrafo francês Jérôme Bel em um vídeo metalinguístico.

Já "Desenho das Ideias" reúne um grupo mais histórico que trabalha com desenho, mas não só, buscando revelar o processo criativo de artistas como Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, Paulo Bruscky, Flávio de Carvalho e León Ferrari.

Curadorias dos artistas

O trabalho mais impactante, contudo, é de Iran do Espírito Santo, uma parede que parece um buraco negro, para onde é difícil deixar de olhar. Lenora de Barros, curadora da Radiovisual, alocou nesse segmento algumas obras, provocando interessantes fricções.

Contudo, são as curadorias dos artistas as grandes surpresas. A começar pela mostra "Absurdo", de Laura Lima, num dos armazéns do Cais do Porto, com o piso recoberto por nada menos do que 20 caminhões de areia.

Paisagem lunar, num contraponto brilhante com o rio Guaíba, que se vê por grandes portas, ela reúne obras projetadas em telas, como o lindo vídeo de Marcellvs L., ou mesmo na areia, como Márcia Xavier, ou então numa pequena casa, como o surreal vídeo "Lucia", assinado pelos chilenos Niles Atallah, Joaquin Cociña e Cristóbal Léon. Esse é um dos trabalhos mais incríveis da mostra, uma mistura de William Kentridge e Stanley Kubrick.

Esse pavilhão é das experiências mais vibrantes que se pode ter em arte contemporânea.

Finalmente, o armazém que reúne as mostras "Texto Público", organizada por Artur Lescher, e "Biografias Coletivas", a cargo de Camilo Yáñez, é outro destaque. Nesses dois segmentos, fortalece-se uma tese que é desenvolvida ao longo de toda a Bienal: a junção arte e vida, princípios que nortearam os anos 1960 e 70, é hoje o cerne do pensamento mais intrigante na cena contemporânea.

SERVIÇO


Quando: de ter. a dom., das 9h às 21h; até 29/11

Onde: Armazéns do Cais do Porto, Santander Cultural e Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; tel. 0/ xx/51/3433-7686

Quanto: entrada franca

Cotação: ótimo

sábado, 17 de outubro de 2009

Fogo destrói boa parte das obras de Hélio Oiticica no Rio

Família do pintor, falecido em 1980, estima prejuízos de cerca de US$ 200 milhões com as obras destruídas Um incêndio destruiu, no final da noite de sexta-feira, 16, na região do Jardim Botânico, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio, parte da residência do pintor e arquiteto César Oiticica, irmão do pintor, escultor e artista plástico Hélio Oiticica, que morreu em 1980 aos 42 anos.

Cerca de 2 mil obras foram destruídas. Prejuízo estimado é de 200 milhões de dólares

Na casa estavam cerca de 2 mil obras do artista. "Perdemos cerca de 200 milhões de dólares, mas esse não é o valor principal, o valor em dinheiro não significa nada. E uma perda que o mundo inteiro irá lastimar. A cultura brasileira ficou ferida. Eu me sinto pessimamente", disse César em entrevista à Rádio CBN. Viaturas do quartel de Humaitá foram deslocadas para a residência, mas ainda não se sabe o que teria causado o incêndio, que começou no primeiro andar da casa. Segundo a família, os bombeiros demoraram para chegar na casa e começar o combate ao fogo.

Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiro

Um incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.

O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.

Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.

Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.

Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.

Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.

A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.

Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.

Parangolé

Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.

Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".

Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.

Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.

Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.

No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.