quarta-feira, 20 de maio de 2009

Heitor Martins deve assumir a Fundação Bienal



Consultor apresentará sua candidatura na próxima reunião do conselho da entidade

Camila Molina do Estadão


O consultor Heitor Martins, de 41 anos, deverá ser o próximo presidente da Fundação Bienal de São Paulo. Ontem, ele anunciou que aceita o convite para se candidatar ao cargo de presidente da diretoria executiva da Bienal, se tornando, portanto, o único candidato oficial. A reunião ordinária do conselho está marcada para o dia 28 e nela já ocorrerá a eleição. Martins é paulista de Marília, sócio-diretor da empresa internacional de consultoria McKinsey e estudou na Fundação Getúlio Vargas. Ele já tem proposta de trabalho preparada para a instituição, equipe e projeto para realizar a próxima Bienal de São Paulo em 2010.

"Ele tem algumas condições, entre elas, a de acertar uma presidência de transição", diz o conselheiro Julio Landmann. Ele seria eleito já no dia 28, mas durante 60 dias sua equipe trabalharia com a equipe atual da Bienal para "equacionar as contas". "Há outras solicitações, mas a transição é uma maneira de fazer acertos", afirma Landmann. Martins está atualmente na Europa, mas, segundo o presidente do conselho da Bienal, Miguel Alves Pereira, o consultor já enviaria nesta semana sua proposta de trabalho para ser apreciada pelos 60 conselheiros (10 deles vitalícios) e discutida na próxima reunião.

O cargo de presidente da Bienal está oficialmente vago desde 6 de fevereiro, quando, pelo estatuto, terminou a gestão de Manoel Pires da Costa. As contas do ano de 2008 da fundação, com déficit contábil de R$ 2,891 milhões, foram aprovadas no último dia 5 pelos conselhos fiscal e administrativo. Pires da Costa continua respondendo pelo cargo até a eleição. Desde o ano passado, a instituição convidou oito pessoas (incluindo Martins) a se candidatar à presidência, entre eles, o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, e o diplomata Rubens Barbosa. "Não há outro candidato oficial, mas pode ser que algum conselheiro apresente candidato durante a reunião", pondera Landmann.

Martins é casado com Fernanda Feitosa, diretora e idealizadora da SP Arte - Feira Internacional de Arte de São Paulo que, neste ano, em sua quinta edição, ocorreu até domingo no Pavilhão da Bienal (o evento tem contrato até 2015 para ocorrer no prédio). Colecionadores de arte, eles têm grande trânsito no meio artístico. "Eu seria a pessoa adequada porque poderia reunir recursos para a instituição. Mas quem quer que assuma que tenha um projeto para a fundação andar", afirmou Martins ao Estado.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

'Ninguém quer presidir a Bienal? Como? Eu quero!', diz Forest



O artista francês de 75 anos propõe edição feita pela internet e começa sua campanha por meio de site

por Camila Molina do Estadão

"Não são políticos, cientistas, ou os financistas das Bolsas de Valores que vão resolver os problemas da Bienal de São Paulo. Ela precisa de sentido e são os artistas que portam os sentidos." Enquanto ninguém aceita se candidatar à presidência da Fundação Bienal de São Paulo - o tempo passa e fica o jogo do empurra-empurra -, um artista de outro país, o franco-argelino Fred Forest, de 75 anos, lança agora sua candidatura ao posto. "Não preciso de dinheiro porque faço a próxima edição pela internet", diz Forest, que criou um site, Campanha para uma Nova Bienal, para alimentar o debate e fazer sua proposta reverberar: www.fredforest.org/paraumanovabienal. Já faz tempo que o artista está empenhado na situação da instituição: em 1973, participou da 12ª edição com o projeto Bienal 2.000 e mais recentemente, desde 2006, vem desenvolvendo a Bienal 3.000 (www.biennale3000saopaulo.org).

"Estarei acompanhado por uma equipe de artistas, especialistas da comunicação, críticos de arte, teóricos das ciências humanas e da filosofia, engenheiros em informática e especialistas em marketing. A idade média das pessoas que integram nossa equipe será de 25 anos", escreve o artista, no site. Até agora, a Bienal já convidou oito pessoas a encarar o desafio de presidir a instituição - e desde o ano passado, todo mundo vem dizendo não. A fundação esperaria até amanhã a resposta do consultor e empresário Heitor Martins, de 41 anos, se ele aceita ou não se candidatar para que, enfim, seja marcada uma reunião-geral do conselho da instituição para a eleição do novo presidente.

Enquanto isso, Forest já lança sua candidatura, como um happening, uma provocação, para chacoalhar a situação. "Na literatura há artistas que questionam as coisas, mas nas artes plásticas, não. Os artistas é que devem ser donos do próprio destino, sem política, sem funcionários e sem dinheiro. Talvez seja ingênuo dizer isso, mas se todos pensarem assim poderemos mudar a sociedade no nível das ideias e das propostas", continua o candidato, doutor em literatura pela Universidade Sorbonne.

Forest começou sua carreira artística como pintor, mas foi com a videoarte, na década de 1960, que deu início a uma pesquisa mais crítica e experimental, de criações de obras interativas e misturando mídias diferentes. Centrou suas ações no tema da comunicação e estética - e na conversa com o Estado, se apresentou dizendo que Marshall McLuhan, o autor da teoria da comunicação de massas ("O Meio é a Mensagem"), já escreveu sobre seu trabalho. "Hoje não é a pintura que vai propor questões, mas a internet", continua Forest, que veio a São Paulo, Porto Alegre e Brasília por conta de sua participação no Ano da França no Brasil. Ele inaugurou no Museu de Arte Contemporânea da USP no Ibirapuera a mostra O Centro Experimental do Território e Laboratório Social, baseado no Second Life, além de também abrir instalações cibernéticas na Universidade do Rio Grande do Sul e na de Brasília.

Mas, como afirma, o comitê do Ano da França não queria que ele viesse. "Foi o comitê brasileiro que se tornou responsável pela minha vinda, pessoas como Daniela Bousso e Felipe Chaimovich", conta. "O comitê francês disse que eu já tinha feito coisas suficientes no Brasil", continua. Entre as "coisas suficientes", ele conta sobre sua participação na 12ª Bienal de São Paulo, episódio que até o levou a ser interrogado no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que funcionava no prédio onde hoje é a Estação Pinacoteca - era o regime ditatorial no Brasil.

Naquela Bienal, Forest participou de uma seção especial formada por artistas que trabalhavam com a comunicação. Como não havia computador, publicou anúncios em jornais com dois números de telefone. "Quando as pessoas ligavam, uma voz dizia que elas tinham um minuto para se expressar livremente." Depois, ele promoveu um happening: dez pessoas foram à Praça da República com cartazes em branco, até que o local foi enchendo de gente e a polícia apareceu para bloquear tudo.

"Alguém escreveu MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária, em espanhol) num dos cartazes e me levaram para o Dops. A polícia tentou me intimidar, mas, ingênuo, fingi que não entendia nada. Não sou um herói porque sou estrangeiro, mas tinha a imprensa para me ajudar", diz Forest. A princípio ele não sabia que seu happening (a documentação sobre ele pode ser vista no site webnetmuseum) iria tomar aquela proporção. "Era algo para tocar no senso nobre da política, o das ações simbólicas."

