sexta-feira, 12 de junho de 2009

ARTIGO: VENEZA


Seleção de artistas evoca potência e fragilidade

Mostra principal tem conjunto de obras coeso, mas falha ao evitar controvérsias

Fábio Cypriano

"T téia 1", de Lygia Pape, a obra que abre a mostra "Fazer Mundos", de Daniel Birnbaum, na 53ª Bienal de Veneza, resume bem tudo o que se vai ver daí em diante: uma seleção elegante, construída de forma frágil e ao mesmo tempo potente.
A elegância da obra de Pape, com fios dourados que constroem pilares quadrados, está também no vídeo da italiana Grazia Toderi, "Orbite Rosse" (órbitas vermelhas), uma imagem ovalada com milhares de estrelas, que parece um mapa de uma galáxia, mas que, vista de perto, são bombardeios de guerra, um dos trabalhos mais fortes da mostra.
O argentino Tomas Saraceno, em operação semelhante, constrói uma das mais surpreendentes instalações da Bienal, com fios que se transformam em globos, e dificultam o caminhar dos visitantes.
"Fazer Mundos" -a mostra tem 47 línguas no título, para tratar a arte como forma de tradução- se vale também da fragilidade, como os fios de Pape, o que faz com que a ideia de desenho seja recorrente, como nas obras de Marjetica Potrc, Öyvind Fahlström ou Richard Wentworth, entre outros.
A fragilidade/potência está também nas formas de expor, como nas fotos de vários formatos, algumas coladas na parede com fita adesiva, na sala de Wolfgang Tillmans, na invisibilidade da obra de Renata Lucas, ao asfaltar partes do chão da exposição, por onde muitos caminharam sem perceber.
Mas a qualidade na seleção dos 77 artistas de Birnbaum, com o assistente Jochen Volz, também se revela problemática: a delicadeza das obras evita controvérsias, como se o fazer mundos na arte ocorresse num sentido paralelo ao seu contexto. "Fazer Mundos" diagnostica bem a fragilidade que o mundo enfrenta, mas fica aí.

Brasil exótico

Já as representações nacionais seguem com disparidades gritantes. Por um lado, pavilhões como o dos Estados Unidos, que merecidamente ganhou o Leão de Ouro com Bruce Nauman, gastam milhões de dólares numa demonstração de poder -dessa vez, os EUA além de seu próprio espaço ocuparam outros dois na cidade.
Por outro lado, alguns pavilhões se rendem a estereótipos, como aconteceu desta vez com o Brasil, visto de forma exótica, por meio da produção de Delson Uchôa e Luiz Braga, seleção a cargo de Ivo Mesquita.
Esse "Brasil profundo", por conta da temática regionalista e um tanto folclórica, que parece propaganda governamental, tornou-se ainda mais arcaico perto de escolhas radicais, como Teresa Margolles, no México, que abordou a violência de execuções ligadas ao narcotráfico; Elmgreen & Dragset, artistas que curaram o pavilhão nórdico e dinamarquês, recebendo menção honrosa do júri, com uma abordagem sarcástica sobre colecionismo; ou Shaun Gladwell, na Austrália, levando a cultura pop a um rigor formal impressionante.
Mesmo assim, a diversidade continua exercendo uma forma de oxigenação em Veneza. E, felizmente, Renata Lucas, Sara Ramo, Cildo Meireles e Lygia Pape, apresentam um Brasil muito mais complexo que o do pavilhão nacional.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Guia inclui brasileiros entre 507 artistas mais jovens que Cristo



EFE

Eles têm talento e motivação, ganharam fama como inovadores, integram a "próxima geração" mundial de artistas com menos de 33 anos e estão reunidos no livro "Younger than Jesus - The Artists Directory" ("Mais jovens que Cristo - Catálogo de Artistas", em tradução livre).

Esta obra, que tem o formato de um guia telefônico e acaba de ser lançada pela editora Phaidon, reúne nomes de 507 artistas nascidos depois de 1976.

Em comum, todos os selecionados romperam com "convenções do passado" e têm interesse em "novas propostas". E é exatamente esta a premissa de "Younger than Jesus", explicou à Agência Efe o editor-chefe de arte contemporânea da Phaidon, Craig Garrett.

Numa entrevista concedida em seu escritório, em Londres, Garrett disse que a obra é como um "guia do futuro da arte", e "sem dúvida representa uma ruptura com o passado" e "uma nova forma de apresentação dos artistas contemporâneos".

"Younger than Jesus", segundo o editor, é um censo e também um "catálogo, que ajuda o leitor a localizar arte e artistas novos" com menos de 33 anos. É "quase um poço sem fundo" e, ao mesmo tempo, "é só o ponto de partida para o leitor e os artistas".

Cada um dos 507 artistas ou coletivos incluídos na obra receberam "o mesmo espaço" - uma página -, independente de sua origem e do sucesso que obtiveram. Neste sentido, destacou o editor, o livro dá prioridade "ao trabalho artístico", sem se preocupar em "estabelecer um novo cânone" na arte contemporânea.

No trabalho destes jovens "há temas e enfoques comuns", mas também "existe uma incrível diversidade", que, "surpreendentemente, não é sempre resultado do lugar geográfico" em que os artistas viveram ou fizeram experimentações, afirmou Garrett.

Os felizardos incluídos na obra são de aproximadamente 45 países, mas "muitos deles vivem em várias nações ou se locomovem entre uma e outra com muita frequência".

Além disso, "Younger than Jesus" inova no design. Seu formato "é integralmente parte" do projeto e, segundo Garrett, transmite com exatidão a filosofia de ser uma guia da nova geração artística, com cores e papel que lembram os das listas telefônicas.

Este efeito foi proposital, já que "a letra com a qual foi originalmente desenhada a (lista telefônica da companhia americana) AT&T em 1970" é a mesma usada em "Youngers than Jesus".

No livro, os artistas são apresentados com "milhares de imagens" de suas obras e pouco texto, daí o guia ser "funcional, leve e fácil de carregar, com espaço para anotações e índice em ordem alfabética".

Outro atrativo da obra é que sua organização foi feita com base no funcionamento das redes sociais da internet, a partir da "ideia de que a inteligência coletiva pode conseguir coisas que uma visão unitária" não conseguiria.

O projeto do livro foi concebido pelos curadores Massimiliano Gioni, Laura Hoptman e Lauren Cornell, do New Museum (de Nova York), que, depois, passaram a "supervisionar" a busca pelos "youngers".

Deste trabalho, participaram cerca de "20 correspondentes de nações de todo o mundo", que, por sua vez, contaram com a "colaboração de 150 ajudantes informais".

Site Amazon : http://www.amazon.com/Younger-than-Jesus-Artist-Directory/dp/0714849812

The Younger than Jesus Artist Directory (Paperback)
by Gioni Massimiliano (Author), Laura Hoptman (Author), Lauren Cornell (Author)

* Price: $49.95
* Paperback: 480 pages
* Publisher: Phaidon Press (May 16, 2009)
* Language: English
* ISBN-10: 0714849812
* ISBN-13: 978-0714849812
* Product Dimensions: 11.4 x 9.9 x 1.5 inches

terça-feira, 9 de junho de 2009

O limite entre a arte conceitual e o design é onde se costuma situar a obra do artista alemão

DW 2009


Tobias Rehberger, homenageado com o Leão de Ouro na Bienal de Arte de Veneza 2009.

Instalação de Tobias Rehberger na Bienal de Veneza de 2003

"Acredito que o artista seja uma espécie de catalisador", descreve Tobias Rehberger sua profissão. O alemão de 42 anos, professor da Escola Superior de Arte Städel, em Frankfurt no Meno, foi premiado com o Leão de Ouro na 53ª Bienal de Arte de Veneza por sua obra Was du liebst, bringt dich auch zum Weinen (O que você ama também o faz chorar). Rehberger é conhecido por suas instalações multicolores e bem-humoradas, no limite entre arte conceitual e design.

