segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ENTREVISTA: PAULO SERGIO DUARTE

por MARCOS AUGUSTO GONÇALVES da Folha de S. Paulo

Situação de museus de arte no país é deplorável

Para crítico e curador, políticas do Estado brasileiro "refletem estatuto da arte na consciência da elite, que é inexistente"

CRÍTICO, CURADOR e professor de história da arte, Paulo Sergio Duarte cita o abandono do Museu de Brasília como exemplo da indigência das políticas públicas em relação ao setor e diz que o Instituto Brasileiro de Museus é só "um escritório com diretoria e alguns assessores". Ele vê os museus como "instrumentos indispensáveis para qualquer sistema educacional que se preze" e advoga interação entre essas instituições e universidades.


Pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio, Duarte, foi curador da 5ª Bienal do Mercosul (2005) e do Projeto Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, no ano passado. Ele cobra do governo Lula a definição de prioridades e defende que os museus federais sejam centros de excelência e formação técnica. Quanto às mudanças na Lei Rouanet, propõe tratamento especial para investimentos em aquisição de acervos e infraestrutura de museus -hoje preteridos em favor do patrocínio de exposições temporárias.

Qual é a situação da rede de museus do país?
PAULO SÉRGIO DUARTE - É preciso lembrar logo que só vamos falar de museu de arte, a cultura em tão elevado estado de condensação que nós não chamamos de cultura, mas de arte. No caso desses museus, a situação é deplorável. Existem ilhas razoáveis que estão longe de dar um bom panorama histórico da arte no país.

Qual é a responsabilidade do governo nessa situação?
DUARTE - Não é um problema só de governo, este ou passados. A política cultural do Estado reflete o estatuto da arte na consciência da elite brasileira. E esse lugar simplesmente não existe, com raríssimas exceções. Repetindo o que digo há 30 anos: percorrendo, em qualquer uma das duas maiores cidades do país, todos os seus museus, é impossível para um professor dar um curso digno da história da arte do século 20.
Tenho insistido sobre o fato de que neste ano Brasília completa 50 anos. Onde está seu museu de arte? No antigo Clube das Forças Armadas, depois cedido para o Casarão do Samba, e posteriormente transformado no museu de arte. Está lá num prédio interditado, cercado por hotéis de arquitetura pífia. Até aqui, este é o lugar do museu na capital da nação. Eu defendo que se faça um concurso internacional para este museu, como foi feito no Rio para o Museu da Imagem e do Som.

Isso é simbólico quanto à importância que o poder público confere à arte?
DUARTE - Isto não acontece por mero acaso no país no qual sobra dinheiro para malas em automóveis e aviões de pastores evangélicos, fraldas de dólares debaixo das calças de cabos eleitorais e até nas meias de deputados. Qual pode ser o estatuto da arte nesse lugar? Como acreditar que a arte é um conhecimento específico, muito importante para compensar os efeitos da indústria cultural, e formar um olhar crítico no cidadão se, na capital do país, é tratada de modo tão lamentável?

Como você vê a atuação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado pelo governo?
DUARTE - Por enquanto, é um escritório com uma diretoria e alguns assessores.

Como ele deveria se estruturar?
DUARTE - Os museus são, antes de tudo, equipamentos necessários à formação de cidadania e um instrumento indispensável de qualquer sistema educacional que se preze. Com as tarefas enormes e com o alarme de emergências tocando todo dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, não pode dar a devida prioridade aos museus.
Parodiando Carl von Clausewitz, na sua frase que já se tornou clichê: os museus são importantes demais para ficar nas mãos de museólogos. Os acordos e convênios com universidades e institutos de ensino e pesquisa nas diversas regiões do país poupariam da inchação o quadro de pessoal do Ibram.
Acredito que, para o primeiro mandato do presidente Lula, estava correta a política do Ministério da Cultura de prospecção do campo realizada pelas consultas a câmaras setoriais, reuniões e estímulos à participação. Mas já é tempo de ter focos precisos, prioridades de efeitos multiplicadores. Acima de tudo, as instituições federais têm de ser centros de excelência e de formação técnica.

Que prioridades?
DUARTE - Por exemplo, os projetos educativos dos museus devem priorizar a formação de professores e secundariamente se voltar para o cidadão comum. As visitas de turmas de alunos de escolas e colégios devem estar sempre programadas como trabalhos práticos de professores preparados pelos próprios museus em programas de convênios com as secretarias de educação. Os programas educativos para professores devem estar voltados para os docentes de todas as áreas, e não apenas para aqueles de arte e educação artística. Só desse modo fará sentido a divulgação dos números de visitação de alunos; por enquanto servem para a satisfação demagógica e a prestação de contas a departamentos de marketing de patrocinadores.

Em relação a museus, o que deveria mudar na Lei Rouanet?
DUARTE - Eu considero que deveria haver mais estímulo fiscal aos investimentos em infraestrutura dos museus e aquisição de acervos do que para exposições temporárias. Não se trata de acabar com o estímulo às exposições e sua documentação em catálogos. Mas a aquisição de obras e publicações que exigem longas pesquisas e não estão vinculadas a um evento temporário mereceriam receber tratamento diferenciado. O mais grave, segundo li na Folha [Ilustrada, 24/11/09], é o governo querer disciplinar ou mesmo proibir a remuneração dos profissionais contratados para dirigir museus ou instituições culturais que adquiriram um estatuto autônomo, como organizações sociais. É um estímulo ao pior amadorismo ou a uma péssima elitização das direções das instituições: só ricos, pessoas que não vivem do que fazem, poderão ocupar essa direção, ou funcionários mal remunerados.

Que lições devemos tirar do incêndio que destruiu parte importante da obra de Hélio Oiticica?
DUARTE - A primeira lição é que não se deve nunca dispensar uma consultoria de risco indicada por uma boa empresa de seguros para qualquer edificação que for armazenar acervos preciosos. Mais do que isso: uma das cláusulas ao uso das leis de incentivo à cultura para instituições que preservam acervos seria a realização prévia da consultoria e o financiamento, pela própria lei de incentivo, da execução de todas as medidas técnicas que sejam recomendadas.
Acho que quem primeiro deveria dar esse exemplo é o próprio Ministério da Cultura, realizar essa consultoria em cada uma das instituições sob sua responsabilidade. A verdade é que em muitos casos nem as normas estabelecidas pelos Bombeiros são cumpridas.

Se compararmos arte contemporânea, mercado e instituições do Brasil com arte contemporânea, mercado e instituições de países mais avançados, quais são os principais descompassos?
DUARTE - Temos atualmente uma excelente produção de arte, reconhecida, antes de tudo, por importantes instituições e coleções estrangeiras. Nossas instituições apresentam os mesmos descompassos que existem para outras áreas, a começar pelo sistema educacional: quais são os descompassos que existem entre os sistemas educacionais brasileiro, japonês, alemão, americano, francês e inglês, por exemplo?
Nossas instituições de arte estão para as instituições desses países assim como [estão] nossa educação e nossos serviços de saúde. Quanto ao mercado, me parece que amadureceu muito, nos últimos 20 anos, em São Paulo; se estrutura no Rio e em Belo Horizonte, mas depende exclusivamente de colecionadores particulares. As instituições públicas não têm recursos regulares para aquisições.

E as doações?
DUARTE
- Dou um exemplo. A diretora do Museu Nacional de Belas Artes declarou que recebeu em poucos anos milhares de doações. O número publicado chegava a dezenas de milhares, embora isso possa ter sido um erro tipográfico. Mas, se é verdade, é evidente prova do elevado grau de indigência que conduz a política cultural de artes visuais. Integrar o acervo do Museu Nacional de Belas Artes deve ser privilégio reservado às obras de artistas que constituem um patrimônio do povo brasileiro e cuja fruição vai efetivamente formar o olhar do cidadão no campo da arte. Visite-se a sala de arte moderna e contemporânea do museu e ver-se-á que, além das inúmeras lacunas, existe quase sempre a inversão de valores: quanto menos importante o artista mais espaço ocupa sua obra. É uma aula completa do que não deve ser feito.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

ARTIGO PRÉ BIENAL

Experimentando Carvalho

por Camila Molina do Estado

Neste ano, você vai ouvir falar muito dele, o rei das experiências

Em 1931, o artista Flávio de Carvalho (1899-1973) realizou a Experiência nº 2 em São Paulo: de boné, andou em sentido contrário ao cortejo de uma procissão de Corpus Christi. Esta ação quase o levou a ser agredido pelas pessoas, que o consideraram um desrespeitador dos costumes religiosos. Interessado no estudo da antropologia e da psicanálise, ele teve de ser protegido pela polícia. Hoje, certamente, esse ato "pode parecer quase uma bobagem, uma provocação que não teria mais impacto", como diz Moacir dos Anjos, coordenador geral da 29ª Bienal de São Paulo, cuja mostra, este ano, em setembro, terá justamente Flávio de Carvalho e aquela experiência contraconvencional como uma das âncoras principais para tratar do tema Arte e Política. Será o ano de Carvalho.

