sábado, 17 de outubro de 2009

Fogo destrói boa parte das obras de Hélio Oiticica no Rio

Família do pintor, falecido em 1980, estima prejuízos de cerca de US$ 200 milhões com as obras destruídas Um incêndio destruiu, no final da noite de sexta-feira, 16, na região do Jardim Botânico, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio, parte da residência do pintor e arquiteto César Oiticica, irmão do pintor, escultor e artista plástico Hélio Oiticica, que morreu em 1980 aos 42 anos.

Cerca de 2 mil obras foram destruídas. Prejuízo estimado é de 200 milhões de dólares

Na casa estavam cerca de 2 mil obras do artista. "Perdemos cerca de 200 milhões de dólares, mas esse não é o valor principal, o valor em dinheiro não significa nada. E uma perda que o mundo inteiro irá lastimar. A cultura brasileira ficou ferida. Eu me sinto pessimamente", disse César em entrevista à Rádio CBN. Viaturas do quartel de Humaitá foram deslocadas para a residência, mas ainda não se sabe o que teria causado o incêndio, que começou no primeiro andar da casa. Segundo a família, os bombeiros demoraram para chegar na casa e começar o combate ao fogo.

Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiro

Um incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.

O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.

Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.

Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.

Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.

Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.

A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.

Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.

Parangolé

Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.

Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".

Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.

Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.

Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.

No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

7ª Bienal do Mercosul abre nesta sexta - 16/10


7ª Bienal do Mercosul leva trabalhos de mais de 200 artistas ao Rio Grande do Sul


Começa nesta sexta-feira (16) e vai até 29 de novembro a Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre (RS). Em sua sétima edição, o evento apresenta trabalhos de mais de 200 artistas de diversos países, como Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, EUA, França, México, Suíça, Reino Unido, Uruguai e Venezuela.

Detalhe de "In Out (Antropofagia)", de Anna Maria Maiolino

O objetivo da edição deste ano da Bienal do Mercosul é a ênfase nos processos de criação, mais do que em temas específicos - daí o tema "Grito e Escuta".

Tendo como curadores-gerais a argentina Victoria Noorthoorn e o chileno Camilo Yáñez, a Bienal gaúcha traz 60% de trabalhos inéditos, produzidos especialmente para as exposições previstas na programação.

Exposições

Serão sete exposições ao todo. "Biografias Coletivas" se propõe a apresentar obras criadas a partir de uma biografia pessoal e a refletir sobre aspectos da sobrevivência, da reprodução e do prazer.

"Ficções do Invisível" reúne artistas que colocam em cena sua própria relação com o processo artístico, onde temas como o questionamento interno e a relação entre obra e vida privada são abordados.

A mostra "Absurdo", por sua vez, opera sobre a estranheza e a ideia de instabilidade e convida o público a pensar sobre os limites formais de mostras de arte.

Como o próprio nome sugere, "Texto Público" ocorrerá, em sua maior parte, no espaço público de Porto Alegre, com trabalhos iluminados que tornarão visíveis pontos estratégicos da cidade e um programa de rádio que promete estimular a participação popular.

"A Árvore Magnética" comentará a prática artística com obras construtivas (trabalhos que somam elementos) e destrutivas (nas quais há subtração de partes), ao passo que "Projetáveis" abordará trabalhos "projetáveis" em seus vários sentidos: o projetável como o imaginado, aquilo que cria novos públicos ou aquilo que representa um território, como na cartografia.

Por fim, dentro da série de mostras da 7ª Bienal do Mercosul, "Desenho das Ideias" vai explorar a linguagem das performances e abusar de referências de imagens físicas, mentais, sonoras e verbais.

SERVIÇO

7ª BIENAL DE ARTES VISUAIS DO MERCOSUL - GRITO E ESCUTA

Quando: de 16 de outubro a 29 de novembro de 2009
Horário: de terça a domingo, das 9h às 21h
Onde:
Armazéns do Cais do Porto - Av. Mauá, 1050, Centro, Porto Alegre
- "Absurdo" (entradas A3 e A4)
- "Ficções do Invisível" (A4)
- "Biografias Coletivas" e "Texto Público" (A5)
- "Árvore Magnética" (A6)
Santander Cultural - Rua Sete de Setembro, 1028, Centro, Porto Alegre
- "Projetáveis"
MARGS - Museu de Artes do Rio Grande do Sul - Praça da Alfândega, s/nº, Centro, Porto Alegre
- "Desenho das Ideias"
Quanto: entrada franca. Agendamento para grupos no 0xx51 3433-7686. Mais informações no site www.bienalmercosul.art.br


ARTE CONTEMPORÂNEA NA CASA BRANCA



No passado, presidentes norte-americanos como Kennedy sempre escolheram retratos antigos para decorar a Casa Branca. No entanto, com Obama, sopram ventos de mudança na seleção das obras que irão embelezar a casa presidencial.

As obras, desde a bailarina de bronze de Degas até às pinturas de palavras de Ed Ruscha, vêm da National Gallery of Art, do Hirshhorn Museum, do Sculpture Garden e do Smithsonian American Art Museum.

I Think I'll..., 1983, óleo sobre tela.

O Presidente americano, Barack Obama, queria algumas grandes obras de arte moderna e contemporânea, segundo afirmou Henry Cooper, senior curator na National Gallery, que trabalhou em colaboração com o curador da Casa Branca, Bill Allman, para fazer estas importantes instalações.

A coleção de obras está focada em alguns dos grandes nomes da pintura americana do pós-guerra, de Rothko e Diebenkorn a Edward Corbett, ou artistas mais contemporâneos como Ed Ruscha e Susan Rothenberg.

Obras como I Think I’ll (1983) e Maybe no, maybe yes de Ruscha são muito importantes porque representam este momento histórico dividido entre esperança e incerteza. Será que Obama representa uma mudança importante? Bom, pelo menos no que diz respeito à arte da Casa Branca, sim.

Arte brasileira busca consolidar prestígio no mercado internacional



Quando a Bienal do Mercosul abrir suas portas nesta sexta-feira em Porto Alegre, galeristas brasileiros estarão de olho no colecionador estrangeiro. Para especialistas, vários indicadores sugerem que a arte brasileira viveria hoje seu momento de maior prestígio da história.

De acordo com Tanya Barson, curadora de arte latino-americana da galeria britânica Tate Modern, a arte brasileira tem hoje um impacto muito mais amplo no circuito internacional do que em qualquer outro momento de sua história.
A colecionadora e diretora da feira internacional de arte de São Paulo (SP Arte), Fernanda Feitosa, concorda. Ela diz que, desde que o evento foi criado, há cinco anos, o número de galerias participantes dobrou, e o público também.