Nascido em 1966 em Esslingen, no sul da Alemanha, filho de um entusiástico pintor amador, Rehberger estudou de 1987 a 1992 na Escola Superior de Arte Städel, em Frankfurt. Um de seus professores foi o artista Martin Kippenberger.

Longe do gênio romântico

Em 1995, ele começou uma carreira meteórica. Desde as cópias gigantescas de quadros do seu pai até retratos de seus amigos artistas como vasos de flor, passando pela instalação de uma máquina para comprar livros em meio à floresta – muitos de seus trabalhos são celebrados no cenário artístico internacional.

O que já convence menos Rehberger é a imagem do artista como gênio. Para ele, o artista não cria originais inspirados por rasgos de espírito divinos, mas simplesmente catalisa, explicita. A arte se torna um produto tanto do artista quanto do observador.

Nos trabalhos de Rehberger se reconhece com frequência a tentativa consciente de colocar o observador no centro da obra, a fim de lhe conferir um papel novo, nitidamente mais ativo. O comprador de sua obra Mutter 93% (Mãe 93%, 2002), modelo de uma garagem em escala quase real, adquiriu não apenas a obra de arte, mas também o direito de reformar sua própria garagem do jeito que bem entendesse.

Descontextualização do cotidiano

Tobias Rehberger e Daniel Birnbaum, diretor artístico da Bienal 2009

Na tradição do objet trouvé fundada por Marcel Duchamp, Rehberger insere elementos conhecidos da arquitetura, design e da história da arte em contextos novos e incomuns, a fim de revelar, através da mudança contextual, o que coisas cotidianas têm de especial.

Uma de suas obras a causar sensação foi a instalação-filme On Otto (Sobre Otto, 2008), realizada para a Fondazione Prada. O trabalho tematiza o próprio processo de criação fílmica. Para tal, o artista rodou com Kim Basinger um filme em ordem inversa.

Tobias Rehberger também recebeu, entre outros, o prêmio de arte 1822, da cidade de Frankfurt no Meno, e o prêmio Hans Thoma.

SL/dpa
Revisão: Augusto Valente

"O futuro sempre se comporta de forma diferente" na Bienal de Veneza

DW 2009


Liam Gillick

Pela primeira vez, um inglês representa a Alemanha na mostra. Em entrevista à Deutsche Welle, Liam Gillick revela a visão do futuro e da história que imaginou para o pavilhão alemão. E as dificuldades encontradas.


Deutsche Welle: Liam Gillick, o senhor, um inglês, é responsável pelo pavilhão alemão na Bienal Internacional de Arte Contemporânea 2009, em Veneza. Uma situação bastante inusitada, ou não?

Liam Gillick: Montar um pavilhão na Bienal é diferente para cada país, e cada um lida com a coisa de forma diferente. O que gosto na Alemanha é que os curadores têm grande liberdade de decisão. Portanto a seleção do artista não é uma decisão política, mas sim tomada por um perito em arte. Isso significa muita responsabilidade e muita pressão para o curador. No Reino Unido, trata-se antes de uma decisão política. E na França o próprio ministro da Cultura é quem faz a escolha. Na Alemanha, o pavilhão é visto como uma espécie de museu temporário, aberto por alguns meses, a cada dois anos. O curador tem que pensar em cada detalhe e cada possibilidade. Complicado! E muito interessante.

Quão difícil para o senhor foi criar no pavilhão alemão em Veneza uma atmosfera que faça jus à sua arte?

Acho que é a coisa mais difícil que já fiz. Não só pela história do prédio, que foi reformado na década de 1930 pelos nazistas [que acrescentaram colunas monumentais]. Todos os grupos totalitários ou obcecados pelo poder empregam uma espécie de arquitetura sacral, é assim que manipulam as pessoas.

O interior do pavilhão é quase como uma igreja. Isso torna tão difícil encontrar o modo de trabalhar – em especial para alguém como eu, que não lida tanto com imagística iconográfica ou com ideias sacras. Eu quis deixar o edifício despojado, e não esconder nada. As janelas ficam abertas, a luz incide no ambiente, as pessoas podem entrar e sair à vontade. Ao mesmo tempo, eu também queria ignorar o prédio. Foi muito difícil e um desafio enorme.

O que nos espera no pavilhão alemão?

Era muito importante para mim que as portas ficassem escancaradas. A fachada do pavilhão devia ficar aberta e limpa, nada devia cobri-lo, ele tinha que voltar a poder ser visto de verdade. Ao entrar, vê-se primeiro uma espécie de anteparo visual, como os que se usam em lanchonetes, para afastar moscas: tiras de plástico colorido, através das quais o visitante se movimenta.

Aí se chega num ambiente que parece uma cozinha muito simples, de madeira, entre Ikea [cadeia internacional de móveis pré-fabricados] e algo mais profundo, mais fundamental, mais moderno. Uma espécie de modernidade alternativa, não a que se ocupa de grandes simbolismos ou ideologias universais, mas sim a outra, que, de certo modo, leva à cozinha contemporânea.

Interior do pavilhão alemão

Além disso, sobre um dos armários, vê-se um gato que conta uma história. Pode-se, portanto, estar na cozinha e escutar o gato falando sobre ideias, possibilidades, a tensão entre o amor e a compreensão intelectual, sobre mal-entendidos e desejos. Ele tem minha voz – eu sou o gato. O gato é uma criatura infiel, que pode ter vários donos. E uma figura que, de certo modo, já viu de tudo. Eu queria uma criatura que é infiel, mas ao mesmo tempo pede afeição. Ele representa, de certa maneira, a figura onisciente da História.

A cada edição do festival, debate-se em Veneza sobre o Leão de Ouro, concedido ao melhor pavilhão. Isso suscita muita rivalidade entre os diferentes países representados em Veneza. Essa premiação serve para alguma coisa?

Não dou grande valor à premiação dos pavilhões nacionais. Seria mais produtivo voltar o olhar para os artistas mais jovens ou mais velhos. Acho que os pavilhões já recebem muita atenção, de qualquer forma. Eu utilizaria o prêmio para incentivar os menos conhecidos. Os artistas, eles mesmos, já se conhecem bem entre si, pelo menos as obras dos colegas. Aqui quase não há rivalidade.

Quão importante é para o senhor estabelecer, no pavilhão alemão, um diálogo entre artistas, ou também entre os diferentes pavilhões?

Gato conta uma história

É muito importante. No fundo é um dos principais motivos para estar aqui. Por isso, contratamos uma equipe bem jovem de artistas e historiadores da arte para trabalhar aqui nos próximos meses. A ideia é começarem um diálogo que influenciará fortemente sua visão das coisas. Para mim é muito importante conversar com os colegas aqui, mesmo com aqueles com quem nem sempre concordo. Muitos pensam que Veneza é, acima de tudo, autoincensamento, mas aqui também há numerosos momentos de tensão e de contradições.

Liam Gillick (1964) é artista plástico, designer, crítico e autor. Suas instalações ocupam salas inteiras, e se baseiam em concepções minimalistas. Elementos frequentes são letras, estantes e divisórias coloridas, utilizando acrílico e trilhos de alumínio. Ele tem publicado ensaios, críticas e textos de ficção. Em 2002, foi indicado para o Prêmio Turner. Sua obra exposta no pavilhão alemão da 53ª Bienal de Veneza se intitula O futuro sempre se comporta de modo diferente.