Juntando a participação de destaque do artista na próxima Bienal e ainda a retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) vai dedicar a esse criador entre 15 de abril e 13 de junho, 2010 já se configura mesmo como o ano do resgate de Flávio de Carvalho, oportunidade mais do que especial para se pensar a contribuição plural desse artista - pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo, engenheiro, vanguardista -, que atuou num contexto de passagem do moderno para o contemporâneo. Soma-se, ainda, o lançamento, em 2010, do livro Dialética da Moda, que a editora Cosac Naify prepara como coletânea de artigos que Carvalho publicou em 1956 no extinto Diário de São Paulo - naquele mesmo ano, ele realizou a Experiência nº 3, passeando pelo Viaduto do Chá com seu New Look, traje formado por saiote com pregas, blusa com mangas folgadas, meia arrastão e sandália de couro. E tem mais: a mostra La Deriva És Nuestra, que ocorrerá a partir de 4 de maio no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, na Espanha - coletiva com curadoria de Lisette Lagnado que tem Flávio de Carvalho como ponto de partida, principalmente sua relação com arquitetura e urbanidade.

Pode até ter sido uma coincidência a junção de todas essas iniciativas em torno do artista, mas é curiosa a movimentação ao redor de um único criador. "Este é um momento de quebra de certezas e a obra de Flávio de Carvalho surge naturalmente por ele ser um artista nessa linha, contemporâneo porque faz questionar o nosso próprio tempo", diz Moacir dos Anjos. "É importante criar essa repercussão, repensar a história da arte no País, que exclui certos artistas, pouco afeitos a definições, porque perturbam sua narrativa", afirma ainda o coordenador da 29ª Bienal. "A obra de Flávio de Carvalho é de difícil interpretação e ele entra na reflexão sobre o que é moderno e contemporâneo, algo que tem ligação com o timing do MAM", diz Felipe Chaimovich, curador do museu, que convidou Rui Moreira Leite para conceber a retrospectiva. "Esse rumor em torno dele é para mim surpreendente", afirma Lisette Lagnado, que está há dois anos preparando a exposição para o Reina Sofia.

Flávio de Carvalho é um artista que criou em várias frentes. Formado em Engenharia, estudou em Paris e na Inglaterra entre 1911 e 1922, voltando a São Paulo pouco tempo depois da realização da Semana de Arte Moderna de 22. Seus primeiros projetos modernos foram dedicados à arquitetura, entretanto, não foram concretizados, como o que participou, em 1927, do concurso Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Já naquela época era tido e havido como o "revolucionário romântico", definiu o arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965).

"Ele, em qualquer momento, estava na onda sem estar nela propriamente", diz Rui Moreira Leite, autor do livro Flávio de Carvalho - O Artista Total (Editora Senac) e curador da retrospectiva no MAM. Entre tantas atividades, travou contato com os surrealistas europeus; fundou, em 1932, o Clube dos Artistas Modernos (CAM), com Antonio Gomide, Di Cavalcanti e Carlos Prado; faz performances como a Experiência nº 2; pinturas de raiz expressionista (a exposição de 1948, no Masp, lhe dá a visibilidade ampla); cenário e figurinos para A Cangaceira, um dos espetáculos do Ballet do 4º Centenário de São Paulo; escreve e lança livros; realiza a Experiência nº 4, de cunho antropológico, na Amazônia, com quase 60 anos.

Sendo assim, a retrospectiva no MAM não vai se centrar no Flávio de Carvalho artista plástico, porque seria muito pouco. O mote, segundo o curador, será os vínculos que o criador estabeleceu em sua trajetória, culminando numa produção tão plural. "Vamos acompanhar a cabeça do Flávio, mas a dificuldade é que não se pode exagerar na quantidade de informação", diz Moreira Leite. "Flávio sempre passou uma ideia de ser maluco, mas era tudo muito claro para ele." A retrospectiva, com documentos, livros, ampliações fotográficas, projetos e obras originais (do museu e de outras instituições e de colecionadores particulares) ocupará a Grande Sala do MAM.

Por outro lado, ao mesmo tempo, na Sala Paulo Figueiredo do museu, se dará uma relação de Flávio de Carvalho com a contemporaneidade, por meio da mostra A Cidade do Homem Nu, com curadoria do colombiano Inti Guerrero. Nela a obra do artista estará em diálogo com imagens do cantor Ney Matogrosso e de criadores nacionais e internacionais como Claudia Andujar, Cristina Lucas, Miguel Angel Rojas e Daria Martin.

Já na 29ª Bienal de São Paulo o desafio, por enquanto, será o de apresentar a Experiência nº 2 (da qual não se há nenhum registro físico), na vertente da relação entre arte e política. "Como descrever a ação sem falar do contexto de uma São Paulo conservadora, religiosa? Pensamos em criar ambiente que revele a potência desse trabalho", diz Moacir dos Anjos. A mostra ainda está em fase de plena pesquisa, mas não interessa ao projeto da 29ª Bienal ter "uma sala especial Flávio de Carvalho", como adianta o curador. "Nosso interesse principal é atualizar a exposição de Flávio de Carvalho." Moacir dos Anjos também frisa que não se trata de um redescobrimento do artista no Brasil e que a escolha dele como um destaque de "potência para a arte contemporânea" pode render outros frutos. "Ele é relativamente pouco conhecido internacionalmente e esta é uma proposição da Bienal para fora", diz o curador.

'Waltercio e sua sintonia poética

Salas e Abismos propõe reflexão sobre as múltiplas formas com que o artista explorou a arquitetura

A relação entre a obra de arte e o espaço que a circunda, que sempre foi uma das questões motrizes do trabalho de Waltercio Caldas, recebe agora atenção especial do artista, tornando-se elemento central não apenas da alentada exposição Salas e Abismos, em cartaz até fevereiro no Museu Vale, em Vila Velha (ES), mas também fio condutor do livro homônimo, a ser lançado no próximo mês, em coedição pelo museu capixaba e pela editora Cosac Naify. Percorrendo ambientes criados pelo artista desde a década de 80 em diversos espaços do Brasil e do exterior e reunindo textos pontuais de Paulo Venâncio Filho, Paulo Sérgio Duarte e Sônia Salzstein, a obra propõe uma espécie de reflexão visual sobre as múltiplas e obsessivas formas com que Waltercio explorou a arquitetura.


Ao longo de 240 páginas, o leitor tem acesso a 28 ambientes criados pelo artista, desde Ping-Ping (obra criada em 1980) até sua mais recente instalação, O Silêncio do Mundo, uma espécie de imersão cromática de grande impacto e marcada por uma espécie de suspensão silenciosa. Há também amplo espaço dedicado a obras de difícil acesso ao público brasileiro, como aquelas feitas para Bienais de Veneza (1997 e 2007) ou para as recentes exposições que o artista realizou na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela), ambas em 2008.

Assim como na exposição - que a partir de junho poderá ser vista em versão ampliada também no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro -, onde cada uma das salas retratadas parece desdobrar-se na outra, o livro propõe um encadeamento, um diálogo entre imagens com grande sintonia formal e poética. Como explica o artista, são trabalhos realizados em diferentes épocas de sua vida, que apresentam soluções distintas para questões diferentes e que, no entanto, possuem uma surpreendente unidade. São como "versões contínuas e incessantes da mesma sala", sintetiza por sua vez o curador Paulo Venâncio Filho.

Aspectos como a contraposição entre linhas e planos, uma recorrente exploração do contraste entre transparência e densidade cromática ou o adensamento do espaço vazio por meio de sutis, porém potentes, elementos simbólicos e rítmicos se destacam, traçando uma linha de união entre as obras. Não à toa Sonia Salzstein fala em "inteligência formal camaleônica" ao se referir aos desdobramentos na obra de Waltercio. Trata-se de uma teia de significações que se expande em diferentes sentidos, temporais e espaciais.

Não importa se a escala é diminuta, como em pequenas associações de objetos, como em Cabe ao Abismo Construir Seus Personagens, ou se a ação assume grandes dimensões (é o caso por exemplo de Quarto Amarelo, uma intervenção-homenagem à arquitetura de Álvaro Siza no Centro Galego de Arte Contemporânea). O que está em jogo é sempre a relação entre o ambiente e a obra. Ou, mais especificamente, entre a cena construída e o espectador. "O que me interessa não é simplesmente montar uma exposição, mas buscar relações, tentar entender a maneira como o corpo humano se move, como o olhar se comporta", explica Waltercio, lembrando que esse tipo de questão já o movia desde as primeiras maquetes que construiu, ainda em meados da década de 60.

Ele conta que sempre o intrigou a paralisia das obras de arte. Ao contrário de outras formas de expressão artística, que se movem diante do espectador, as artes visuais dependem da mobilidade do espectador para adquirir sentido. "São as pessoas que andam e não a obra", acrescenta, atribuindo a isso um certo receio pessoal em aceitar a pintura como uma questão produtiva. Não que elementos pictóricos como a cor e a linha estejam ausentes de seu trabalho. Eles tem aí uma presença fundamental, mas questionadora. Surgem não para referendar a ilusão da representação no espaço bidimensional, mas sim para ampliar os ângulos de percepção, contribuindo com o jogo de escalas, materiais e ambientes.

Maria Hirszman do ESTADÃO

SERVIÇO
Salas e Abismos, Waltercio Caldas
Museu Vale
Pátio da Antiga Estação Pedro Nolasco Pedro Nolasco s/n - Argolas
Vila Velha / Espirito Santo
CEP 29114-920
Telefone: 55 (27) 3333-2484
24 de outubro a 21 de fevereiro terça a domingo, das 10 às 18h e sexta, das 12 às 20h

EXPOSIÇÃO EM SP: Gary Hill


Circumstances/Circunstâncias',
mostra de sensação visual

O americano Gary Hill foi um dos precursores da videoarte, nos anos 70 e traz cinco instalações ao MIS


Na obra ‘Viewers’, 15 homens encaram (em silêncio) o visitante.]

