terça-feira, 14 de julho de 2009

Curador da Bienal de 2010, Moacir dos Anjos quer arte política



Fabio Cypriano
da Folha de S.Paulo


Política, sem a institucionalização de um museu ou o afã pelo novo de uma feira de arte. Em síntese, essas são as linhas gerais que vão direcionar a organização da 29ª Bienal de São Paulo, segundo o curador Moacir dos Anjos, anunciado nesta segunda-feira (13) pelo presidente da Fundação Bienal, Heitor Martins, conforme a Folha havia adiantado.

De Londres, via Skype, o pernambucano Dos Anjos, 46, explicou o projeto inicial que irá conduzir a preparação da mostra, ainda sem data de abertura definida, mas que deve ocorrer em fins de setembro ou começo de outubro do próximo ano.

"O Moacir é o coordenador do grupo curatorial, outros cinco nomes ainda devem ser incluídos, três deles estrangeiros. O conceito de equipe é importante para marcar um pluralismo de visões", afirmou ontem Martins, na sede da Fundação Bienal. Os demais curadores serão anunciados em agosto.

A 29ª Bienal não terá um tema específico, mas será organizada como uma "plataforma discursiva", disse Dos Anjos. "Um tema costuma constranger as obras a um ponto específico e por seu tamanho." De acordo com o projeto apresentado pelo curador, isso significa que "o aspecto central dessa plataforma será o reconhecimento do caráter ambíguo que a arte exibe desde que se viu liberta de sua função de meramente representar o mundo".

O curador trabalha a exposição com um título ainda provisório, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", verso do poeta alagoano Jorge de Lima. "Vamos dar ênfase à arte como produtora de uma visão de mundo que, em potência, pode transformar a realidade", disse o curador, ao explicar o caráter político da mostra.

Ao preparar o projeto da 29ª Bienal, Dos Anjos falou que teve em mente outras mostras, com as quais pretende dialogar: "Não sou ingênuo ou arrogante para achar que vou inventar a roda. A Documenta 11, de 2002, a última Bienal de Sydney, e a 24ª e 27ª Bienais de SP são as mostras que tive em mente para elaborar o projeto."

Sobre a Documenta 11, Dos Anjos ressaltou a mescla entre os vínculos estabelecidos da arte feita no presente com a produção do passado, o que deve ocorrer também na 29ª Bienal. Outro viés importante da exposição, também segundo o curador, será seu caráter experimental, que foi lembrado a partir da concepção do crítico Mário Pedrosa em sua famosa formulação "a arte é o exercício experimental da liberdade".

A produção brasileira também será fortalecida, sem ser organizada em gueto. "Pretendo romper com a leitura crítica dominante que a arte política brasileira ocorreu só nos anos 1960 e 70."

Segundo Martins, a exposição deve custar cerca de R$ 25 milhões, além de R$ 5 milhões para o setor educativo. O curador volta amanhã para Recife. Ele não terá residência permanente em São Paulo.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Viúva tira de circulação obra atribuída a Joseph Beuys



fonte DW



Beuys se apresenta: 'A revolução somos nós'

Em nome do marido, Eva Beuys zela para impedir a exposição de obras duvidosas. Como a vitrine com lixo recolhido por ele em 1973. Disputa bizarra, tratando-se de alguém que afirmava que "toda pessoa é um artista".

Não é fácil ser artista conceitual. Nem mesmo postumamente. Uma disputa em curso entre a viúva de Joseph Beuys (1921-1986) e um amigo do artista, René Block, ilustra bem os riscos dessa atividade no limiar entre as artes plásticas, a ação política e o exibicionismo pessoal.

No dia 1º de maio de 1972, Beuys realizou uma ação em Berlim intitulada Ausfegen (Varredura). Juntamente com dois estudantes, recolheu lixo das ruas do lado ocidental (capitalista) da metrópole alemã, usando uma vassoura vermelha (comunismo?). Considerando o material recolhido interessante demais para ir parar no lixo, ele o confiou a Block.

Durante 13 anos, o amigo preservou aquele cantinho em sua galeria, limpando-o periodicamente de lenços de papel, bilhetes de ônibus e outros dejetos acrescentados por visitantes distraídos. Tratava-se de preservar o lixo de Beuys em sua forma original.

Terno de feltro exposto em Santiago de Compostela

Vitrine de sucesso

Aí veio a ideia da vitrine. Segundo o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), em 1985, poucos meses antes da morte do artista natural de Krefeld, seu amigo decidira arranjar vassoura, poeira, garrafas de bebida, paralelepípedos etc. numa caixa branca de madeira com janela: uma vitrine como as que Beuys empregara tantas vezes.