Autor: Breandáin O'Shea
Revisão: Roselaine Wandscheer

Brasileira Renata Lucas abre estrada em Veneza

Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo

O catálogo da 53ª Bienal de Veneza, aberta no último domingo (8) para o público, traz imagens surpreendentes de obras de Renata Lucas, 38, brasileira que vem ganhando cada vez mais reconhecimento no circuito internacional da arte contemporânea. Numa das imagens, vê-se uma convidativa piscina construída dentro de um dos canais da cidade. Em outra, duas comportas interrompem o fluxo de água, deixando aparecer no fundo da laguna um insólito pedaço de estrada asfaltada.
Marcos Augusto Gonçalves/Folha Imagem
Renata Lucas posa ao lado de sua obra: uma estrada feita abaixo do piso da Bienal

Mas nenhuma dessas intervenções tornou-se realidade. Como outras propostas apresentadas pela artista à Bienal, não puderam ser construídas. Não por que fossem consideradas ruins pelos curadores da exposição, mas por parecerem caras e de difícil realização.

Intervenções na arquitetura e no espaço público são marca registrada de Renata, que na 27ª Bienal de São Paulo duplicou uma calçada numa rua da cidade, com postes e arbustos.

Em Veneza, algumas de suas ideias não chegaram sequer às mesas das autoridades que poderiam aprová-las: diante das restrições que cercam as construções da cidade histórica, a própria direção da mostra tratou-as como inexequíveis.

"Trabalhei muito, mas nada podia ser levado adiante. Até coisas mais simples, que pouco mexiam com o espaço público, foram recusadas", conta ela, que contesta a ideia de que suas propostas são difíceis e podem alterar de maneira definitiva os locais onde são realizadas. "Todos os meus projetos são reversíveis", diz a artista.

Ainda que seja assim, o fato é que quando a Bienal foi fechar o catálogo da exposição (em Veneza, diferentemente de São Paulo, ele pode ser adquirido na abertura do evento), Renata ainda não tinha um trabalho definido. "Sugeri então que publicassem no catálogo as imagens de todos os projetos que eu havia proposto, e dei o nome à série de "Venice Suitcase" (mala de Veneza)."

Depois de uma negociação que classifica como "exaustivo", ela conseguiu, enfim, sinal verde para uma obra de execução menos complexa do que uma piscina, mas de resultado não menos interessante.

Estrada

Nos dois principais espaços da Bienal, os Giardini (jardins) e o Arsenale, a artista instalou pedaços de uma estrada de asfalto sob o solo --ainda que a pouca profundidade. No início, a autorização para a camada de asfalto no piso dos Giardini (originalmente de terra e pedrisco) era para apenas 20 m2, mas a Bienal conseguiu que chegasse a 90 m2. No Arsenale, são menores, com menos de 10 m2, e ficam dentro do pavilhão.

"Grandes mostras como a Bienal de Veneza são quase sempre um quebra-cabeça, uma negociação entre o desejo do artista e a realidade. Mas essas dificuldades também têm um lado interessante. Tudo isso me fez lembrar um filme do Lars Von Trier chamado "Five Obstructions", que tem como tema uma série de restrições ao trabalho de um cineasta. Foi cansativo, mas no final fiquei satisfeita com o resultado", diz Renata.

As instalações dão o que pensar. Uma das ideias que suscitam --da qual a artista particularmente gosta-- é a de se poder encontrar sob a superfície da velha cidade não uma camada do passado, mas alguma coisa do futuro, uma estrada de asfalto. "É como escrever a história ao contrário", diz.

Renata recebeu o convite para participar da Bienal em julho de 2008, quando estava em Barcelona. Logo a seguir fez uma primeira visita à cidade, retornou em novembro e, em janeiro, alugou um quarto para ficar. "Eu sou demorada, custo a fazer, preciso de tempo para pensar", explica. Durante os meses em que se defrontou com Veneza, descobriu um lugar labiríntico, histórico e, ao mesmo tempo, artificial.

"As camadas que não podem ser mexidas nem sempre são tão históricas assim. Há coisas que foram feitas há pouco tempo, mas são tratadas como se fossem muito antigas. Embora tenha um lado muito legal, Veneza é uma cidade-souvenir, um parque de diversões, e a Bienal, de certa forma, reflete tudo isso", diz.

Fechada a mala de Veneza, Renata vai passar um período em Berlim. Ela ganhou o prêmio Ernest Young, que lhe oferece estadia na cidade e uma exposição na Kunstwerk. Um outro prêmio, da Dena Foundation, vai resultar num livro, que deve ser publicado em novembro.

Brasileiro Cildo Meireles leva instalação "penetrável" a Veneza

Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo

A instalação que o artista brasileiro Cildo Meireles mostra na Bienal de Veneza é uma espécie de "penetrável", conceito desenvolvido pelo também carioca Hélio Oiticica (1937-1980) para seus ambientes --obras nas quais o espectador é convidado a entrar.

No caso, trata-se de uma sequência em linha reta de seis salas interligadas, pintadas com cores impactantes, que o visitante pode atravessar numa direção ou noutra.

Em cada uma das salas, o artista, que não esteve presente na abertura do evento, afixou uma tela de TV reproduzindo uma a uma as cores escolhidas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.

A instalação não faz parte do pavilhão brasileiro --é uma escolha da curadoria geral da Bienal, assim como os trabalhos de Lygia Pape (1927-2004), Renata Lucas e Sara Ramo, todos exibidos no Arsenale, um grande pavilhão que foi em outros tempos um arsenal militar.

Ramo, artista brasileira de origem espanhola, tem duas obras no local. No interior do pavilhão, ela exibe um vídeo (que foi mostrado na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, no ano passado) intitulado "Quase Cheio, Quase Vazio".

Do lado de fora do prédio, criou uma casa-instalação inspirada na célebre história infantil de João e Maria. A artista, que vive e trabalha em Belo Horizonte, considera que esse é o "mais narrativo" de seus trabalhos. "A ideia", diz Ramo, "é que as pessoas entrem fisicamente na historia deles".

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Veneza ''feira de instalações''

É o que virou a Bienal deste ano, por incentivo dos curadores, que pediram aos artistas para criar a partir do espaço concedido

Camila Molina, VENEZA

Numa quantidade extensa de traduções, Fare Mondi, título da 53ª Bienal de Arte de Veneza, aberta ontem para o público, agrega uma série de significados, como diz o alemão Jochen Volz, que, ao lado do sueco Daniel Birnbaum, assina a curadoria desta edição. Volz faz uma lista de possibilidades em torno do tema: Fazer Mundos, em português, poderia remeter a algo mais prático; em alemão, a um ato grandioso; em sueco, a uma construção de caráter espiritual; em francês, a ação mais pragmática, e assim por diante. Ele vai elencando conotações, não deixando de chamar a atenção para aquele ideal de que as atuações dos artistas podem carregar todas as significações ao mesmo tempo.


Uma medida dos curadores foi levar os criadores a fazerem suas obras pensando no espaço específico que teriam na mostra e, assim, Fare Mondi se transformou, principalmente, numa Bienal de instalações (algumas grandes e poucas de impacto), repleta de trabalhos de 2009 e com intervenções por vários pontos do Arsenale. Um exemplo é o zepelim "entalado" pelo mexicano Héctor Zamorra (ele vive no Brasil) em um dos corredores do local.

Outra ideia foi a de que não existe uma linha reta da história da arte, mas confluências de pesquisas entre consagrados e jovens ao mesmo tempo. Só que a base da mostra são as experimentações do terreno conceitual a partir dos anos 1960. "Pensamos em quais artistas têm uma atualidade, são vivos, e ao mesmo tempo, referência", diz Volz ao Estado. Por isso, não há as obras do chamado caráter histórico nas exposições.

O italiano Michelangelo Pistoletto, nascido em 1933, participa no Arsenale com uma instalação de 2009, Vinte e Dois Menos Dois, em que coloca grandes espelhos emoldurados quebrados pela ação de uma marretada (ela está lá para remeter ao frescor da ação). Em cada espelho, material que aparece na obra do artista desde a década de 1961, faz-se um desenho diferente, os estilhaços ficam no chão, nesse trabalho espetaculoso e conceitual.