E lembra que um dos marchands mais famosos do mundo, o britânico Jay Joplin, esteve na SP Arte em abril desse ano. "Achei muito sintomático que o Jay Joplin, ícone da arte dos anos 90, tenha dedicado uma semana da agenda dele ao Brasil".
A presença de Jay Joplin - dono da galeria londrina White Cube e figura-chave nas carreiras de Damien Hirst e outros grandes nomes da arte britânica - na SP Arte também chamou a atenção do jornal alemão DieWelt.

Também em abril, o jornal publicou uma reportagem afirmando que a arte do Brasil teria alcançado reputação sem precedentes no mundo.
Como evidências do fenômeno, o Welt citou, além da visita de Jay Joplin à SP Arte, a exposição do brasileiro Cildo Meireles na galeria britânica Tate Modern, ano passado (um recorde de audiência) além da presença de cada vez mais obras do Brasil no acervo da galeria.
Obra 'Desvio para o Vermelho - 1967- 84', de Cildo Meirelles

O valor das obras no mercado internacional, disse o jornal, também estaria subindo.
Fatores Econômicos
Para o professor de História da Arte Contemporânea da Unicamp Nélson Aguilar, curador geral da 22ª e 23ª bienais de São Paulo e da 4ª Bienal do Mercosul, existe mesmo um maior reconhecimento da arte brasileira no exterior.

Ele disse à BBC Brasil que a emergência do país no cenário econômico internacional tem influência nisso. E apontou para o crescente interesse pela arte de outros integrantes do grupo dos Bric, como Índia e China.
Aguilar acredita, no entanto, que no caso do Brasil o reconhecimento de hoje não se explica apenas por fatores econômicos.

"Artistas contemporâneos como Ernesto Neto e Beatriz Milhazes só são interessantes porque estão ligados organicamente ao que veio antes. Uma cultura só se universaliza quando os artistas dela são filhos de artistas da mesma cultura."
O especialista está se referindo a uma linhagem que inclui, mais atrás, artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Mira Schendel.

"Nos anos sessenta, nós sabíamos que o Oiticica era um gênio, e que a Lygia Clark e a Mira Schendel estavam fazendo um trabalho importantíssimo. Víamos esses artistas passarem batidos no exterior mas sabíamos que a visão da crítica estrangeira era eurocêntrica e restrita".
Aguilar diz que a Inglaterra, no entanto, sempre foi mais aberta. E lembra as exposições pioneiras desses três artistas nas galerias Signals e Whitechapel, em Londres, nos anos 60.

Identidade


Tanya Barson tem uma interpretação diferente.

"Eu não diria que o mundo das artes britânico fosse tão iluminado a ponto de reconhecer a importância daquelas carreiras naquele período. A Tate, por exemplo, não comprou obras desses artistas, com exceção de uma, de Sérgio Camargo, naquela época".

"A situação é completamente diferente hoje e o mundo está reconhecendo quão imensamente significativa é a arte brasileira, tanto em termos de sua produção contemporânea quanto em sua história recente".

Ela cita como exemplo o trabalho do carioca Cildo Meireles.
"O trabalho dele tem substância, consistência e rigor intelectual e ele é um dos mais importantes artistas vivos. Estava mais do que na hora de ele ser tema de uma exposição de grande porte, como a feita pela Tate."

Barson fala com paixão da arte do Brasil, um país que ela visita regularmente porque, nas palavras dela, "a Tate não pode deixar de ficar atenta à produção de jovens artistas emergindo hoje no Brasil".

"Artistas brasileiros se relacionam com a arte moderna de uma maneira totalmente única, inovam e dialogam muito bem com arte européia e americana, mas fazem algo completamente distinto. Eles não só podem ser incorporados, como também desafiam o cânon da história da arte que contamos".

Hoje a Tate Modern tem em seu acervo obras de mais de 20 artistas brasileiros, entre eles Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel, Cildo Meireles, Ana Maria Pacheco, Vik Muniz, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Fernanda Gomes, Sérgio Camargo e Leonílson.

Sem Consenso

Alguns, como a artista paulistana Mariannita Luzzati, são mais céticos em relação à posição da arte brasileira no mundo hoje.

Luzzati vive parte do tempo na Inglaterra e exibe seu trabalho regularmente no Brasil e no exterior. Ela é representada por galerias nos dois países. Em 2001, dois de seus quadros foram comprados pelo Museu Britânico, em Londres.
"Tenho certeza de que se tivesse nascido e estudado na Inglaterra, estaria melhor hoje do que sendo brasileira na Inglaterra", ela disse à BBC Brasil.

A artista disse ter observado um interesse um pouco maior por parte da Tate em adquirir alguns artistas brasileiros, mas acha que, quando se trata de competir no mercado internacional, a arte do Brasil ainda está "engatinhando".

Luzzati faz uma lista dos velhos problemas que afligem o setor: falta de investimento público na divulgação da arte brasileira no exterior, despreparo dos museus, e, também, o perfil do colecionador brasileiro.
"A maioria dos colecionadores no Brasil compra como um sinal de status e prefere o artista que está fazendo sucesso na Inglaterra ou nos Estados Unidos, porque ele dá mais status do que o brasileiro".

"Eu espero que o Brasil seja a bola da vez, que a arte brasileira estoure como estourou a arte chinesa, mas no caso da China, antes do investimento estrangeiro, houve milhares de colecionadores chineses investindo em chineses".

Números


Se nos basearmos em números, a idéia de que o Brasil seja mesmo a bola da vez no mercado internacional de arte se torna um sonho distante: as obras brasileiras ainda não atingiram os valores milionários alcançados por trabalhos de pesos pesados da arte contemporânea mundial.

Para a diretora da SP Arte Fernanda Feitosa, isso pode na verdade aumentar os atrativos da arte brasileira.
"Um quadro da Beatriz Milhazes aqui na feira estava sendo vendido por US$ 500 mil", disse Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, à BBC Brasil. "Um Cildo Meireles não custa a mesma coisa que um artista comparável a ele no mercado internacional. Então ainda existe muito espaço para uma valorização da arte brasileira. Você não está comprando no topo".

Uma pessoa poderia talvez ajudar a fechar esse debate mas, famosamente, não dá entrevistas.
Apesar de várias solicitações da BBC Brasil, o lendário galerista e investidor britânico Jay Joplin não estava disponível para explicar o que foi fazer no Brasil em abril deste ano.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Instalação imita buraco negro na Tate Modern

Câmara de 30 metros de artista polonês Miroslaw Balka cria enorme espaço de escuridão


Exibição da câmara vai até o dia 5 de abril de 2010 no Tate Modern

Exibição da câmara vai até o dia 5 de abril de 2010 no Tate Modern


A instalação "How It Is", (Como É, em tradução-livre) foi aberta ao público nesta terça-feira no museu Tate Modern, em Londres. A enorme instalação ocupa o Turbine Hall, o espaço de exposições na entrada do museu.