Block assegura: "Combinei tudo com Beuys, a coisa ocorreu de acordo com sua vontade". E, mesmo não havendo qualquer registro escrito dessa vontade, iniciou-se ali uma carreira gloriosa. Ausfegen foi exposta na Kunsthalle de Hamburgo, no Hamburger Bahnhof de Berlim, na Tate Modern de Londres e, por fim, na mostra Arte de duas Alemanhas, do Los Angeles County Museum of Art.

Entra a viúva

Em abril de 2009, quando a vitrine se encontrava a caminho da exposição Arte e Guerra Fria, no Neues Museum de Nurembergue, entra em cena Eva, a viúva de Beuys.

Ela já tolerara demais que "Varredura" fosse exposta em nome do finado. "A obra não foi autorizada, nem paga", contabiliza. E acrescenta (note-se o emprego do presente do indicativo): "Meu marido não manda expor coisas que não fez de modo algum".

Eva Beuys acha a vitrine bonita, mas "uma obra de meu marido, nessa forma ela não é". Seja como for, a peça está fora de circulação até que os respectivos advogados consigam definir a distinção entre lixo puro e um Beuys legítimo.

A César o que é de César

A viúva propõe que, caso exposta, Ausfegen seja atribuída a René Block, o qual, afinal de contas, a produziu. Este rejeita a ideia – "Todo o mundo da arte ia rir, não dá, não" – e nem pensa em vender o objeto.

Justiça seja feita: durante uma disputa anterior, ainda em 1987, o amigo do artista afirmara não tratar-se de uma autêntica vitrine beuysiana, mas sim de um mero depósito de material. Na época, a peça foi avaliada em 300 mil marcos alemães (cerca de 150 mil euros).

Finanças à parte, a atual celeuma sobre autoria e propriedade talvez não soaria tão bizarra e mesquinha, se não se tratasse justamente do legado de alguém como Joseph Beuys, que pregava que "toda pessoa é um artista".

Na realidade, apesar de propagar uma doutrina tão liberal, a vida do misto de artista plástico, performer, ativista, xamã, clown e teórico confuso tampouco foi livre de contradições. Como demonstrou o "caso da banheira suja".

Banheira suja e canto de sebo

Em 1973, sua unbetitelt (Badewanne) [sem título (Banheira)]aguardava para ser exposta em Wuppertal, por empréstimo permanente de seu proprietário, um colecionador importante. Tratava-se de uma banheira de bebê, trabalhada com pedaços de esparadrapo e bandagens.
Unschlitt/Tallow: blocos de sebo no Hamburger Bahnhof de Berlim

Paralelamente, realizava-se no local do depósito, o Museu de Leverkusen, uma festa do Partido Social Democrata (SPD). À procura de um recipiente para lavar copos de cerveja, duas deputadas depararam com a banheira "suja". Ignorantes de seu estatuto de obra de arte, elas fizeram o impensável: esfregaram-na até ficar brilhando, depois utilizando-a para seus fins pragmáticos.

Beuys foi o primeiro a não achar graça de tamanha insensibilidade artística. Seguiu-se um processo, ao fim do qual a cidade de Wuppertal, na qualidade de detentora do empréstimo, foi sentenciada a pagar 40 mil marcos ao proprietário. O artista recebeu a banheira – limpa – de volta, e refez a obra.

Treze anos mais tarde, a destruição – igualmente involuntária – de um dos numerosos Fettecke (Cantinho de sebo) de Beuys pelo zelador da Academia de Arte de Düsseldorf resultou em sentença semelhante.

Beuys e Da Vinci

No entanto, agora, mais do que nunca, seu acervo parece estar em mãos seguras. Eva Beuys tornou-se extremamente sensível para questões de propriedade intelectual, desde um prolongado – e, segundo o FAZ, "indigno" – debate com o Museu Moyland sobre se era lícito substituir uma barra de chocolate, numa instalação de Beuys, por uma imitação de papelão.

A herdeira não parece ter dúvidas sobre sua missão. Ao comentar a notoriedade de Ausfegen, ela passa por cima dos postulados do próprio marido sobre "obra" e "artista", e carrega nas tintas sem medo: "É como uma falsificação de Leonardo da Vinci que as pessoas amam mais do que o original".