Em todos esses sentidos, a participação da brasileira Lygia Pape (1927-2004) nesta Bienal de Veneza ganhou grande destaque, tanto que ela ganhou uma das menções honrosas, no sábado à tarde, na cerimônia de premiação, que culminou com os troféus Leão de Ouro para a japonesa Yoko Ono e para o americano John Baldessari. O de melhor artista ficou para o alemão Tobias Rehberger, que fez intervenção na cafeteria dos Giardini; a de artista jovem para a sueca Nathalie Djurberg,que exibe a instalação Experiment, um jardim surreal de plantas e bichos agigantados feitos de papel marché, animações e música, tudo se reunindo numa atmosfera organizada e propositalmente de mau gosto; e aos Estados Unidos coube o prêmio de melhor representação nacional por apresentar em seu pavilhão, nos Giardini, a mostra Topological Garden, de Bruce Nauman, com obras de 1967 até 2005, com suas famosas frases ou palavras em néon e trabalhos escultóricos de temática em torno da cabeça e das mãos.

A instalação Ttéia (2004), de Lygia, é a primeira obra do Arsenale (em amplo espaço escuro, fios de ouro saem de formas quadradas, se transformando em feixes de luz de quase imaterialidade). A obra tornou-se ponto de partida para que os curadores pensassem todo o espaço do Arsenale. Foi assim com a obra do argentino Tomas Saraceno, a grande instalação Galáxias Formadas por Fios, Como Teias de Aranhas (numa tradução livre), mas esta no pavilhão Biennale, nos Giardini - é uma das mais chamativas para o público: uma construção com fios de náilon preto toma toda uma sala e obriga que o público circule por dentro dela.

Além da Ttéia, o Livro da Criação (1959) de Lygia, no pavilhão Biennale, é uma preciosidade. Como afirma Volz, este trabalho de formas geométricas feitas em cartão e acompanhadas de breves escritos compõe uma narrativa essencial: "No princípio tudo era água", assim começa. Ele diz que é "obra-prima do neoconcretismo brasileiro" e agrega ao mesmo tempo o caráter formal e a relação com o público e trata da "dimensão social" da arte. "Não existe uma divisão entre o politicamente ativista e a rigidez formal. Sempre há uma urgência do artista em criar a partir de uma relação com a vida atual sem abandonar a pesquisa de visualidade", defende Volz, de 37 anos - há 5 ele é diretor artístico do Instituto Cultural Inhotim em Minas Gerais, o que explica sua proximidade com o Brasil.

A instalação inédita do carioca Cildo Meireles, "Pling Pling", de 2009, também é um grande destaque, no Arsenale. Seis salas coloridas, vibrantes e em sequência - roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho - têm cada uma em seu interior, numa das quinas de suas paredes, um monitor de TV onde está projetada a imagem filmada daquela mesma quina. Num momento inesperado, a cor do lugar projetado se transforma em outra e Cildo faz, na verdade, um sistema de contrastes - o espaço roxo fica com a tela amarela, o verde, com a tela vermelha, e assim por diante. O visitante vai passando por ele, sala a sala. "Talvez seja seu trabalho mais formal, mas é político também", diz Volz, lembrando também a relação com a pintura.

A Bienal de Arte de Veneza é a mais tradicional de todas. Nos pavilhões dos chamados Giardini, ficam as representações de cada país. A do Brasil, deste ano, selecionada pelo curador Ivo Mesquita, exibe fotografias do paraense Luiz Braga e pinturas do alagoano Delson Uchôa, jogando, nos dois casos, luz para certa poética da cor, chave da criação de ambos. Além da representação premiada, dos EUA, com mostra de Nauman, vale destacar o pavilhão da Polônia, com a videoinstalação Hóspedes, de Krzystof Wodiczko, sobre a imigração.

Mais Bienal de Veneza


Desfile de rua marca início da participação brasileira na Bienal de Veneza



por Marcos Augusto Gonçalves da Folha de S.Paulo


Com bailarinos no abre-alas, ao som de batuques, guitarras e programações digitais, o cortejo lembrava mais um bloco de Carnaval moderno brasileiro do que a festa dos mascarados venezianos, embora percorresse animadamente um pedaço da margem do canal de San Marco e dobrasse a rua Giuseppe Garibaldi, nas proximidades das duas principais áreas onde acontece a 53ª Bienal de Veneza --os Giardini e o Arsenale.
Marcos Augusto Goncalves/Folha Imagem

Os músicos Kassin (à esq.) e Arto Lindsay durante o desfile pelas ruas de Veneza

Quem liderava a coisa, na noite da última sexta (5), era o compositor, produtor e performer Arto Lindsay, na companhia do músico Kassin.

Nascido nos EUA, radicado no Brasil e casado com uma baiana, Arto formou-se nos círculos da cultura de vanguarda de Nova York e assinou a produção de discos de artistas brasileiros famosos, como Marisa Monte e Caetano Veloso. Ele foi convidado por Daniel Birnbaum, curador da Bienal, a apresentar um projeto. Decidiu-se por um desfile inspirado no Carnaval da Bahia.

Em 2004, Arto e o artista contemporâneo norte-americano Mathew Barney criaram uma espécie de bloco em Salvador. Depois disso, em 2008, também a convite de Birnbaum, ele apresentou um cortejo performático em Frankfurt (Alemanha), intitulado "I Am a Man". Em Veneza, a performance ganhou o nome de "Multinatural (Blackout)".

"Esse formato oferece várias possibilidades e cria relações interessantes. É musical, teatral e literário, parece uma ópera", disse Arto à Folha no sábado, sentado numa mesa do bar Paradiso, na entrada dos Giardini, onde se localizam os pavilhões nacionais que fazem parte da Bienal.

A coreografia foi criada por Richard Siegel, que trabalhou com bailarinos e estudantes de Veneza. Na parte musical, os principais nomes, além de Arto e Kassin, eram o baiano Marivaldo Paim, do bloco do Ilê, e os norte-americanos Melvin Gibbs e Peter Zuspan.

Como acontece no Carnaval, o desfile em Veneza foi arregimentando curiosos e animados que acompanharam o grupo ensaiando passos de dança e, principalmente, filmando e fotografando.

No mesmo dia, pela manhã, foi aberto o Pavilhão Brasileiro nos Giardini, com os artistas Delson Uchôa e Luiz Braga --e curadoria de Ivo Mesquita, responsável pela edição passada da Bienal de São Paulo.

A arte brasileira em Veneza tem ainda a participação de Renata Lucas, Sara Ramo e Cildo Meireles, no Arsenale, onde também foi montada a obra "Ttéia I", de Lygia Pape (1927-2004), premiada com uma Menção Especial pela Bienal.

domingo, 7 de junho de 2009

Bruce Nauman Wins Golden Lion at Venice Biennale

ArtForum 06.06.09

Bruce Nauman’s installation “Topological Gardens,” currently on view at the US pavilion and two other venues at the fifty-third Venice Biennale, has won the Golden Lion for Best National Participation. In its award citation, the Biennale stated that Nauman’s work “reveals the magic of meaning as it emerges through relentless repetition of language and form.” This is the first time since 1990 that an American artist has won the award. The international jury for the award comprised Jack Bankowsky, Homi K. Bhabha, Sarat Maharaj, Angela Vettese, and Julia Voss.

The jury also awarded Tobias Rehberger a Golden Lion for Best Artist of the exhibition for his piece in the Palazzo delle Esposizioni, and the Swedish artist Nathalie Djurberg a Silver Lion for Promising Young Artist. The jury also decided to assign four Special Mentions in the following categories: a mention for Remaking Worlds was given to the late Brazilian artist Lygia Pape for her work in the Arsenale; one for Curating Worlds was given to Michael Elmgreen & Ingar Dragset for their work as curators of the Danish and Nordic Pavilions; a mention for Expanding Worlds was given to Ming Wong for the Singapore Pavilion; and the artist Roberto Cuoghi received a mention under the category of Translating Worlds for his work Mei Gui in the Palazzo delle Esposizioni.


