sexta-feira, 26 de junho de 2009

Arte sem limites

Camila Molina do Estadão

A artista Lenora de Barros anda agora com nova "mania": pelos lugares em que passa, pega seu celular, ou um gravador, e começa a captar qualquer tipo de som. Em visita há pouco à atual Bienal de Veneza, quando tirou seu celular da bolsa para gravar os ruídos da exposição de Bruce Nauman, a monitora da sala quis lhe chamar a atenção, pensando que Lenora tiraria uma foto, sem permissão, da obra do americano. Mas a brasileira explicou que queria apenas captar o som do local e a segurança ficou, na verdade, sem jeito - deu um nó em sua cabeça: era proibido ou não fazer aquilo? Resolveu deixar.

Lenora ri e acha curiosa essa passagem que faz parte de sua missão de "desvendar o verbivocu", como ela diz, brincando com a expressão dos concretistas, "verbivocuvisual" - poesia (concreta) e visualidade sempre foram temas chaves da criação da artista, filha de Geraldo de Barros - ou, falando de uma maneira mais simples, de sua pesquisa sobre sonoridades. É que desde o ano passado Lenora virou "radialista": está desenvolvendo o projeto da Radiovisual, uma das atrações da 7ª Bienal do Mercosul, a ser inaugurada para o público em outubro em Porto Alegre (ler ao lado). "Depois da fotografia e do vídeo confesso que ainda não sei traduzir como é a sensação de ter a memória de um lugar pelo som e não pela imagem", diz Lenora.

Como criar uma programação de rádio para um evento de arte? A ideia, na verdade, partiu do escultor Artur Lescher, um dos curadores da Bienal do Mercosul. "O espaço sonoro magnético atravessa a cidade. Fiquei com essa imagem na cabeça como uma possível metáfora para a seção que vai tratar dos espaços públicos", afirma Lescher. "Rádio é mídia econômica, inclusiva, com capacidade grande de absorver conteúdos, mais do que uma exposição com paredes", diz o escultor.

No ano passado, ele convidou Lenora para fazer a curadoria da Radiovisual e executá-la. O projeto está em seus últimos acertos. Seu conceito envolve a transmissão de um programa "informativo e experimental", diário e com uma hora de duração, provavelmente, no dial "físico" da rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul quanto na esfera virtual, pela internet, para ser compartilhada para além das fronteiras. A Radiovisual tem até slogan: "A rádio que excita a frequência." A mídia estimula a imaginação.

Não é de hoje que artistas trabalham no campo da sonoridade, muitos até mesmo fazendo obras para o rádio. No Brasil, recentemente, pode-se citar o Oidaradio, com curadoria de Nick Graham-Smith e Kiki Mazzucchelli e apresentado no ano passado no Paço das Artes, ou mesmo Dora Longo Bahia, que tinha como parte de sua obra para a 28ª Bienal de São Paulo, em 2008, a realização do programa Rádio Macaco, infelizmente não concretizado. Entre os estrangeiros, Lenora faz menção ao americano Gregory Whitehead, que desde a década de 1980 cria para rádio. Mas o artista fundamental para o conceito da Radiovisual da Bienal do Mercosul é o compositor experimental americano John Cage e sua famosa peça 4?33 , de 1952: a composição é feita de nenhuma nota, mas da proposta de que o músico fique parado durante esse período. "Ele é o nosso mentor conceitual", diz Lenora.

A Radiovisual, que também conta com a participação do jornalista Fabrizio Rosa, vai ter uma seção em homenagem a Cage, Ao Redor de 4?33, com peças sonoras criadas por artistas, poetas, escritores, músicos e até cientistas convidados. Essas obras também serão "exibidas" por meio de headphones numa arquibancada nos armazéns do Cais do Porto, às margens do Rio Guaiba.

A ideia é a de que a rádio tenha uma sede com lounge e veicule obras sonoras históricas de Cildo Meireles e Antonio Dias, por exemplo. Depois, para ficar o registro dessa ação, a Radiovisual também vai figurar no catálogo da Bienal do Mercosul. Como? Gravada em CD.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Débito Quitado

Exposição de Hélio Oiticica será reaberta depois de pagamento de R$ 267 mil pela Prefeitura

por Suzana Velasco do O Globo

Dois meses depois de ser interrompida pelos curadores, a exposição "Hélio Oiticica: Penetráveis" será reaberta para o público na próxima terça-feira, dia 23, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. A mostra havia sido suspensa no dia 15 de abril, porque a Secretaria municipal de Cultura estava devendo ao Projeto Hélio Oiticica R$ 267 mil referentes aos custos da exposição, que já foram pagos. Prevista para terminar este mês, a mostra deve ficar aberta até o fim de agosto, para compensar o tempo de interrupção.
Leia mais: Herdeiros de Hélio Oiticica querem tirar nome do artista do centro de arte por causa de briga com prefeitura

Na época da suspensão da exposição, o projeto ainda retirou as obras do artista da reserva técnica do local e ameaçou pedir na Justiça a retirada do nome de Hélio Oiticica do centro de arte. Mas Cesar Oiticica Filho, um dos curadores da exposição e do Projeto Hélio Oiticica, disse que não há uma decisão de se desvincular do espaço:

- A gente não está discutindo isso no momento. Nossa intenção não é deixar o centro, mas, se não houver como trabalhar lá dentro, não sei se faz sentido ficar só emprestando o nome. Estamos conversando novamente com a secretaria, espero que as coisas melhorem.

Segundo o curador, os trabalhos que ainda eram guardadas no Centro Hélio Oiticica não voltarão ao espaço porque ele não reúne as condições necessárias para o armazenamento de obras de arte. Elas são guardadas na reserva técnica criada pelo projeto.

- O centro não tem desumidificação, tem um banheiro dentro da reserva técnica, o que vai contra todos os padrões museológicos. Sabemos que a prefeitura não tem condições nem verbas neste momento, mas não é um problema para a gente cuidar do acervo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Fotógrafa Sofia Borges fabrica o real em imagens


Silas Marti e Mario Gioia da Folha de S. Paulo


Uma paisagem noturna, onde parecem espreitar Laura Palmer, Leland e Bob, em algum ponto longínquo de "Twin Peaks". Mas a fotografia, na verdade, foi feita em Ibiúna, interior de São Paulo, pela jovem artista Sofia Borges, 25, e está no centro de sua primeira individual numa galeria, a Virgilio.

O cinema é forte influência na obra da artista, em especial a atmosfera estranha dos filmes de David Lynch, estilo que vem arrancando elogios à sua obra de uma série de críticos e curadores, além de garantir sua participação em coletivas importantes no circuito.

Depois de expor no "Rumos Artes Visuais" deste ano, tradicional seleção de jovens artistas, e de mostras em museus no ano passado, Sofia se prepara agora para mostrar suas obras em Recife, São Paulo e Rio. "Lynch é o cineasta que mais tenho visto, de forma alucinada", diz Sofia. "A exposição foi contaminada pela obra dele."

Foto feita em Ibiúna (SP) por Sofia Borges; artista aponta influência do cineasta David Lynch em seu trabalho

Mais do que a atmosfera soturno-absurda de Lynch, são tramas que se esfacelam no tempo. Sofia retrata a mesma paisagem em momentos distintos, chegando a juntar 20 vistas do mesmo espaço num único fotograma. O resultado é um frame saturado de não acontecimentos: em vez do instante decisivo, o hiato perdido entre a causa e a consequência.

"Eu fragmento a fotografia, pego vários tempos de exposição, de várias temperaturas de cor e vou montando uma realidade", resume Sofia, numa operação que aproxima sua obra fotográfica à pintura. Ela cita o barroco Nicolas Poussin (1594-1665) como uma de suas principais influências, deixando explícita a manipulação de elementos de luz e composição nas suas fotos digitais.

É isso que "seduz e intriga o olhar", nas palavras de João Bandeira, 47, curador do Centro Universitário Maria Antonia, onde Sofia expôs no ano passado. "Lembra um pouco a pintura flamenga, holandesa, mas é estranho porque ela mexe na luminosidade e isso concentra ali pontos diferentes."

O crítico Paulo Sergio Duarte, 62, vê nas fotos de Sofia um "lado pictórico que não tem nada a ver com pincel e tintas", ou seja, uma pintura que já não depende de seu suporte clássico, migrou para outras linguagens.