Gary Hill se considera um ‘artista da linguagem’. Apesar de nunca ter abandonado a escultura (primeira técnica a que se dedicou), foi como um dos precursores da videoarte que ele ganhou fama nos anos 70.
Agora, o artista multimídia tem cinco obras em Circunstances/Circunstâncias, no Museu da Imagem e do Som (MIS). "As ideias me vêm como um flash; eu simplesmente sinto e faço", diz ele. E talvez seja essa a melhor forma de aproveitar a exposição - sentindo todas as obras.

SERVIÇO

Onde: MIS. Av. Europa, 158, Jd. Europa, 2117-4777.
Quando: 12h/19h (dom. e fer., 11h/18h; fecha 2ª).
Abre 4ª (20).
Até 21/3.
Quanto: R$ 4 (dom., grátis).

ARTIGO MUITO BOM: por LUCIANO TRIGO



O bigode de Sarah Maple

Ainda que existam artistas contemporâneos relevantes, no cenário pós-histórico em que vivemos, quem dita todas as regras é o mercado




NO COMEÇO dos anos 50, Matisse recebeu de seu filho Pierre, marchand radicado em Nova York, catálogos que reproduziam obras de Pollock e outros artistas do expressionismo abstrato. Ele mostrou os catálogos a Picasso, seu velho amigo e rival, que rejeitou de forma categórica aquela nova maneira de pintar, "francamente desagradável".


Matisse ponderou que um artista não pode compreender -e, portanto, não deve julgar- as inovações de seus sucessores. Picasso discordou: "Sou contra esse tipo de coisa".


A conversa é narrada por Françoise Gilot em suas memórias. Procuro lembrar-me dela quando escrevo sobre a produção artística contemporânea. Picasso, gênio que revolucionou ao menos três vezes a história da arte, destruindo uma convenção após a outra, não foi capaz de aceitar um movimento moderno que, de certo modo, era um desdobramento das inovações que ele próprio desencadeara. 
A história está cheia desses exemplos de artistas que causaram escândalo por estarem à frente de seu tempo. Mas, por necessária que seja, essa constatação, sintetizada no argumento de Matisse, não deve virar um dogma limitador da reflexão crítica -do contrário, toda e qualquer bobagem que se apresente como arte estará protegida de antemão de contestação.


Não estamos longe disso, aliás.


Por exemplo, a jovem Sarah Maple vem sendo apontada como a nova revelação da arte contemporânea. Dá para conhecer um pouco de sua já premiada produção no site www.sarahmaple.com - onde ela é apontada como herdeira de Tracey Emin (que, por sua vez, se consagrou internacionalmente ao expor como obra de arte a própria cama desarrumada, com lençóis sujos, camisinhas etc). 
Daqui a um ano ou dois aparecerá a herdeira de Sarah, que será premiada pela Tate Gallery, ganhará destaque na mídia e também inscreverá seu nome na história da arte.


Uma das obras de Sarah Maple é uma fotografia em que ela aparece com um penteado fashion, um batom berrante e creme de barba no rosto simulando um bigode. O autorretrato é intitulado "A tribute to Frida". Para não deixar dúvidas sobre a piada, a artista usa no peito um button de Frida Kahlo. Só faltou uma legenda explicando que a mexicana tinha bigode.


Quanta profundidade! Sem falar na luz, nas cores, na composição... Trata-se, sem dúvida, de verdadeira Picassa.


Em outra série de fotografias, disponível no site e intitulada "Cocks", Sarah fotografa a si mesma com diferentes "paus" (um galho, um telefone, um guarda-chuva, um exemplar do livro "Código da Vinci" ("Da Vinci Cock!") -uma ideia que exige uma idade mental de aproximadamente cinco anos. Se é esse o nível do debate sobre as questões de gênero na arte hoje, estamos mal das pernas.


Também se afirma que Sarah contribuiu para o debate sobre a opressão sexual e religiosa ousando usar burca e seios de plástico. Será mesmo? Ou se trata apenas de mais uma reedição do surrado recurso de provocar polêmica barata?

Em 1919, quando Marcel Duchamp também recorreu a um bigode (na Mona Lisa) para chamar a atenção, isso até fazia sentido. Mas que relevância tem essa "transgressão" 90 anos depois?


Uma fração significativa da arte contemporânea está cada vez mais parecida com a indústria da música: muita atitude, rebeldia de butique, rostinho bonito e zero talento.


Haverá quem diga: sempre houve artistas medíocres, é melhor ignorar esse tipo de obra. Discordo. Sarah Maple não é uma pobre coitada, uma inocente que mereça desdém ou compaixão. Ela encarna a "mainstream" da arte contemporânea: é essa a produção que as instâncias mais poderosas do sistema da arte reconhecem, promovem, premiam e vendem (nos dois sentidos) como o que de melhor se faz hoje. É esse o padrão que se estabelece, diante da complacência geral e da falência da crítica.


Isso não passa em branco: tem impacto até no mais bem-intencionado estudante de arte, que se matricula numa escola de artes visuais e se depara com um mundo em que técnica, talento, disciplina e estudo não têm mais importância. Que conhecimento da história da arte é necessário para tirar uma fotografia segurando um celular como se fosse um pau?


Ainda que existam artistas contemporâneos relevantes, como existem, no cenário pós-histórico em que vivemos, quem dita todas as regras é o mercado, sem que exista nenhuma reflexão crítica independente e informada como contrapoder. 
Diferentemente dos artistas e movimentos modernos, que contestavam as instituições e o mercado, hoje se adere incondicionalmente a ambos. E, como há técnicas para fazer as pessoas comprarem (em sentido real e figurado) qualquer coisa, muitas vezes a mediocridade triunfa, por mais que se tente dourá-la com discursos vazios e citações pedantes.

LUCIANO TRIGO, jornalista e escritor, é autor, entre outras obras, de "A Grande Feira - Uma Reação ao Vale-Tudo na Arte Contemporânea".

EXPOSIÇÃO EM SP: Andy Warhol


Depois de passar por Buenos Aires, chega em março à Estação Pinacoteca, em São Paulo, uma megaexposição com 170 obras de Andy Warhol. Será a maior mostra do artista no Brasil. Entre os trabalhos, estão os retratos de Marilyn Monroe e Jackie Kennedy e as latas de sopa Campbell's.

NOTÍCIAS: 29ª Bienal

EMPRÉSTIMO

Os curadores da 29ª Bienal de São Paulo viajaram para Nova York, no fim do ano passado, para tentar conseguir com o MoMA retratos do grupo guerrilheiro Baader-Meinhof, que fazem parte do seu acervo. Mas a direção do museu vetou o empréstimo. Segundo a assessoria da Bienal, o MoMA tem um cronograma de empréstimos para os próximos três anos, no qual o pedido brasileiro não estava previsto.

Em tempo: a Bienal confirma a participação da artista alemã Isa Genzken e do belga Francis Alys na mostra e diz que 40 dos 40 artistas convidados aceitaram expor no evento.

MAIS UMA BIENAL NO BRASIL

Bahia retoma Bienal de arte em 2011

Iniciativa substitui o Salão da Bahia, organizado há 16 anos, e visa inserir o Estado em circuito internacional 




Após 43 anos, a Bahia retoma a realização de uma bienal de arte contemporânea, que deve ser realizada no início de 2011, em vários espaços de Salvador. O anúncio seria feito ontem, na abertura da exposição "Coleção MAM-BA: 50 anos de Arte Brasileira", no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), pelo governador Jaques Wagner.


Em 1966 e 1968, também por iniciativa do governo do Estado, Salvador foi sede de duas bienais. A primeira edição premiou Hélio Oiticica, Lygia Clark, Rubem Valentim e Rubens Gerchman. A segunda, fechada no dia seguinte da abertura, por imposição da ditadura militar, não teve continuidade. Criada por um decreto estadual, a nova Bienal substitui o Salão da Bahia, organizado há 16 anos no MAM-BA.


"Além de ser um resgate histórico, a organização dessa Bienal visa inserir a Bahia em um circuito internacional", diz Daniel Rangel, da diretoria de museus da Secretaria de Estado da Cultura da Bahia, que, com Solange Farkas, é um dos idealizadores da mostra. A Bienal Internacional de Arte da Bahia deve ocorrer em diversos locais da cidade, como o MAM, o Palacete das Artes (onde funciona o Museu Rodin), o Museu de Arte da Bahia, o Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, e o Museu de Arte da Bahia, todos vinculados ao governo do Estado, e ainda em novos locais no cais no porto.


"Era preciso pensar um novo modelo depois de 16 anos de Salão e essa Bienal terá um foco, que é dialogar com as bienais periféricas e apresentar a produção africana e latino-americano", conta Farkas. Até março, segundo Farkas e Dantas, será constituído um conselho que irá escolher o curador da primeira edição.


"Nossa ideia é fortalecer o circuito de arte da Bahia, do qual fazem parte cinco salões e Bienal do Recôncavo. O que buscamos é aprimorar o que existe aqui", afirma Farkas.

Exposição faz balanço de salão de arte na Bahia

Com 82 obras, mostra revê história de tradicional evento com a produção brasileira



MAM cria política para melhorar compra de obras de artistas como Pierre Verger e Mario Cravo Neto, mal representados no museu 


Há 16 anos, dezembro era o mês de abertura do Salão da Bahia, um dos eventos de maior visibilidade da nova produção nacional, no Museu de Arte Moderna da Bahia.