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sophie Calle - LIVRO & EXPOSIÇÃO


Sophie Calle fará exposição em São Paulo após a Flip

da Folha Online

A artista plástica francesa Sophie Calle vai expor sua obra mais recente,"Cuide de Você" ("Prenez Soin de Vous", no original), em São Paulo. Depois que participar da sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorrerá entre os dias 1º e 5 de julho, Calle vem a São Paulo para a exposição, que estará no Sesc Pompéia. A abertura ocorrerá no dia 10 de julho e, no dia 11, a artista falará ao público em palestra aberta. A exposição ficará na capital paulista até o dia 07 de setembro, seguindo depois para Salvador.
O livro que resultou dessa exposição é um dos assuntos que será abordado por Sophie Calle na Flip. Trata-se de uma obra feita a partir de um rompimento amoroso: o antigo companheiro da artista rompeu o relacionamento por e-mail, terminando o texto com a frase "Cuide de você". Ela levou isso ao pé da letra: pediu a 107 mulheres das mais diferentes profissões que lessem e interpretassem o texto, cada uma de acordo com sua especialidade. Atrizes, cantoras, psiquiatras, uma filósofa, uma menina de nove e até mesmo uma cientista forense dissecaram a missiva enquanto eram filmadas por Calle. O conjunto dessas interpretações resultou numa premiada obra que representou a França na Bienal de Veneza, em 2007.

TAKE CARE OF YOURSELF
Autor: CALLE, SOPHIE
Editora: DAP-DISTRIBUTED ART
ISBN: 2742768939
ISBN-13: 9782742768936
Livro em inglês
Encadernado
1ª Edição - 2007
Preço: R$ 371,25 na Livraria Cultura


DIAS & RIEDWEG em NY


Exposição em Nova York enfoca migração e exílio

da Efe, em Nova York


O carioca Maurício Dias e o suíço Walter Riedweg exibem a partir de hoje "...and It Becomes Something Else", um conjunto de obras que explora temas de imigração, exílio e deslocamento, e que poderá ser visto na Americas Society, em Nova York, até o dia 1º de agosto.
Uma das peças mais relevantes da exposição é "Raimundos, Severinos e Franciscos", que fala da imigração interna no Brasil.
Reprodução
"Raimundos, Severinos e Franciscos" (1998), de Mauricio Dias e Walter Riedweg, é um dos destaques da exposição em Nova York

A obra mostra um grupo de porteiros de São Paulo, todos eles chamados Raimundo, Severino ou Francisco, nomes típicos do Nordeste brasileiro, que migraram para trabalhar na construção civil. Muitos destes homens se tornaram zeladores dos edifícios que ajudaram a construir.
"As pessoas que vivem nesses lugares não sabem seus nomes, então nós queríamos reinscrevê-los nesse sistema", declarou Dias.
Outra das peças centrais da exposição é uma instalação sobre o trabalho dos policiais da fronteira entre San Diego (Estados Unidos) e Tijuana (México), que examina o contraste entre a atitude repressiva dos policiais com imigrantes e a afetividade que aqueles têm com os cachorros que os acompanham em sua tarefa.
Na sala em que a peça é exibida, há uma tela que projeta entrevistas com os policiais da fronteira, rodeada por duas paredes repletas de imagens de seus cães e que estão decoradas pelos próprios agentes com estrelas e os nomes dos animais, "humanizando-os e heroicizando-os", nas palavras de Dias.
Para estes artistas, o tema da imigração também contém estereótipos e preconceitos que se originam no mundo ocidental. "Isto faz que alguém possa se transformar em um mero imigrante e não em uma pessoa", diz Dias.
Oriundos de diferentes campos das artes, Dias e Riedweg trabalham juntos há 16 anos e estão radicados no Rio de Janeiro.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Leandro Erlich na Luciana Brito Galeria



Leandro Erlich – Fragmentos de Una Casa
Abertura: 12 de maio, terça-feira, às 19hs (hoje).

O artista plástico argentino Leandro Erlich inaugura sua segunda mostra individual na Luciana Brito Galeria. Fragmentos de Una Casa é composta por três obras/ instalações inéditas, concebidas especialmente para o espaço da galeria: Window and Ladder, Skylight e Shattered Door.

Window and Ladder – Too Late for Help
parede de fibra de vidro, escada de metal, estrutura metálica. 2008


Window and Ladder - projeto para a galeria. 2009

Leandro Erlich (Buenos Aires, 1973) é hoje um dos artistas argentinos de maior ressonância internacional, com participação em diversas bienais de arte como Biennale di Venezia (2001 e 2005), Bienal de la Habana (2000), Whitney Biennial (2000), Istanbul Biennial (2001), Shanghai Biennale (2002), Liverpool Biennial (2008), Singapore Biennale (2008) e Bienal Internacional de São Paulo (2004). Exposições individuais recentes aconteceram no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madrid (2008), no P.S.1 Contemporary Art Center, em Long Island City (2008) e no Museo d’Arte Contemporanea de Roma (2006).


Luciana Brito Galeria
www.lucianabritogaleria.com.br

Rua Gomes de Carvalho, 842–Vl. Olímpia–Tel. (11) 3842.0635
Período: de 13 de maio a 13 de junho de 2009.
Horário: terça a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 17h.

Assessoria de Imprensa: Balady Comunicação/Silvia Balady
Tel.: (11) 9117.7324/3814.3382 - contato@balady.com.br

FALANDO EM CICLO CREMASTER


Para quem assistiu a série Cremaster do artista americano Matthew Barney.

Vejam que vídeos interessantes que encontrei por acaso quando pesquisava sobre o Cremaster para a postagem anterior.
No mínimo bonitinho. Ouvi falar que são as Demos do jogo que será lançado para Playstation 3.





Itaú Cultural - Ciclo exibe clássicos da videoarte na tela grande


Mark Leckey e Matthew Barney são destaques


por Silas Marti da Folha de S. Paulo


Da era disco ao 11 de Setembro, o mundo viu parte da brasa apagar. Mark Leckey retrata essa mutação do hedonismo em pavor no curta "Parade", destaque do ciclo de filmes aberto hoje pelo Itaú Cultural, com divas setentistas e figuras pop que dão lugar a ruas desertas.
Além do vencedor do Turner Prize do ano passado, outros nomes fortes da videoarte -Matthew Barney, William Kentridge, David Weiss e Peter Fischli- terão trabalhos exibidos na tela grande, com hora marcada, numa aproximação entre artes visuais e cinema.


Cremaster Cycle Trailer

Barney mostra o primeiro e último episódios de seu ciclo reprodutivo, "Cremaster 1" e "Cremaster 5", ambos com sessão amanhã. Levando o nome do músculo que suspende os testículos, são filmes que ilustram a origem da humanidade com base em excessos visuais.
Questões reprodutivas resolvidas, "Drawing Restraint 9" traz Barney e sua mulher, a cantora Björk, a bordo de um baleeiro japonês, para consumar uma união em alto mar.
Destaques do último dia, David Weiss e Peter Fischli investigam os valores e origens da arte em tom menos visceral e mais absurdo. Em "Der Lauf der Dinge", um rato e um urso visitam galerias, estudam alguns livros e tentam ganhar dinheiro com artes plásticas.
O sul-africano William Kentridge revê acontecimentos políticos de seu país com um desenho animado. São traços em carvão sobre papel, todos feitos na mesma folha -um exercício obsessivo para reaver parte da história. Ao contrário do desfile de imagens de Leckey, a câmera que não para, Kentridge não consegue virar a página.