Da pintura à foto digital

Sofia é da geração que vem desafiando a pintura a partir dela mesma. Da mesma forma que Poussin, Vermeer e Cézanne pinçavam na realidade pontos díspares e fixavam todos no mesmo plano, a foto digital se presta à fabricação do real.

"Queria imagens escorregadias, afrouxadas, destituir a minha foto de uma relação imediata e colada com o real", resume. "Há uma falta de precisão nessas imagens, estão à beira do precipício. São quase espetaculares demais, fantasiosas demais, absurdas demais." Quase, mas não chegam a tanto. Sofia tem os pés no chão.

Confessa que fica na antessala do absurdo para causar um estranhamento limítrofe, ponto morto entre a abstração total e o retrato banal do cotidiano. "São pequenos romances, narrativas", diz o crítico Tadeu Chiarelli, 52. "O trabalho dela me pega com muita força."

Na primeira série de fotos que fez, Sofia aparece numa cozinha, sentada na cama, descascando maçãs. O prosaico se distorcia num limbo cronológico e luminoso. Mas o fato de serem autorretratos acabava dando peso à personagem e ofuscando a ideia de anonimato.

Em sua nova série, Sofia registra paisagens estranhas, com figuras enigmáticas e que pouco se revelam. "Associavam muito os autorretratos à questão da mulher, questões políticas, o intimismo, mas não era isso, só passava por isso", diz. "Mas vi que não precisava mais passar por mim, fui pensando que o sujeito pode se relacionar de outra forma com o espaço, que ambos se contaminam."

SOFIA BORGES
Quando: de seg. a sex., das 10h às 19h, e sáb., das 10h às 17h; até 15/7
Onde: galeria Virgilio (r. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, tel. 3062-9446)
Quanto: entrada franca

Semana de Artes Digitais de BH recebe inscrições para workshop

Folha de S. Paulo

As inscrições para workshops da Semana Internacional de Artes Digitais e Alternativas - Siana 2009 estão abertas até o dia 27 de junho.

O evento acontece de 1º a 3 de julho, em Belo Horizonte, e as atividades reunirão designers, artistas, programadores visuais, ilustradores, engenheiros e professores, da França e do Brasil.

Com trabalhos práticos, as oficinas vão tratar de temas como a utilização do código informático na criação artística, as novas tecnologias como meio de expressão, conceitos que fundamentam as arquiteturas interativas, a rede internet como um espaço artístico de experimentação e criação, e novas interfaces.
Imagem da exposição Tempo, que é de divulgação da Siana 2009

As atividades serão realizadas na Sala Multiespaço Oi Futuro e no Conservatório da Universidade Federal de Minas Gerais. E para participar, os interessados devem preencher ficha de inscrição disponível no site. O candidato deverá enviar também currículo e breve carta de intenção. Haverá uma seleção e o resultado será informado no dia 30 de junho. As inscrições são gratuitas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

CARTA RESPOSTA: Paraisópolis


Carta resposta dos moradores da favela Paraisópolis a matéria da Folha - "Diretores da Bienal de Roterdã vão a favela e são hostilizados"(veja postagem anterior)

Folha de S. Paulo

"Integro um movimento que congrega cerca de cem entidades e, com a comunidade, estamos contribuindo com a campanha Paraisópolis Exige Respeito.
Quando soubemos da visita do grupo de curadores da Bienal de Roterdã à comunidade de Paraisópolis ("Diretores da Bienal de Roterdã vão a favela e são hostilizados", Cotidiano, 9/ 6), decidimos mostrar o outro lado da urbanização (morte em abrigo da prefeitura, despejos de forma violenta com aparato policial, tratores destruindo casa quando a proprietária busca os filhos na creche).
Organizamo-nos com camisetas da campanha e faixas mostrando nossa indignação. Encontramos o grupo de curadores em uma viela e paramos em frente aos carros, solicitando que fôssemos escutados.
Aguardou-se pacificamente que um representante viesse dialogar com o grupo.
Vieram conversar com os manifestantes o arquiteto venezuelano e os repórteres presentes -inclusive o repórter da Folha, que entrevistou vários moradores. Os manifestantes exigiam moradia e respeito e conseguiram marcar uma reunião com a senhora Elizabeth França.
E foi com espanto que lemos a reportagem da Folha, que transformou uma manifestação pacífica de moradores em ato de vandalismo.
Não é verdade que a "favela recebeu o diretor da Bienal holandesa a pedradas". A comunidade recebeu-o com uma manifestação, e a foto do texto comprova o ato pacífico. O grupo não hostilizou os estrangeiros. O objetivo era um diálogo, que ocorreu sem problemas -e só pôde ocorrer por causa da manifestação.
Gostaríamos de saber por que o repórter não escreveu o que ouviu da comunidade? O que motivou o repórter a só apresentar um ponto de vista? A Folha deixou de ter responsabilidade com a comunidade?
Não busca se diferenciar dos jornais sensacionalistas? Por que o repórter fez questão de ressaltar o lado agressivo (que não ocorreu por parte dos manifestantes) em detrimento da verdade?"
MARISA FEFFERMANN , campanha Paraisópolis Exige Respeito (São Paulo, SP)

Resposta do jornalista Vinicius Galvão - A reportagem presenciou o momento em que as pedras foram atiradas por homens em vigília sobre a laje das casas. O texto não afirma que os moradores liderados e trazidos pela missivista atiraram pedras, embora seu grupo tenha impedido por meia hora os arquitetos estrangeiros e os coordenadores da Secretaria de Habitação de sair de um beco. A reclamante não viu as pedradas porque não estava no local quando ocorreram.

Diretores da Bienal de Roterdã vão a favela e são hostilizados


Em Paraisópolis, o grupo foi apedrejado por vigilantes do local e parado por ato contrário a projeto de reurbanização

Estrangeiros se assustam, mas acertam para amanhã reunião com a prefeitura e com os moradores para o esclarecimento do projeto

Vinícius Q. Galvão da Folha de S. Paulo

Com uma câmera na mão, o diretor da Bienal de Arquitetura de Roterdã (Holanda), George Brugmans, não tinha ideia na cabeça do que esperava por ele e pelo grupo de curadores na visita à favela de Paraisópolis, cujo projeto de reurbanização será exibido na mostra.
Numa incursão pelos becos de terra batida e esgoto a céu aberto, homens que faziam vigília nas lajes atiraram pedras, gritaram para que os estrangeiros saíssem dali e disseram que eles não podiam tirar foto. A favela, na divisa das zonas sul e oeste, já foi alvo de ações da polícia em razão do tráfico.
O grupo foi retirado às pressas por assessores da prefeitura, que falavam nervosos ao celular e pediam a presença da polícia, que não apareceu.
"Não importa. Trabalho com revolucionários na Venezuela que puxam a pistola. Já sequestraram um colega de trabalho", disse o arquiteto americano Alfredo Brillembourg, do laboratório de favelas da Universidade Columbia (Nova York).
Ladeira de barro acima, onde o comboio que levava os estrangeiros estava parado, um grupo de cerca de 50 moradores vestidos de preto fechou a saída dos carros. Eles protestavam contra o projeto de reurbanização levado pelos curadores para a bienal na Holanda -a proposta já removeu mil famílias para a construção de um CEU, de uma Fatec e de 1.900 apartamentos.
Dos 60 mil moradores de Paraisópolis, uns 12% serão removidos de onde estão, diz a prefeitura. Eles recebem ajuda de custo de R$ 300 para aluguel durante a construção dos novos prédios onde irão viver.
Os estrangeiros ficaram assustados com o bloqueio. Sem falar português, o americano Brillembourg disse que desceria para conversar com os manifestantes, mas foi impedido por colegas. "Não tem de ter medo, são gente como nós, estão querendo proteger a comunidade", dizia na van.
Àquela altura, os moradores pareciam ser mais e estar mais nervosos. Brillembourg insistiu, abriu a porta -a descontento dos outros- e desceu.
Em espanhol, disse: "Estamos entre amigos. Essa favela é maravilhosa, já vim várias vezes. Em Caracas é pior".
Os moradores puxavam o coro: "Queremos moradia!". "O que você faz aqui é uma lavagem psicológica, vá falar com a prefeitura", disse o subcurador Rainer Hehl a uma das líderes.
Alguns moradores se queixam de que, onde havia barracos, a prefeitura plantou grama. Outros dizem que os alojamentos não têm segurança -uma mulher morreu num incêndio, que a prefeitura diz ter sido iniciado pela própria vítima.
No final, uma reunião ficou acertada para amanhã com o grupo estrangeiro e a prefeitura para esclarecimentos do projeto. Algum tempo depois, ainda nos becos de Paraisópolis, Brugmans, o diretor da bienal, já tranquilo, tomava uma cerveja com os colegas e dizia: "Não entendi nada daquilo".