Autor: Augusto Valente
Revisão: Rodrigo Abdelmalack


Críticos lançam Manifesto em Defesa da Exibição das Obras de Arte Brasileiras


Críticos de arte de São Paulo e do Rio de Janeiro lançaram em 01/07/09 o "Manifesto em Defesa da Exibição Pública das Obras de Arte Brasileiras", contra herdeiros de artistas que cobram até R$ 150 mil para autorizar a exposição de obras e a publicação de suas imagens. Depois que trabalhos de Volpi ficaram de fora de um catálogo do Instituto Moreira Salles e de problemas com imagens de Lygia Clark, o documento afirma que é "inaceitável" o "controle sobre informações e interpretações de obra e artista". A iniciativa tem o apoio de críticos de arte como Fernando Cocchiarale, Ferreira Gullar, Glória Ferreira, Guilherme Wisnik, Luiz Camillo Osório, Otavio Leonídio, Rodrigo Naves e Ronaldo Brito, entre outros.

O último grito


Projeto de intervenção pública do artista brasileiro Henrique
Oliveira, que fará parte da próxima edição da Bienal do Mercosul

Silas Marti da Folha de S. Paulo


Grito e escuta. De uma ponta a outra, quase 200 artistas estão escalados para a próxima Bienal do Mercosul, divididos entre aqueles que berram e os que absorvem o impacto.
Na véspera do anúncio oficial, marcado para amanhã em Porto Alegre, a Ilustrada antecipa os principais nomes da sétima edição da mostra, que já se consolidou como um dos maiores eventos de arte contemporânea no hemisfério Sul.
Estão escalados desde jovens em ascensão -os brasileiros Henrique Oliveira e Cadu Costa e o peruano José Carlos Martinat- a veteranos, como Anna Maria Maiolino, e artistas históricos, como Flavio de Carvalho, o belga James Ensor e o americano John Cage.
Este último serve de espinha dorsal à mostra, que começa em outubro em Porto Alegre. Suas performances e composições experimentais são um roteiro para "Grito e Escuta".
"A Bienal em geral tem um interesse por tudo o que é exploração sonora", resume a argentina Victoria Noorthoorn, curadora-geral da exposição junto do chileno Camilo Yáñez.
Tanto que até uma rádio, coordenada pela artista Lenora de Barros, está no projeto, veiculando obras e intervenções sonoras uma hora por dia. "É uma possibilidade de irradiar essa Bienal", diz Noorthoorn. "Ela vai estar no ar."
Não é a primeira vez que isso acontece. A última Trienal de Luanda, evento bem menos conhecido, programou intervenções em rádio e televisão. Questões sonoras, aliás, já estavam de volta com força total num revival do gênero no início desta década, com mostras emblemáticas em museus e galerias de Londres e Nova York.
Também se repete a estrutura da mostra. A exemplo da Bienal de Lyon e outras mostras, um time de dez artistas, no lugar de curadores, cuidou da seleção de nomes para a exposição. Entre eles, estão os brasileiros Artur Lescher, Laura Lima e Lenora de Barros, o colombiano Bernardo Ortiz e o mexicano Erick Beltrán.
É um time que reflete em parte a origem dos escolhidos. O Brasil é o país mais bem representado na lista, seguido de Argentina, Chile e Colômbia. "Sabemos que uma bienal com curadoria de artistas não é uma novidade", diz Noorthoorn. "Não temos nenhuma pretensão de originalidade."

Exposição crua
De fato, a pretensão é outra. Querem fazer o artista aparecer menos como autor e mais como agente cultural. "Não há nenhum artista homenageado, nenhuma individual", adianta Camilo Yáñez, artista e curador-geral. "São todos nomes que estão numa posição transversal, como John Cage."
"Ele marcou a queda do egocentrismo, negava a autoria em nome de uma arte social", diz Noorthoorn sobre o americano, que terá duas de suas performances refeitas na mostra. "Não é só o artista que grita, eles renunciam aqui ao capital técnico e simbólico, fazem uma exposição mais crua, sem ornamentos, retórica e acessórios."
Ajuda nessa crueza o fato de muitos dos quase 200 nomes na mostra serem estreantes em bienais, marcando um diálogo fresco com obras dos mestres.
"Queríamos uma bienal para dar valor e espaço a gente excepcional que não teve reconhecimento", admite Noorthoorn. "Se tivéssemos seguido ao máximo nossos instintos, teríamos só artistas estreantes."
Ainda em sintonia com a proposta central da Bienal do Mercosul, de exibir e contextualizar a produção latino-americana, a mostra tenta trazer à tona alguns nomes esquecidos, como o pioneiro chileno da videoarte, Juan Downey, e o compositor brasileiro Guilherme Vaz.
Artistas conhecidos em países vizinhos e pouco vistos no Brasil também têm vez. O artista e estilista argentino Sérgio De Loof, conhecido por seus desfiles-protesto, planeja um happening para a exposição.
Extrapolando o campo das artes para outras esferas, o coreógrafo brasileiro Luiz de Abreu também fará uma performance na Bienal, marca de uma vontade multidisciplinar que volta e meia contamina o campo das artes plásticas.
"Não é um interesse por sair das artes visuais, e sim postular que as artes plásticas trabalham com outras disciplinas", diz Noorthoorn. "Não sei se acreditamos tanto numa divisão entre essas disciplinas."