Com o fim do salão, por meio do decreto que criou a Bienal da Bahia, publicado no "Diário Oficial" do Estado na última sexta, a "Coleção MAM-BA, 50 Anos de Arte Brasileira" representa um balanço do projeto.


"O salão foi praticamente a única forma de aquisição e isso representa um problema sério para o museu, pois como é possível que artistas como Miguel Rio Branco, Mario Cravo Neto e Pierre Verger estejam tão mal representados aqui?", questiona Solange Farkas, diretora do MAM-BA e organizadora da mostra. Agora, Farkas dará início a uma nova política de aquisição, por meio de um Núcleo de Arte Contemporânea.


A mostra se divide em quatro módulos: "Contemporâneos", "Fotografia", "Modernistas" e "Rubem Valentim", este ocupando sozinho a capela do local, numa espécie de instalação.

"Modernistas", composto por apenas cinco obras, representa as primeiras aquisições do museu, quando de sua criação, em 1949, com telas que hoje são ícones da produção nacional, como "O Boi", de Tarsila do Amaral, ou "Vendedor de Passarinhos", de Portinari.


Modernistas, fotógrafos e contemporâneos, aliás, dividem o mesmo espaço, o famoso casarão reformado por Lina Bo Bardi. Lá estão alguns dos nomes com maior projeção da produção nacional, como Marepe, Regina Silveira, Leda Catunda, Cravo Neto e Verger.


Elegante, a exposição foi muito elogiada pelos conselheiros do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), empossados na última sexta em Salvador. "Essa mostra coloca o museu em um novo patamar, no mesmo nível de instituições internacionais", comentou o curador Fabio Magalhães.

SERVIÇO

Quando: de ter. a dom., das 13h às 19h, sáb., das 13h às 21h; até 28/3
Onde: MAM-BA (av. Contorno, s/nº, Salvador, tel. 0/xx/71/3117-6133)
Quanto: entrada franca

Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

CRÍTICA: Livro "As Vidas dos Artistas", de Calvin Tomkins

por Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo


Com a voz dos artistas, livro retrata a arte contemporânea

Poucos são os livros que conseguem abordar a produção atual sem cair em estereótipos ou mesmo forçar a barra ao encaixar certos artistas como meros oportunistas que se aproveitam da recente explosão do mercado de arte contemporânea.

Livros falam sobre a vida de grandes nomes da arte contemporânea

"As Vidas dos Artistas", de Calvin Tomkins, faz parte do seleto grupo que traz uma abrangente visão dos procedimentos de produção contemporânea ao dar a voz, em primeiro plano, aos próprios artistas. Nos últimos dez anos, Tomkins, autor da ótima biografia de Marcel Duchamp, "Duchamp" (Cosac Naify, 2005), publicou perfis de protagonistas da arte contemporânea, como Jeff Koons, Damien Hirst e Matthew Barney para a revista "The New Yorker".

O livro, uma reunião de dez desses perfis, revela-se um típico exercício de jornalismo literário, com textos extensos, que mostram intimidade entre o autor e os artistas: Tomkins vai ao cinema com Cindy Sherman, visita a casa de veraneio de Jasper Johns em St. Martin, no Caribe, anda de táxi com Hirst, caminha pela cratera de James Turrel, no norte do Arizona (EUA).

Em cada situação, o autor revela detalhes que ilustram o procedimento criativo de cada um, acrescentando ainda depoimentos de outros artistas, galeristas, críticos e amigos. Os demais escolhidos são Julian Schnabel, Richard Serra, Maurizio Cattelan e John Currin.

Obra sem título de Cindy Sherman, produzida com bonecas mutiladas em 1994, após um divórcio

Estrelas contemporâneas

O próprio autor afirma, na introdução do livro, que a seleção não apresenta "nenhum denominador comum, entre eles", mas, na verdade, todos são estrelas de primeira grandeza no cenário atual, afinal Sherman é uma das principais renovadoras da fotografia, Serra, da escultura e Johns, da pintura. No entanto, tal divisão por suporte, como se sabe em arte contemporânea, é inútil, e aí está um dos méritos de Calvin Tomkins, que, em vez de investigar o meio usado pelo artista, interessa-se pela sua própria forma de vida.

Contudo isso não é realizado em um desenrolar de fofocas, como o universo das celebridades tanto preza, mas de forma discreta e contextualizada, onde o autor aborda desde a formação de cada artista até suas relações com museus e galerias.

Momentos-chave


Há muitas passagens intrigantes. Uma das melhores é quando Kim Levin, crítica do "Village Voice", arrasou, em um texto, as pinturas de mulheres um tanto deformadas de Currin, por considerá-las machistas, quando de sua primeira individual na galeria Andrea Rosen, em 1992. Dez anos depois, em 2003, ela assume e diz "Eu estava errada", o que atesta como o escrever da história pode ser alterado quando o artista segue sua carreira.

Claro, há histórias mais extravagantes, como os surtos hedonistas de Hirst, que costumava baixar a calça e mostrar a genitália nas festas, mas tais situações são apenas detalhes de uma inteligente e intrigante narrativa da produção atual, principalmente daquela produzida nos Estados Unidos, para onde os textos foram criados. Quem ler "As Vidas dos Artistas", se usar as lentes corretas, vai compreender muito melhor o que é a arte contemporânea.

AS VIDAS DOS ARTISTAS
Autor: Calvin Tomkins
Editora: Bei
Quanto: R$ 57 (280 págs.)
Avaliação: ótimo

EXPOSIÇÃO

MAM celebra dez anos do Núcleo Contemporâneo e aumenta acervo


O MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) inicia suas atividades de 2010 com uma comemoração. A casa estreia a mostra "Dez Anos do Núcleo Contemporâneo", que celebra uma década da iniciativa que ajudou a formar um grupo de apreciadores da arte contemporânea e aproveita ainda para aumentar o acervo com obras conquistadas por meio do programa.

Com o dinheiro angariado pelo Núcleo --o espectador paga anuidade individual de R$ 714 para participar de atividades exclusivas e ganhar passe livre nas exposições, entre outros benefícios--, o MAM comprou a obra "Quadris de Homem = Carne/Mulher = Carne" (1995), de Laura Lima, e conquistou o título de primeiro museu brasileiro a ter uma performance em sua coleção artistica. Na mostra comemorativa, ela será apresentada no próximo dia 26, quando será lançado o catálogo da exposição.

Essa instalação humana divide espaço com outras 29 obras selecionadas de um montante de 169 trabalhos que pertencem ao Núcleo. Entre elas estão "O Telhado" (1998), de Marepe, "Nota sobre uma Cena Acesa ou os Dez Mil Lápis" (2000), de José Damasceno, e "Templo" (2000), de Franklin Cassaro.

"Entre o Figurativo e o Abstrato" (1983), de Leda Catunda, e "The Descent from the Cross (after Caravaggio)" (2000), de Vik Muniz, firmam o foco do programa no experimentalismo artístico contemporâneo.

A curadoria da exposição comemorativa é de Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP.

SERVIÇO

DEZ ANOS DO NÚCLEO CONTEMPORÂNEO

Quando: ter. a dom., das 10h às 17h30; até 4/4
Onde: MAM (pq. Ibirapuera, portão 3, tel. 5085-1300)
Quanto: R$ 5,50

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

BIBLIOGRAFIA: 15 longos minutos de fama


Quatro lançamentos comprovam a longevidade de Andy Warhol como fenômeno pop e contam como o artista construiu uma personalidade rentável e midiática


Andy Warhol, em frente ao bar Serendipity, em Nova York, em 1961



Andy Warhol gostava de se olhar no espelho para não ver nada. "Um crítico disse que eu era o nada em si, o que não ajudou muito", escreveu o artista. "Mas, se perguntassem qual é meu problema, eu diria: pele."

Homem que se tornou o nome mais conhecido da arte no século 20, Warhol odiava a própria cara. No mundo de celebridades que ajudou a arquitetar, criou um personagem magnético para ocultar suas falhas. Virou marca rentável até hoje.

Quatro livros lançados nos últimos meses do ano passado exploram o mito Warhol e repetem nas livrarias o alvoroço provocado pelas obras do artista pop em museus e galerias.

"Andy Warhol", de Arthur Danto, e "Pop - The Genius of Andy Warhol" (pop - o gênio de Andy Warhol), de Tony Scherman e David Dalton, são análises biográficas do artista. Enquanto o primeiro traça um paralelo entre Warhol e nomes atuais, como Jeff Koons, Damien Hirst e Takashi Murakami, o segundo mergulha nos detalhes da década de 1960, a fase mais produtiva de Warhol.

ANDY WARHOL
Autor: Arthur C. Danto
Editora: Yale University Press
Quanto: US$24(cerca de R$42) (192 págs.)

POP - THE GENIUS OF ANDY WARHOL
Autor: Tony Scherman e David Dalton
Editora: Harper Collins
Quanto: US$40(cerca de R$70) (509 págs.)

"I Sold Andy Warhol (Too Soon)" (eu vendi Andy Warhol cedo demais), de Richard Polsky, dá a dimensão de mercado da história, narrando o aumento dos preços das obras do artista em leilões e galerias.