Artigo: LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Folha de S. Paulo

Bienal de São Paulo e de Veneza


Por que a Bienal de SP vem perdendo relevância artística enquanto a de Veneza continua a alcançar sucesso?


DIANTE DE crise que dura anos, há cerca de duas semanas o Conselho Curador da Bienal de São Paulo escolheu um jovem e dinâmico consultor e colecionador para a presidência da instituição. Logo em seguida, na Itália, a Bienal de Veneza deste ano foi inaugurada com festas que celebram seu êxito.
Por que essa diferença de destinos? Por que a Bienal de São Paulo, que não deixei de visitar desde quando foi inaugurada, em 1951, até 2006, ano a ano vem perdendo relevância artística e apoio social, enquanto a Bienal de Veneza continua a alcançar sucesso e respeito? Por falta de dinheiro, dirá alguém. Por falta de suficiente apoio do Estado, completará outro. E talvez ambos tenham alguma razão. Sugiro, entretanto, outra explicação que não pretende ser exclusiva, porque ela também ajuda a explicar a falta de recursos, mas que, se for levada em conta pela Bienal de São Paulo, poderá levá-la de volta a seus belos tempos. Há uma diferença fundamental entre as duas bienais. Enquanto a de Veneza está dividida em três setores, a de São Paulo está limitada a um. Enquanto Veneza mantém um amplo setor para as representações nacionais no Giardino e no Arsenale, um setor pequeno mas relevante para artistas consagrados no Giardino, e um setor amplo no Arsenale, em que o curador desenvolve um tema e abre espaço para novos artistas, a Bienal de São Paulo decidiu, há alguns anos, de forma arrogante e equivocada, limitar-se ao tema escolhido pelo curador e aos novos artistas. Refletiu, dessa forma, um fato real e até auspicioso: a importância crescente de curadores criativos para os grandes museus e também para as bienais. Mas o fez de forma radical e, por isso mesmo, equivocada.
Um espaço para artistas consagrados é importante porque é educativo e porque dá mais legitimidade à mostra junto aos demais artistas consagrados, independentemente de estarem ou não presentes. Por outro lado, as representações nacionais são importantes porque, por meio delas, é possível lograr a participação de grandes artistas sem custo para a Bienal, já que fica por conta do governo do país representado. Assim, se decidirmos dividir o espaço da Bienal de forma que 45% fiquem para as representações nacionais, 10% para o curador exibir artistas consagrados e 45% para o tema da Bienal daquele ano, teremos uma mostra mais atrativa para o público e mais barata.
Mas, em compensação, essa limitação do poder do curador não implicará uma queda da qualidade artística ou da significação cultural da Bienal? De forma alguma. Primeiro porque ele terá poder sobre os três segmentos da mostra. Mesmo no caso das representações nacionais, poderá e deverá haver negociação. Segundo porque sobrarão mais recursos para o grande segmento temático -para que o curador possa convidar os melhores artistas que estão despontando.
A Bienal de São Paulo sempre teve um papel importante na difusão da arte de vanguarda brasileira e mundial e na consagração de novos artistas. Por meio dela, a cidade de São Paulo e o Brasil se integram na contemporaneidade, participam das experimentações de vanguarda cultural e da crítica fundamental que transparece na arte conceitual.
Mais do que antes, vemos hoje os artistas se apropriarem das tecnologias mais avançadas para inovar e criar. Não podemos deixar uma instituição como essa morrer por incompetência administrativa e arrogância intelectual. O conselho da Bienal e seu novo presidente têm diante de si um belo desafio.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994". Internet: www.bresserpereira.org.br
bresserpereira@gmail.com

sexta-feira, 12 de junho de 2009

ARTIGO: VENEZA


Seleção de artistas evoca potência e fragilidade

Mostra principal tem conjunto de obras coeso, mas falha ao evitar controvérsias

Fábio Cypriano

"T téia 1", de Lygia Pape, a obra que abre a mostra "Fazer Mundos", de Daniel Birnbaum, na 53ª Bienal de Veneza, resume bem tudo o que se vai ver daí em diante: uma seleção elegante, construída de forma frágil e ao mesmo tempo potente.
A elegância da obra de Pape, com fios dourados que constroem pilares quadrados, está também no vídeo da italiana Grazia Toderi, "Orbite Rosse" (órbitas vermelhas), uma imagem ovalada com milhares de estrelas, que parece um mapa de uma galáxia, mas que, vista de perto, são bombardeios de guerra, um dos trabalhos mais fortes da mostra.
O argentino Tomas Saraceno, em operação semelhante, constrói uma das mais surpreendentes instalações da Bienal, com fios que se transformam em globos, e dificultam o caminhar dos visitantes.
"Fazer Mundos" -a mostra tem 47 línguas no título, para tratar a arte como forma de tradução- se vale também da fragilidade, como os fios de Pape, o que faz com que a ideia de desenho seja recorrente, como nas obras de Marjetica Potrc, Öyvind Fahlström ou Richard Wentworth, entre outros.
A fragilidade/potência está também nas formas de expor, como nas fotos de vários formatos, algumas coladas na parede com fita adesiva, na sala de Wolfgang Tillmans, na invisibilidade da obra de Renata Lucas, ao asfaltar partes do chão da exposição, por onde muitos caminharam sem perceber.
Mas a qualidade na seleção dos 77 artistas de Birnbaum, com o assistente Jochen Volz, também se revela problemática: a delicadeza das obras evita controvérsias, como se o fazer mundos na arte ocorresse num sentido paralelo ao seu contexto. "Fazer Mundos" diagnostica bem a fragilidade que o mundo enfrenta, mas fica aí.

Brasil exótico

Já as representações nacionais seguem com disparidades gritantes. Por um lado, pavilhões como o dos Estados Unidos, que merecidamente ganhou o Leão de Ouro com Bruce Nauman, gastam milhões de dólares numa demonstração de poder -dessa vez, os EUA além de seu próprio espaço ocuparam outros dois na cidade.
Por outro lado, alguns pavilhões se rendem a estereótipos, como aconteceu desta vez com o Brasil, visto de forma exótica, por meio da produção de Delson Uchôa e Luiz Braga, seleção a cargo de Ivo Mesquita.
Esse "Brasil profundo", por conta da temática regionalista e um tanto folclórica, que parece propaganda governamental, tornou-se ainda mais arcaico perto de escolhas radicais, como Teresa Margolles, no México, que abordou a violência de execuções ligadas ao narcotráfico; Elmgreen & Dragset, artistas que curaram o pavilhão nórdico e dinamarquês, recebendo menção honrosa do júri, com uma abordagem sarcástica sobre colecionismo; ou Shaun Gladwell, na Austrália, levando a cultura pop a um rigor formal impressionante.
Mesmo assim, a diversidade continua exercendo uma forma de oxigenação em Veneza. E, felizmente, Renata Lucas, Sara Ramo, Cildo Meireles e Lygia Pape, apresentam um Brasil muito mais complexo que o do pavilhão nacional.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Guia inclui brasileiros entre 507 artistas mais jovens que Cristo



EFE

Eles têm talento e motivação, ganharam fama como inovadores, integram a "próxima geração" mundial de artistas com menos de 33 anos e estão reunidos no livro "Younger than Jesus - The Artists Directory" ("Mais jovens que Cristo - Catálogo de Artistas", em tradução livre).

Esta obra, que tem o formato de um guia telefônico e acaba de ser lançada pela editora Phaidon, reúne nomes de 507 artistas nascidos depois de 1976.