Bienal de São Paulo importa modelo gaúcho de gestão


Folha de S. Paulo

Não causou espanto a escolha de Justo Werlang para integrar a nova diretoria da Bienal de São Paulo. O empresário e colecionador, que esteve até agora à frente da Bienal do Mercosul, entrou na chapa do novo presidente, Heitor Martins, para modernizar a gestão fraca e datada da mostra paulistana, afundada em dívidas.
Embora evite fazer críticas às gestões de Manoel Francisco Pires da Costa, que presidiu a Fundação Bienal de São Paulo até maio deste ano, Werlang reconhece que os planos do novo presidente são parecidos com o que se fazia em Porto Alegre.
"É muito difícil falar de fora, com a visão de um outsider", diz Werlang. "Objetivamente [a nova gestão paulistana] é o que nós gostávamos de praticar na Bienal do Mercosul."
Fundado em 1997, o evento em Porto Alegre teve público comparado ao da Bienal de São Paulo em suas últimas três edições, com mais de 1 milhão de visitantes em 2003. Custou em média R$ 8 milhões por edição, com maior parte dos recursos captados via Lei Rouanet, seguida de verbas do Estado do Rio Grande do Sul e de patrocinadores -o maior deles é a empresa metalúrgica Gerdau.
A edição atual da Bienal do Mercosul está orçada em R$ 7,5 milhões e terá cerca de 200 artistas. Numa comparação rasteira, a última edição da Bienal de São Paulo custou R$ 11 milhões e teve cerca de 40 nomes.

Estrutura fixa

Segundo Werlang, manter uma estrutura fixa entre uma edição e outra da mostra é parte do sucesso do evento gaúcho. Em vez de dissolver as equipes como faz a Bienal de São Paulo, a do Mercosul mantém um projeto pedagógico funcionando, além de outros setores.
"Existe uma estrutura fixa", afirma Werlang. "Em todas as áreas, há pessoas que operam durante o período todo."
Werlang também defende o processo de escolha do curador adotado na última Bienal do Mercosul, em que um concurso internacional escolheu um projeto vencedor. Em São Paulo, a nova diretoria escolheu Moacir dos Anjos para a curadoria da próxima edição, que será oficializada hoje (SM)

Moacir dos Anjos dirige Bienal de SP


Crítico de artes plásticas foi escolhido diretamente pelo presidente da fundação, Heitor Martins, e será anunciado hoje

Dos Anjos deve indicar pelo menos mais dois nomes, provavelmente vindos do exterior, para trabalharem na 29ª edição, em 2010

Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo

O presidente da Bienal de São Paulo, Heitor Martins, anuncia, hoje, Moacir dos Anjos como o curador da 29ª Bienal de São Paulo, que será realizada no próximo ano, segundo apurou a Folha.
Diferentemente das últimas duas edições, que tiveram seus curadores, Lisette Lagnado (27ª) e Ivo Mesquita (28ª), escolhidos por processo seletivo, desta vez a indicação ocorreu diretamente pelo presidente.
Na entrevista coletiva marcada para hoje, na sede da Bienal, Dos Anjos não estará presente. Atualmente ele vive em Londres, onde realiza um pós-doutorado em arte transnacional, identidade e nação na Camberwell College of Arts.
Segundo a Folha apurou, o curador deverá apontar nos próximos dias, ao menos outros dois curadores para trabalhar com ele na Bienal, provavelmente nomes estrangeiros.
De acordo com Martins, o motivo da indicação sem processo seletivo foi facilitar o trabalho do curador, que terá pouco mais de um ano para organizar a exposição. O atraso na escolha, contudo, não tem a ver com o novo presidente, que foi eleito há pouco mais de dois meses, por conta da difícil situação financeira em que a fundação se encontrava.
Economista por formação, da graduação ao doutorado, Dos Anjos começou a se projetar no cenário artístico como diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), de Recife. Entre 2001 e 2006, ele organizou mostras de artistas como Rosângela Rennó e Nelson Leirner.
Em 2004, ele foi curador da mostra Paralela, evento organizado pelas galerias paulistas simultâneo à Bienal de São Paulo, que chegou a ser considerado melhor que ela própria. Em 2006, ele foi curador da exposição de Cildo Meireles, na Pinacoteca do Estado, umas das mais importantes mostras do artista no país.
Já em 2007, foi um dos cocuradores da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, além de responsável pela mostra bienal Panorama da Arte Brasileira, do MAM de São Paulo, intitulada "Contraditório", também exibida em Madri, em 2008.