Ao entrar na enorme câmara de metal, que tem 30 metros de comprimento por 10 metros de largura, os visitantes têm a impressão de estar entrando em um buraco negro. "É tudo e nada, de certa forma", diz o artista polonês Miroslaw Balka, criador da obra. "Quando decidi fazer a escultura eu realmente não sabia sobre o que ela seria."

Segundo ele, seu trabalho é também sobre a sensação de se familiarizar com uma situação que no início parece estranha, mas que depois se torna normal, menos assustadora.

Ao entrar na escultura, o visitante, que não enxerga quase nada, tem os outros sentidos aguçados, podendo prestar mais atenção no eco de seus passos ou na textura aveludada das paredes.

Os organizadores da exposição dizem que funcionários com lanternas irão patrulhar a escultura para ajudar visitantes que possam entrar em pânico por cauda da escuridão.

Esta é a décima instalação anual da série Tate Unilever. Nos anos anteriores, as exposições incluíram uma enorme fenda, criada por Doris Salcedo e também uma série de slides gigantes do artista belga Carsten Holler. A instalação "How It Is" ficará em cartaz na Tate Modern até o dia 5 de abril de 2010.

GUGGENHEIM ANUNCIA FINALISTAS PARA HUGO BOSS PRIZE 2010



A Solomon R. Guggenheim Foundation selecionou os seis finalistas para o seu Hugo Boss Prize 2010. O prêmio de 100 mil dólares, oferecido a cada dois anos pela marca alemã de roupa masculina, é indicado a artistas que tenham realizado trabalhos de importante contribuição para a arte contemporânea.

Ao contrário de muitos prêmios artísticos, este não tem restrições de idade ou nacionalidade, os finalistas são frequentemente uma mistura de figuras internacionais, o que se verifica também este ano. “O fato de haver artistas do Oriente Médio e Ásia reflete como continuamos a aprender cada vez sobre arte por todo o mundo”, disse Nancy Spector, curatora chefe da fundação e presidente do júri – composto por seis pessoas.

A lista deste ano é uma lista ecléctica que se inclina fortemente para artistas conceituais e performaticos. Não inclui nenhum pintor. Os finalistas são o artista chinês Cao Fei; o artista alemão Hans-Peter Feldmann; a artista conceptual estabelecida em Berlim Natascha Sadr Haghighian, ; Roman Ondak, artista eslovaco que representou o seu país na Bienal de Veneza de 2009; o artista libanês Walid Raad; e o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Desde a sua criação em 1996, o Hugo Boss Prize foi atribuído ao artista americano Matthew Barney (1996), ao artista escocês Douglas Gordon (1998), a artista eslovena Marjetica Potrc (2000), ao artista francês Pierre Huyghe (2002), ao artista tailandês Rirkrit Tiravanija (2004), a artista britânica Tacita Dean (2006), e a artista palestina Emily Jacir (2008).

Disponível em: www.artforum.com

Veja abaixo imagens de obras dos finalistas de 2010:


Obra do artista Cao Fei


Obra do artista Hans-Peter Feldmann


Obra da artista Natascha Sadr Haghighian


Obra do artista Roman Ondak


Detalhe de uma obra de Walid Raad & Atlas Group




Trailer do filme Síndrome do Século do cineasta Apichatpong Weerasethakul



Ai Weiwei: Artista chinês questiona "cultura da desculpa" em Munique

fonte: DW-World

Ai Weiwei é considerado o principal artista chinês da atualidade. Nesta semana, foi aberta em Munique sua esperada mostra "So Sorry", em que denuncia o vazio de significado dos pedidos de desculpa de governos e empresas.

Weiwei pintou vasos neolíticos com tinta industrial

Na última documenta, Ai Weiwei levou 1.001 chineses a Kassel através do projeto Conto de Fadas. Os chineses fizeram parte da exposição e suas vivências, parte da arte. Foi o maior projeto já realizado para a documenta de Kassel.
Em sua nova exposição So Sorry (sinto muito), aberta ao público nesta segunda-feira (12/10) em Munique, Weiwei faz alusão a milhares de pedidos de desculpas apresentados por governos e empresas a fim de expressar seu pesar por tragédias e erros cometidos, sem a preocupação de admiti-los ou repará-los, explica o blog que acompanha a exposição.

Pedidos de desculpas estão nas manchetes de todos os lugares, inclusive da China, comenta o blog. No entanto, a expressão "desculpa" passou a ter um sentido de "estou pouco me lixando", sinalizando que já é tarde demais para reparar um erro. Será preciso desenvolver uma nova "cultura da desculpa" para expressar nosso pesar, questionam os organizadores da mostra.
Três anos se passaram desde o surgimento da ideia até a realização da exposição. "Nós temos que deixar um comentário sobre as coisas ruins no nosso mundo, senão nos tornamos parte delas", afirmou Weiwei na última sexta-feira. So Sorry poderá ser visitada até 17 de janeiro próximo no museu Haus der Kunst em Munique.

Recontextualizando objetos

Instalações 'Soft Ground' e 'Rooted Upon' em Munique

Na produção de suas obras, Weiwei frequentemente se apropria de objetos – antiguidades chinesas, por exemplo, árvores ancestrais, raízes ou artefatos espirituais – para então modificá-los.
Também em So Sorry diversos trabalhos explicitam a ideia de Ai Weiwei de destruir ou modificar o uso de antiguidades preciosas, recolocando-as em um contexto totalmente novo. Weiwei imergiu simplesmente cinco vasos neolíticos, produzidos entre 3000 a.C. e 5000 a.C, em tinta industrial para dar-lhes um visual de linha de produção. da mesma forma, destruiu urnas da Dinastia Han (cerca de 200 a.C-200 d.C), jogando-as sobre o calçamento de pedra.

Piso suave

Mochilas lembram mortos em terremoto

Além de conhecidos trabalhos que empregam diversas mídias, a exposição em Munique traz duas novas obras que Weiwei realizou exclusivamente para a Haus der Kunst. O tapete Soft Ground (piso suave) cobre 380 metros quadrados do espaço de exposição.

O padrão do tapete de lã reproduz fielmente as 989 pedras do piso original, sobre o qual o tapete foi posicionado – incluindo os traços deixados por 70 anos de exposições. Cada pedra foi fotografa e sua posição, registrada. O tapete foi tecido a mão na província chinesa de Hebei.
Sobre o tapete, Weiwei posicionou sua gigante instalação de troncos de árvores Rooted upon (enraizados acima), que o artista realizou recentemente.