Programação - Filmes e vídeos da Coleção Goetz

de terça 12 a domingo 17 de maio de 2009


terça 12

20h
palestra de abertura com a curadora Susanne Touw e o artista Alexander Birchler e exibição dos vídeos Single Wide, House With Pool e Eight

quarta 13

20h exibição dos vídeos Cremaster 1 e Cremaster 5

quinta 14

20h
exibição do vídeo Bedevil

sexta 15

20h
exibição dos vídeos QM, I Think I Call Her QM, The Music of Regret e Parade

sábado 16

15h
exibição dos vídeos Night Cries - A Rural Tragedy, Heaven, Nice Colored Girls, Lip e Artist
17h
exibição dos vídeos Goshogaoka e Nô
19h
exibição dos vídeos Drawing Restraint 9

domingo 17

15h
exibição dos vídeos Der Geringste Widerstand (The Least Resistance), Der Lauf der Dinge (The Course of Things) e Alpsee
17h
exibição dos vídeos Neulich 4, Die Beichte, Robert Langner, Biografie, Hotel Acapulco, Zeno Writing e Tide Table
19h exibição dos vídeos Usinimage, Ester - Ein Purimspiel in Berlin e Superbia - Der Stolz

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Entrevista: GERARDO MOSQUERA



texto publicado originalmente pela Revista espanhola A-Desk*Crítica y arte contemporáneo e traduzida para o português pelo site ArtCapital.com


Gerardo Mosquera é uma das vozes mais reconhecidas da América Latina. O conhecimento que tem da situação global da arte (a sua passagem pelo New Museum em Nova Iorque e pela Rijksakademie em Amsterdão são exemplos disso) é paralelo à sua capacidade de leitura crítica da arte produzida nos diferentes países da América Latina. Gerardo Mosquera fala de política, da Venezuela e de Cuba, assim como da situação na Argentina.

Por Desiré Vidal
Argentina

P: Num comentário referiste a existência e a partilha de uma série de códigos internacionais no mundo da arte, uma espécie de latim culto que deriva em novas linguagens populares. Por exemplo, em relação ao trabalho de um artista da Palestina ou de um outro do Brasil, se existem elementos próprios do lugar, ligados ao contexto e ao modo de resolver tecnicamente uma obra, já no que diz respeito aos formatos, aos temas e às problemáticas, elas são as mesmas. Isto poderá acontecer naqueles países que não fazem parte do mainstream, dos circuitos internacionais da arte devido a uma postura política decididamente antiglobal, com discursos localistas e individualistas, como é o caso da Venezuela de Chávez ou de Cuba?

R: O que Chávez está a fazer é realmente louco. A Venezuela tinha e ainda tem colecções de arte contemporânea, nacional e internacional, impressionantes, fruto das fortunas milionárias da época do petróleo que hoje em dia estão paralisadas. Quando Chávez tomou o poder, encarregou-se pessoalmente de eliminar e até de ridicularizar publicamente os directores e responsáveis de centros e museus de arte públicos, profissionais altamente qualificados, com carreiras muito prestigiadas. Curadores, críticos, historiadores… muito respeitados internacionalmente. Um belo dia, estas pessoas souberam pela rádio que tinham sido demitidas dos seus cargos. Foi o próprio Chávez que anunciou: “E agora vamos limpar os museus da burgesia. M.ª Elena Ramos, directora do Museu Nacional de Belas Artes, ponchaaaaá” (termo do calão do baisebol), e assim sucessivamente. Foi uma situação lamentável e patética.


P: O que é realmente preocupante é o seu amplo raio de acção e influência. Poderá desencadear um novo modo de pensar e actuar e de ser latino-americano, mas desperta desconfiança pelos seus modos pouco transparentes e pouco democráticos.

R:Não, não acredito. Felizmente, com a queda do preço do petróleo ficou sem dinheiro e terá menos poder. Tudo leva a crer que financiou a campanha de Cristina Kirchner: o voo em que enviaram a famosa mala era o décimo terceiro desse avião, pelo que possivelmente teriam enviado outras malas antes. A sua influência sobre outros países da América Latina estava ligada ao dinheiro, mas agora já não tem tantas malas. Penso e confio que isso não vai durar muito tempo. Nas mais recentes eleições, foi eleito por uma pequena margem de votos e o país está dividido em dois.


P: E Cuba?

R: Restam 10 anos ao regime. Foi-se aguentando porque foi apoiado por Chávez.


P: Continuas a viver em Cuba?

R: Sim estou a viver em Cuba mas totalmente marginalizado pelo regime, sou um in-exilado, um exilado dentro do meu próprio país. Não posso ensinar, não posso publicar, dar uma conferência, não posso fazer nada, não há acesso à Internet, nada. Podemos fazer coisas subterraneamente, por nossa própria conta, mas se organizamos algo com outras pessoas, tudo se complica. Cada vez que saio tenho de pedir uma autorização ao Estado, e isso implica um processo muito burocrático que demora dias. Assim, sempre que saio, faço-o por períodos longos para trabalhar em diferentes lugares. E concedem-me as autorizações porque sou convidado de entidades e instituições com muito prestígio, a quem não lhes interessa dizer não, para evitar escândalos. Cada vez que viajo tenho que justificar aonde vou, com quem, para quê…


P: E o trabalho que realizaste para a Bienal de Cuba e no Ministério da Cultura?

R: Sim, assim foi, mas aparte disso o meu trabalho mais importante na época foi o de crítico de arte. Durante a década de 80 ocorreram processos culturais renovadores em que participei activamente e em que desenvolvi o meu trabalho de crítico de arte. Fui um dos protagonistas desse processo e estive muito vinculado à vida cultural do meu país. Essa é uma das razões porque não saí do país, quis continuar a trabalhar aqui de uma maneira crítica e independente.


P: Não podem ter acesso à Internet nem a uma conta de e-mail. Não há acesso legal a uma vasta informação digital nem à rede global. Nota-se essa distância entre os criadores out-net e os in-net?

R: Não se podem pôr portas no ciberespaço! Essa é uma das manifestações mais evidentes da falta de sentido do regime. As novas tecnologias tornaram a situação incontrolável. Por exemplo, um artista faz um vídeo em Cuba, alguém leva uma cópia para fora e começa a circular, e a ter vida própria fora da ilha. O ministério do Interior de Cuba dedica-se a desenvolver programas informáticos para poder rastrear as conexões ilegais na Internet...é uma loucura. Outro caso é blog Generación Y de Yoanni Sánchez, que é o blog independente mais conhecido de entre os muitos que surgiram em Cuba. Chama-se assim como referência a toda uma geração de crianças que receberam nomes que imitavam sons estrangeiros e eram símbolo de estatuto social.


P: Podes falar-me acerca de como surgiu e como avalias o projecto que dirigiste durante este ano “Nove Cutadores discutem a sua obra”. Qual é o papel do curador? Que perfil e formação implica? É necessário o exercício da crítica para não repetir, não cair em formalismos…

R: Este projecto de formação surgiu a convite de Lidia Blanco, directora do Centro Cultural de Espanha em Buenos Aires, e veio cobrir um vazio. Na Argentina existem muitos artistas, galerias, espaços, propostas independentes, mas as possibilidades de formação para curadores são practicamente inexistentes. Neste contexto, pensei que seria uma contribuição possível convocar uma variedade de curadores internacionais a apresentar o seu trabalho junto de curadores, artistas e críticos de Buenos Aires e de Santiago do Chile, sobretudo aos jovens, numa série de encontros mensais ao longo de nove meses. Expor a sua produção como matéria de análise e discussão, criando um espaço de trabalho flexível e adaptado às necessidades concretas dos curadores, e estabelecendo uma rede entre todos. Para a maioria dos participantes permitiu-lhes conhecer pessoalmente, e pela primeira vez, excelentes profissionais como Cuauhtémoc Medina, Vicente Todolí, Taiyana Pimentel... E não foi difícil atraí-los e entusiasmá-los para participarem neste projecto, dado o seu perfil e a sedução que o passado histórico e literário de Buenos Aires desperta. Uma das debilidades destes projectos que se desenvolvem em países subdesenvolvidos é que não se capitaliza o esforço realizado. Neste sentido, a chave é o papel desempenhado pela Rede de Centros Culturais de Espanha na América Latina, espaços de dinamização, activação e produção cultural dirigidos por professionais com ideias, com vontade, que não são burocratas. Em muitos lugares estos centros implicaram a renovação cultural, como sucedeu com o desaparecido centro cultural de La Habana.