sábado, 11 de julho de 2009

Curador da Bienal 2010 será anunciado na segunda

LISTA TRÍPLICE
Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal de SP, anuncia na segunda o nome do curador da Bienal de 2010. Três nomes são cotados: Tanya Barson, curadora internacional da Tate Modern de Londres, o argentino Carlos Basualdo, do Museu de Arte Contemporânea da Filadélfia, e Moacir dos Anjos, ex-diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, do Recife.

FESTA NO PAVILHÃO
E a nova diretoria da Bienal vai fazer uma festa para 400 convidados em setembro, no pavilhão do parque Ibirapuera, para levantar fundos para a mostra de 2010, orçada em cerca de R$ 25 milhões.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Carta de ex-namorado motiva exposição de Sophie Calle em SP


Sesc Pompeia apresenta mostra idealizada a partir de mensagem de 'fora' recebida pela escritora francesa

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo

Nilton Fukuda/AE
Sophie convidou 107 mulheres para interpretar a carta que recebeu do escritor Grégoire Bouillier

Para a artista e escritora francesa Sophie Calle, a única maneira de fazer arte é usar a narrativa e dentro desse terreno, seu artifício preferido, que a tornou mundialmente conhecida, é o de se valer de experiências de sua vida pessoal para a criação de seus trabalhos. No caso da mostra Cuide de Você, que será inaugurada nesta sexta, 10, para convidados e sábado para o público no galpão do Sesc Pompeia - e que a partir de 22 de setembro será apresentada no Museu de Arte Moderna da Bahia -, tudo gira em torno da carta que Sophie recebeu do escritor Grégoire Bouillier na qual ele rompia o romance dos dois.

"Cuide de você" ou "Prenez soin de Vous", em francês, era a frase final do "fora" mandado por e-mail. "Levei essa recomendação ao pé da letra", afirma Sophie, que convidou 107 mulheres (entre elas, as atrizes Victoria Abril, Jeanne Moreau e Elsa Zylberstein) a interpretarem a carta e, a partir desse mote, criou uma instalação com textos, fotografias e vídeos, apresentada, pela primeira vez, em 2007, na Bienal de Veneza.

Prenez soin de Vous - ou Cuide de Você - já foi exibida também em Nova York antes de chegar ao Brasil. Além de não ser uma obra inédita, há ainda o fato de Sophie Calle e Grégoire Bouillier terem dividido uma mesa de debates no último dia 4 na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), evento que tinha como apelo ser o "reencontro público" dos dois depois do rompimento.

"O fim natural dessa história foi lá", diz, agora em São Paulo, Sophie, enquanto fazia os últimos ajustes da montagem de Cuide de Você no Sesc Pompeia. Seu desapego à privacidade é tratado com naturalidade: "Não é de minha vida que se trata, não sou o tema principal", afirma a francesa ainda com um pouco de defesa contra uma visão simplista de suas criações - ela deixa para os críticos as críticas.

A artista francesa, nascida em 1953, enumera que Jerusalém, a queda do Muro de Berlim e roubos de quadros já foram temas de seu trabalhos, mas seu gosto pelo voyeurismo (de sua vida ou de outros) ou pela operação de raiz lacaniana de "dar a ver" excertos de sua vida se transformou na característica mais pungente de sua proposta de tratar a barreira entre o público e o privado. Se for para citar trabalhos anteriores, a conceitual Sophie Calle já criou obras em que coloca as anotações de um detetive que a perseguiu por um dia ou série feita a partir do pedido de que amigos, desconhecidos e a sua mãe dormissem em sua cama para que fossem fotografados e analisados por ela em textos.

Agora, como conta a O Estado de S. Paulo, está produzindo um trabalho com uma leitora de cartas de tarô: a vidente lê o futuro de Sophie e ela própria o adianta e experimenta. "O lugar que ela vê nas cartas no qual estarei futuramente, eu já vou antes a esse local e filmo e fotografo minha experiência. Parece que terei de ir ao México", diz a artista.