POP - THE GENIUS OF ANDY WARHOL
Autor: Richard Polsky
Editora: Other Press
Quanto: US$24(cerca de R$42) (288 págs.)

Lançado no Brasil há dois anos, "A Filosofia de Andy Warhol", primeira tradução para o português do livro escrito pelo artista, se junta a "Popism" no segundo semestre, livro que ele fez com Pat Hackett, que redigiu seu diário a partir de conversas telefônicas.

A FILOSOFIA DE ANDY WARHOL
Autor: Andy Warhol
Editora: Cobogó
Quanto: R$43 (272 pags.)

Ele mesmo tinha preguiça de escrever. Se nas festas em Nova York Warhol era a figura midiática, de óculos escuros e cabelos arrepiados, não escondia o lado frágil quando estava entre seus assistentes. Era inseguro, inepto. Dependia até das duas empregadas guatemaltecas, que recolhiam os embrulhos de doces e chocolate em torno de sua cama todos os dias pela manhã.

"A maior coisa que ele fez foi criar esse personagem, como Buster Keaton ou Charlie Chaplin, um tipo clássico", diz David Dalton, autor de "Pop", que foi assistente do artista. "Ele criou uma imagem indelével, virou o oposto do que era."

Dalton documentou a construção e o sucesso dessa segunda pele e agora vê seu livro chegar às listas dos mais vendidos.

"Ele era como o Mickey Mouse", diz Arthur Danto. "Ninguém sabia como era a cara dos outros artistas, mas todo mundo consegue desenhar o rosto de Warhol." No auge da fama, o artista chegou a contratar um sósia para dar palestras e fazer aparições em seu lugar.

Foi por seu "charme profundo", nas palavras de Danto, que Warhol chegou à condição máxima de celebridade, despertando adoração e ódio. Anos antes de John Lennon, sofreu um atentado. Levou tiros calibre 32 no baço, estômago, fígado, esôfago e nos pulmões. Sobreviveu, sabendo que passava a ser também um mártir.

Pouco importa que Valerie Solanas, a psicótica autora dos disparos, não tivesse o artista como alvo. "A beleza ameaçada fica mais bela", escreveu Warhol após o episódio. "Se eu não fosse famoso, não teria levado tiros por ser Andy Warhol."

"Ele é como os Beatles", diz Richard Polsky. "Todo livro lançado sobre ele é um sucesso de vendas, as pessoas compram tudo com o nome Warhol."

Tanto que, quando Polsky comprou uma obra de Warhol, escreveu um livro narrando o episódio. Um colecionador finlandês ficou de olho no trabalho até que o autor decidiu leiloar a obra descrita no livro cinco anos depois. "Ele tinha lido o livro, pegou um jatinho e veio comprar o quadro em Nova York", lembra Polsky, que fez outro livro sobre a venda.

Entre as muitas teorias e poucas explicações concretas para o fenômeno Warhol, ele mesmo resume a questão numa frase: "Isso é porque as pessoas, mais do que qualquer outra coisa, querem estrelas".


Silas Marti da Folha de S.Paulo

BIBLIOGRAFIA


Livros falam sobre a vida de grandes nomes da arte contemporânea

Silas Marti da Folha de S.Paulo

Foi pelo outro lado da câmera que Matthew Barney virou artista. Pagou o curso em Yale com o dinheiro que ganhou como modelo, posando para a Ralph Lauren. Cindy Sherman transformou um "divórcio doloroso" em bonecas mutiladas.

Com a voz dos artistas, livro retrata a arte contemporânea

No Brasil, Cildo Meireles lembra a alucinação que teve aos seis anos de idade, paralisado numa cama. Cao Guimarães descobriu o "desejo pelo proibido" quando viu o arquivo de fotos do avô médico, com xifópagos e vítimas de barriga d'água. A prisão do marido, na ditadura, também foi motor para a obra de Anna Bella Geiger.

Dois livros lançados agora exploram a biografia dos maiores nomes da arte contemporânea no Brasil e no exterior. Buscam nos relatos desses artistas o lastro para a produção que inundou o mercado e arrebatou a crítica ao mesmo tempo.

Em "As Vidas dos Artistas", Calvin Tomkins, crítico de arte da "New Yorker", perfila dez artistas que viraram grifes, entre eles Matthew Barney, Damien Hirst, Jeff Koons, Richard Serra. Nos trópicos, Felipe Scovino lança "Arquivo Contemporâneo", coleção de 13 entrevistas com gigantes da arte brasileira --Cildo Meireles, Tunga, Adriana Varejão.

AS VIDAS DOS ARTISTAS
Autor: Calvin Tomkins
Editora: Bei
Quanto: R$ 57 (280 págs.)

ARQUIVO CONTEMPORÂNEO
Autor: Felipe Scovino
Editora: 7Letras
Quanto: R$ 48 (310 págs.)

Fazem uma análise sintética da última geração de criadores alçados à condição de celebridade. Dão a palavra aos próprios artistas, que esquadrinham desde o sucesso em leilões e galerias à presença nas maiores exposições do planeta e estripulias no plano pessoal.

Tomkins, 84, partiu com a missão de separar o joio do trigo. De milhares de artistas que conheceu, escolheu os que julgou pertinentes. "Um resultado da liberdade ilimitada na arte é a superprodução de coisas medíocres", constata o autor, em entrevista à Folha. "Essa situação tem atraído muitos não artistas, que acham que fazer arte é coisa fácil."

Ele tenta provar o contrário narrando a odisseia de Damien Hirst atrás dos tubarões e vacas que mergulhou em formol. Lembra a viagem ao deserto do Arizona para ver a cratera de luz de James Turrell, os excessos de maquiagem, roupas e perucas de Cindy Sherman.

No meio do caminho, sobra tempo para falar dos amigos roqueiros de Hirst, como o baixista do Blur, Alex James, do romance de Cindy Sherman com o ator Steve Martin, do egocentrismo embaraçoso de Julian Schnabel, da briga de Richard Serra com Frank Gehry.

São ecos da era que começou com Andy Warhol e o culto à personalidade que passou a valer também nas artes visuais.

É um contraste gritante com a situação brasileira. Enquanto os Estados Unidos viveram o boom econômico do pós-guerra, artistas nacionais extraíram forças da repressão militar. A máxima de Hélio Oiticica --"da adversidade vivemos"-- se ajusta quase com perfeição aos relatos dessa geração.

Cildo Meireles esmiúça o contexto em que circulou suas garrafas de Coca-Cola com mensagens subversivas. Cao Guimarães lembra como fazia todos os filmes na cozinha de seu apartamento em Londres.

Oiticica e Lygia Clark, pioneiros da arte invendável, surgem como grandes referências dessa geração, mas não evitaram que, mesmo no Brasil, tudo se rendesse ao mercado.

Artista que desponta lá fora, Adriana Varejão conta que a única lembrança que tem da primeira vez que viu a obra de Clark é o autógrafo que ganhou da artista. Meireles reduz tudo a um "universo do fetiche".

Na obra de Cindy Sherman, Tomkins vê o que se aplica à situação atual _o desejo de se agarrar "às coisas, à juventude, ao glamour, à esperança".

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Novo desenho põe em xeque "potência afetiva"



Designers falam em patrimônio visual e ideia de design como expressão do tempo

Momento atual permite convivência da sintaxe modernista com projetos vintage, de retomada de marcas do século passado 



Mesmo sem saber que Lygia Pape estava por trás dos biscoitos flutuantes nas embalagens da Piraquê, várias gerações se acostumaram a ver nos mercados a serialização geométrica dos pacotes. Do mesmo jeito que a lata de sardinhas Coqueiro, desenhada em 1958, ficou mais de 40 anos em circulação.


É tempo suficiente para criar, mais do que uma identidade corporativa, uma memória afetiva desse desenho. "O que está em jogo não é tradição, e sim afeto", postou Daniela Name em seu blog, saindo em defesa das embalagens que marcaram sua infância. "Essa é a base da história e da longevidade de um produto de design."



Tanto que gente como o publicitário paulistano Eduardo Foresti guarda em casa as embalagens mais emblemáticas que encontrou pela vida, dos biscoitos Piraquê aos cosméticos Granado. "As pessoas se irritam quando muda algo com o qual existe uma relação sentimental", diz Foresti. "Um exemplo é a bala Chita, que era um macaquinho. As pessoas se ressentem dessas mudanças."


Quando a Varig decidiu substituir o desenho de um homenzinho voando pela rosa dos ventos na cauda de seus aviões, em 1962, pilotos se recusaram a voar sem o Ícaro, e a empresa foi obrigada a repintar o desenho no bico das aeronaves.
Mas pessoas também crescem, o tempo passa e marcas precisam lutar para manter o frescor. "Todas as empresas precisam se manter na concorrência, que é fortíssima", analisa o designer André Stolarski.


"O problema não é a mudança, mas como ela é feita, porque se o novo projeto perde uma característica que é distintiva em termos de mercado ou patrimônio visual, está perdendo feio, perde a potência afetiva."


Stolarski vê um retrocesso nos novos pacotes da Piraquê e da Coqueiro, mas elogia, por exemplo, as mudanças da Pepsi, que reformou há pouco sua logomarca e simplificou embalagens e identidade visual.


"Não faço parte do time que fica lamentando essas coisas", diz Chico Homem de Melo, professor de design e autor de livros-referência sobre o assunto no país. "Essa é uma visão de raiz racionalista, que vem da Bauhaus, o design que se colocava como eterno."