P: Partilho essa opinião, sem dúvida. Contudo, estes equipamentos culturais que contam com mais recursos, meios, redes e infraestructuras do que os mais locais, exercem habitualmente um papel de apadrinhamento da dinâmica cultural de uma cidade, tanto que nalguns casos, acabam por desenvolver-se relações de dependência que eclipsam as iniciativas independentes ou mais modestas.

R: Sim, é possível que isso aconteça, mas o que é que se pode fazer. Acho que não concorrem uns com os outros, pois cada um tem um papel importante a desempenhar e cada um cumpre o seu ciclo. No caso dos projectos desenvolvidos por artistas e colectivos, estes têm normalmente uma vida relativamente breve, seja em Buenos Aires ou em Londres. O papel de uma instituição é diferente, os centros culturais de Espanha cobrem um vazio institucional que é evidente em muitos casos. A actividade artística em geral está muito necessitada de renovação, da entrada de novos olhares, e se pensarmos na grandeza do país, a cena artística de primeira ordem é muito reduzida se a comparamos com a do Brasil ou com a da Colômbia.


P: Estiveste a trabalhar para o New Museum of Art de Nova Iorque. Como é que eles nos vêem?

R: Não procuram o exotismo porque já não interessa. Não te querem pela tua origem, não lhes interessa de onde vens, mas para onde vais. Hoje em dia o artista circula com nome próprio mas sem apelidos nacionais. Podem ainda existir circuitos a quem interessa explorar os tópicos e estereótipos da nação de origem do artista tendo em vista um mercado muito concreto, mas isso não tem nenhum sentido hoje em dia no circuito internacional da arte, sobretudo quando comprovamos que a arte contemporânea se aprende, descobre-se e distribui-se pela Internet. Quando vês o currículo de qualquer artista percebes que o seu itinerário profissional se faz em diversos países ou cidades. O mais importante é: como é que a diferença produz novos significados nos códigos internacionalizados.


P: Em que projecto estás a trabalhar?

R: Agora mesmo estou a trabalhar num projecto em Córdoba (Espanha) com os pátios tradicionais, um espaço de exposição potente, com linhas discursivas entre o público e o privado, o tradicional e o contemporâneo… Interessa-me trabalhar com lugares ou cenários fora da protecção do cubo branco. Chama-se “El patio de mi casa. Arte contemporáneo en patios de Córdoba” e apresenta-se entre 15 de Outubro e 29 de Novembro. Vai ser um bom projecto, está a ser muito interessante trabalhar com os propietários destes pátios, que são património cultural da cidade, e com os artistas visitantes.

Disponível em:
www.a-desk.org/spip/spip.php?article239

sábado, 9 de maio de 2009

NINO CAIS na Galeria Virgílio



A casa imaginária de Nino Cais


A Galeria Virgilio inaugura no dia 12 de maio, terça-feira, as individual do artista Nino Cais, exibindo fotografias, colagens, instalações, imagens digitais.

O artista paulistano Nino Cais apresenta na exposição “Décor” fotografias, colagens, desenhos e um vídeo-objeto. O conjunto das obras é distribuído em três ambientes no andar térreo da galeria, compondo um ambiente que, segundo a curadora Thaís Rivitti, se situa entre um show-room de decoração e uma casa. A intervenção que o artista faz na galeria lembra muito um ambiente doméstico carregado de objetos do cotidiano.

Nino Cais, Sem Título, 2009 (fotografia, 110 x 85cm)

O percurso que o visitante é convidado a fazer simula três ambientes: uma sala, um quintal e um quarto. Na primeira sala, revestida de papel de parede floral, segundo Rivitti, estão os trabalhos novos, produzidos ao mesmo tempo em que essa exposição era pensada. Um corredor que se descortina atrás daquilo que o artista chama de “totem de samambaias empilhadas” conduz aos lugares mais resguardados da casa imaginária.

Nino Cais, Sem Título, 2009 (fotografia, 110 x 85cm)

“A sala dos fundos, mais intimista, simula um quarto, escritório ou gabinete onde ficam em exposição trabalhos em papel: desenhos e colagens mais delicados, além de fotos que mostram o artista concentrado, equilibrando-se sobre objetos de vidro. No ambiente intermediário, surge a única comunicação com o espaço externo realizada por intermédio de uma TV, que faz o papel de janela, e mostra uma bucólica paisagem”, diz a crítica.

Para Rivitti, que também assina o texto de apresentação de ‘Décor’, a museografia da exposição leva em conta a ironia presente na poética do artista. “Para Nino Cais, o espaço é visto como espaço ocupado, vivenciado. A casa, então, surge como campo de interesse imediato, à medida que ela seria o espaço por excelência da vivência íntima, do contato prolongado com os objetos, da organização que obedece apenas ao gosto pessoal.”


Nino Cais cursou Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo. Ganhou dois Prêmios Aquisição, em 2005 e 2008, entre outros. Em 2007, participou da feira Pinta, no Metropolitan Pavillion, em Nova York. Atualmente, participa da mostra Trilhas do Desejo, em São Paulo, que apresenta 72 trabalhos de artistas selecionados no programa Rumos Itaú Cultural 2008-2009 pela equipe do curador Paulo Sérgio Duarte. Nasceu e trabalha na capital paulista.

Serviço:

Evento: individual de Nino Cais
Local: Galeria Virgilio
Inauguração: 12 de maio 2009, terça-feira, a partir das 19h30
Período expositivo da mostra: de 13 de maio a 09 de junho
Endereço: Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426
CEP 05415-020, Pinheiros, São Paulo - SP
Telefones: (55 11) 3062 9446 / 3061 2999
Horários: de segunda a sexta, das 10 às 19h; e sábado, das 10 às 17h
Entrada franca

ROGÉRIO DEGAKI

Artista se inspira em "fofura" de um Japão pop

por Silas Martí da Folha de S. Paulo


Esculturas de Rogério Degaki, em mostra na Casa Triângulo

Quando chegou ao Japão, Rogério Degaki viu que era "superfofo" o desenho do guarda na sinalização da alfândega. "Lá todo tipo de placa tem um desenho infantil", observa o artista, que abre exposição hoje na galeria Casa Triângulo. "As pessoas têm uma visão de orientais como clean, mas minha mãe coleciona todos os cacarecos." Dos bibelôs da mãe aos guardas "fofos" do aeroporto, Degaki, 34, reinterpreta a estética supercolorida da cultura pop japonesa em suas esculturas de isopor e fibra de vidro.
Parecem brinquedos crescidos demais, produtos lustrosos recém-saídos da linha de montagem. Diferem, talvez só em escala e ousadia, das bugigangas de orçamento milionário do japonês Takashi Murakami, influência declarada de Degaki, que tem verdadeiras fábricas para montar suas obras-brinquedo. "Eu também tento chegar à estética do industrial, mas faço isso manualmente", afirma. "Gosto de buscar uma beleza construída, manipular uma coisa para que seja mais apelativa."