No caso de Cuide de Você, o ponto de partida foi esmiuçar até a exaustão a carta que recebeu de Bouillier. Mulheres escolhidas por suas profissões, ou seja, trabalhos que envolvem, de alguma forma, a relação com textos - jornalista, advogada, atrizes, cantoras, uma palhaça, cartunista, pesquisadoras de léxicos, etc, - interpretaram a carta de Sophie de maneiras diversas. Tudo se transformou numa grande instalação, não apenas com os vídeos nos quais elas aparecem fazendo suas interpretações da carta (de uma página, deve-se dizer) e com retratos de cada uma, mas com painéis nos quais estão gráficos, sentenças destacadas, cartas de tarô, enfim, uma série de ações dentro de uma estratégia de fragmentação e acumulação de um mesmo tema.

Todas as mulheres falam (ou cantam, ou gritam, etc.) o texto em sua própria língua (os vídeos são acompanhados de legendas), interpretam o mesmo de forma diferente. O "fora" ganha status dos mais diversos: vai da escala do triste à ridicularização - cópias da carta podem ser levadas pelo público.

Para cada lugar em que Sophie Calle exibe essa instalação ela propõe uma configuração. A versão para o Brasil é feita a partir das interpretações de 83 mulheres, de um pássaro e sala com seis filmes mudos. Recebe o visitante um painel com fotografias de mulheres com a carta e o vídeo no qual a atriz portuguesa Maria de Medeiros fala o texto do e-mail deitada de bruços sobre um divã - foi a forma de fazer o espectador já identificar o contexto pela fala em português. "O trabalho de Sophie Calle desmistifica a abstração que existe em torno da arte contemporânea, tem um approach com o público", diz Solange Farkas, diretora do Videobrasil e do MAM da Bahia. Cuide de Você, realização do Sesc São Paulo e um dos destaques da programação do Ano da França no Brasil, substituiu a edição que ocorreria este ano do festival Videobrasil (o próximo, em novo formato, será em 2011).

Sábado, às 15 h, Sophie Calle faz palestra no teatro do Sesc Pompeia aberta ao público. A exposição é acompanhada de uma série de encontros, palestras e atividades e cuidadoso projeto educativo. Tudo pode ser conferido no site www.sophiecalle.com.br e nele, também, as pessoas estão convidadas a criar a partir de Cuide de Você.

Sophie Calle - Galpão do Sesc Pompeia - Rua Clélia, 93, Pompeia. 3871-7700. Das 10h às 21h (dom. Até 20h;fecha 2.ª). Grátis. Até 7/9

terça-feira, 7 de julho de 2009

Exposição traz produção contemporânea de artistas argentinos

Camila Molina do Estado de S. Paulo

Tão perto e um pouco longe. O curador carioca Franklin Espath Pedroso garante que os argentinos conhecem mais de arte brasileira do que o contrário - apesar de vizinhos, temos contato apenas com alguns ‘artistas pingados’ da Argentina, entre eles, Jorge Macchi, Leandro Erlich e Tomás Saraceno, que volta e outra expõem aqui e são criadores de renome internacional. Por isso, a exposição "Argentina Hoy" (Argentina Hoje), que acaba de ser inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil, tem justamente como mote apresentar, primeiro em São Paulo e depois no Rio, um panorama da arte contemporânea dos criadores argentinos por meio das obras de 33 artistas. A mostra é de uma visada aberta e livre, dando espaço de respiro para cada trabalho.

"El Cuarto Rosa", fotografia do argentino Marcos López, que está em coletiva aberta hoje pelo CCBB

Mesmo assim, uma característica desponta ao ver a reunião das obras argentinas, a presença da figuração, vertente que não é surpreendente porque está em confluência com as criações de todo o mundo. É o dado figurativo que reúne os trabalhos da mostra, mais do que uma vontade de se criar um espaço para a procura de um diagnóstico de tendências da arte daquele país - apesar de a fotografia predominar. "A exposição tem duas vertentes, uma que trata do tema da cidade; a outra, das criações de mundos próprios, imaginários", diz Pedroso, que divide a curadoria da exposição com a curadora argentina Adriana Rosenberg.

Jorge Macchi, que em sua poética inteligente extrai de signos simples do cotidiano os motivos de suas obras, já afirmou que a entrada para as obras devem se dar pela porta visual - uma imagem figurativa - e não pela armadilha do "deciframento de uma ideia", e esse talvez seja um mote pensado por seus conterrâneos Mas é curioso perceber na exposição que a opção pela figuração na arte contemporânea argentina vem junto da constância de uma poética que carrega algo político entremeado, sendo essa ação por vezes mais delicada e intimista e por vezes mais explícita - como no vídeo de Ana Gallardo, no qual a artista, desalojada de sua casa em plena crise econômica, carrega seus pertences numa bicicleta tal fosse uma catadora de papel, ou nas pinturas excessivas de animais mortos de Mariana López. "A atmosfera política controversa da Argentina não poderia deixar de entrar nos trabalhos dos artistas", afirma o curador. A figuração, portanto, é maneira de marcar alguma posição.