Longe de eterno, Homem de Melo chama o design de "expressão de seu tempo". "Essa é uma história de mudanças, não de permanências", frisa. E lembra que parte da polêmica em torno da aposentadoria de desenhos concretistas de Pape e Wollner está ancorada num momento histórico que passou.


"Esses artistas construtivos achavam que a arte industrial era a saída", diz Homem de Melo. "Então ir para o design não era sair para outra coisa, era mostrar para onde vamos."

Nessa linha, Willys de Castro, Hércules Barsotti, Waldemar Cordeiro, no Brasil, e nomes como El Lissitsky e Kurt Schwitters, no exterior, também fizeram incursões no campo do design, sujeitos à mesma passagem do tempo.


"É o curso das coisas, é natural que ideias novas tomem o lugar das antigas", diz o artista Rafael Lain, da dupla Detanico & Lain, conhecida por sua atuação também no design. "Um design feito há 50 anos responde a questões de 50 anos atrás, que não são pertinentes hoje."


E esse hoje é um terreno aberto. Convivem no design contemporâneo a sintaxe modernista de Pape, Wollner e Aloisio Magalhães e as formas ornamentadas, rococó, dizem alguns, do revival promovido por empresas como a Fiat, que voltou a usar a mesma tipografia de 1901 em sua logomarca.


"Tem um tom de humanidade, calor, que o design modernista não tem", diz Homem de Melo. "Estamos vivendo um revival, ou talvez seja só voltar a alguma coisa lá atrás e reinscrever isso na modernidade."
Design Aposentado

Embalagens clássicas de produtos saem de cena e geram debate sobre memória afetiva e patrimônio do design no país 


Diante da prateleira de um supermercado, Daniela Name levou um susto. "Foi horrível", lembra a curadora, que correu para casa e postou em seu blog que a Piraquê estava aposentando as embalagens dos biscoitos Queijinho e Presuntinho, desenhadas pela artista Lygia Pape nos anos 60. "São mudanças criminosas, assassinas", diz ela. "É muito sério."


No lugar dos arranjos em vertente construtiva dos pequenos biscoitos, projeto de Pape, está agora uma disposição mais convencional, com uma grande tarja com o nome do produto quebrando o desenho. "Nem por hipnose alguém me convenceria de que essa coisa horrorosa é mais eficiente", esbravejou Name, na web.


É uma reação parecida com a do designer Alexandre Wol- lner, que viu sua embalagem clássica das sardinhas Coqueiro dar lugar a um design brilhante e modernoso, que rompe com os traços minimalistas de seu desenho, pondo no lugar uma linguagem mais figurativa.


"É uma esculhambação total da Coqueiro", diz Wollner. "Não pode trocar um desenho por uma coisa mais bonitinha."


Bonitinhas ou assassinas, marcas mudam. E geram um debate entre artistas e designers sobre o que é patrimônio visual e como lidar com o que já foi ícone do design brasileiro em meio às mudanças que seguem o ritmo do mercado.


Se por um lado saem de cena os últimos exemplos dessa corrente modernista, por outro empresas retomam logomarcas ornamentadas do passado.

(SILAS MARTÍ da Folha de S. Paulo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pintor Richard Wright ganha prêmio Turner


Um pintor que não quer que nenhum de seus trabalhos sobreviva à sua morte recebeu um dos prêmios mais importantes de arte contemporânea nesta segunda-feira.

Richard Wright, de 49 anos, venceu o favorito das apostas Roger Hiorns e ficou com o Turner britânico, um prêmio anual que costuma provocar polêmica sobre o que é ou não arte.

Mais conhecido por seus afrescos matematicamente precisos, Wright parece uma escolha estranhamente monótona em comparação aos associados ao Turner, geralmente enfants terribles da arte contemporânea.

Damien Hirst ganhou o Turner em 1995 com uma vaca embriagada e Chris Ofili provocou polêmica em 1998 com trabalhos que incorporavam esterco de elefante.

A peça em exibição de Wright é uma pintura de estilo barroco em folha de ouro, que evoluiu em redemoinhos geométricos por uma parede. Sua obra tem a beleza efêmera de uma teia de aranha, algo criado com detalhismo, mas que não vai durar.

"Eu gosto da ideia de não restar nada quando eu me for", disse Wright, cuja obra será coberta com tinta depois que a exibição terminar em janeiro.

Wright recebe um cheque de 25.000 libras (41.120 dólares). Os outros finalistas -- Enrico David, Roger Hiorns e Lucy Skaer -- recebem um cheque de 5.000 libras cada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

DEBATE


fonte: Zero hora

Arte de hoje

Cultura propôs as mesmas cinco perguntas a quatro intelectuais que têm discutido em seus trabalhos as singularidades da arte e da estética no tempo presente

1 Neste momento, reaparece em Porto Alegre o discurso que defende que a arte contemporânea seja examinada segundo critérios tradicionais, incluindo, por exemplo, a habilidade do fazer e a busca pelo belo. Em que medida, tais critérios podem ser empregados nos dias de hoje?

2 Alguns comentadores alegam que a arte contemporânea seria um embuste, uma empulhação. Segundo eles, toda a produção do presente não passaria de uma astuciosa invenção do mercado com a conivência de críticos e teóricos. O que lhe parece essa ideia?

3 Esse mesmo discurso afirma que a arte de hoje seria a arte do vale-tudo. Vale tudo na arte contemporânea?

4 No extremo oposto, há aqueles que acabam assumindo uma defesa incondicional da arte contemporânea, como se toda ela fosse exemplar. Há arte boa e arte ruim no contexto contemporâneo?

5 É fato que uma parte considerável do público se sente incomodada com a arte de hoje. São pessoas que vão, por exemplo, às grandes exposições ou às Bienais e saem de lá dizendo que “não entenderam nada”. O senhor já se sentiu assim em relação à arte do presente, “sem entender”? Qual foi sua reação?


JACQUES LEENHARDT

Presidente de honra da Associação Internacional de Críticos de Arte, a Aica, o francês Jacques Leenhardt, 67 anos, é diretor de Estudos da prestigiada École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, de Paris. Doutor pela Universidade de Paris X (Nanterre), sob orientação de Roland Barthes, tem estudos publicados nas áreas de literatura, sociologia e artes visuais.

“É um erro bem ingênuo, mas uma ilusão bem comum, acreditar que espontaneamente, sem preparação e sem reflexão, vamos compreender o trabalho dos cientistas ou dos artistas”

1.Por que utilizar critérios do passado para compreender nosso mundo contemporâneo? A arte não avança com a mesma rapidez das comunicações, mas a arte é o lugar onde se cristalizam as experiências que fincam suas raízes em nosso mundo técnico, político e, mais genericamente, em nosso mundo humano contemporâneo. Os artistas procuram, tateando, criar obras que exprimam sua própria relação com este mundo, extraindo por vezes a beleza mas, mais frequentemente, o sentido, que é o que nós percebemos como o mais radicalmente ausente deste mundo.

2.Como na política, há fraude na arte. O mercado de arte não é mais transparente e democrático do que o campo da política. Em geral, não se fala senão do grande mercado especulativo internacional, mas há outros, mais discretos, que correspondem ao gosto de muita gente diferente. É evidente que a crítica está ausente dos grandes meios de comunicação, e isso não facilita a tarefa de se perceber a diversidade das produções artísticas. A imprensa ama o sensacional. Somos todos responsáveis por isso. Primeiro, fala-se dos grandes prêmios, das grandes exposições, dos grandes escândalos! Mas nas exposições pode-se constatar a pluralidade das criações, cada um pode experimentar a diversidade da arte. O importante é que cada um tente se confrontar com uma experiência estética que o enriqueça, uma experiência que proponha algo de novo em relação ao que essa pessoa já conhecia e já apreciava. Isso pode ocorrer tanto diante de mestres do passado quanto diante de artistas contemporâneos. É uma questão de disponibilidade mental do visitante, e é algo que coloca em jogo o seu repertório. Quanto maior nosso repertório, mais capazes nós seremos de aproveitar uma ampla experiência estética. A compreensão do mundo, e da arte em particular, requer um exercício constante. É um erro bem ingênuo, mas uma ilusão bem comum, acreditar que, espontaneamente, sem preparação e sem reflexão, vamos compreender o trabalho dos cientistas ou dos artistas.

3. O artista tem todas as possibilidades abertas diante dele. Ele escolhe e tenta produzir sentido. Nem tudo o que ele faz é sempre compreensível ou pertinente. O tempo e a história selecionam e sempre vão selecionar o que fará sentido para as gerações futuras. Evidentemente, muitas obras serão esquecidas, neste campo como em outros.

4. É claro! Há aqueles que conseguem passar o que sentem e aqueles que não conseguem. Há aqueles que ficam à margem da difícil experiência da arte e não fazem senão produzir objetos, os quais eles tomam por arte, mas que não são senão “produtos”, destinados a seduzir nosso gosto pela repetição. A repetição é agradável, mas é apenas uma pequena parte de nossa capacidade de experiência estética.