Em comum, todos os selecionados romperam com "convenções do passado" e têm interesse em "novas propostas". E é exatamente esta a premissa de "Younger than Jesus", explicou à Agência Efe o editor-chefe de arte contemporânea da Phaidon, Craig Garrett.

Numa entrevista concedida em seu escritório, em Londres, Garrett disse que a obra é como um "guia do futuro da arte", e "sem dúvida representa uma ruptura com o passado" e "uma nova forma de apresentação dos artistas contemporâneos".

"Younger than Jesus", segundo o editor, é um censo e também um "catálogo, que ajuda o leitor a localizar arte e artistas novos" com menos de 33 anos. É "quase um poço sem fundo" e, ao mesmo tempo, "é só o ponto de partida para o leitor e os artistas".

Cada um dos 507 artistas ou coletivos incluídos na obra receberam "o mesmo espaço" - uma página -, independente de sua origem e do sucesso que obtiveram. Neste sentido, destacou o editor, o livro dá prioridade "ao trabalho artístico", sem se preocupar em "estabelecer um novo cânone" na arte contemporânea.

No trabalho destes jovens "há temas e enfoques comuns", mas também "existe uma incrível diversidade", que, "surpreendentemente, não é sempre resultado do lugar geográfico" em que os artistas viveram ou fizeram experimentações, afirmou Garrett.

Os felizardos incluídos na obra são de aproximadamente 45 países, mas "muitos deles vivem em várias nações ou se locomovem entre uma e outra com muita frequência".

Além disso, "Younger than Jesus" inova no design. Seu formato "é integralmente parte" do projeto e, segundo Garrett, transmite com exatidão a filosofia de ser uma guia da nova geração artística, com cores e papel que lembram os das listas telefônicas.

Este efeito foi proposital, já que "a letra com a qual foi originalmente desenhada a (lista telefônica da companhia americana) AT&T em 1970" é a mesma usada em "Youngers than Jesus".

No livro, os artistas são apresentados com "milhares de imagens" de suas obras e pouco texto, daí o guia ser "funcional, leve e fácil de carregar, com espaço para anotações e índice em ordem alfabética".

Outro atrativo da obra é que sua organização foi feita com base no funcionamento das redes sociais da internet, a partir da "ideia de que a inteligência coletiva pode conseguir coisas que uma visão unitária" não conseguiria.

O projeto do livro foi concebido pelos curadores Massimiliano Gioni, Laura Hoptman e Lauren Cornell, do New Museum (de Nova York), que, depois, passaram a "supervisionar" a busca pelos "youngers".

Deste trabalho, participaram cerca de "20 correspondentes de nações de todo o mundo", que, por sua vez, contaram com a "colaboração de 150 ajudantes informais".

Site Amazon : http://www.amazon.com/Younger-than-Jesus-Artist-Directory/dp/0714849812

The Younger than Jesus Artist Directory (Paperback)
by Gioni Massimiliano (Author), Laura Hoptman (Author), Lauren Cornell (Author)

* Price: $49.95
* Paperback: 480 pages
* Publisher: Phaidon Press (May 16, 2009)
* Language: English
* ISBN-10: 0714849812
* ISBN-13: 978-0714849812
* Product Dimensions: 11.4 x 9.9 x 1.5 inches

terça-feira, 9 de junho de 2009

O limite entre a arte conceitual e o design é onde se costuma situar a obra do artista alemão

DW 2009


Tobias Rehberger, homenageado com o Leão de Ouro na Bienal de Arte de Veneza 2009.

Instalação de Tobias Rehberger na Bienal de Veneza de 2003

"Acredito que o artista seja uma espécie de catalisador", descreve Tobias Rehberger sua profissão. O alemão de 42 anos, professor da Escola Superior de Arte Städel, em Frankfurt no Meno, foi premiado com o Leão de Ouro na 53ª Bienal de Arte de Veneza por sua obra Was du liebst, bringt dich auch zum Weinen (O que você ama também o faz chorar). Rehberger é conhecido por suas instalações multicolores e bem-humoradas, no limite entre arte conceitual e design.

Nascido em 1966 em Esslingen, no sul da Alemanha, filho de um entusiástico pintor amador, Rehberger estudou de 1987 a 1992 na Escola Superior de Arte Städel, em Frankfurt. Um de seus professores foi o artista Martin Kippenberger.

Longe do gênio romântico

Em 1995, ele começou uma carreira meteórica. Desde as cópias gigantescas de quadros do seu pai até retratos de seus amigos artistas como vasos de flor, passando pela instalação de uma máquina para comprar livros em meio à floresta – muitos de seus trabalhos são celebrados no cenário artístico internacional.

O que já convence menos Rehberger é a imagem do artista como gênio. Para ele, o artista não cria originais inspirados por rasgos de espírito divinos, mas simplesmente catalisa, explicita. A arte se torna um produto tanto do artista quanto do observador.

Nos trabalhos de Rehberger se reconhece com frequência a tentativa consciente de colocar o observador no centro da obra, a fim de lhe conferir um papel novo, nitidamente mais ativo. O comprador de sua obra Mutter 93% (Mãe 93%, 2002), modelo de uma garagem em escala quase real, adquiriu não apenas a obra de arte, mas também o direito de reformar sua própria garagem do jeito que bem entendesse.

Descontextualização do cotidiano

Tobias Rehberger e Daniel Birnbaum, diretor artístico da Bienal 2009

Na tradição do objet trouvé fundada por Marcel Duchamp, Rehberger insere elementos conhecidos da arquitetura, design e da história da arte em contextos novos e incomuns, a fim de revelar, através da mudança contextual, o que coisas cotidianas têm de especial.

Uma de suas obras a causar sensação foi a instalação-filme On Otto (Sobre Otto, 2008), realizada para a Fondazione Prada. O trabalho tematiza o próprio processo de criação fílmica. Para tal, o artista rodou com Kim Basinger um filme em ordem inversa.

Tobias Rehberger também recebeu, entre outros, o prêmio de arte 1822, da cidade de Frankfurt no Meno, e o prêmio Hans Thoma.

SL/dpa
Revisão: Augusto Valente

"O futuro sempre se comporta de forma diferente" na Bienal de Veneza

DW 2009


Liam Gillick

Pela primeira vez, um inglês representa a Alemanha na mostra. Em entrevista à Deutsche Welle, Liam Gillick revela a visão do futuro e da história que imaginou para o pavilhão alemão. E as dificuldades encontradas.


Deutsche Welle: Liam Gillick, o senhor, um inglês, é responsável pelo pavilhão alemão na Bienal Internacional de Arte Contemporânea 2009, em Veneza. Uma situação bastante inusitada, ou não?

Liam Gillick: Montar um pavilhão na Bienal é diferente para cada país, e cada um lida com a coisa de forma diferente. O que gosto na Alemanha é que os curadores têm grande liberdade de decisão. Portanto a seleção do artista não é uma decisão política, mas sim tomada por um perito em arte. Isso significa muita responsabilidade e muita pressão para o curador. No Reino Unido, trata-se antes de uma decisão política. E na França o próprio ministro da Cultura é quem faz a escolha. Na Alemanha, o pavilhão é visto como uma espécie de museu temporário, aberto por alguns meses, a cada dois anos. O curador tem que pensar em cada detalhe e cada possibilidade. Complicado! E muito interessante.

Quão difícil para o senhor foi criar no pavilhão alemão em Veneza uma atmosfera que faça jus à sua arte?

Acho que é a coisa mais difícil que já fiz. Não só pela história do prédio, que foi reformado na década de 1930 pelos nazistas [que acrescentaram colunas monumentais]. Todos os grupos totalitários ou obcecados pelo poder empregam uma espécie de arquitetura sacral, é assim que manipulam as pessoas.

O interior do pavilhão é quase como uma igreja. Isso torna tão difícil encontrar o modo de trabalhar – em especial para alguém como eu, que não lida tanto com imagística iconográfica ou com ideias sacras. Eu quis deixar o edifício despojado, e não esconder nada. As janelas ficam abertas, a luz incide no ambiente, as pessoas podem entrar e sair à vontade. Ao mesmo tempo, eu também queria ignorar o prédio. Foi muito difícil e um desafio enorme.

O que nos espera no pavilhão alemão?