Dando nome às vítimas

Weiwei foi operado em Munique após ser agredido pela polícia na China

Em Remembering (lembrando), outra instalação produzida especialmente para a exposição em Munique, 9 mil mochilas escolares em cinco diferentes cores foram penduradas na fachada do prédio da exposição em memória às vítimas do terremoto que abalou a província chinesa de Sichuan em 2008.
Os caracteres chineses resultantes da distribuição das mochilas na superfície de 100 x 10 metros da fachada formam a frase com a qual a mãe de uma das vítimas relembrou sua filha: "Durante sete anos, ela viveu feliz nesse mundo".

Com a ajuda de uma equipe de voluntários e contra a resistência do governo chinês, Ai Weiwei pesquisou os nomes das vítimas, entre elas 5 mil crianças em idade escolar, e os publicou em seu blog, que já foi bloqueado diversas vezes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"A arte nas feiras é fraudulenta", diz crítica americana


Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

No próximo dia 15, o circuito internacional do mundo das artes migra para Londres, onde ocorre a feira de arte Frieze, considerada uma das três mais importantes do planeta, junto com Art Basel, na Suíça, e Art Basel - Miami Beach, nos EUA.

Com 150 expositores, cinco deles brasileiros (Fortes Vilaça, Casa Triângulo, Gentil Carioca, Luisa Strina e Vermelho), o que se vê nelas, segundo a crítica americana Rosalind Krauss é, simplesmente, uma "fraude".

Feira Frieze, em Londres, no ano passado

"Eu acredito que a arte promovida nas feiras de arte internacionais é fraudulenta", escreveu à Folha Krauss, que irá abrir, no próximo dia 25, o 3º Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes. Ela ministrará a palestra "Reconfigurações no Sistema da Arte Contemporânea". Ainda há vagas para o simpósio.

Há exatos 30 anos, Krauss, 67, publicava um dos mais célebres ensaios sobre arte contemporânea, "A Escultura no Campo Expandido", na revista "October", que ajudara a fundar, em 1976, após ter se firmado como crítica na "Artforum".

No texto, a autora apontava para uma nova forma de realização escultórica para além dos parâmetros modernistas, ruptura histórica que teria sido feita por artistas como Robert Morris, Robert Smithson, Richard Serra, Walter De Maria e Bruce Nauman, entre outros.

No Brasil, a autora, que é professora da Universidade Columbia, em Nova York, desde 1992, tem publicado os livros "O Fotográfico", "Caminhos da Escultura Moderna" e "Papéis de Picasso".

Sua produção mais recente, contudo, de 2004, a antologia "Art Since 1900" (arte desde 1900), realizada em conjunto com Hal Foster, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh, ainda não foi traduzida. Ao rever a história da arte no século 20, o livro tem o feito inédito de acrescentar os brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark como protagonistas da cena artística.

Curiosamente, no entanto, Krauss não considera familiar a produção nacional: "Estou ansiosa com minha visita como uma oportunidade em conhecê-la", relatou ela.

Na troca de e-mails com a reportagem, Krauss, que também atua como curadora, contou que a influência do mercado na produção contemporânea será o tema central de sua conferência. Condena as feiras, pois "são puro espetáculo, envolvendo o observador com uma atmosfera sedutora sem demandar atenção ou trabalho por parte do visitante para analisar a habilidade que um trabalho tem em criar significados".

As críticas da norte-americana não se restringem às feiras mas também às "instalações", como são chamadas obras imersivas, onde o público participa de forma coletiva, defendidas pela estética relacional, conceito criado pelo curador francês Nicolas Bourriaud.

"Ao se mover da experiência privada de um trabalho para uma coletiva, a estética relacional simplesmente segue a análise de Marshall MacLuhan em "A Galáxia de Gutenberg", que descreve a superação da privacidade na leitura de um livro pela atividade coletiva de se assistir televisão, o que nós podemos chamar de espetáculo."

A espetacularização da arte, torna-se assim um dos temas que Krauss irá abordar no simpósio. No entanto, a crítica parafraseia Catherine David, curadora da 10ª Documenta, em Kassel, na Alemanha, para afirmar ainda que não crê "na pureza ou na oposição ontológica entre arte e mídia".

"Catherine disse que busca organizar mostras como se fossem filmes, e que quem ainda acredita no "cubo branco" é ingênuo ou estúpido", destaca Krauss. O "cubo branco" é uma expressão desenvolvida pelo crítico Brian O'Dogherty para a galeria, comercial ou de um museu, representar a garantia da autonomia de uma obra de arte, ou seja, sua total separação do mundo fora dele.

Finalmente, como alternativas oferecidas pela arte no início do século 21, Krauss conta que irá abordar o trabalho de artistas como o alemão nascido na República Tcheca Harun Farocki, o norte-americano Christian Marclay e o sul-africano William Kentridge, todos eles vinculados de certa forma ao cinema, e a francesa Sophie Calle, que recentemente mostrou sua instalação "Cuide de Você" em São Paulo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Panorama da Arte Brasileira 2009

Panorama da Arte Brasileira reúne estrangeiros neste ano

Segundo curador, exposição é 'da arte, não dos brasileiros'; Caetano Veloso e Niemeyer foram insipração

O Panorama da Arte Brasileira, realizado há 40 anos pelo MAM, reúne cerca de 30 artistas nesta edição. Mas, apesar da proposta de mostrar a produção nacional, apenas dois deles são brasileiros.
"O panorama é da arte e não dos artistas brasileiros", defende o curador Adriano Pedrosa. Entre os temas verde-amarelos que inspiraram os artistas internacionais estão referências a Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer. Um exemplo é a obra ‘Aqui Tudo Parece Que Ainda é Construção e Já é Ruína’, do britânico Cerith Wyn Evans, feita a partir da canção ‘Fora da Ordem’, de Caetano Veloso. A frase é escrita com fogos de artifícios queimados. O nome da edição 2009, ‘Mamõyguara Opá Mamõ Pupé’, significa, em tupi, ‘estrangeiros em todo lugar’. Bem apropriado.

SERVIÇO


MAM - Parque do Ibirapuera
Onde: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 3. Tel: 5085-1300
Quando: A partir de domingo, 4, até 20/12. Das 10h às 17h30. Fecha às segundas-feiras
Quanto: R$ 5,50. Grátis aos domingos

Panorama da Arte Brasileira 2009

Panorama da Arte Brasileira reúne estrangeiros neste ano

Segundo curador, exposição é 'da arte, não dos brasileiros'; Caetano Veloso e Niemeyer foram insipração

O Panorama da Arte Brasileira, realizado há 40 anos pelo MAM, reúne cerca de 30 artistas nesta edição. Mas, apesar da proposta de mostrar a produção nacional, apenas dois deles são brasileiros.
"O panorama é da arte e não dos artistas brasileiros", defende o curador Adriano Pedrosa. Entre os temas verde-amarelos que inspiraram os artistas internacionais estão referências a Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer. Um exemplo é a obra ‘Aqui Tudo Parece Que Ainda é Construção e Já é Ruína’, do britânico Cerith Wyn Evans, feita a partir da canção ‘Fora da Ordem’, de Caetano Veloso. A frase é escrita com fogos de artifícios queimados. O nome da edição 2009, ‘Mamõyguara Opá Mamõ Pupé’, significa, em tupi, ‘estrangeiros em todo lugar’. Bem apropriado.