Dentro dela, mesmo quando a vertente é a do mundo imaginário, não se trata de escapismo, pelo contrário. No cofre do CCBB, por exemplo, Marina De Caro apresenta a instalação "Entre Parêntesis", um espaço rosa, com desenhos feitos a pastel, e que tem ainda um tapete fofo de tecido no chão, só que com figuras humanas costuradas em si. Uma atmosfera delicada se faz dentro desse lugar imaginário, como se tudo estivesse em "um contínuo", "sem um limite", como diz a artista, completando que se trata de uma obra sobre o tema da imigração. "Quis criar um espaço que remetesse a ideia de se ter saído de um lugar para ir a outro, que vai chegar, sem que se deixe uma memória de lado", afirma ainda Marina. Erlich também faz uma menção política com sua instalação no primeiro piso, um jogo de espelhos e janelas que promove a ilusão de presença e ausência; e Silvia Rivas com videoinstalação trata de forma poética sobre a urgência.

Outra característica argentina que se percebe é uma recorrência de citações à história da arte. Nesse caso, chama a atenção, na entrada do CCBB, a pintura feita in loco por Leila Tschopp, "O Contexto sou Eu", a criação de uma paisagem arquitetônica de jogo de perspectivas que remete à obra metafísica de Giorgio De Chirico. Ainda nessa vertente, as fotografias encenadas de RES y Constanza Piaggio e de Nicola Costantino.

SERVIÇO:

"Argentina Hoy" - Centro Cultural Banco do Brasil - Rua Álvares Penteado, 112, Centro, 11 3113-3651 - 10 h/20 h (fecha 2.ª) - Grátis - Até 30/8.(AE)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

II Concurso Mário Pedrosa de Ensaios sobre Arte e Cultura Contemporâneas Fundação Joaquim Nabuco

A Diretoria de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco, por meio da Coordenação Geral de Capacitação e Difusão Científico-Cultural- CGCADIF, realiza o II Concurso Mário Pedrosa de Ensaios sobre Arte e Cultura Contemporâneas.

Constitui objeto do concurso a seleção em âmbito nacional de três ensaios, resultado de pesquisa inédita e original, elaborados desde disciplinas e pontos de vistas variados que versem sobre Arte e Mundo após a crise das utopias, tema escolhido nesta 2ª edição. O tema lançado pretende ser ao mesmo tempo objeto e circunstância para discussões mais específicas a serem desenvolvidas e apresentada.


Os três primeiros trabalhos considerados vencedores do concurso receberão prêmio individual em moeda nacional nos valores brutos de 30 mil reais, para o primeiro lugar; 20 mil reais, para o segundo; e 10 mil reais, para o terceiro.

As inscrições para o concurso são gratuitas e deverão ser realizadas por sedex ou pelos concorrentes ou seus procuradores no período de 10 de junho a 18 de setembro de 2009, das 9h às 12h e das 14h às 17h, no seguinte endereço: Fundação Joaquim Nabuco – Diretoria de Cultura. Rua Henrique Dias, 609, Derby – Recife-PE. CEP: 52.010-100. Tel.: (81) 3073-6659/6660.
Maiores informações no site: http://www.fundaj.gov.br

sábado, 4 de julho de 2009

FLIP: Sophie Calle x Grégoire Bouillier

Bouillier e a história de amor que virou ódio

Argelino mostra O Convidado Surpresa, sobre caso conturbado com Sophie Calle

Antonio Gonçalves Filho

O escritor argelino Grégoire Bouillier, de 49 anos, já foi andarilho, jornalista e pintor. Hoje é escritor premiado. Seu primeiro livro, Rapport Sur Moi (Relatório sobre Mim), publicado em 2002, rendeu a ele o Prix de Flore daquele ano e definiu o gênero que Bouillier usa ("relato") para se referir a O Convidado Surpresa (Cosac Naify, tradução de Paulo Neves, 120 págs., R$ 35), livro que o trouxe para a sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Nesse relato, produzido há cinco anos, Grégoire Bouillier conta como conheceu a artista conceitual Sophie Calle, de quem se separou por e-mail, recebendo como resposta uma série de vídeos ultrajantes mostrados na Bienal de Veneza de 2007, em que ela pedia a famosas atrizes, performers, bailarinas e até a uma palhaça que interpretassem a mensagem de rompimento. Hoje, às 11h45, o casal volta a se encontrar numa mesa de debate, que promete lavar a roupa suja dessa relação artística e epistolar.