Lygia Pape recebe prêmio póstumo na Bienal de Arte de Veneza

efe

O júri da 53ª Bienal de Arte de Veneza concedeu neste sábado a Menção Especial "Remaking Worlds" ("Refazendo Mundos", em tradução livre) à artista fluminense Lygia Pape (1927-2004) em caráter póstumo.

Veneza revive "dolce vita" de luxo na Bienal de Arte

No prêmio de maior destaque, os EUA foram agraciados hoje com o Leão de Ouro pela Melhor Participação Nacional na bienal.

Além disso, a japonesa Yoko Ono e o americano John Baldessari receberão um Leão de Ouro cada, em homenagem a suas respectivas carreiras artísticas.

Segundo informou a organização do evento em comunicado, os EUA receberam o prêmio pela "energia constante e à precisão" do trabalho exibido em seu pavilhão por Bruce Nauman, cuja exposição é uma das mais visitadas entre as apresentações oficiais na cidade italiana.

"Sua obra revela a magia do significado enquanto emerge através de uma repetição implacável da linguagem e da forma", acrescenta.

O artista apresenta em Veneza "Topological Garden", uma obra que exibe corpos desmembrados e luzes de neon e que pretende dissolver os limites habitualmente estabelecidos para separar o espaço pessoal do social.

O Leão de Ouro para o Melhor Artista da Bienal de Arte de Veneza foi para o alemão Tobias Rehberger, por sua obra "Was du liebst, bringt dich auch zum Weinen", exibida no Pavilhão da Alemanha, enquanto que o Leão de Prata para a Jovem Promessa foi concedido a Nathalie Djurberg, por "Experimentet", exposta no Pavilhão da Suécia.

Também houve uma Menção Especial para o dinamarquês Michael Elmgreen e o norueguês Ingar Dragset, que surpreenderam os visitantes da bienal com o Pavilhão Nórdico, no qual é possível ver a obra "Death of a Collector" (2009), o colecionador de arte que flutua morto em uma piscina.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Obra de brasileira abre Bienal Internacional de Veneza


Lygia Pape está na entrada da mostra, que apresenta obras de mais 90 artistas, de 77 países.

Instalação feita com fios de ouro é da artista brasileira  Lygia Pape (1927-2004)

Instalação feita com fios de ouro é da artista brasileira Lygia Pape (1927-2004)

De Milão para a BBC Brasil - Uma obra da brasileira Lygia Pape (1927-2004) abre a Bienal de Artes de Veneza. A instalação feita com fios de ouro iluminados por spots presos ao teto é a primeira imagem que os visitantes encontram no principal evento de arte contemporânea do cenário internacional.

Diagonais e quadrados atravessam o espaço com se fossem feixes de luzes e representam o ápice da pesquisa tridimensional da brasileira. A obra está na entrada da mostra, nas margens do Grande Canal.

Depois da instalação da brasileira, em espaços que somam um total de 88 mil metros quadrados, estão expostas as obras de outros 90 artistas, de 77 países - um recorde de presença.

A bienal exibe desde a ousadia da projeção em uma parede das sombras de uma orgia até canteiros de peões de obras, em uma instalação que retrata o crescimento urbano das cidades, passando por esculturas feitas com pneus de bicicletas e espelhos de água que refletem a fotografia de uma montanha nevada.

A obra de Lygia Pape foi inserida como cartão de visitas porque expressa o título da Bienal deste ano, "Fazer Mundos", e reúne diferentes linguagens da arte, como o desenho, a instalação, a escultura e a pintura. A ideia é mostrar os trabalhos modernos e discutir a influência de gerações passadas.

"A mostra está ancorada na história da arte contemporânea graças à presença de artistas como Lygia Pape, Yoko Ono, Blinky Palermo. Elas são constantes fontes de inspiração para os artistas mais jovens. E em anos recentes estiveram sempre no centro de discussões acirradas dentro da comunidade artística", afirma o diretor Daniel Birnbaum, na apresentação da exposição.

"Pape trabalhou em diferentes campos da pintura, da escultura, da dança, foi uma das artistas mais inovadoras do seu tempo", acrescenta. A obra de Lygia Pape foi criada em 2002, mas serve como introdução para obras concebidas apenas para a Bienal.

Parada musical

Daniel Biernbaum, diretor sueco de 46 anos de idade, colocou no programa até mesmo uma parada musical, ao longo de várias ruas de Veneza, com o americano Arto Lindsay, radicado no Brasil.

"A mostra vai criar novas realidades artísticas, que deverão ir além das expectativas das instituições e do mercado", afirma.

Durante a Bienal, Veneza se transforma em uma imensa galeria a céu aberto. Para se chegar aos locais tradicionais da exposição, passa-se por um submarino artístico ancorado diante de um palácio do século 15, ou por uma escultura gigante de um cadeira que tem ao lado um pacote de cigarros.

Uma experiência interessante é caminhar pelo cais de Veneza, nas proximidades da Piazza San Marco, entre a beleza arquitetônica da cidade e a fila de iates de luxo. Entre um barco e outro, foi instalado um telão em que são exibidas imagens animadas de trânsito no asfalto, algo que não existe em Veneza.

Artistas das Ilhas Comores apresentam uma instalação bem característica. O pequeno arquipélago, localizado entre Madagascar e o continente africano, ancorou na frente dos Jardins um barquinho de madeira, com um enorme contêiner. Quem passa tem a impressão de que alguém ainda não terminou o trabalho de descarregar o material embarcado.

Mais à frente, o artista israelense Harush Shlomo navega em círculos com uma lancha-instalação, tendo em uma das mãos o timão e em outra uma vara de pescar com um peixe no anzol. O barco aparece, em parte, submerso, apenas a proa e a popa estão acima do nível do mar - e ninguém sabe se ele irá afundar ou não.

Suicida

Os pavilhões nacionais da mostra abrigam de tudo um pouco. O espaço da Finlândia exibe uma piscina em que o manequim de um homem flutua como se fosse o corpo de um suicida.

O pavilhão da Espanha apresenta as obras de Miquel Barceló - séries de pinturas sobre primatas, paisagem africana e espuma das ondas do mar impressionam pelo impacto visual. Em uma delas, gorilas solitários nascem de um pequeno ponto do quadro e, em perspectiva, ocupam toda a tela.

O espaço do Brasil apresenta para Veneza duas realidades com cores bem vivas: a de Maceió, com os quadros de Delson Uchoa, e a de Belém, com os painéis fotográficos de Luiz Braga. O pintor exibe telas armadas em superfícies inusitadas como lonas.

"Qualquer brasileiro sente a vaidade de representar o seu país, ainda mais sendo nordestino. Na minha obra, eu trato a cor e a luz que é o Brasil no seu estado puro", disse Braga à BBC Brasil. "É um testemunho de que (o país) vive no círculo luminoso do planeta. O público percebe a nossa identidade calorosa, algo que não poderia acontecer na Sibéria."

Já as fotografias de Luiz Braga "pescam" o visitante pelos tons suaves com os quais ele conta a realidade amazônica.

"Eu nunca imaginei ver uma visitação tão diversa e constante aqui em Veneza. Gente do mundo inteiro esta vindo aqui. Eu trouxe o Brasil longe dos estereótipos", diz o fotógrafo.