SERVIÇO


MAM - Parque do Ibirapuera
Onde: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 3. Tel: 5085-1300
Quando: A partir de domingo, 4, até 20/12. Das 10h às 17h30. Fecha às segundas-feiras
Quanto: R$ 5,50. Grátis aos domingos

Pipilotti Rist

O Paço das Artes (tel. 0/xx/ 11. 3814-4832), na USP, inaugura nesta segunda-feira, às 20h, um panorama da produção da artista suíça, expoente da videoarte mundial. Em paralelo, o Museu da Imagem e do Som (tel. 0/ xx/ 11/ 2117-4777) exibe a sua videoinstalação "A Liberty Statue for London" (2005).

saiba mais...

Gonzalez-Foerster: Biblioteca perde as prateleiras


Por Randy Kennedy



A Sociedade Hispânica da América, a jóia solitária de um museu no norte de Manhattan, geralmente é visitada -quando é- por interessados em sua coleção de pinturas de Goya, El Greco e Velázquez reunida por seu fundador, o herdeiro de estradas de ferro e acadêmico Archer Milton Huntington. Mas a sociedade também possui uma das melhores bibliotecas do mundo de material relativo a Espanha, Portugal e Américas.


Dominique Gonzalez-Foerster. Untitled (Atlantic), 2009.
Color photograph. Courtesy the artist.

O acervo -cartas, romances, mapas, cartas de navegação, contratos de casamento (incluindo um de 1476 da filha mais velha de Fernando e Isabel), catecismos, tratados científicos e outros documentos que datam até do século 12- preenchem um andar enorme do museu. Quando a artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster visitou essas estantes no porão pela primeira vez, dois anos atrás, a impressão que a dominou imediatamente foi "essa sensação de Cidadão Kane, Xanadu", ela disse por telefone de Paris, onde vive e trabalha durante parte do ano. Sentada entre as prateleiras, ela começou a imaginar uma espécie de biblioteca paralela.


E, nos últimos meses, com a ajuda de uma equipe de pintores e dos bibliotecários da sociedade, criou uma. "Chronotopes & Dioramas", exposição de Gonzalez-Foerster que faz parte da parceria temporária da Dia Art Foundation com a Sociedade Hispânica, foi inaugurada recentemente em um espaço anexo à sociedade, em Nova York.


A obra apresenta uma fantasia meticulosa de uma biblioteca em que as prateleiras se tornaram obsoletas, e os livros, como exemplos de criaturas vivas, são exibidos em dioramas (vitrines) ilusionistas que lembram os do Museu Americano de História Natural dos EUA.
Franz Kafka, J.G. Ballard, Adolfo Bioy Casares e Gertrude Stein se encontram agrupados nas profundezas do Atlântico Norte, como autores que Gonzalez-Foerster considera elos entre a Europa e as Américas. 


Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño se fazem companhia no deserto. E Paul Bowles, Elizabeth Bishop e o poeta brasileiro Oswald de Andrade estão classificados sob o tema tropical, com seus livros expostos em um diorama de floresta.


Embora Gonzalez-Foerster, 44, tenha nascido em Estrasburgo (França) e estudado em Grenoble (Suíça), há muito tempo é fascinada pela cultura sul-americana, especialmente a mistura tropical-modernista do Brasil, onde passa um semestre por ano.


Em sua obra, os livros são importantes conceitualmente e como uma espécie de matéria-prima, "quase como tijolos", como ela descreve, embora tijolos que parecem quase sencientes à maneira pós-moderna do texto liberto de seu autor. "Com uma biblioteca, você lentamente constrói uma autobiografia", disse.


Daniel Birnbaum, diretor artístico da Bienal de Veneza deste ano, escreveu que o que ela busca basicamente, na opinião dele, é criar "uma atmosfera que extrai a melancolia inerente nos objetos do mundo", objetos que perderam o significado por conta do excesso de definição. "Na obra de Gonzalez-Foerster, o gênero não parece mais relevante", ele concluiu.


Gonzalez-Foerster sugeriu que uma maneira de pensar seu trabalho é como o de um escritor. E a exposição na Sociedade Hispânica é a tentativa de escrever sua ideia de uma biblioteca que existe por seus próprios meios, como Borges fez com as palavras. "Sempre quis ser escritora, mas escrever é muito difícil para mim", ela disse. "Aos poucos aceitei a ideia de uma espécie de literatura expandida, poder-se-ia dizer. Por isso, para mim isto é tão excitante quanto escrever."

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A praga do Curadorismo

Sem obras, mostra em SP atesta importância crescente do curador no circuito; críticos e artistas reclamam dessa tendência