Era muito importante para mim que as portas ficassem escancaradas. A fachada do pavilhão devia ficar aberta e limpa, nada devia cobri-lo, ele tinha que voltar a poder ser visto de verdade. Ao entrar, vê-se primeiro uma espécie de anteparo visual, como os que se usam em lanchonetes, para afastar moscas: tiras de plástico colorido, através das quais o visitante se movimenta.

Aí se chega num ambiente que parece uma cozinha muito simples, de madeira, entre Ikea [cadeia internacional de móveis pré-fabricados] e algo mais profundo, mais fundamental, mais moderno. Uma espécie de modernidade alternativa, não a que se ocupa de grandes simbolismos ou ideologias universais, mas sim a outra, que, de certo modo, leva à cozinha contemporânea.

Interior do pavilhão alemão

Além disso, sobre um dos armários, vê-se um gato que conta uma história. Pode-se, portanto, estar na cozinha e escutar o gato falando sobre ideias, possibilidades, a tensão entre o amor e a compreensão intelectual, sobre mal-entendidos e desejos. Ele tem minha voz – eu sou o gato. O gato é uma criatura infiel, que pode ter vários donos. E uma figura que, de certo modo, já viu de tudo. Eu queria uma criatura que é infiel, mas ao mesmo tempo pede afeição. Ele representa, de certa maneira, a figura onisciente da História.

A cada edição do festival, debate-se em Veneza sobre o Leão de Ouro, concedido ao melhor pavilhão. Isso suscita muita rivalidade entre os diferentes países representados em Veneza. Essa premiação serve para alguma coisa?

Não dou grande valor à premiação dos pavilhões nacionais. Seria mais produtivo voltar o olhar para os artistas mais jovens ou mais velhos. Acho que os pavilhões já recebem muita atenção, de qualquer forma. Eu utilizaria o prêmio para incentivar os menos conhecidos. Os artistas, eles mesmos, já se conhecem bem entre si, pelo menos as obras dos colegas. Aqui quase não há rivalidade.

Quão importante é para o senhor estabelecer, no pavilhão alemão, um diálogo entre artistas, ou também entre os diferentes pavilhões?

Gato conta uma história

É muito importante. No fundo é um dos principais motivos para estar aqui. Por isso, contratamos uma equipe bem jovem de artistas e historiadores da arte para trabalhar aqui nos próximos meses. A ideia é começarem um diálogo que influenciará fortemente sua visão das coisas. Para mim é muito importante conversar com os colegas aqui, mesmo com aqueles com quem nem sempre concordo. Muitos pensam que Veneza é, acima de tudo, autoincensamento, mas aqui também há numerosos momentos de tensão e de contradições.

Liam Gillick (1964) é artista plástico, designer, crítico e autor. Suas instalações ocupam salas inteiras, e se baseiam em concepções minimalistas. Elementos frequentes são letras, estantes e divisórias coloridas, utilizando acrílico e trilhos de alumínio. Ele tem publicado ensaios, críticas e textos de ficção. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Turner. Sua obra exposta no pavilhão alemão da 53ª Bienal de Veneza se intitula O futuro sempre se comporta de modo diferente.

Autor: Breandáin O'Shea
Revisão: Roselaine Wandscheer

Brasileira Renata Lucas abre estrada em Veneza

Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo

O catálogo da 53ª Bienal de Veneza, aberta no último domingo (8) para o público, traz imagens surpreendentes de obras de Renata Lucas, 38, brasileira que vem ganhando cada vez mais reconhecimento no circuito internacional da arte contemporânea. Numa das imagens, vê-se uma convidativa piscina construída dentro de um dos canais da cidade. Em outra, duas comportas interrompem o fluxo de água, deixando aparecer no fundo da laguna um insólito pedaço de estrada asfaltada.
Marcos Augusto Gonçalves/Folha Imagem
Renata Lucas posa ao lado de sua obra: uma estrada feita abaixo do piso da Bienal

Mas nenhuma dessas intervenções tornou-se realidade. Como outras propostas apresentadas pela artista à Bienal, não puderam ser construídas. Não por que fossem consideradas ruins pelos curadores da exposição, mas por parecerem caras e de difícil realização.

Intervenções na arquitetura e no espaço público são marca registrada de Renata, que na 27ª Bienal de São Paulo duplicou uma calçada numa rua da cidade, com postes e arbustos.

Em Veneza, algumas de suas ideias não chegaram sequer às mesas das autoridades que poderiam aprová-las: diante das restrições que cercam as construções da cidade histórica, a própria direção da mostra tratou-as como inexequíveis.

"Trabalhei muito, mas nada podia ser levado adiante. Até coisas mais simples, que pouco mexiam com o espaço público, foram recusadas", conta ela, que contesta a ideia de que suas propostas são difíceis e podem alterar de maneira definitiva os locais onde são realizadas. "Todos os meus projetos são reversíveis", diz a artista.

Ainda que seja assim, o fato é que quando a Bienal foi fechar o catálogo da exposição (em Veneza, diferentemente de São Paulo, ele pode ser adquirido na abertura do evento), Renata ainda não tinha um trabalho definido. "Sugeri então que publicassem no catálogo as imagens de todos os projetos que eu havia proposto, e dei o nome à série de "Venice Suitcase" (mala de Veneza)."

Depois de uma negociação que classifica como "exaustivo", ela conseguiu, enfim, sinal verde para uma obra de execução menos complexa do que uma piscina, mas de resultado não menos interessante.

Estrada

Nos dois principais espaços da Bienal, os Giardini (jardins) e o Arsenale, a artista instalou pedaços de uma estrada de asfalto sob o solo --ainda que a pouca profundidade. No início, a autorização para a camada de asfalto no piso dos Giardini (originalmente de terra e pedrisco) era para apenas 20 m2, mas a Bienal conseguiu que chegasse a 90 m2. No Arsenale, são menores, com menos de 10 m2, e ficam dentro do pavilhão.

"Grandes mostras como a Bienal de Veneza são quase sempre um quebra-cabeça, uma negociação entre o desejo do artista e a realidade. Mas essas dificuldades também têm um lado interessante. Tudo isso me fez lembrar um filme do Lars Von Trier chamado "Five Obstructions", que tem como tema uma série de restrições ao trabalho de um cineasta. Foi cansativo, mas no final fiquei satisfeita com o resultado", diz Renata.

As instalações dão o que pensar. Uma das ideias que suscitam --da qual a artista particularmente gosta-- é a de se poder encontrar sob a superfície da velha cidade não uma camada do passado, mas alguma coisa do futuro, uma estrada de asfalto. "É como escrever a história ao contrário", diz.

Renata recebeu o convite para participar da Bienal em julho de 2008, quando estava em Barcelona. Logo a seguir fez uma primeira visita à cidade, retornou em novembro e, em janeiro, alugou um quarto para ficar. "Eu sou demorada, custo a fazer, preciso de tempo para pensar", explica. Durante os meses em que se defrontou com Veneza, descobriu um lugar labiríntico, histórico e, ao mesmo tempo, artificial.

"As camadas que não podem ser mexidas nem sempre são tão históricas assim. Há coisas que foram feitas há pouco tempo, mas são tratadas como se fossem muito antigas. Embora tenha um lado muito legal, Veneza é uma cidade-souvenir, um parque de diversões, e a Bienal, de certa forma, reflete tudo isso", diz.

Fechada a mala de Veneza, Renata vai passar um período em Berlim. Ela ganhou o prêmio Ernest Young, que lhe oferece estadia na cidade e uma exposição na Kunstwerk. Um outro prêmio, da Dena Foundation, vai resultar num livro, que deve ser publicado em novembro.

Brasileiro Cildo Meireles leva instalação "penetrável" a Veneza

Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo

A instalação que o artista brasileiro Cildo Meireles mostra na Bienal de Veneza é uma espécie de "penetrável", conceito desenvolvido pelo também carioca Hélio Oiticica (1937-1980) para seus ambientes --obras nas quais o espectador é convidado a entrar.

No caso, trata-se de uma sequência em linha reta de seis salas interligadas, pintadas com cores impactantes, que o visitante pode atravessar numa direção ou noutra.

Em cada uma das salas, o artista, que não esteve presente na abertura do evento, afixou uma tela de TV reproduzindo uma a uma as cores escolhidas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.