5. É difícil ser contemporâneo de um mundo em plena transformação. Somos, enquanto seres humanos, ligados tanto às tradições quanto ao futuro que se abre diante de nós, o qual aprendemos a compreender lentamente e com dificuldade. Isso explica o descompasso que seguidamente sentimos diante de muitos aspectos do mundo contemporâneo – e não apenas diante da arte. O esporte é fácil de compreender porque ele se repete a cada semana, idêntico a si mesmo. Todo mundo ama o esporte, que oferece, ano após ano, a mesma dramaturgia. A arte tenta tornar sensíveis certas modificações de nossa vida e de nossa sensibilidade coletiva. Nossa sensibilidade muda com uma velocidade vertiginosa, algo que dificilmente poderíamos acompanhar por nós mesmos. A arte é uma experiência que se situa nas margens de nossa compreensão. Por isso, ela frequentemente corre o risco de não compreender e de não ser compreendida.

ARTHUR DANTO

Filósofo norte-americano, professor emérito da Columbia University, em Nova York, Arthur Danto, 85 anos, é autor de uma polêmica tese sobre o fim da arte. Ancorado em Hegel, ele afirma que, na arte contemporânea, haveria uma consciência da natureza filosófica da arte. Essa tese está exposta nos livros A Transfiguração do Lugar-Comum e, sobretudo, em Após o Fim da Arte, ambos disponíveis em português. Desde 1984, Danto atua como crítico de arte para a revista The Nation.

“Se alguém disser que não apreendeu nada com uma exposição, então o problema deve estar com a pessoa. Provavelmente, ela não se esforçou o suficiente para tirar algum proveito”

1. Não há critérios canônicos que se apliquem à arte contemporânea. Ao visitar uma exposição de arte, devemos nos preparar para achar nosso próprio caminho de entendimento. Geralmente há textos nas paredes, catálogos, folhetos, que podem ajudar. Devemos passar certo tempo tentando entender o que a obra significa. Uma análise crítica, admitamos, leva tempo. Somos sempre livres para perguntar se aquilo valeu a pena ser feito e se aprendemos algo. O visitante certamente necessita fazer um julgamento esclarecedor a respeito da obra. Se não, não há motivo em visitar uma exposição.

2. Se alguém acredita que toda arte contemporânea é um engodo, esse alguém deveria ser sábio e evitar exposições de arte. Eu passo um bom tempo com arte, como crítico, mas também como simples apreciador de arte. Não tenho essa impressão de que a arte contemporânea seja uma empulhação. Conheço muitos artistas, alguns até bem famosos. Nunca tive evidências de que eles estivessem enganando alguém com sua arte. Estou mais convencido de que os comentadores que você menciona sejam mais enganadores do que os artistas. No século 19, houve um julgamento famoso, no qual o pintor americano James McNeil Whistler, processou de forma bem-sucedida o crítico John Ruskin, por esse ter dito que sua pintura era um engodo. Ruskin perdeu a disputa judicial e caiu em desgraça. Acho que isso é algo que poderia acontecer hoje em dia se um crítico se comportasse da mesma forma que ele.

3. Alguém já disse que vale tudo na guerra e no amor. Nunca vi nada nesse sentido em relação à arte. Geralmente, há um motivo pelo qual o artista fez o que fez. Ao se apreciar uma obra, tem-se que tentar entender os motivos que explicam por que a obra é o que é. Isso é chamado de crítica. Crítica seria extremamente fácil de fazer se disséssemos que tudo vale.

4. Sim. Há arte boa e arte ruim, assim como há gente boa e gente ruim.

5. Um dos problemas com Bienais é que há muita arte para ser vista e não há tempo suficiente. Isso pode ser um bocado frustrante. Uma alternativa é tentar fazer uma pesquisa prévia. Descobrir o que seria melhor de olhar, lendo resenhas e depois tentando planejar a visita. Sempre se pode ficar desapontado. Mas se alguém disser que não apreendeu nada com uma exposição, então o problema deve estar com a pessoa. Provavelmente, ela não se esforçou o suficiente para tirar algum proveito. Imagine um jogo complicado, como beisebol. A não ser que você conheça o jogo, você não será capaz de assistir e tirar algum proveito dele.

FERNANDO COCCHIARALE

Artista, professor e crítico de arte, Fernando Cocchiarale é curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em Porto Alegre, ele fez a curadoria da exposição É Hoje, que apresentou no Santander Cultural a coleção Assis Chateaubriand (2006), e foi um dos curadores da retrospectiva de Vera Chaves, também no Santander Cultural (2007). É autor do livro Quem Tem Medo da Arte Contemporânea? (2007).

“A arte contemplativa, criada por artistas individuais dotados de habilidade e gênio, é somente uma construção histórica europeia que começa na Renascença e se consolida no final do século 18.”

1. A arte não tem uma única natureza. Se considerarmos, por exemplo, o que se passou no Ocidente, desde a Grécia clássica até o mundo moderno e contemporâneo, vemos que ao longo desses 2.400 anos se sucederam pelo menos três grandes regimes ou funções do que chamamos habitualmente de arte. No primeiro e mais duradouro deles, não havia a separação entre ofícios, entre arte e artesanato, mas entre a natureza e sua transformação pelo fazer. Sua função era sobretudo religiosa. A arte contemplativa, objeto da estética, criada por artistas individuais dotados de habilidade e gênio, tida como canônica entre desinformados e conservadores, é somente uma construção histórica europeia que começa na Renascença e se consolida no final do século 18, quando surgiram as primeiras disciplinas voltadas especificamente para o estudo e o conhecimento da arte (estética, História da Arte e crítica de arte). De seus desdobramentos na visualidade moderna, até a crise deflagrada pela II Guerra, a arte parecia afirmar, ainda que sob transformações vertiginosas, sua função estético-contemplativa como eterna e única, embora tivesse apenas cerca de 400 anos. É, portanto, impossível avaliar as novas funções da arte a partir de teorias que emprestavam sentido à arte formal e estética do passado histórico que antecedeu a produção contemporânea, incapazes de outra coisa que não negá-la e destruí-la.

2. Quando teria ocorrido essa astuciosa invenção? Como ela poderia ter cooptado artistas, críticos, parte do público e teóricos atuantes em diversos campos, de diversos países, sem que existam quaisquer vestígios dessa ardilosa conspiração? Quando e onde eles se encontraram secretamente sem que ninguém o tivesse sabido? Finalmente qual teria sido a vantagem de substituir a Arte Bela, consolidada e vendável, por outra incompreensível para o espectador médio? Não é mais produtivo pensar que mudanças históricas profundas, como a crise do projeto iluminista do século 18 (no qual a arte contemplativa floresceu como questão estética) e o desencanto decorrente da guerra operaram transformações profundas no cotidiano das décadas seguintes e, por conseguinte, na esfera da arte e sua função?

3. Embora eu não concorde com essa ideia, que considero preconceituosa, já que vale tudo, aqui, significa qualquer coisa, desde que não tenha qualidade, eu poderia dizer quer ela se ancora em características que se manifestam não somente no campo da arte, mas no conjunto de nossa vida social, teórico-científica e cultural há uns 40 anos. A principal delas tem a ver com a impossibilidade de produzirmos categorias e de estabelecer identidades fixas e excludentes. Dela, decorre a pluralidade que hoje predomina em todas as esferas da vida humana, onde antes reinava uma unidade passível de fundar critérios unívocos e consequentemente a produção de valores então tidos como eternos e atemporais.

4. Claro que há arte boa e ruim no contexto contemporâneo, assim como havia no contexto moderno e clássico.

5. Creio que isso se deve, ao menos em parte, à falta de informação e à falta de uma rotina cultural que comece desde a infância tanto por estímulo familiar, quanto pela escola e posteriormente até pela universidade. Faltam galerias de arte, museus decentes, livrarias, revistas especializadas. Infelizmente a formação cultural do brasileiro médio é sofrível. Nesse contexto podemos tomar esse incômodo como desconhecimento e não como uma rejeição crítica.

MÔNICA ZIELINSKY

Professora no Instituto de Artes da UFRGS, é responsável pela catalogação da obra de Iberê Camargo. Em sua tese de doutorado, defendida em 1998, na Universidade de Paris I (Sorbonne), sob orientação de Marc Jimenez, ela discutia a crítica de arte contemporânea no Brasil. Organizou o livro Fronteiras: Arte, Críticas e Outros Ensaios (2003), sobre as querelas e os impasses da estética no mundo de hoje.

“Não basta proliferarem as opiniões, essas serão sempre subjetivas e pessoais; afloram fáceis, como impressões espontâneas sobre os fatos”

1. Para responder a esta pergunta, basta olhar com atenção para se constatar que a própria arte contemporânea recusa intencionalmente esses critérios. Assim, já em um primeiro foco, pode-se pensar que artesania e beleza não são mais considerados critérios fundamentais da arte (mesmo que ocasionalmente possam ser encontradas em alguns trabalhos). Este fato não é nada recente. Nos primeiros anos do século 20, as obras de Duchamp já haviam rejeitado esses critérios e abalaram fortemente a noção de arte. Por uma ação perturbadora, ao expor seus readymades, Duchamp colocou em crise o próprio sistema de arte, a experiência formal das obras, o valor da elaboração técnica dos trabalhos, além dos critérios de gosto instituídos, as relações entre o original e a reprodução das obras. Enfim, subvertendo a noção tradicional de arte, é inegável que sua postura tenha se tornado paradigmática quando se fala em arte contemporânea, em especial a partir de 1960, quando se acirraram as discussões sobre o artístico. Assim, o reconhecimento dessas obras como sendo de “arte contemporânea” não diz mais respeito especificamente às suas qualidades físicas ou ao prazer sensível, mesmo que estes possam estar presentes em algumas obras. Por outro lado, a arte ganha sobejamemente em outros âmbitos e em novas contribuições, e penso perder-se muitíssimo se não estivermos abertos a usufruir dos outros valiosos vértices para os quais esta arte aponta – às ideias que a constituem, ao que ela enuncia de forma multifocal sobre a vida, o homem, as culturas e a história dos nossos tempos. Também sobre a própria arte em um ato autorreflexivo, e sobre seu funcionamento como arte em meio a essa incerta trama artística que se alastra pelo mundo.