Silas Martí da Folha de S. Paulo



Quase um ano depois do vazio da última Bienal de São Paulo, começa em outubro outra mostra sem obras de arte. O Paço das Artes pretende expor 150 projetos de artistas e curadores -esboços do que seriam obras ou futuras exposições, ainda no estágio do rascunho.
"Muita gente diz que não aguenta mais exposição sem obra", diz Roberto Winter, um dos curadores da "Temporada de Projetos na Temporada de Projetos", nome redundante da mostra-provocação. "A gente também acha que vai ser chato, uma coisa monótona", adianta.
A monotonia se junta no início de outubro à radicalidade do Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna paulistano, que desta vez vetou artistas brasileiros na mostra.
São indícios no cenário artístico da influência crescente dos curadores, que às vezes ofuscam os próprios artistas -o que muitos no meio já apelidaram de "praga do curadorismo".
Em viagem a Istambul, o curador do Panorama, Adriano Pedrosa, enviou por e-mail considerações sobre curadores-autores. "Uma exposição é sempre determinada ou limitada por experiências de vida, perspectivas, conhecimentos [do curador]", dizia. Não respondia questões da reportagem, mas elencou declarações em inglês sobre o assunto e pediu para conferir a tradução.
"Existe muito ego", opina Agnaldo Farias, um dos curadores da próxima Bienal de São Paulo. "São esses momentos quando o trabalho se volta muito para o próprio meio artístico."
Foi essa a principal acusação contra o gesto dos curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen de deixar vazio um andar inteiro do pavilhão da Bienal no ano passado. "As pessoas querem ver arte, ninguém está muito a fim disso", afirma o crítico Tiago Mesquita, que não autorizou a exposição de seu projeto no Paço das Artes.
"Fizeram a curadoria da curadoria; era demais", diz Mesquita. "Curador não é artista, ninguém vai lá ver curador."
Um dos dois brasileiros a passar pela peneira da curadoria e entrar no Panorama deste ano, Valdirlei Dias Nunes diz que "sem dúvida, o nome do curador aparece muito mais do que qualquer artista até agora". Dias Nunes só entrou para a exposição por indicação de um artista argentino.
Nos anos 80, Lisette Lagnado, curadora da Bienal de São Paulo de 2006, já perguntava em artigos se os curadores seriam as novas estrelas da arte. Em texto recente publicado no site "Trópico", afirma que "no Brasil a crescente demanda por curadores independentes alcançou um nível epidêmico desproporcional à realidade das coleções dos museus".
À Folha, Lagnado disse depois que nunca recebeu tantos convites para participar de debates sobre curadoria no país. Enquanto isso, universidades e museus vêm turbinando seus cursos para formar curadores.
"Há um risco hoje em dia de o curador tomar o lugar da obra que ele cura", diz o artista Nuno Ramos. Carlos Fajardo também vê uma importância crescente do curador, mas diz que é "impossível" fugir a essa lógica.
Apontado como um dos nomes centrais dessa nova geração, o titular da próxima Bienal de São Paulo, Moacir dos Anjos, tenta definir melhor os papéis. "Curador é curador, artista é artista", resume Anjos. "Sempre existe um grau de autoria numa exposição, mas isso não faz do curador um artista."
Mesmo quando esse curador acaba mais falado do que a própria exposição. Ivo Mesquita não se desvencilhou do pavilhão vazio. Sheila Leirner pôs a Bienal de São Paulo no mapa quando decidiu expor lado a lado as grandes telas da geração 80, num compêndio expressivo da volta à pintura. Teixeira Coelho atiçou a ira de público e artistas quando espalhou telas pelo chão do Itaú Cultural.
"Nossa proposta é mais autoral mesmo", admite Luiza Proença, parceira de Roberto Winter na curadoria da mostra de projetos no Paço. "É provocativo, mas artistas dependem dessa provocação", diz ela, que quando não ocupa o papel de curadora, também é artista.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Pipilotti Rist no Paço das Artes

Corpo é trampolim para , que expõe no Brasil em outubro

Fernanda Ezabella da Folha de S.Paulo

Vulvas vistas tão de perto que deixam de ser vulvas, se transformam em apenas superfícies úmidas e vermelhas, percorridas por uma câmera como se "procurasse ouro", descreve Pipilotti Rist. A descrição pode chocar algum espectador, mas não é esse o objetivo da artista suíça, que usa o corpo como base para muitos de seus vídeos. Ela está somente em busca da poesia da imagem.



A artista Pipilotti Rist surge no vídeo "Alma Perdida em uma Banheira de Lava"
"O que mais temos além do nosso corpo?", pergunta Rist, 47, em entrevista à Folha por telefone, de Zurique. "Ginas Mobile" (2007), que registra em close quase microscópico cinco vulvas, está entre as dez videoinstalações em exibição no Museu Paço das Artes, em São Paulo, a partir de 6/10. A artista chega amanhã à cidade para sua terceira visita ao país. Ela falará com o público da mostra e depois seguirá numa viagem por Minas Gerais.
Mas Rist, uma das pioneiras da segunda geração da videoarte, tem sim muito além do corpo para criar suas engenhosas videoinstalações. Ela conta com uma equipe para ajudá-la em projetos às vezes um tanto complicados, como levar imagens para tetos de igrejas repletos de afrescos, para o chão de museus ou mesmo pelo corpo do espectador. Registros da natureza também são importante fonte de suas imagens poéticas.
"Podemos usar as luzes, os movimentos do vídeo para nos confortar. Você se senta e coloca as imagens para passear por sua pele, é como alguém te acariciando", diz Rist sobre o trabalho "Laplamp" (2006), que projeta plantas no colo do espectador. "A imagem eletrônica é tão onipresente em nossa vida e sempre a deixamos numa única direção, olhamos sempre para dentro de uma caixa. Nós devíamos libertar esses fantasmas, misturá-los mais com o nosso cotidiano."
Assim como não tem medo do corpo, Rist também não teme as cores, peça fundamental de sua vida. Ela é sempre vista com roupas de cores vibrantes e faz delas tema de pesquisa pessoal. "Por que os europeus têm mais medo das cores do que os brasileiros têm?", ela pergunta durante a entrevista. "Não concorda que as cores estão muito ligadas a emoções?"
É para responder perguntas como essas que ela fará uma viagem de duas semanas por cidades históricas mineiras, com uma parada estratégica em Brumadinho, no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.
Ela negocia levar à cidade a obra "Homo Sapiens Sapiens" (2005), exibida numa igreja de Veneza e filmada nos jardins do próprio centro mineiro, em 2005. Uma continuação desse trabalho estará no Museu da Imagem do Som, ao mesmo tempo em que a mostra no Paço das Artes. A atriz polonesa Ewelina Guzik volta a ser Eva em "Liberty Statue for London" (2005), também projetado no teto da instituição.
"Em "Homo Sapiens Sapiens", ela [Eva] estava no paraíso, cercada de homens, todos pelados, e na "Liberty Statue" ela volta à civilização, 40 mil anos depois. Ela está vestida, tentando se balancear entre natureza e civilização, sem se sentir culpada", explica.

John Lennon

Outra faceta da obra de Rist é um certo tom anárquico, que pode ser visto numa de suas instalações mais famosas, "Ever Is Over All" (1997) --uma mulher caminha alegremente, em câmera lenta, destruindo janelas de carros estacionados, com uma espécie de flor.
Apesar do forte apelo feminista, o trabalho de Rist começou por influência da música e da cultura pop. Vídeos cômicos como "I'm Not The Girl Who Misses Much" (1986), uma releitura bem esquisita da canção "Happiness is a Warm Gun", de John Lennon, ou "You Called Me Jacky" (1990), no qual a artista dubla outra música, estarão na instalação "The Room" (estão no YouTube também).
"A música está muito próxima à batida de nosso coração, ao interior de nosso corpo", diz Rist, que no início dos anos 80 fazia experimentos com Super-8 e projeções de slides em shows de seus amigos músicos.
A inspiração para tantas fantasias, ela conta, vem de seus sonhos, que ela anota e desenha. "Minha profissão é manter os olhos fechados e levar essas imagens a sério. Materializá-las num filme", diz, rindo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Crítica: A cruzada cinzenta de Kassab



A mesma onda proibitiva que apaga grafites não atinge o vale-tudo das leis de zoneamento

por Rodrigo Andrade

O episódio recente em que a prefeitura de São Paulo apagou os grafites e pichações dos muros da Avenida 23 de Maio, pintando-os de cinza, revela a tendência maníaca por ordem que caracteriza a gestão Gilberto Kassab. Tendência que resulta mais de moralismo do que de inteligência. É a mesma tendência que recentemente espalhou nas ruas um monte de ilhas e/ou blocos de concreto que "disciplinam" os cruzamentos, estreitando as passagens e obrigando os motoristas a seguir e dobrar as esquinas da "maneira correta", dificultando o fluxo do tráfego em nome da ordem e dos bons costumes no trânsito e de uma aparência de cidade bem cuidada. Pode ser inteligente em termos eleitorais, mas não como solução prática, pois além de atrapalhar, o custo dessas ilhas poderia ser aplicado, por exemplo, na limpeza da cidade, que está longe de ser exemplar.