ROGÉRIO DEGAKI

Quando: abertura hoje, às 12h; de ter. a sáb., das 11h às 19h; até 6/6
Onde: Casa Triângulo (r. Paes de Araújo, 77, tel. 3167-5621); livre
Quanto: entrada franca

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Rogério Degaki na Casa Triângulo


www.frequentarosincorporais.blogspot.com


Rogério Degaki

Contém Edulcorantes

abertura: 09 de maio das 12 às 17 horas


FULL, 2009 aprox. 190 x 85 x 85 cm


SEBASTIAN, 2009 aprox. 81 x 34 x 39 cm

.
GLUE, 2009 aprox. 120 x 156 x 70 cm


abertura: 09 de maio das 12 às 17 horas
período da exposição: 12 de maio a 06 de junho de 2009
local: Casa Triângulo
endereço: Rua Paes de Araujo 77 (Itaim Bibi) São Paulo/SP 04531-090
tel: 11 31675621
e-mail: info@casatriangulo.com
site: www.casatriângulo.
com horário de funcionamento: de terça a sábado das 11 às 19 horas

terça-feira, 5 de maio de 2009

Geraldo de Barros - Mesa-Redonda


A exposição Geraldo de Barros em cartaz no SESC Pinheiros - Modulação de Mundos - abrange cerca de 50 anos de trabalho do artista (1923-1998), destacando as séries fotográficas “Fotoformas” e “Sobras”, o design de móveis e os quadros-objeto construídos em fórmica laminada. Há ainda a exibição do filme “Geraldo de Barros – Sobras em Obras”, com direção de Michel Favre.
Em 07/05/09, às 20h, ocorre uma mesa-redonda com a participação de Michel Favre, Mauro Claro (arquiteto e professor da Universidade Mackenzie) e Heloísa Espada (pesquisadora de fotografia da ECA-USP e do Instituto Moreira Salles) e mediação de João Bandeira (curador da exposição)

Serviço
SESC Pinheiros: r. Paes Leme, 195, tels. (11) 3095-9400 e 0800-118220.
Ter. a sex., 13h/22h; sáb. e dom., 10h/19h. http://www.sescsp.org.br

Mostra de 29/04/09, às 20h, a 28/06/09;
Visitação de ter. a sex., 10h30/21h30; sáb. e dom., 10h30/18h30).

CAPACETE ENTRETENIMENTOS em SP


Capacete inicia programa de residências artísticas em São Paulo

O programa Capacete, com sede no Rio de Janeiro (RJ), inicia um programa de residências artísticas em São Paulo em um novo espaço. A inauguração do local ocorreu em 04/04/09, no edifício Copan (Av. Ipiranga, 200, bloco C, apto 221, Centro).
As primeiras residências artísticas na cidade começam em maio. Participam Mariana Castillo Deball (México); Ulrik Helthoft (Dinamarca), Tamar Guimarães (Brasil), Daragh Reeves (Inglaterra), Runo Lagomarsino (Itália-Suécia), Danilo Volpato (Brasil), Leonor Antunes (Portugal), Kim Faler (EUA), Sasha & Petri (Finlândia), Melanie Gilligan (Canadá) e Raphael Grisey (França).

Mais informações: www.capacete.net

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Panorama da Arte Brasileira I


Mostra de arte "Panorama estrangeiro' é atacada na web


por Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

Em vez de "Panorama da Arte Brasileira", "Brazilian Art Landscape" é como o artista Alex Cabral propõe que seja denominada a mostra com curadoria de Adriano Pedrosa, a ser inaugurada em outubro, no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo).
Já a artista Ligia Borba sugere "Panorama da Arte Brasilianista". O sarcasmo faz parte da maior parte das 58 mensagens já postadas (até o fechamento desta edição) no site Canal Contemporâneo, a partir da proposta de Pedrosa de não incluir artistas brasileiros na exposição com caráter bienal, criada há 40 anos.
No blog do Canal Contemporâneo --uma comunidade digital organizada pela artista Patrícia Canetti--, a grande parte dos comentários à proposta de Pedrosa, após reportagem publicada na Folha, é marcada por reações bastante violentas (http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/002119.html).
foto LeonardoWen
Curador da exposição, Adriano Pedrosa, em frente ao MAM

Um dos exemplos é como o artista Artur Barrio contesta Pedrosa: "Que presunção, que vaidade, que egocentrismo, que exclusão, que ignorância".
"Sabia que a proposta geraria polêmica, e o formato de blog propicia reações violentas. Como a curadoria é uma prática que exclui muito mais do que inclui, pois o conjunto incluso é sempre infinitamente menor do que o excluído, quanto mais reputada a mostra curada, maior o número de potencialmente frustrados ou irados em relação a ela", diz Pedrosa.

Opiniões favoráveis

A Folha ouviu outros 13 artistas e curadores (leia íntegra dos depoimentos na postagem abaixo) e a maioria, ao contrário do que ocorre no Canal Contemporâneo, posicionou-se a favor do projeto de Pedrosa. De todos, apenas a artista Carmela Gross e o curador Paulo Venancio Filho foram contrários à proposta.
A favor manifestaram-se os artistas Jac Leirner, Rivane Neuenschwander, Rosângela Rennó, Sandra Cinto e Ricardo Basbaum, além dos curadores Agnaldo Farias, Lisette Lagnado, Daniela Labra, Rodrigo Moura, Cristiana Tejo e Felipe Chaimovich.
Curador do MAM-SP, Chaimovich coloca a instituição em defesa de Pedrosa: "O 'Panorama' caracteriza-se pelo questionamento regular da natureza da arte brasileira e o debate gerado pela proposta curatorial de 2009 mostra a relevância de uma reflexão renovada a cada edição, quebrando expectativas e apontando interpretações inesperadas, como cabe a um museu de arte moderna".
No entanto, nem todos são a favor da ideia de forma integral, apresentando algumas ressalvas, como o artista e curador Ricardo Basbaum.
"Parece que somente os curadores são capazes hoje de provocar polêmicas; antes estas eram produzidas pelas obras, pelos artistas. Se pensarmos na 28ª Bienal, a discussão que mobilizou a opinião pública foi provocada pelos curadores e não por qualquer artista ou obra da mostra", diz ele.
"Isso me preocupa: obras e artistas não estão sendo mais percebidos enquanto agentes provocadores, e sim os curadores", completa Basbaum, que está em cartaz em São Paulo, na galeria Luciana Brito.
A polêmica, contudo, está ajudando o curador a redefinir sua própria exposição.
"A princípio, eu tinha pensado em fazer uma exposição mais esparsa, com um número menor de artistas, mas agora estou considerando incluir mais obras, mais exemplos de 'arte brasileira feita por estrangeiros', sem querer esgotar o assunto, mas tornando o argumento mais claro", diz Pedrosa.

Tradição

O "Panorama da Arte Brasileira" foi criado pela Comissão de Arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1969, portanto alguns anos após o desmonte do museu, ocorrido em 1962, quando seu fundador, Ciccillo Matarazzo, doou à Universidade de São Paulo toda a coleção do museu, o que deu origem à criação do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Sem acervo, o MAM criou então o Panorama como estratégia para se recriar e reorientar: o foco da coleção passaria a ser a produção contemporânea nacional, o que de fato é o perfil do museu, traindo em parte a denominação "de arte moderna".
Os prêmios de aquisição do "Panorama", que ocorrem desde sua primeira edição, foram uma importante forma de constituição do acervo da instituição e das poucas ações permanentes para tal fim num museu paulistano.
Em 1995, pela primeira vez, o "Panorama" foi organizado por um curador, no caso Ivo Mesquita, que rompeu com o formato tradicional da mostra por suportes, inspirado no espetáculo "O Livro de Jó", do Teatro da Vertigem.
Em 2003, sob a designação "Desarrumado", o "Panorama" apresentou pela primeira vez artistas estrangeiros, com curadoria do cubano Gerardo Mosquera. Além de 16 brasileiros, o curador apresentou o belga Wim Delvoye, o argentino Jorge Macchi e a chinesa Kan Xuan. Também pela primeira vez, o "Panorama" foi visto no exterior, em itinerância na Espanha.
Em 2005, organizado por Felipe Chaimovich, atual curador do MAM, o "Panorama" gerou polêmica ao comparar a produção contemporânea aos gêneros da pintura clássica.