A instalação não faz parte do pavilhão brasileiro --é uma escolha da curadoria geral da Bienal, assim como os trabalhos de Lygia Pape (1927-2004), Renata Lucas e Sara Ramo, todos exibidos no Arsenale, um grande pavilhão que foi em outros tempos um arsenal militar.

Ramo, artista brasileira de origem espanhola, tem duas obras no local. No interior do pavilhão, ela exibe um vídeo (que foi mostrado na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, no ano passado) intitulado "Quase Cheio, Quase Vazio".

Do lado de fora do prédio, criou uma casa-instalação inspirada na célebre história infantil de João e Maria. A artista, que vive e trabalha em Belo Horizonte, considera que esse é o "mais narrativo" de seus trabalhos. "A ideia", diz Ramo, "é que as pessoas entrem fisicamente na historia deles".

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Veneza ''feira de instalações''

É o que virou a Bienal deste ano, por incentivo dos curadores, que pediram aos artistas para criar a partir do espaço concedido

Camila Molina, VENEZA

Numa quantidade extensa de traduções, Fare Mondi, título da 53ª Bienal de Arte de Veneza, aberta ontem para o público, agrega uma série de significados, como diz o alemão Jochen Volz, que, ao lado do sueco Daniel Birnbaum, assina a curadoria desta edição. Volz faz uma lista de possibilidades em torno do tema: Fazer Mundos, em português, poderia remeter a algo mais prático; em alemão, a um ato grandioso; em sueco, a uma construção de caráter espiritual; em francês, a ação mais pragmática, e assim por diante. Ele vai elencando conotações, não deixando de chamar a atenção para aquele ideal de que as atuações dos artistas podem carregar todas as significações ao mesmo tempo.


Uma medida dos curadores foi levar os criadores a fazerem suas obras pensando no espaço específico que teriam na mostra e, assim, Fare Mondi se transformou, principalmente, numa Bienal de instalações (algumas grandes e poucas de impacto), repleta de trabalhos de 2009 e com intervenções por vários pontos do Arsenale. Um exemplo é o zepelim "entalado" pelo mexicano Héctor Zamorra (ele vive no Brasil) em um dos corredores do local.

Outra ideia foi a de que não existe uma linha reta da história da arte, mas confluências de pesquisas entre consagrados e jovens ao mesmo tempo. Só que a base da mostra são as experimentações do terreno conceitual a partir dos anos 1960. "Pensamos em quais artistas têm uma atualidade, são vivos, e ao mesmo tempo, referência", diz Volz ao Estado. Por isso, não há as obras do chamado caráter histórico nas exposições.

O italiano Michelangelo Pistoletto, nascido em 1933, participa no Arsenale com uma instalação de 2009, Vinte e Dois Menos Dois, em que coloca grandes espelhos emoldurados quebrados pela ação de uma marretada (ela está lá para remeter ao frescor da ação). Em cada espelho, material que aparece na obra do artista desde a década de 1961, faz-se um desenho diferente, os estilhaços ficam no chão, nesse trabalho espetaculoso e conceitual.

Em todos esses sentidos, a participação da brasileira Lygia Pape (1927-2004) nesta Bienal de Veneza ganhou grande destaque, tanto que ela ganhou uma das menções honrosas, no sábado à tarde, na cerimônia de premiação, que culminou com os troféus Leão de Ouro para a japonesa Yoko Ono e para o americano John Baldessari. O de melhor artista ficou para o alemão Tobias Rehberger, que fez intervenção na cafeteria dos Giardini; a de artista jovem para a sueca Nathalie Djurberg,que exibe a instalação Experiment, um jardim surreal de plantas e bichos agigantados feitos de papel marché, animações e música, tudo se reunindo numa atmosfera organizada e propositalmente de mau gosto; e aos Estados Unidos coube o prêmio de melhor representação nacional por apresentar em seu pavilhão, nos Giardini, a mostra Topological Garden, de Bruce Nauman, com obras de 1967 até 2005, com suas famosas frases ou palavras em néon e trabalhos escultóricos de temática em torno da cabeça e das mãos.

A instalação Ttéia (2004), de Lygia, é a primeira obra do Arsenale (em amplo espaço escuro, fios de ouro saem de formas quadradas, se transformando em feixes de luz de quase imaterialidade). A obra tornou-se ponto de partida para que os curadores pensassem todo o espaço do Arsenale. Foi assim com a obra do argentino Tomas Saraceno, a grande instalação Galáxias Formadas por Fios, Como Teias de Aranhas (numa tradução livre), mas esta no pavilhão Biennale, nos Giardini - é uma das mais chamativas para o público: uma construção com fios de náilon preto toma toda uma sala e obriga que o público circule por dentro dela.

Além da Ttéia, o Livro da Criação (1959) de Lygia, no pavilhão Biennale, é uma preciosidade. Como afirma Volz, este trabalho de formas geométricas feitas em cartão e acompanhadas de breves escritos compõe uma narrativa essencial: "No princípio tudo era água", assim começa. Ele diz que é "obra-prima do neoconcretismo brasileiro" e agrega ao mesmo tempo o caráter formal e a relação com o público e trata da "dimensão social" da arte. "Não existe uma divisão entre o politicamente ativista e a rigidez formal. Sempre há uma urgência do artista em criar a partir de uma relação com a vida atual sem abandonar a pesquisa de visualidade", defende Volz, de 37 anos - há 5 ele é diretor artístico do Instituto Cultural Inhotim em Minas Gerais, o que explica sua proximidade com o Brasil.

A instalação inédita do carioca Cildo Meireles, "Pling Pling", de 2009, também é um grande destaque, no Arsenale. Seis salas coloridas, vibrantes e em sequência - roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho - têm cada uma em seu interior, numa das quinas de suas paredes, um monitor de TV onde está projetada a imagem filmada daquela mesma quina. Num momento inesperado, a cor do lugar projetado se transforma em outra e Cildo faz, na verdade, um sistema de contrastes - o espaço roxo fica com a tela amarela, o verde, com a tela vermelha, e assim por diante. O visitante vai passando por ele, sala a sala. "Talvez seja seu trabalho mais formal, mas é político também", diz Volz, lembrando também a relação com a pintura.

A Bienal de Arte de Veneza é a mais tradicional de todas. Nos pavilhões dos chamados Giardini, ficam as representações de cada país. A do Brasil, deste ano, selecionada pelo curador Ivo Mesquita, exibe fotografias do paraense Luiz Braga e pinturas do alagoano Delson Uchôa, jogando, nos dois casos, luz para certa poética da cor, chave da criação de ambos. Além da representação premiada, dos EUA, com mostra de Nauman, vale destacar o pavilhão da Polônia, com a videoinstalação Hóspedes, de Krzystof Wodiczko, sobre a imigração.

Mais Bienal de Veneza


Desfile de rua marca início da participação brasileira na Bienal de Veneza



por Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo


Com bailarinos no abre-alas, ao som de batuques, guitarras e programações digitais, o cortejo lembrava mais um bloco de Carnaval moderno brasileiro do que a festa dos mascarados venezianos, embora percorresse animadamente um pedaço da margem do canal de San Marco e dobrasse a rua Giuseppe Garibaldi, nas proximidades das duas principais áreas onde acontece a 53ª Bienal de Veneza --os Giardini e o Arsenale.
Marcos Augusto Goncalves/Folha Imagem

Os músicos Kassin (à esq.) e Arto Lindsay durante o desfile pelas ruas de Veneza

Quem liderava a coisa, na noite da última sexta (5), era o compositor, produtor e performer Arto Lindsay, na companhia do músico Kassin.

Nascido nos EUA, radicado no Brasil e casado com uma baiana, Arto formou-se nos círculos da cultura de vanguarda de Nova York e assinou a produção de discos de artistas brasileiros famosos, como Marisa Monte e Caetano Veloso. Ele foi convidado por Daniel Birnbaum, curador da Bienal, a apresentar um projeto. Decidiu-se por um desfile inspirado no Carnaval da Bahia.

Em 2004, Arto e o artista contemporâneo norte-americano Mathew Barney criaram uma espécie de bloco em Salvador. Depois disso, em 2008, também a convite de Birnbaum, ele apresentou um cortejo performático em Frankfurt (Alemanha), intitulado "I Am a Man". Em Veneza, a performance ganhou o nome de "Multinatural (Blackout)".