O prefeito Kassab notabiliza-se por investir grandes esforços em ações com a aparência da cidade. A lei que removeu as propagandas, placas e luminosos das paredes, fachadas de lojas, bares etc. teve um enorme impacto na cidade e deu muitos pontos ao prefeito. O impacto foi positivo, pois a cidade recuperou os contornos de uma fisionomia que estavam ocultos, soterrados por pesado lixo visual. Mas também trouxe perdas, já que privar São Paulo do brilho colorido dos neons, típica de grandes centros urbanos, é um tanto cruel.

Basta pensar na Times Square em Nova York, ou Piccadily Circus em Londres, ou Tokio. Com a lei, uma visualidade muito característica nossa se perdeu. É o caso da popular loja de sapatos Zapata, na Duque de Caxias, que tinha um imenso luminoso de neon com letras gigantes sobre uma fachada de perfilados de alumínio tão típica nossa. A retirada trouxe à luz a arquitetura do prédio (sem graça, diga-se) e um silêncio visual confortável, mas empobreceu e entristeceu aquela esquina. Talvez a lei devesse ser flexível, e permitir os neons em certos lugares (como em Londres e Nova Yorque, aliás). Acontece que aqui as leis são aplicadas sem bom senso. Creio se tratar de uma dificuldade em viver com regras, sem que para isso seja necessária a proibição total. É a proibição ou o vale-tudo.

Vivemos uma onda proibitiva sem precedentes em São Paulo. Só que essas proibições não atingem o vale-tudo das leis de zoneamento, uma questão crucial, e enquanto a prefeitura pinta de cinza muros com grafites ou constrói irritantes ilhotas nos cruzamentos, bairros como a Vila Romana, onde moro, estão sendo completamente transfigurados pela voracidade imobiliária, com incessantes construções de prédios de apartamentos que em pouco tempo tornarão este simpático bairro num inferno sem sol, sem gente andando pelas ruas - só carros - de trânsito pesado sem escoamento possível, dificuldade para estacionar e medo da violência. Para impedir esse verdadeiro crime urbano bastaria que o bom senso regulasse o crescimento da cidade, estipulando regras de construção adequadas (determinando, por exemplo, a altura máxima dos edifícios) e porcentagens razoáveis de reocupação, em vez da proibição pura e simples.

Quanto aos grafiteiros e pichadores, no ano passado houve dois episódios envolvendo ações coletivas que merecem consideração. Um na escola de Belas Artes e outro na Bienal. Em ambos os casos a ação foi violenta, truculenta e oportunista, explorando o evento com o simples propósito de autopromoção mediante argumentos capengas, se justificando com pseudo-conceitos como "questionamento dos limites da arte" e "liberdade de expressão", supostamente pertinentes numa discussão e num espaço "de arte". E a suposta posição de "vítimas do sistema" caía no ridículo do jogo de cartas marcadas da ação, da esperada repressão e a consequente repercussão na mídia (e o pior é que a estúpida e absurda prisão de uma pichadora dava consistência a essa posição de vítima). Essas ações deturpavam o próprio sentido das pichações como intervenções urbanas.

Muito diferente é ver a lateral cega de um prédio novinho, branquinho, marcado com aquela curiosa tipografia das pichações. Vandalismo, sem dúvida, mas ali eu vejo também um caráter subversivo divertido, manifestação de uma cultura urbana adolescente genuína e espontânea. Algumas são verdadeiras proezas. Devem ser naturalmente proibidas, mas já ouvi que, para os pichadores, sem a adrenalina proporcionada pela proibição não teria graça. Mas no caso dos belos grafites nos muros da 23 de Maio - uma via expressa árida - francamente, ali me parece o lugar mais adequado possível para eles e não há razão para proibi-los.

Mas Kassab viu uma oportunidade de empreender sua cruzada cinzenta. Cruzada que também se manifesta nas obras das calçadas da Paulista, onde mais de cem árvores foram simplesmente retiradas! Será que é para não precisar varrer as folhas secas que "sujam" as calçadas? Falta massa cinzenta para esses amantes do cinza que tem em Kassab um fiel representante. Viva os grafites, viva os neons, viva Zapata!

*Rodrigo Andrade é artista plástico

Trienal africana vem a São Paulo e Salvador


Silas Marti da Folha de S.Paulo

Terá braços em São Paulo e Salvador a próxima Trienal de Luanda, maior mostra de arte contemporânea africana, que começa em setembro de 2010 na capital angolana, com um orçamento de US$ 3 milhões.

Detalhe de tela de Mustafa Maluka, que estará na mostra de arte angolana

Nesta segunda edição, o curador Fernando Alvim, que organizou o primeiro pavilhão de arte contemporânea africana na Bienal de Veneza há dois anos, pretende estabelecer uma nova geografia para a arte do continente, estreitando os laços entre Angola e Brasil.
Embora a mostra principal em Luanda esteja marcada só para 2010, uma peça de teatro --"As Formigas", de Boris Vian-- e apresentações da banda Next dão largada à Trienal em São Paulo já em novembro.
Também integra a programação a exposição "Smooth and Rave", com artistas africanos contemporâneos, que ocupam em novembro a galeria Soso, no centro de São Paulo.
De frente para a galeria, um hotel desenhado por Ramos de Azevedo terá cada quarto convertido em videoinstalação a partir de maio de 2010, projeto dos curadores Jacopo Crivelli Visconti e Simon Njami.
"Não precisamos todos passar por Londres, Paris, Nova York para nos encontrar", diz Alvim. "É uma nova geografia que se está a instaurar entre São Paulo, Lisboa e Luanda."
Mais perto de Angola, a capital baiana será outro "epicentro" da Trienal. "Existe imensa conexão da África com o Brasil e ela se materializa por aqui", afirma Solange Farkas, diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, que levará a Luanda um recorte do festival Videobrasil. "A África é um ponto de referência; existe um desejo de trânsito, de uma aproximação muito forte e expressiva."
Parte importante dessa expressão será vista em vídeo, um dos suportes mais trabalhados pela nova geração de artistas africanos. "Tem um interesse em promover o vídeo", diz Farkas. "Usar o suporte como uma ferramenta de inclusão de artistas ainda faz sentido na cena artística angolana."
Outro ponto de ligação entre Salvador e Luanda é a exposição "Três Pontes", do curador Daniel Rangel, que fará no evento africano uma mostra sobre as conexões históricas e culturais entre as duas cidades.
"Quem é que nunca ouviu falar de cinema novo, do tropicalismo, em Luanda? Temos muitas coisas em comum para além da língua", diz Fernando Alvim. "Andamos muito à volta das cidades como base curatorial."
Além do Brasil, a Trienal de Luanda planeja mostras em cidades do mundo todo, como Londres, Nova York, Havana, Tóquio, Pequim, entre outras.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Obras de Dias & Riedweg, unidas pela ideia de paraíso