Panorama da Arte Brasileira II


Depoimentos sobre as mudanças do "Panorama da Arte Brasileira"

da Folha de S.Paulo


CONTRA

"O sr. Adriano Pedrosa que se cuide! A sua estrangeirice é tamanha que um dia ele ainda vai ser deglutido pelos canibais de plantão!"
Carmela Gross, artista

"Será que não há no MAM uma mente lúcida para se opor a tamanha arrogância ridícula?"
Paulo Venancio Filho, curador

A FAVOR

"Um 'Panorama' com 'trabalhos nacionais de artistas estrangeiros' é, obviamente, fruto de uma ação que inverte e questiona territórios concretos e políticos. Frente à quantidade de exposições voltadas à produção nacional em 'n' instituições paulistas, a ideia para esse 'Panorama' do MAM me parece bem humorada, antiterritorialista e pertinente. O tratamento especial reservado à produção dos trabalhos e aos artistas deveria ser praxe em quaisquer instituições, só nos resta ver a qualidade da arte que se apresenta, apesar da resistência do meio local."
Jac Leirner, artista

"A ideia parece-me muito interessante. É sempre bom lembrar que a cultura sempre ultrapassou os limites fixados pela geopolítica. Por conta disso é que se pode dizer que o Brasil não é obra exclusiva daqueles que nasceram aqui. Já não foi dito que a literatura latino-americana começou na escrita do primeiro europeu impactado pelo que viu? E alguém aí discute que o Sergio Leone não é norte-americano e que depois dele o faroeste mudou um bocado? Embora brasileiros, temos lá nossa parcela de norte-americanos, franceses, ingleses, alemães..."
Agnaldo Farias, curador

"A proposta aponta para um esgotamento: depois do 'Antarctica Artes com a Folha', hoje o 'Rumos' cumpre a missão de mapear a arte feita no Brasil. A identidade das mostras muda. A 'Paralela' virou um 'Panorama' e o último 'Panorama' teve calibre de Bienal. Por ser uma mostra autoral, deve formular algo a partir de uma falta. Adriano é um dos embaixadores da arte brasileira no exterior, já tendo inserido Sandra Cinto, Marcelo Cidade e Marcellvs L. em mostras importantes."
Lisette Lagnado, curadora

"Existem muitas mostras deste tipo no mundo todo, e a premissa de que um artista tenha de pertencer a um lugar específico como justificativa para a sua participação já não é mais o suficiente (vide o fim das representações nacionais na 27ª Bienal de São Paulo). Além disto, acho válido (re)pensar o nosso país como um lugar que assimile diversas culturas, gerando assim discussões mais abrangentes inclusive e sobretudo sobre nossa própria identidade."
Rivane Neuenschwander, artista

"Não conheço todos os argumentos de Adriano Pedrosa, mas acredito que sua proposta pode indicar uma questão interessante, a de se permitir indagar o que faz de uma arte brasileira _se é a nacionalidade de seu autor, o país onde ele cria, a temática de sua obra, entre outros. Porém, a proposta corre o risco de se concretizar numa mostra repleta de clichês: a miséria, o carnaval, o sensual, a luta de classes, o precário, o exuberante etc, são aspectos facilmente encontrados em leituras estrangeiras superficiais sobre o Brasil. Acredito, contudo, que Pedrosa é bastante hábil para se desviar desse risco e se quiser, poderá levar a cabo uma discussão eficaz sobre o panorama da arte (e do circuito de arte) brasileira."
Daniela Labra, curadora

"A ideia de uma bienal nacional, que, de dois em dois anos, dê conta da totalidade da produção emergente, está esgotada há muito tempo. A verdade é que não dá tempo de fazer um update neste período, o que gera exposições muito parecidas umas com as outras. Com a proposta do Pedrosa, o MAM deixa claro que pensa o 'Panorama' como uma exposição que pode questionar seu formato até limites radicais. A ideia de pensar arte brasileira através dos óculos do estrangeiro é, em si, questionável, mas acho que faz sentido propor um formato radicalmente diferente a cada edição do 'Panorama', já que sua essência e origem não têm mais relevância no panorama de hoje."
Rodrigo Moura, curador do Instituto Cultural Inhotim

"Cada vez mais artistas brasileiros são convidados a desenvolver trabalhos específicos em exposições internacionais e, do lado oposto, várias obras são produzidas, no Brasil, por artistas estrangeiros e muitas vezes não podemos usufruí-las. Essas trocas são saudáveis e devem ser prestigiadas. Além do mais, gosto muito da idéia de desvincular o 'brasileiro' do 'nacionalista', como disse o Adriano Pedrosa. O 'Panorama' não precisa ser encarado como mais uma coletiva de arte brasileira que acontece de dois em dois anos, com um curador diferente (aliás, pelo que me consta, a 'Paralela' também adotou esse perfil). Particularmente não vejo problema algum, de vez em quando, vermos um 'Panorama' diferente, como aconteceu quando o Gerardo Mosquera convidou estrangeiros pra integrarem a mostra curada por ele, em 2003; se o ponto de vista for bom, e a arte for boa e feita no Brasil, não pode ser feita por estrangeiro?
Rosângela Rennó, artista

"É interessante notar como cada 'Panorama' responde a seus antecedentes, seja para negá-los ou reafirmá-los ou partir de nortes anteriormente abertos. O foco do evento parece ter se cristalizado em sua própria história e na afirmação e/ou desconstrução de uma estética nacional do que firmar posicionamentos críticos diante de uma produção artística de uma época inscrita num lugar chamado Brasil.
Eu achava que a discussão literal em torno da identidade e do pertencimento nacional já tivesse vivido seu esgotamento e migrado para pontuações de poéticas provenientes de vários 'lugares', mas pelo visto ela ainda suscita malabarismos curatorais e reações nacionalistas acaloradas."
Cristiana Tejo, curadora da Fundação Joaquim Nabuco (PE)

"O 'Panorama da Arte Brasileira' do Museu de Arte Moderna de São Paulo caracteriza-se pelo questionamento regular da natureza da arte brasileira. O debate gerado pela proposta curatorial de 2009 mostra a relevância de uma reflexão sempre renovada a cada edição do 'Panorama', quebrando expectativas e apontando interpretações inesperadas, como cabe a um museu de arte moderna."
Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP

"Acho a provocação do Adriano Pedrosa interessante. Mas o curador terá de ser capaz de reunir trabalhos que realmente provoquem uma reflexão sobre o tema - e não simplesmente figurar slogans superficiais. É preciso sair de provincianismos nacionalistas - resquício da ditadura militar - e atuar politicamente no mundo, internacionalmente. Muitas vezes somente ligações políticas internacionais podem provocar a renegociação de impasses políticos locais. Muitas instituições brasileiras são provincianas e se esquivam do debate global da arte contemporânea, assim como dos debates locais. Os dois pólos não estão tão distantes e reverberam um no outro.
Mas uma coisa me intriga principalmente, e para mim é o ponto que me chama mais a atenção: parece que somente os curadores são capazes hoje de provocar polêmicas; antes estas eram produzidas pelas obras, pelos artistas. Se pensarmos na 28ª Bienal, a discussão que mobilizou a opinião pública foi provocada pelos curadores e não por qualquer artista ou obra da mostra. Isso me preocupa: obras e artistas não estão sendo mais percebidos enquanto agentes provocadores, e sim os curadores. Entretanto, acredito que os principais agentes provocadores são de fato as obras. O curador teria que re-aprender a recolocar o conflito 'obra x sociedade', e não apenas 'evento x sociedade', 'exposição x sociedade' - e assim sair do centro da cena."
Ricardo Basbaum, artista e curador