"Esse formato oferece várias possibilidades e cria relações interessantes. É musical, teatral e literário, parece uma ópera", disse Arto à Folha no sábado, sentado numa mesa do bar Paradiso, na entrada dos Giardini, onde se localizam os pavilhões nacionais que fazem parte da Bienal.

A coreografia foi criada por Richard Siegel, que trabalhou com bailarinos e estudantes de Veneza. Na parte musical, os principais nomes, além de Arto e Kassin, eram o baiano Marivaldo Paim, do bloco do Ilê, e os norte-americanos Melvin Gibbs e Peter Zuspan.

Como acontece no Carnaval, o desfile em Veneza foi arregimentando curiosos e animados que acompanharam o grupo ensaiando passos de dança e, principalmente, filmando e fotografando.

No mesmo dia, pela manhã, foi aberto o Pavilhão Brasileiro nos Giardini, com os artistas Delson Uchôa e Luiz Braga --e curadoria de Ivo Mesquita, responsável pela edição passada da Bienal de São Paulo.

A arte brasileira em Veneza tem ainda a participação de Renata Lucas, Sara Ramo e Cildo Meireles, no Arsenale, onde também foi montada a obra "Ttéia I", de Lygia Pape (1927-2004), premiada com uma Menção Especial pela Bienal.

domingo, 7 de junho de 2009

Bruce Nauman Wins Golden Lion at Venice Biennale

ArtForum 06.06.09

Bruce Nauman’s installation “Topological Gardens,” currently on view at the US pavilion and two other venues at the fifty-third Venice Biennale, has won the Golden Lion for Best National Participation. In its award citation, the Biennale stated that Nauman’s work “reveals the magic of meaning as it emerges through relentless repetition of language and form.” This is the first time since 1990 that an American artist has won the award. The international jury for the award comprised Jack Bankowsky, Homi K. Bhabha, Sarat Maharaj, Angela Vettese, and Julia Voss.

The jury also awarded Tobias Rehberger a Golden Lion for Best Artist of the exhibition for his piece in the Palazzo delle Esposizioni, and the Swedish artist Nathalie Djurberg a Silver Lion for Promising Young Artist. The jury also decided to assign four Special Mentions in the following categories: a mention for Remaking Worlds was given to the late Brazilian artist Lygia Pape for her work in the Arsenale; one for Curating Worlds was given to Michael Elmgreen & Ingar Dragset for their work as curators of the Danish and Nordic Pavilions; a mention for Expanding Worlds was given to Ming Wong for the Singapore Pavilion; and the artist Roberto Cuoghi received a mention under the category of Translating Worlds for his work Mei Gui in the Palazzo delle Esposizioni.


Lygia Pape recebe prêmio póstumo na Bienal de Arte de Veneza

efe

O júri da 53ª Bienal de Arte de Veneza concedeu neste sábado a Menção Especial "Remaking Worlds" ("Refazendo Mundos", em tradução livre) à artista fluminense Lygia Pape (1927-2004) em caráter póstumo.

Veneza revive "dolce vita" de luxo na Bienal de Arte

No prêmio de maior destaque, os EUA foram agraciados hoje com o Leão de Ouro pela Melhor Participação Nacional na bienal.

Além disso, a japonesa Yoko Ono e o americano John Baldessari receberão um Leão de Ouro cada, em homenagem a suas respectivas carreiras artísticas.

Segundo informou a organização do evento em comunicado, os EUA receberam o prêmio pela "energia constante e à precisão" do trabalho exibido em seu pavilhão por Bruce Nauman, cuja exposição é uma das mais visitadas entre as apresentações oficiais na cidade italiana.

"Sua obra revela a magia do significado enquanto emerge através de uma repetição implacável da linguagem e da forma", acrescenta.

O artista apresenta em Veneza "Topological Garden", uma obra que exibe corpos desmembrados e luzes de neon e que pretende dissolver os limites habitualmente estabelecidos para separar o espaço pessoal do social.

O Leão de Ouro para o Melhor Artista da Bienal de Arte de Veneza foi para o alemão Tobias Rehberger, por sua obra "Was du liebst, bringt dich auch zum Weinen", exibida no Pavilhão da Alemanha, enquanto que o Leão de Prata para a Jovem Promessa foi concedido a Nathalie Djurberg, por "Experimentet", exposta no Pavilhão da Suécia.

Também houve uma Menção Especial para o dinamarquês Michael Elmgreen e o norueguês Ingar Dragset, que surpreenderam os visitantes da bienal com o Pavilhão Nórdico, no qual é possível ver a obra "Death of a Collector" (2009), o colecionador de arte que flutua morto em uma piscina.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Obra de brasileira abre Bienal Internacional de Veneza


Lygia Pape está na entrada da mostra, que apresenta obras de mais 90 artistas, de 77 países.

Instalação feita com fios de ouro é da artista brasileira  Lygia Pape (1927-2004)

Instalação feita com fios de ouro é da artista brasileira Lygia Pape (1927-2004)

De Milão para a BBC Brasil - Uma obra da brasileira Lygia Pape (1927-2004) abre a Bienal de Artes de Veneza. A instalação feita com fios de ouro iluminados por spots presos ao teto é a primeira imagem que os visitantes encontram no principal evento de arte contemporânea do cenário internacional.

Diagonais e quadrados atravessam o espaço com se fossem feixes de luzes e representam o ápice da pesquisa tridimensional da brasileira. A obra está na entrada da mostra, nas margens do Grande Canal.

Depois da instalação da brasileira, em espaços que somam um total de 88 mil metros quadrados, estão expostas as obras de outros 90 artistas, de 77 países - um recorde de presença.

A bienal exibe desde a ousadia da projeção em uma parede das sombras de uma orgia até canteiros de peões de obras, em uma instalação que retrata o crescimento urbano das cidades, passando por esculturas feitas com pneus de bicicletas e espelhos de água que refletem a fotografia de uma montanha nevada.

A obra de Lygia Pape foi inserida como cartão de visitas porque expressa o título da Bienal deste ano, "Fazer Mundos", e reúne diferentes linguagens da arte, como o desenho, a instalação, a escultura e a pintura. A ideia é mostrar os trabalhos modernos e discutir a influência de gerações passadas.

"A mostra está ancorada na história da arte contemporânea graças à presença de artistas como Lygia Pape, Yoko Ono, Blinky Palermo. Elas são constantes fontes de inspiração para os artistas mais jovens. E em anos recentes estiveram sempre no centro de discussões acirradas dentro da comunidade artística", afirma o diretor Daniel Birnbaum, na apresentação da exposição.

"Pape trabalhou em diferentes campos da pintura, da escultura, da dança, foi uma das artistas mais inovadoras do seu tempo", acrescenta. A obra de Lygia Pape foi criada em 2002, mas serve como introdução para obras concebidas apenas para a Bienal.

Parada musical

Daniel Biernbaum, diretor sueco de 46 anos de idade, colocou no programa até mesmo uma parada musical, ao longo de várias ruas de Veneza, com o americano Arto Lindsay, radicado no Brasil.

"A mostra vai criar novas realidades artísticas, que deverão ir além das expectativas das instituições e do mercado", afirma.

Durante a Bienal, Veneza se transforma em uma imensa galeria a céu aberto. Para se chegar aos locais tradicionais da exposição, passa-se por um submarino artístico ancorado diante de um palácio do século 15, ou por uma escultura gigante de um cadeira que tem ao lado um pacote de cigarros.

Uma experiência interessante é caminhar pelo cais de Veneza, nas proximidades da Piazza San Marco, entre a beleza arquitetônica da cidade e a fila de iates de luxo. Entre um barco e outro, foi instalado um telão em que são exibidas imagens animadas de trânsito no asfalto, algo que não existe em Veneza.

Artistas das Ilhas Comores apresentam uma instalação bem característica. O pequeno arquipélago, localizado entre Madagascar e o continente africano, ancorou na frente dos Jardins um barquinho de madeira, com um enorme contêiner. Quem passa tem a impressão de que alguém ainda não terminou o trabalho de descarregar o material embarcado.