Vídeo sobre a cultura do funk carioca estão entre as obras da dupla em mostra no Instituto Tomie Ohtake

Marina Vaz, de O Estado de S. Paulo

O carioca Maurício Dias era pintor e gravurista. O suíço Walter Riedweg trabalhava com teatro e música. Em 1993, os dois se uniram em uma nova linguagem, o vídeo. De lá para cá, Dias & Riedweg já passaram por mostras internacionais de prestígio, como as bienais de Veneza (1999), Havana (2003) e São Paulo (1998 e 2002). Os trabalhos mais recentes da dupla você vê no Instituto Tomie Ohtake, a partir de quarta-feira (23), na mostra Paraísos Possíveis - Dias & Riedweg.

Depois de passar por 15 instituições mundo a fora, a mostra, com curadoria de Agnaldo Farias, traz ao Brasil dez instalações em que os artistas utilizam vídeo-performances, projeções e fotografias. Na instalação ‘Funk Staden’, Dias & Riedweg mostram um musical sobre o funk nas favelas cariocas. O roteiro foi feito com base em um livro de Hans Staden, o alemão que foi capturado por índios tupinambás no século 16. "Encenamos o livro como se os funkeiros fossem os índios, para falar de preconceito", explica Dias.
Em ‘Malas para Marcel’ (o Marcel em questão é o francês Marcel Duchamp), os artistas mostram projeções dentro de 12 malas. As imagens foram captadas por câmeras escondidas dentro de maletas espalhadas pelos artistas na cidade do Rio de Janeiro.

SERVIÇO

Onde: Instituto Tomie Ohtake. Av. Brig. Faria Lima, 201 (entrada pela R. Coropés), Pinheiros, 2245-1900. Quando: 11h/20h (fecha 2ª). Abre 4ª (23). Até 25/10. Quanto: Grátis.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bienal de Lyon celebra o cotidiano


10ª edição tem trabalhos de tom político e quase foi adiada, em razão de desligamento de ex-curadora

Fabio Cypriano da Folha de S. Paulo


Seis crianças são vistas refletidas em um espelho, até que uma delas pega um estilingue do bolso e o quebra. Então, todas correm com os cacos e sobem numa imensa árvore. O forte sol faz com que os reflexos desses estilhaços brilhem, transformando-se, magicamente, na árvore.
"Per Speculum", projeção do albanês Adrian Paci, é não só a obra mais falada da 10ª Bienal de Lyon, aberta ontem para o público, como a que melhor sintetiza seu tema, "O Espetáculo do Cotidiano", organizada pelo curador chinês Hou Hanru e que fica em cartaz até 3 de janeiro de 2010.

Frame da projeção "Per Speculum", do albanês Adrian Paci

Frame da projeção "Per Speculum", do albanês Adrian Paci

A mostra chegou a correr risco de ser adiada, quando a curadora Catherine David, até então responsável pela Bienal, desligou-se da instituição, em fevereiro passado. Hanru, curador recordista em bienais - já esteve envolvido em 20- , foi convocado e aceitou.
"Tive medo, claro. Organizar uma bienal em seis meses é um grande desafio, mas convoquei muitos artistas com os quais já trabalho há muito tempo", disse ele à Folha.
Distribuída por quatro espaços da cidade, entre eles o Museu de Arte Contemporânea e a Sucrière (um antigo depósito de açúcar), a Bienal reúne 59 artistas, agrupados em quatro temas: A Magia das Coisas, Elogio à Deriva, Um Outro Mundo É Possível e Vivendo Junto.
"O Espetáculo do Cotidiano" almeja ser conceitual. "A crítica à sociedade do espetáculo nasceu na França, mas a arte contemporânea vive um constrangimento pela perda de pertinência intelectual em vista de sua crescente mercantilização", disse o curador.
Contra esse panorama, Hanru selecionou coletivos e trabalhos com caráter político, como "A Boa Vida", do colombiano Carlos Motta, com 400 entrevistas, em 12 cidades, entre elas São Paulo. Em seis monitores, pessoas comuns discutem o papel da democracia e dos governos.
A Bienal de Lyon possui ainda um outro vetor denominado Veduta, voltado à periferia da cidade. "Serão 390 eventos e um fórum, para criar um vinculo mais forte entre arte e sociedade", diz Thierry Raspail, diretor artístico de todas as edições da Bienal e do MAC.
George Brecht (1926-2008), membro do grupo Fluxus, presente na mostra com várias obras, torna-se outra importante inspiração. "Os eventos mais importantes são as pequenas coisas que ocorrem nas ruas", costumava dizer o artista.

SHIRIN NESHAT LEVA O LEÃO DE PRATA EM VENEZA

“A Bienal de Praga poderá ser a minha última bienal, o meu novo objetivo será fazer filmes”, afirmou a artista Shirin Neshat. De fato, a sua “descoberta cinematográfica” veio na forma de um Leão de Prata, que acabou de receber como melhor diretora em Veneza.


trailer - Women without Men (Mulheres sem Homens)

Na 66ª Mostra del Cinema, a artista iraniana apresentou a sua obra-prima Women without Men (que participou como vídeo-instalação na Bienal de Praga em 2007), uma longa-metragem inspirada pelo romance de Sharmush Parsipur. Neshat foi agraciada com o prestigiante segundo prêmio.

O projeto foi finalizado após um longo período e enormes problemas logísticos e de organização, sobretudo o grande nível de censura sob o qual o Irã vive. Por esta razão, a artista teve de contratar iranianos que vivem fora do Irã e a cena que se passa em Teerã, onde não é permitido filmar, foi feita num cenário construído no Marrocos.

O filme conta a história de quatro mulheres iranianas durante o golpe militar pelo qual Xá Reza Pahlevi chegou ao poder em 1953. Mesmo depois da passagem deavideoarte para o cinema, Shirin Neshat continua a analisar um dos seus principais temas: a condição social feminina na cultura islâmica.

Disponível em: www.flashartonline.com