"A minha fotografia privilegia o Brasil natural, a brasilidade da rotina das pessoas e não aquela dos índios, do carnaval, do gringo, aquilo não me interessa", acrescenta Braga, diante do painel de um barco cheio de redes que navega durante a noite pelos rios da Amazônia. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Bienal de Arte de Veneza privilegia novas formas artísticas


MIGUEL CABANILLAS
da Efe, em Veneza

Em sua 53ª edição, a Bienal de Arte de Veneza procura conservar o mesmo magnetismo do evento, patente nesta quinta-feira na apresentação da Bienal no discurso do diretor da mostra, o sueco Daniel Birnbaum, que deu início a três dias de atos e inaugurações oficiais até a grande abertura ao público, que acontecerá no domingo.

O que poderá ser visto no festival, acrescentou, são coisas novas, embora seu conceito não seja de todo novo, segundo Birnbaum. "As obras se apresentam em diálogo com este belo lugar, cujo centro será a arte em si mesmo, o mundo que os artistas criaram", afirmou o sueco.

Sob o título de Fare Mondi ("Criar Mundos"), a 53ª edição da Bienal de Arte de Veneza oferecerá a especialistas e visitantes a possibilidade de ter acesso à obra dos máximos representantes da arte contemporânea de 77 países e de mais de 90 artistas.

Nesta sexta-feira o destaque é o Pavilhão Latino-americano, que apresentará oficialmente as propostas artísticas de Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Peru, República Dominicana e Costa Rica.

Outros países têm pavilhões próprios, entre eles Brasil, Chile, Uruguai, Venezuela, Argentina e México. Eles representam uma arte latino-americana que faz com que, neste vai-e-vem de artistas e especialistas no qual a cidade italiana se transformou, se ouça muito português e espanhol.

Veneza é, desde hoje, sinônimo de arte. Dentro disso também se encontra a comunidade autônoma espanhola da Catalunha, que participa com uma instalação própria na seção dos Eventi Collaterali, que será apresentada oficialmente amanhã pelo vice-presidente regional, José Luis Carod-Rovira.

"O título da mostra, Fare Mondi, expressa meu desejo de enfatizar o processo de criação. Uma obra de arte representa uma visão do mundo e, se levada a sério, pode ser vista como um modo de criar um mundo", declarou Birnbaum.

Ferramentas que vão desde as composições audiovisuais até as criações de luz, passando por técnicas mais tradicionais como a pintura ou a cerâmica, suportes com os quais Barceló trabalhou e que são os protagonistas do Pavilhão da Espanha.

Neste sentido, o comissário do Pavilhão espanhol, Enrique Juncosa, diretor do Museu Irlandês de Arte Moderna de Dublin (IMMA), disse hoje que é pouca a pintura que decora as paredes da Bienal de Arte, fruto, afirmou, das decisões dos responsáveis das exposições.

Nestes três dias que antecedem a abertura ao público da Bienal de Arte também haverá tempo para a entrega de prêmios, como o Leão de Ouro à carreira da japonesa Yoko Ono, que acontecerá no sábado.

Bienal de Veneza chega à sua 53ª mais enxuta e renovada



por Mário Gioia da Folha de S.Paulo

A Bienal de Veneza, mais tradicional exposição de artes do mundo, chega à sua 53ª edição mais enxuta e renovada. Tendo à frente o sueco Daniel Birnbaum, 46, o curador mais jovem da história do evento, a seção principal da Bienal terá 90 artistas, além das 77 representações nacionais. Com entrada para o público do próximo domingo a 22 de novembro, a abertura especial para convidados se estende desta quinta-feira (5) a sábado.

Tudo bem mais discreto que a exposição anterior, em 2007, quando o curador norte-americano Robert Storr se orgulhava de destacar que comandava a maior edição da Bienal, com cerca de 500 artistas, entre os exibidos no Arsenale (uma antiga fábrica de cordas) e nos Giardini (onde os países mantêm seus pavilhões).

O recorte de Veneza parece ser mais experimental que o anterior. Storr assinou uma edição considerada por alguns críticos como "museológica", contando com nomes já consagrados em alguns dos principais espaços da mostra.

Já Birnbaum e seu cocurador, o alemão Jochen Volz, privilegiaram artistas com uma obra mais experimental, mesmo sendo de gerações diversas. A seleção vai desde nomes jovens, como a hispano-brasileira Sara Ramo, 34, a medalhões como John Baldessari, 77, e Yoko Ono, 76. Esses dois ganharão o prêmio máximo da Bienal, o Leão de Ouro.

Em entrevista à Folha por e-mail, Birnbaum e Volz dizem que a pluralidade pretendida na mostra é refletida já no seu título: "Fare Mondi, Making Worlds, Bantin Duniyan, Weltenmachen, Construire des Mondes, Fazer Mundos...".

"Um conceito para uma exposição grande como a Bienal de Veneza tem de ser amplo e generoso. Não pode funcionar como tema a ser ilustrado por meio de obras de arte -precisa suscitar perguntas ou conferir um espírito ao projeto como um todo", conta Birnbaum.

"O título desta Bienal é "Fazer Mundos" no maior número possível de línguas. Tem conotações bem diferentes em cada língua. No inglês, por exemplo, ela traz um sentido de trabalho artesanal; já em alemão, soa um pouco bombástico."

Volz, curador convidado da 27ª Bienal de São Paulo (2006) e curador licenciado do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), também destaca o caráter multicultural do evento.

"Em um mundo que tende a ficar cada vez mais homogêneo, é importante apontar para o pluralismo, com todos os problemas de tradução que o acompanham", diz Volz. "Mas não enxergamos nossa exposição como reação a bienais anteriores, embora tenhamos consciência dessa história."

Reformas

A curadoria de Veneza criou novos espaços para tentar surpreender o mundo da arte que passa pela cidade nesses dias. O Pavilhão Italiano, nos Giardini, ganhou novo nome --Palazzo delle Esposizioni--, foi ampliado em 1.000 m2 e vai servir de plataforma para eventos de áreas diversas, como cinema, arquitetura e dança.

Entre os pavilhões nacionais, artistas de peso exibirão obras, como Bruce Nauman (pelos EUA) e Steve McQueen (pelo Reino Unido). Haverá também novidades, principalmente vindas da estreia de países entre as representações, como Montenegro, Mônaco e Gabão.

"Em uma Bienal, é claro que esperamos ver coisas novas. Mas é de suma importância ter consciência de que a arte não é reinventada a cada dois anos", afirma Volz. "Com alguns artistas, você só se dá conta de sua relevância real depois de alguns anos ou décadas."

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Biennale of Sydney 2010

Biennale of Sydney

THE BEAUTY OF DISTANCE
Songs of Survival in a
Precarious Age

12 May - 1 August 2010

David Elliott, Artistic Director

17th Biennale of Sydney

ARTISTA INGLÊS NO PAVILHÃO ALEMÃO EM VENEZA



Uma das decisões mais surpreendentes da 53ª Bienal de Veneza foi a seleção de Liam Gillick, um artista inglês baseado em Londres e Nova Iorque, para ocupar o pavilhão da Alemanha. No entanto, este aparente desafio às sensibilidades nacionais parece ter atraído uma reação surpreendentemente otimista.

À parte algumas vozes dissidentes, têm sido levantadas poucas objeções. Gillick não é o primeiro estrangeiro a ocupar o pavilhão da Alemanha: em 1993, Nam June Paik, nascido na Coreia, não só expôs no pavilhão alemão como também ganhou o Leão de Ouro.

Por sua vez, Gillick considera-se “um estrangeiro mas não um estranho” e não considera a sua seleção como uma afirmação de diferença. “Trabalhei muito na Alemanha nos últimos 20 anos, foi onde fiz a maioria das exposições e o contexto crítico tem sido muito central no meu desenvolvimento. Penso que sou simbólico de uma determinada geração de artistas que trabalharam confortavelmente numa Europa pós-acordo de Shengen.”

A escolha de Gillick foi feita por Nicolaus Schafhausen, o curador do pavilhão alemão e diretor do CentrWitte de With em Rotterdam. Ao contrário de outros países, a Alemanha não tem sistema de comité para escolher o seu representante nacional, pelo que a responsabilidade da escolha recai unicamente sobre o curador, que é nomeado pelo Ministério Federal dos Negócios Estrangeiros.