2. Não posso concordar que toda arte contemporânea seja embuste, empulhação ou uma astuciosa invenção do mercado. As obras de arte possuem a especificidade de devolver ao mundo, das mais variadas formas, a própria percepção sobre este. E nesse processo, os artistas optam, em suas práticas hoje, muitas vezes por caminhos muito diversos, altamente experimentais, plurais e interrogativos sobre sua circunscrição artística, trazendo com isso o alargamento dos limites da arte. O mercado é parte do sistema artístico e seria ingenuidade nossa ver o afastamento da criação dos artistas de um mercado que a faz circular, expor e mesmo ampliar, mesmo que inseridos em interesses contraditórios.

3. Não vale tudo na arte contemporânea. Mas sabe-se também que ela vive a crise de sua legitimação, um problema encontrado nos discursos elaborados sobre ela. Esses não são claros e explícitos em relação às distinções entre as obras, ao questionarem as novas configurações e limites da própria arte. Esse fato teve como uma de suas causas a dissolução das certezas e critérios explícitos universais no embate com as obras, mas esse é um fato que ao mesmo tempo estimula a reflexão sobre a arte e o aguçamento de sua percepção. O princípio de discriminação das obras hoje é outro; ele transforma-se e vê-se carente de novas abordagens, conhecimentos e explicitações. Por isso, possivelmente seja essa uma das razões do surgimento de confusões nas abordagens críticas da arte e em seu entendimento pelo público, diante das outras perspectivas que as práticas dos artistas apontam atualmente.

4. É claro que há distinções de qualidade entre as obras de arte contemporânea, disso jamais se poderia duvidar. No entanto percebe-se a ausência de manifestações mais explícitas e fundamentadas sobre a arte, apoiadas em leituras históricas e em conhecimentos artísticos. Geralmente, tudo se passa no mais absoluto silêncio, sem as saudáveis trocas ponderadas com conhecimento. Não basta proliferarem as opiniões, essas serão sempre subjetivas e pessoais; afloram fáceis, como impressões espontâneas sobre os fatos. Observa-se que alguns artistas trabalham com resultados complexos, os que apontam a diferentes experiências; remetem a muitos ângulos de ideias e abordagens, em continuidade de suas pesquisas e explorações de suas poéticas. Outros optam pela obviedade, pelos resultados fáceis ou descritivos do mundo. São escolhas, mas penso ser de extrema importância o incentivo ao exercício aprofundado e crítico da arte por parte da recepção, a ser desenvolvido com profundidade, sistematização e informações atualizadas na formação dos diferentes públicos.

5. Sim, já me senti assim, quem não? Mas lembro que, sempre que possível, busquei recursos para este entendimento: retornei às exposições e revi o já visto. Descobri dados históricos sobre as obras ou tipo de produção, sobre os artistas ou grupos, sobre suas inserções no meio artístico, seu pensamento artístico e suas relações com outros artistas, sobre o que existe de materiais publicados, em especial sobre seus depoimentos. Sabe-se que a arte contemporânea é fundamentalmente centrada nos aspectos cognitivos que a constituem e que exigem, por sua vez, informações específicas para se efetivar uma experiência mais rica da arte. No Renascimento, a arte já era considerada um campo de saber e, como tal, requer até hoje que se enriqueça a reflexão sobre ela, como qualquer outra área que exige conhecimento.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Temporada de Projetos 2010

Paço das Artes divulga lista de selecionados

Foi divulgada ontem pelo Paço das Artes a lista dos dez artistas escolhidos para a "Temporada de Projetos" do ano que vem.

Ana Elisa Egreja, Estela Sokol, Geraldo Zamproni, Nino Cais, Pedro Varela, Rafael Campos Rocha, Rick Castro, Rodrigo Bivar e Tiago Judas estarão na seleção -feita pelos curadores Angélica de Moraes, Cauê Alves, Daniela Bousso, Paula Alzugaray e Priscila Arantes.

Algodão entre os pincéis

Artistas, galeristas e organizadores de eventos como a Bienal entraram em alerta máximo depois que o Brasil, autorizado pela OMC (Organização Mundial do Comércio), decidiu retaliar os EUA por causa do subsídio que os americanos dão aos produtores de algodão. É que, na lista de produtos importados dos EUA que vão ser sobretaxados pelo governo brasileiro, foram incluídos "quadros, pinturas e desenhos". Galeristas dizem que a medida vai "inviabilizar" o trânsito de obras de arte entre os dois países. O Ministério da Cultura já foi acionado para ajudar a detonar a lista junto ao Itamaraty.

EM CASA
"Essa medida vai penalizar galerias e artistas e não vai afetar a economia dos EUA", diz Afonso Luz, do MinC. Ele afirma que vários pintores brasileiros fazem quadros nos EUA e vendem aqui. Dá como exemplo Vik Muniz. E afirma que galerias nacionais que representam americanos vão sofrer. "O impacto será sobre brasileiros, e não sobre americanos."

IMPOSSÍVEL
Alessandra d'Aloia, da galeria Fortes Vilaça e presidente da Associação Brasileira de Arte Contemporânea, é mais radical e diz que a retaliação inviabiliza o comércio de arte entre os dois países. "Todas as vezes que levamos um artista brasileiro para os EUA, a galeria de lá pede que a gente traga alguém deles para o Brasil." Segundo ela, taxas mais fretes atuais já equivalem a cerca de 60%. "Qualquer aumento torna a importação impossível." Protestos já foram enviados ao Itamaraty.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Bienal se encerra com recorde de público

Na sétima edição, que se encerrou às 21h de ontem, a Bienal do Mercosul atraiu um público estimado de 306 mil pessoas. O número é superior ao das edições anteriores, considerando-se que este ano o período de abertura ao público foi menor que em 2007. A cifra, divulgada ontem pelos organizadores, não leva em conta o público que participou das performances, os 12 projetos de artistas em programas de residência em nove regiões do Estado e o público que circulou por 10 obras temporárias em espaços públicos de Porto Alegre.

Nos 39 dias em que as exposições estiveram abertas ao público, a média diária foi de 7.849 visitantes.

– Mais uma vez, a identidade da Bienal com a cidade se consolida. A cada realização, notamos a integração da população com o evento – disse o presidente da 7ª Bienal, Mauro Knijnik.

Crítica/Miguel Bakun e Hélio Oiticica


Instituição cria confusão conceitual

por fábio Cypriano da Folha

É bastante esquizofrênica a dupla de exposições em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea (IAC): "Natureza e Destino", Sobre a Obra de Miguel Bakun (1909-1963), com curadoria de Eliane Prolik, e "Da Estrutura ao Tempo", sobre Hélio Oiticica (1937-1980), com curadoria de Cauê Alves.

Sem dúvida são duas individuais, com curadores distintos, mas que, ao serem reunidas no mesmo período e na mesma instituição, dão a (falsa) impressão de apresentar algo em comum. Já é fato na cidade que museus tenham designações incongruentes com seus acervos; afinal, o melhor do Museu de Arte Moderna de São Paulo é sua coleção de arte contemporânea, e o melhor do Museu de Arte Contemporânea da USP é seu acervo moderno.

Exatamente por isso o IAC poderia afastar-se dessa confusão. Dedicado a artistas que transitaram do moderno para o contemporâneo, como Sérgio Camargo, Amilcar de Castro, Willys de Castro e Mira Schendel, o IAC tem sido um dos poucos espaços da cidade a apresentar uma produção que, entre os anos 1950 e 1970, representou uma virada fundamental na arte brasileira.

Nesse sentido, a mostra com os Metaesquemas e os Relevos Espaciais de Oiticica mostra coerência com a casa, pois aborda o mesmo período e temática dos artistas que justificaram a criação do instituto.

Contudo, a originalidade do paranaense Bakun reside basicamente em pinturas de paisagens de sua terra natal, com uma temática regionalista e figurativa, que nada tem a ver com Camargo, os Castros e Schendel, denotando uma confusão conceitual da instituição.

Ao menos, no que tange à sala dedicada a Oiticica, o curador problematiza algo que tem muito a ver após o incêndio que destruiu parte do acervo do artista, no qual justamente os Metaesquemas teriam sido grandes vítimas, mas acabaram sendo preservados em sua maioria.

"Não há porque levar a sério minha produção pré-59", escreveu Oiticica, em 1972, desprezando justamente os Metaesquemas, feitos em 1957 e 1958. Atentar à preocupação fundamental da obra de Oiticica é fugir do objeto, mas usando-o para provocar uma reflexão, como faz Alves, é provocar um debate necessário.

SERVIÇO


NATUREZA E DESTINO MIGUEL BAKUN / DA ESTRUTURA AO TEMPO HÉLIO OITICICA

Onde : IAC (r. Maria Antonia, 242, tel. 0/XX/ 11 3255-2009)
Quando : ter. a sáb, das 10h às 18h; dom., das 12h às 17h; até 28/2
Quanto: entrada franca
Avaliação: regular