"Eu penso que o 'Panorama da Arte Brasileira' que propõe um olhar sobre a influência da mesma na produção internacional é um projeto que vai além de uma mostra coletiva. Constatar que a arte brasileira deixou de ser periférica, que é uma referência no contexto internacional é algo que só a fortalece. Nós, artistas brasileiros, estaremos representados sim, de uma maneira muito mais profunda. 'Panorama' significa uma visão ampla, em todas as direções, sem obstáculos."
Sandra Cinto, artista


Austrian Pavilion


Austrian Pavilion

53rd International Art Exhibition
La Biennale di Venezia
June 7 - November 22, 2009

Elke Krystufek
Dorit Margreiter
Franziska & Lois Weinberger

Commissioners
VALIE EXPORT and Silvia Eiblmayr

Elke Krystufek: Ernst Ludwig we´ll say was exactly like that, 2009
Dorit Margreiter: Pavilion, 2009, film still
Franziska & Lois Weinberger: NOUS Komplexität des Unbestimmten / Herbarium, 1994


Austria is presenting three artistic positions: Elke Krystufek, Dorit Margreiter and Franziska & Lois Weinberger. All have developed new works for the Austrian pavilion. Each of these artistic positions deals with a specific theme, and while their art differs greatly, they all share a structural approach, which critically questions the orders determining social aspects of our lives, our culture and politics.

Elke Krystufek condenses several themes in her painting installation TABOU TABOO (2009): Polynesia, the mythical place as it was conceived and conveyed in Modern European art, and the issue of a specifically "female gaze". The title TABOU TABOO is a reference to the film "Tabu" by F. W. Murnau and further to Sigmund Freud's "Totem und Tabu". Krystufek replaces the word "Austria" on the outside of the pavilion with the word "Tabu", and thus attacks the identity of the building.

Dorit Margreiter's work Pavilion (2009) is a film dealing with the place of its production and its mis-en-scène: the pavilion constructed by Austrian architect Josef Hoffmann, opened 1934 in the Giardini of Venice. Margreiter explores the pavilion as an utopian space of art, forming an architectural sculpture in itself. Pavilion is a grainy black-and-white film with a surreal quality. Its staged rendition at the actual site mirrors the pavilion in its space and in time, it is a projection of itself onto itself.

Laubreise (2008/09) by Franziska & Lois Weinberger is an outside piece, an accessible architectural sctructure located between pavilion and canal which houses an object inside. Laubreise as well as other works by F. & L. Weinberger deal with the relationship between "nature" and "culture"; their work is about the subtle „peripheries of perception" of an "invisible nature / spiritual nature" (L. Weinberger). Inside the pavilion an installation gives insight into Weinberger's work from 1976 until today.

Catalog
VALIE EXPORT and Silvia Eiblmayr (eds.):
Elke Krystufek. Dorit Margreiter. Franziska & Lois Weinberger
Austrian Pavilion, 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia
Contributions by Hildegund Amanshauser, Xabier Arakistain, Roel Arkesteijn, Barbara Clausen, interview by Dieter Buchhart, introduction by V. EXPORT and S. Eiblmayr, Verlag der Buchhandlung Walther König, Cologne 2009.

La Biennale di Venezia
Austrian Pavilion
Giardini della Biennale di Venezia

Opening times: 10 am - 6 pm
Giardini closed on Mondays (except June 8 and November 16)
Vaporetto lines from train station and Piazzale Roma
No. 1 via Canale Grande until station Giardini (approx. 1 hour)
No. 41, 51 and 61 (only from Piazzale Roma) until station Biennale

On behalf of the Austrian Federal Ministry for Education, the Arts and Culture

Office Austrian Pavilion
quartier21
Museumsplatz 1
1070 Vienna
AUSTRIA
Tel. / Fax. +43 1 522 51 69
pavillon@biennale09.at
http://www.biennale09.at

domingo, 3 de maio de 2009

Residência Artística

Workshop do Pavillon/ Palais de Tokyo na Residência Artística FAAP.

De 27 a 10 de maio, a Residência Artística FAAP acolhe os atuais residentes do Pavillon, núcleo de pesquisa e produção artística do Palais de Tokyo, Paris.
Tomando como ponto de partida as noções de deriva e psicogeografia da Internacional Situacionista, os nove artistas de diferentes nacionalidades, em conjunto com 4 ex-alunos da FAAP, experimentam no Brasil duas realidades urbanas aparentemente opostas: o caos e a ausência de planejamento de São Paulo e a experiência do urbanismo totalmente planificado de Brasília. Duas faces, verso e reverso, da cidade moderna.

Um open studio, programado para o próximo dia 9 de maio - sábado – acontecerá na Residência Artística FAAP, no Edifício Lutetia, situado na Praça do Patriarca, 78. Esta será, portanto, a oportunidade de conhecer, tanto os artistas quanto seus trabalhos.

O projeto que integra a programação do Ano da França no Brasil 2009, teve apoio do CulturesFrance e do Consulado da França, em São Paulo, sendo realizado pelo Pavillon/ Palais de Tokyo e a FAAP Fundação Armando Alvares Penteado.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PALESTRAS EM MAIO NO MAM - SP



Acontece nos dias 14 e 15 de maio, no Auditório Lina Bo Bardi do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma série de palestras dedicada a pensar e repensar cada etapa da produção artística. Com um time de oradores que vale parar para escutar. Entre eles, a curadora da Tate Modern, de Londres, Tanya Barson; a do parisiense Centre Georges Pompidou, Emma Lavigne; e o brasileiro Rodrigo Moura, responsável pelo Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, no interior mineiro.

Informações:

MAM
Parque do Ibirapuera, portão 3 - s/nº
São Paulo - SP - Brasil
04094-000
Tel.: (11) 5085-1300
Fax: (11) 5085-2342

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ARTIGO: Performance


DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE TEHCHING HSIEH? *


por EMANUEL CAMEIRA do site português ArteCapital.com

Mas quem foi que lhe disse que a arte devia ser vida?
Esta noite improvisa-se de Luigi Pirandello

Ainda desconhecidas para alguns, as performances de Tehching Hsieh (Taiwan, 1950) medem-se literalmente por anos. Também por isso são marcos numa linguagem artística em aberto desde a década de 60 do século , quando outro era já o registo, mais voltado para uma desmaterialização do objecto, refazendo o entendimento formalista sobretudo ao querer privilegiar na obra de arte aspectos de conceito e de processo e, como tão bem notou Lucy Lippard (1), concebendo-a em termos efémeros, interdisciplinares, na directa interacção com o público e próxima do quotidiano. Mas explicar o recente interesse curatorial e académico pelo trabalho de Hsieh implica contudo situá-lo primeiro entre uma teia de circunstâncias onde constam a crescente atenção ocidental a artistas asiáticos (muitos da diáspora europeia e norte-americana), o actual peso dos estudos performativos no quadro da teoria cultural ou mesmo a emergência de projectos expositivos baseados na reconstituição de performances históricas.

Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1978 – 1979

Corria o ano de 1974 e Hsieh desembarcava ilegalmente num pequeno porto de Filadélfia. Essa condição de outsider, de imigrante ilegal, constitui aliás algo com que lidará até à amnistia de 1988, decorria a derradeira das suas seis performances, quase todas acontecidas na vibrante cena nova-iorquina. E sob que forma? Sempre a excessiva presença do corpo preso a situações-limite, de intenso desgaste físico e mental: vemo-lo enjaulado no atelier e impedido de qualquer tipo de estímulo (2), contacto material ou humano (pedia-se inclusive o silêncio da audiência nas poucas vezes que a houve), picando o ponto hora a hora, na pele de sem-abrigo, amarrado a Linda Montano pese embora nunca lhe podendo tocar, recusando fruir de actividades de cariz artístico. Obras portanto singularíssimas, as “one year performances”, nelas se intensificaram as ligações da arte com a vida mediante o recurso a uma longa e metafórica duração anual. Diz o artista:

Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1980 – 1981

One year is the largest single unit of how we count time. It takes the earth a year to move around the sun. Three years, four years is something else. It is about being human, how we explain time, how we measure our existence. A century is another mark, which is how the last piece was created. (3)

Tehching Hsieh, “One Year Performance (Outdoor Piece)”, 1981 – 1982

De facto, “Earth” é diferente. A 31 de Dezembro de 1986 Tehching Hsieh nada revela do conteúdo da performance. A arte que produzirá apenas será descrita no fim, treze anos depois. Quem esteve na Judson Church de Manhattan e então assistiu ao anúncio, “I kept myself alive. I passed the Dec 31, 1999”, pôde testemunhar a desconstrução dessa espécie de ontologia da performance associada grosso modo à ideia de acontecimento momentâneo e não tanto à experiência vivida extensamente no tempo. A absoluta diluição da arte na vida, aqui flagrante, mostra uma radicalidade que concretiza o tal princípio de Allan Kaprow segundo o qual the line between art and life should be kept as fluid, and perhaps indistinct, as possible (4). Ora, destituída de parâmetros palpáveis, a obra está na vida de Hsieh. Transfiguração da vida porque no plano da arte ou desmistificação desta por via das contingências do dia a dia (lembre-se a ocasião em que adormece e deixa de picar o ponto ou a rixa de rua que o força a entrar num espaço coberto, a esquadra), parecem surgir enquanto possíveis rotas de sentido.

Tehching Hsieh, “One Year Performance (Art-Life)”, 1983 – 1984

Julgo ter sido Jacinto Lageira a afirmar a necessidade de na performance reconhecer a integração das componentes física, sensível da acção, e formal, do intelecto. Verdade é que sem sujeito para a viver a forma não ganharia existência. Porém, o performer pensa emergido na especificidade de um corpo já vivido, material pensante, dotado de história. Parte do fascínio de Tehching Hsieh provém daí:

His destination: Manhattan, center of the art world. Once there, though, Hsieh found himself ensnared in the benumbing life on an illegal immigrant. He eked out a living at chinese restaurants and construction jobs, feeling alien, alienated and creatively barren until it came to him: he could turn his isolation into art. Inside an unfinished loft, he could build himself a beautiful cage, shave his head, stencil his name onto a uniform and lock himself away from a year. (5)


Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1985 - 1986

Na performance, a obra encontra-se na imanência da encarnação. Há um sujeito que vejo e me interpela acerca de variados traços da vida individual e social, privacidade, trabalho, liberdade, alteridade. Hsieh estabelece pois com a arte uma nova e visceral vinculação, submetida a sua corporalidade à pura passagem do tempo, a um duradouro e repetitivo conjunto de tarefas e constrangimentos.

Tehching Hsieh parou de criar a partir de 31 de Dezembro de 1999. Alexandra Munroe, curadora sénior de arte asiática no museu Solomon R. Guggenheim arrisca a seguinte interpretação:

maybe he was a man choosing art as a tool to demonstrate a certain philosophical set of conditions, and it served his purpose, so he doesn’t need it anymore. I think he’s bigger than art on some level. I think – I’ll be really extreme here – that he killed art so he could transcend it. (6)

Tehching Hsieh, “Earth”, 1986 – 1999

Até dia 18 de Maio uma réplica da jaula construída no âmbito da primeira “one year performance” pode ser vista no MoMA. Um mês antes termina no Solomon R. Guggenheim a exposição “The third mind: american artists contemplate Ásia, 1860-1989”, que documenta a segunda das performances.

Emanuel Cameira

NOTAS

* Título adaptado de De que falamos quando falamos de performance, revista Marte, nº 3, edição da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2008.
(1) Lippard, Lucy R. (1997), Six years: the dematerialization of the art object from 1966 to 1972, California, University of California Press.
(2) Exceptuando a alimentação que diariamente lhe era levada por um amigo.
(3) Retirado da entrevista a Hsieh disponível em www.thebrooklynrail.org/arts/sept03/tehchinghsieh.html
(4) In Harrison, Charles e Wood, Paul (eds.) (2003), Art in Theory 1900-2000 – an anthology of changing ideas, Oxford, Blackwell Publishing, p. 720.
(5) Sontag, Deborah (2009), “The art of pushing the boundaries of life”, in International Herald Tribune, 27 de Fevereiro, disponível em www.iht.com/articles/2009/02/27/arts/artist.php


Volpi no Rio


Exposição no Instituto Moreira Salles reúne telas raras de Alfredo Volpi

O Rio já viu muitas exposições de Alfredo Volpi, mas a curadora Vanda Klabin conseguiu, numa pesquisa em coleções particulares, encontrar obras raramente ou nunca antes expostas. Na mostra "Volpi: dimensões da cor", aberta ao público no Instituto Moreira Salles (IMS), Vanda olha para o Volpi do fim dos anos 1950 e do início dos 60, momento em que o pintor abandona as paisagens e marinhas e começa a delinear os elementos que marcariam toda a sua produção artística posterior.


- É um período muito significativo e fecundo na obra do Volpi, em que ele introduz elementos puramente abstratos, com os quais sedimenta seu afastamento do naturalismo - afirma Vanda.
Em seu caminho para a geometria, Volpi, sem nunca se filiar a movimentos artísticos, recebeu influência de concretos e neoconcretos. Uma série de obras na exposição representa essa aproximação, causando um estranhamento em relação ao que mais se conhece de Volpi. Numa montagem sem divisórias, em que todas as obras são vistas em conjunto, o visitante pode atentar para as relações entre essas telas e outras mais diretamente identificadas com Volpi, como a geometria das suas famosas bandeiras, que começaram a aparecer em meados da década de 1950 - e que nada mais são, como mostra Vanda, elementos geométricos, cada qual um "quadrado do qual se retira um triângulo".
Têmpera revela o movimento dos pincéis


Exposição de Alfredo Volpi, no Instituto Moreira Salles - Mônica Imbuzeiro Apesar da ligação com a arte construtiva, em grande parte feita através dos amigos Willys de Castro e Theon Spanudis (signatário do Manifesto Neoconcreto, em 1959), Volpi manteve a "antimoderna" técnica da têmpera, que substituíra sua pintura a óleo em 1944. Nascido na Itália, Volpi nunca se naturalizou brasileiro, apesar de ter vindo aos 2 anos, com os pais imigrantes, para São Paulo, e só ter voltado uma vez à Europa, em 1950. Depois dessa viagem, inspirado pela tradição da pintura italiana, Volpi não abandonou mais a têmpera. Deixando a tinta rarefeita, a técnica revela ao espectador o movimento do artista.
Depois do flerte com o concretismo, Volpi se afastou completamente do movimento e começou a explorar os signos que se repetem em sua obra posterior. Bandeiras, fachadas e elementos náuticos se alternam como elementos geométricos que se repetem, em diferentes combinações. Na mostra, Vanda põe lado a lado obras com composições semelhantes, em que o artista varia apenas as cores.

INFORMAÇÕES

Local: Instituto Moreira Salles (INFORMAÇÕES)
Preço(s): Grátis.
Data(s): Até 5 de julho de 2009.
Horário(s): Terça a sexta, 13h às 20h; sábado, domingo e feriados, 11h às 20h.