Disponível em: www.theartnewspaper.com

terça-feira, 2 de junho de 2009

Dédale: um filme-instalação de Pierre Coulibeuf


Dédale: um filme-instalação de Pierre Coulibeuf, obra que apresenta o universo de Iberê Camargo através do olhar do cineasta francês, entra em cartaz na Fundação Iberê Camargo a partir do dia 4 de junho, às 19h. Composta por três projeções em vídeo e uma série de fotografias, a instalação pretende dialogar com o espaço expositivo da instituição para construir uma nova realidade a partir do ambiente e da arquitetura. Dédale, filmado em Porto Alegre em março deste ano, parte da mitologia grega para construir uma história que relaciona a obra de Iberê e o projeto labiríntico de Álvaro Siza.
O projeto surgiu em 2006, por iniciativa do curador Gaudêncio Fidelis, que vislumbrou no trabalho de Coulibeuf a possibilidade de contextualizar a obra de Iberê Camargo no universo contemporâneo, a partir do olhar de outro artista.

Segundo ele, convidar o cineasta deveu-se, em primeiro lugar, por seu processo artístico ter como ponto de interesse a obra de outros artistas. Contudo, ele acentua, Coulibeuf não é um documentarista, e seus filmes são autônomos em relação às obras que os inspiraram. “A obra de Coulibeuf possui características únicas dentro do panorama da arte contemporânea internacional. Ele é um artista que trabalha com filme dentro do universo das artes plásticas como muitos nos dias atuais, mas é talvez o único que faça uma leitura crítica do cinema ao mesmo tempo em que trabalha inspirado no universo criativo de outros artistas. Sua obra possui também uma interdisciplinaridade ao valer-se de elementos do cinema, das artes plásticas, da dança e da literatura entre outras”, explica o curador.

Assim, Dédale busca na figura mitológica de Dédalo e seu labirinto construído para aprisionar o Minotauro sua estrutura formal, servindo como metáfora que ecoa na estrutura arquitetônica criada para a sede da Fundação por Álvaro Siza. Segundo Coulibeuf, estes elementos são aliados à “ideia de movimento e dinâmica que pertence às pinturas de Iberê”. “A ideia do filme é também fazer os espectadores se perderem neste labirinto cinemático, para que eles, em diferentes momentos da história, sejam confrontados com o trabalho de Iberê Camargo – de forma mais ou menos repentina e sob diversos pontos-de-vista”, explica o cineasta.

Para realizar Dédale, Pierre Coulibeuf e sua equipe vieram a Porto Alegre no mês de março, e filmaram no Cais do Porto, na rua Lopo Gonçalves, no centro da Capital gaúcha e na cidade de Guaíba, localizada na outra margem do rio de mesmo nome, além da sede da Fundação Iberê Camargo.

Uma exposição com 14 pinturas oriundas de coleções públicas e privadas do País, bem como do Acervo da Fundação, foi montada para as filmagens, pois o interesse do cineasta residia sobre as obras mais escuras do artista gaúcho, principalmente as da década de 1960. “As pinturas de Iberê dão o tom do filme, ao mesmo tempo em que representam um ponto de convergência dentro de uma concepção de filme-labirinto. Elas também trazem uma dimensão formal: o escuro das pinturas e o branco do prédio da Fundação em relação à figura graficamente forte de Ariadne se movendo nos espaços labirínticos de Siza. O núcleo central gerador do filme nesse sentido é a obra de Iberê e seu espírito criativo”, enfatiza Gaudêncio.

Dédale é um filme de ficção que tem como personagens um casal formado pelos atores Vania Rovisco e Matheus Walter. Eles equivalem às figuras mitológicas de Ariadne e Teseu, mas não representam ou interpretam estes personagens: referem-se a eles em uma espécie de história paralela, ligada ao espaço mental, em oposição a seus papéis na “vida real”.

“A oportunidade de realizar um projeto desta envergadura é única. Com ele, a Fundação mostra sua vocação em gerar obras exclusivas através de projetos de iniciativa própria, cumprindo sua missão institucional de produzir e gerar conhecimento sobre a obra de Iberê, ao mesmo tempo em que estabelece vínculos com a produção artística internacional”, destaca o curador.

O projeto foi comissionado e financiado pela Fundação Iberê Camargo, e faz parte de "França.Br 2009", Ano da França no Brasil [21 de abril a 15 de novembro], organizado, na França, pelo Comissariado Geral Francês, Ministério das Relações Exteriores e Européias, Ministério da Cultura e da Comunicação e por Culturesfrance, e no Brasil, pelo Comissariado Geral Brasileiro, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores.

A filme-instalação poderá ser visitada até 30 de agosto, de terça a domingo, das 12h às 19h, e quintas até as 21h. A Fundação Iberê Camargo se localiza na Av. Padre Cacique, 2.000, em Porto Alegre.

domingo, 31 de maio de 2009

Meio artístico acha positiva eleição do novo presidente



Projeto do empresário Heitor Martins, eleito anteontem, tem votos de confiança

por Camila Molina do Estado de S. Paulo

Heitor Martins, eleito anteontem novo presidente da direção executiva da Fundação Bienal de São Paulo, agora terá como desafio realizar uma grande 29ª edição da mostra, para abrir em outubro de 2010, tal afirmou que são seus planos. "Se a Bienal fosse adiada, perderia seu sentido", disse. Ao contrário do que foi publicado ontem no Estado, durante a reunião ordinária do conselho da Bienal, anteontem à noite no prédio da instituição, o candidato, único, não foi eleito por unanimidade. Estavam presentes na eleição 27 conselheiros e 4 votos foram feitos por meio de procuração, contando um total de 31 votações. Dentre elas, o consultor e empresário teve um voto contra. Também foram contadas duas abstenções.

Martins afirmou que nas próximas semanas promoverá encontros com artistas, galeristas, críticos e profissionais de instituições culturais para discutir e ouvir sugestões para a 29ª Bienal de São Paulo.

"Achei a eleição de Martins positiva e promissora já que ele tem um envolvimento muito forte com a arte. Há uma expectativa grande em torno da ação dele, vai enfrentar um bom projeto", diz Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado. O artista Nuno Ramos é direto. "Pior do que estava a Bienal acho difícil imaginar. Não o conheço, mas achei seu discurso sensato e estou esperançoso." O curador e crítico Agnaldo Farias também vai nessa linha. "A eleição dele foi ótima, suscitou um debate e uma movimentação por parte dos conselheiros porque a situação da instituição estava no fundo do poço. Acho que agora a Bienal anda porque a gestão anterior (de Manoel Pires da Costa) vai entrar para a história como a mais trágica da instituição."

O historiador, crítico e curador Tadeu Chiarelli dá seu "voto de confiança" ao novo presidente e acha que não há ninguém melhor do que ele para dar uma guinada na instituição. "Espero que ele não tenha como meta apenas desenvolver o problema da próxima edição da Bienal. A grande questão da instituição é a falta de uma política que transcenda as edições da mostra e ele não pode perder a oportunidade de estabelecer coordenadas para que a Bienal dinamize o circuito de arte brasileiro", afirma. Chiarelli defende a ideia de se pensar um plano político da Bienal que leve em conta, de uma maneira contínua, cinco edições da mostra. "Pode ser que teoricamente a Bienal não tenha um papel museológico, mas nossos museus, infelizmente, não conseguem dar conta de certas questões. A base para que o público possa entender a produção recentíssima artística e o conhecimento da arte vêm de uma sedimentação de várias perspectivas. Os museus não têm coleções e nem sempre conseguem trazer mostras que contribuam para esse processo."