Mais à frente, o artista israelense Harush Shlomo navega em círculos com uma lancha-instalação, tendo em uma das mãos o timão e em outra uma vara de pescar com um peixe no anzol. O barco aparece, em parte, submerso, apenas a proa e a popa estão acima do nível do mar - e ninguém sabe se ele irá afundar ou não.

Suicida

Os pavilhões nacionais da mostra abrigam de tudo um pouco. O espaço da Finlândia exibe uma piscina em que o manequim de um homem flutua como se fosse o corpo de um suicida.

O pavilhão da Espanha apresenta as obras de Miquel Barceló - séries de pinturas sobre primatas, paisagem africana e espuma das ondas do mar impressionam pelo impacto visual. Em uma delas, gorilas solitários nascem de um pequeno ponto do quadro e, em perspectiva, ocupam toda a tela.

O espaço do Brasil apresenta para Veneza duas realidades com cores bem vivas: a de Maceió, com os quadros de Delson Uchoa, e a de Belém, com os painéis fotográficos de Luiz Braga. O pintor exibe telas armadas em superfícies inusitadas como lonas.

"Qualquer brasileiro sente a vaidade de representar o seu país, ainda mais sendo nordestino. Na minha obra, eu trato a cor e a luz que é o Brasil no seu estado puro", disse Braga à BBC Brasil. "É um testemunho de que (o país) vive no círculo luminoso do planeta. O público percebe a nossa identidade calorosa, algo que não poderia acontecer na Sibéria."

Já as fotografias de Luiz Braga "pescam" o visitante pelos tons suaves com os quais ele conta a realidade amazônica.

"Eu nunca imaginei ver uma visitação tão diversa e constante aqui em Veneza. Gente do mundo inteiro esta vindo aqui. Eu trouxe o Brasil longe dos estereótipos", diz o fotógrafo.

"A minha fotografia privilegia o Brasil natural, a brasilidade da rotina das pessoas e não aquela dos índios, do carnaval, do gringo, aquilo não me interessa", acrescenta Braga, diante do painel de um barco cheio de redes que navega durante a noite pelos rios da Amazônia. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Bienal de Arte de Veneza privilegia novas formas artísticas


MIGUEL CABANILLAS
da Efe, em Veneza

Em sua 53ª edição, a Bienal de Arte de Veneza procura conservar o mesmo magnetismo do evento, patente nesta quinta-feira na apresentação da Bienal no discurso do diretor da mostra, o sueco Daniel Birnbaum, que deu início a três dias de atos e inaugurações oficiais até a grande abertura ao público, que acontecerá no domingo.

O que poderá ser visto no festival, acrescentou, são coisas novas, embora seu conceito não seja de todo novo, segundo Birnbaum. "As obras se apresentam em diálogo com este belo lugar, cujo centro será a arte em si mesmo, o mundo que os artistas criaram", afirmou o sueco.

Sob o título de Fare Mondi ("Criar Mundos"), a 53ª edição da Bienal de Arte de Veneza oferecerá a especialistas e visitantes a possibilidade de ter acesso à obra dos máximos representantes da arte contemporânea de 77 países e de mais de 90 artistas.

Nesta sexta-feira o destaque é o Pavilhão Latino-americano, que apresentará oficialmente as propostas artísticas de Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Peru, República Dominicana e Costa Rica.

Outros países têm pavilhões próprios, entre eles Brasil, Chile, Uruguai, Venezuela, Argentina e México. Eles representam uma arte latino-americana que faz com que, neste vai-e-vem de artistas e especialistas no qual a cidade italiana se transformou, se ouça muito português e espanhol.

Veneza é, desde hoje, sinônimo de arte. Dentro disso também se encontra a comunidade autônoma espanhola da Catalunha, que participa com uma instalação própria na seção dos Eventi Collaterali, que será apresentada oficialmente amanhã pelo vice-presidente regional, José Luis Carod-Rovira.

"O título da mostra, Fare Mondi, expressa meu desejo de enfatizar o processo de criação. Uma obra de arte representa uma visão do mundo e, se levada a sério, pode ser vista como um modo de criar um mundo", declarou Birnbaum.

Ferramentas que vão desde as composições audiovisuais até as criações de luz, passando por técnicas mais tradicionais como a pintura ou a cerâmica, suportes com os quais Barceló trabalhou e que são os protagonistas do Pavilhão da Espanha.

Neste sentido, o comissário do Pavilhão espanhol, Enrique Juncosa, diretor do Museu Irlandês de Arte Moderna de Dublin (IMMA), disse hoje que é pouca a pintura que decora as paredes da Bienal de Arte, fruto, afirmou, das decisões dos responsáveis das exposições.

Nestes três dias que antecedem a abertura ao público da Bienal de Arte também haverá tempo para a entrega de prêmios, como o Leão de Ouro à carreira da japonesa Yoko Ono, que acontecerá no sábado.

Bienal de Veneza chega à sua 53ª mais enxuta e renovada



por Mário Gioia da Folha de S.Paulo

A Bienal de Veneza, mais tradicional exposição de artes do mundo, chega à sua 53ª edição mais enxuta e renovada. Tendo à frente o sueco Daniel Birnbaum, 46, o curador mais jovem da história do evento, a seção principal da Bienal terá 90 artistas, além das 77 representações nacionais. Com entrada para o público do próximo domingo a 22 de novembro, a abertura especial para convidados se estende desta quinta-feira (5) a sábado.

Tudo bem mais discreto que a exposição anterior, em 2007, quando o curador norte-americano Robert Storr se orgulhava de destacar que comandava a maior edição da Bienal, com cerca de 500 artistas, entre os exibidos no Arsenale (uma antiga fábrica de cordas) e nos Giardini (onde os países mantêm seus pavilhões).

O recorte de Veneza parece ser mais experimental que o anterior. Storr assinou uma edição considerada por alguns críticos como "museológica", contando com nomes já consagrados em alguns dos principais espaços da mostra.

Já Birnbaum e seu cocurador, o alemão Jochen Volz, privilegiaram artistas com uma obra mais experimental, mesmo sendo de gerações diversas. A seleção vai desde nomes jovens, como a hispano-brasileira Sara Ramo, 34, a medalhões como John Baldessari, 77, e Yoko Ono, 76. Esses dois ganharão o prêmio máximo da Bienal, o Leão de Ouro.

Em entrevista à Folha por e-mail, Birnbaum e Volz dizem que a pluralidade pretendida na mostra é refletida já no seu título: "Fare Mondi, Making Worlds, Bantin Duniyan, Weltenmachen, Construire des Mondes, Fazer Mundos...".

"Um conceito para uma exposição grande como a Bienal de Veneza tem de ser amplo e generoso. Não pode funcionar como tema a ser ilustrado por meio de obras de arte -precisa suscitar perguntas ou conferir um espírito ao projeto como um todo", conta Birnbaum.

"O título desta Bienal é "Fazer Mundos" no maior número possível de línguas. Tem conotações bem diferentes em cada língua. No inglês, por exemplo, ela traz um sentido de trabalho artesanal; já em alemão, soa um pouco bombástico."

Volz, curador convidado da 27ª Bienal de São Paulo (2006) e curador licenciado do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), também destaca o caráter multicultural do evento.

"Em um mundo que tende a ficar cada vez mais homogêneo, é importante apontar para o pluralismo, com todos os problemas de tradução que o acompanham", diz Volz. "Mas não enxergamos nossa exposição como reação a bienais anteriores, embora tenhamos consciência dessa história."

Reformas

A curadoria de Veneza criou novos espaços para tentar surpreender o mundo da arte que passa pela cidade nesses dias. O Pavilhão Italiano, nos Giardini, ganhou novo nome --Palazzo delle Esposizioni--, foi ampliado em 1.000 m2 e vai servir de plataforma para eventos de áreas diversas, como cinema, arquitetura e dança.

Entre os pavilhões nacionais, artistas de peso exibirão obras, como Bruce Nauman (pelos EUA) e Steve McQueen (pelo Reino Unido). Haverá também novidades, principalmente vindas da estreia de países entre as representações, como Montenegro, Mônaco e Gabão.

"Em uma Bienal, é claro que esperamos ver coisas novas. Mas é de suma importância ter consciência de que a arte não é reinventada a cada dois anos", afirma Volz. "Com alguns artistas, você só se dá conta de sua relevância real depois de alguns anos ou décadas."