Reforçando também que "a Bienal não pode tornar-se um balcão de exposições", Chiarelli diz que vê com bons olhos a proposta de Heitor Martins de fazer a 29ª edição com mais de um curador, dentre eles, um estrangeiro. "Seria bom se tivesse um colega latino-americano", diz. "Hoje grande parte da produção contemporânea tem diálogo com arte dos anos 60 e 70 e há artistas excepcionais que nunca foram mostrados com abrangência. Onde está, por exemplo, uma bela retrospectiva de Anna Bella Geiger? Ou de Luis Camnitzer (artista nascido na Alemanha que vive no Uruguai)?" "Dá para pensar também no grande público sem desmerecê-lo", continua.

ARTIGO


Desde 2008 este Blog vem acompanhando os desdobramentos da Bienal do Vazio que culminou numa crise política ameaçando as próximas edições da mostra e finalmente a eleição de Heitor Martins para presidente da instituição que mesmo com muitas desconfianças dá um novo alento ao futuro da Bienal SP. Abaixo um artigo bastante interessante(publicado na Folha de S. Paulo do dia 31/05) analisando os papéis da Bienal por Terixeira Coelho.

A Bienal e o sistema da arte

TEIXEIRA COELHO

A Bienal continua vendo a si mesma como se estivesse nos anos 50, ignorando todo o sistema que ajudou a criar


"NOSSAS ARTES foram instituídas, e seus tipos e usos fixados, num momento bem diferente do nosso, por pessoas cujo poder de ação sobre as coisas era insignificante perto do que temos hoje. Mas o surpreendente crescimento de nossos meios, a maleabilidade e precisão que alcançam, as ideias e os hábitos que introduzem nos garantem mudanças próximas e profundas na antiga indústria do Belo."
Citei num artigo de 2008 sobre a Bienal essas mesmas palavras de Paul Valéry tiradas de "A Conquista da Ubiquidade" (1934) e às quais Walter Benjamin recorreu em 1939 na sua última versão de "A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Elas continuam válidas como ponto de reflexão sobre "a crise da Bienal de São Paulo".
Pensando com Valéry, a Bienal de São Paulo surgiu num momento bem diferente do atual. Não havia então o sistema da arte que hoje existe. Quando a Bienal abriu as portas em 1951, não só o mundo tinha apenas duas ou três bienais como, no Brasil, Masp, MAM e Pinacoteca mal engatinhavam e MAC-USP e Lasar Segall não eram sequer projetos.
Não havia mercado da arte à altura do nome, nem institutos culturais bancados por empresas. Havia arte e crítica de arte, mas não um sistema da arte, algo que a abertura da própria Bienal viria estimular.
A Bienal era o clínico geral da arte do momento. Num ambiente sem especialistas em número suficiente para um país no entanto nada pequeno, a Bienal era ao mesmo tempo o barco, seus passageiros, sua carga, o farol e o porto. O poder das pessoas disponíveis para o que então se fazia era grande no seu contexto, mas, como diz Valéry, "insignificante perto do que temos hoje".
Hoje esse sistema da arte existe e começa por um sistema de museus que cumpre em larga medida a função que antes era da Bienal. Esse sistema exibe a arte feita aqui e a arte do mundo. Ainda não há no país um representante do museu mundial que existe no hemisfério Norte. Mas o sistema de museus implantado faz em larga medida aquilo que a Bienal fazia no início -e mesmo o que ela vem fazendo nos últimos anos.
Esse sistema requer, para funcionar, curadores, historiadores, conservadores, críticos (e público, por certo). Tudo isso exige cursos, universidades, pesquisa, teses, livros, intercâmbio, redes pessoais e institucionais. Sem falar em secretarias, fundações e ministérios.
A capacidade da Bienal à época de sua fundação era "insignificante perto do que temos hoje". No entanto, ela continua vendo a si mesma e organizando a si mesma como se estivesse nos anos 50, ignorando todo o sistema que ajudou a criar.
Da esmagadora maioria de seus membros não se pode dizer que representem de fato esse quadro, que é um quadro de especialistas. O sistema da arte requer financistas, experts em comunicação e captação, ao lado de instituições de arte e especialistas da arte. Estes são minúscula minoria na Bienal. (E não é indiscutível que os demais estejam nela bem representados.) E da presença das instituições de arte na Bienal, nada.
A questão da Bienal é institucional. Mas continua sendo tratada como questão pessoal, uma questão de indivíduos. As pessoas são decisivas, mas, sem a instituição, movem menos do que poderiam. Se hoje existe um sistema da arte no país, e de modo particular um sistema de museus, não é compreensível que esse sistema não esteja institucionalmente representado na Bienal. Isso torna a Bienal institucionalmente fraca. Injeções de dinheiro não alterarão o quadro.
Fala-se agora em reforma do Conselho da Bienal. Se essa reforma não se abrir para o sistema institucional da arte no país, não avançará nada. É esse sistema que fala pela arte no país, é esse sistema que diz a arte no país. Sem ele, a Bienal é muda. E não muda. A Bienal é um patrimônio desse sistema, que ela insiste em ignorar. Sua natureza e suas prerrogativas continuam a fazer sentido, no sistema da arte. Mas, para que ela esteja à altura das "mudanças próximas e profundas na antiga indústria do Belo", precisa parar de pensar em pessoas e pensar em instituições, aproximar-se delas, incorporá-las. Não é a panaceia universal. Mas é uma proposta à altura da época.

JOSÉ TEIXEIRA COELHO NETTO, 65, é professor titular aposentado da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Pulo), crítico e curador do Masp (Museu de Arte de São Paulo). É autor de "Dicionário Crítico de Política Cultural", entre outras obras.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ateliê 397 apresenta “Sessão Corredor: Vídeos de Artistas”


O Ateliê 397 apresenta a segunda edição da “Sessão Corredor: Vídeos de Artistas” em 29/05/09, das 21h às 23h. O projeto exibe trabalhos em vídeo de curta duração (em loop) no corredor a céu aberto do espaço. São apresentados trabalhos de Adriano Casanova, Bel Goudart, Cristiano Lenhardt, Fernando Peres, Flamínio Jallageas, Leo Ayres, MM Não É Confete, Marcio Shimabukuro, Kika Nicolela e Paulo Meira. A partir das 23h ocorrerá uma festa com DJs.

Ateliê 397
Vila Madalena: r. Wisard, 397, tels. (11) 3034-2132 e 9996-9812. www.atelie397.com

Regina Silveira comenta suas obras



É admirável que ainda estejam em pleno vigor artistas já na faixa dos 70 anos, como Nelson Leirner, que acaba de inaugurar mostra com releituras de algumas de suas obras-chave, no Itaú Cultural, e Regina Silveira, que terá documentário sobre sua obra veiculado pela TV Cultura amanhã, às 21h30.
"Regina Silveira - Luz e Sombra", dirigido por Sérgio Roizenblit, parte da discussão da artista sobre sua exposição individual mais recente em São Paulo, "Mundus Admirabilis e Outras Pragas", na galeria Brito Cimino (hoje Luciana Brito), no ano passado.
A artista gaúcha explica, sem afetações e calmamente, todo o processo de elaboração da mostra, na qual ela ancora suas criações em pragas das mais diversas. Com intervenções feitas para o espaço, objetos e instalações, Silveira exibe sua habilidade em elaborar obras em variados suportes e, em geral, com forte teor político.
"Rerum Natura", por exemplo, é um aparelho de jantar de porcelana, mas completamente "invadido" por insetos diversos. Silveira, assim, questiona o uso nobre do material e "polui" tal louça com figuras e personagens inusuais.
O documentário sabe explorar as propostas da artista e foge de abordagens batidas, comuns em produções sobre artes visuais.


REGINA SILVEIRA - LUZ E SOMBRA

Quando: amanhã (sábado 30/05), às 21h30
Onde: TV Cultura
Classificação: livre