Bouillier conta que esteve presente à festa de lançamento desses vídeos e que foi interpelado por uma das mulheres. "Ela me provocou, dizendo que eu era bastante corajoso para estar lá." Bem, para quem pagou uma pequena fortuna por uma garrafa de Margaux Château de Tertri 1964 apenas para conquistar a mimada Sophie no dia em que a artista comemorava seus 37 anos, em 1990, coragem é o que não falta a Bouillier. Não que a tradição epistolar (mesmo que seja por correio eletrônico) exija do missivista uma dose excessiva de ousadia. A bem da verdade, a literatura francesa está cheia de rompimentos por cartas e livros autobiográficos em que a vida privada dos escritores é mais pública e devassada que nos atuais reality shows.

O escritor detesta a comparação. Diz que a relação dos dois não pode ser reduzida a um gênero que manipula a verdade como o reality show. Para ele, o relacionamento com Sophie Calle foi para valer. No livro O Convidado Surpresa, Bouillier conta como ficou emocionado ao receber, no dia da morte de Michel Leiris, um convite para ir à festa dela num sábado, 13 de outubro de 1990. Não podia imaginar que Sophie Calle fosse um dia fazer dessa relação amorosa um espetáculo público de ressentimento feminino, provocado por um ruído de comunicação. Ele jura que não pretendeu ser indelicado ao enviar a mensagem eletrônica dispensando a namorada. Esperava que ela respondesse ao e-mail. Como só existe uma coisa pior que uma mulher rejeitada - um homem humilhado -, Sophie Calle deu liberdade para outras mulheres lerem e interpretarem a mensagem, deixando Bouillier arrasado, especialmente porque a palhaça que lê a carta num dos vídeos da artista critica sua "sintaxe rudimentar".

"Acho que ela foi desonesta", sintetiza, "especialmente porque não revelou os antecedentes desse e-mail." Além disso, segundo Bouillier, ela o atingiu em seu ponto nevrálgico, sua atividade literária, dedicada a "elucidar a realidade por meio dela, exatamente como fez Virginia Woolf". As referências do escritor não abrigam nanicos, só gigantes da literatura, como James Joyce e Paul Valéry. A despeito disso, diz que a história da literatura tem apenas um pequeno papel em seu projeto literário, a autoficção, em que o autor faz uso de experiências pessoais para criar um espaço narrativo. "Meus livros não são romances nem obras memorialistas, apenas relatos", explica, embora seu mais recente lançamento, Cap Canaveral, conte a história de um escritor maduro e uma jovem admiradora. Autobiográfico? Sem dúvida. Por seguir o conselho literário de Michel Leiris, Bouillier jamais escreveria algo se não fosse para iluminar certas coisas

Elefante Branco se abriga em casarão

Artistas abrem hoje exposição nos Jardins, em que apresentam obras e promovem conversas com o público

fonte: O Estado de S. Paulo

Um casarão da década de 1930 vazio no nobre bairro paulistano do Jardim Europa é um "elefante branco" para a nossa época, mas, ao mesmo tempo, um espaço prolífico para abrigar uma exposição de arte contemporânea por seus cômodos e lugares (internos e externos) com obras que dialogam com sua arquitetura. Há cerca de um ano um grupo de artistas teve a ideia de ocupar a casa com uma mostra viva, que, a partir de hoje e até dia 26 pode ser vista, apresentando no local criações de Alexandre Fehr, Ana Paula Oliveira, Antônio Brasiliano, Cibele Lucena, Eduardo Verderame, grupo Esquizotrans, Flávia Sammarone, as irmãs Joana Traub Csekö e Júlia Csekö, Marcos Vilas Boas, Mônica Rizzolli, Peetssa, Renato Pera, Rodrigo Araújo e Túlio Tavares.


Pela própria definição do que o casarão representava, vazio, para esses artistas - e para qualquer um -, a exposição ganhou o nome de Elefante Branco, mas esse título ainda abre janelas de metáforas relacionadas ao sistema artístico, uma delas, a de que mostras têm se tornado espetáculos de caráter vultoso e inflado nas quais o que prevalece são conceitos de curadores e não as obras de arte em si, tampouco, a experiência do observador. Por isso, Elefante Branco tem o frescor de seu caráter experimental e de reflexão, já que também abarca a realização, aos sábados (a partir do dia 11), às 17 horas, de conversas abertas ao público com os participantes da mostra (têm entre 28 e 39 anos) e com os críticos André Mesquita, Cauê Alves, Fabiane Borges, Flávia Vivacqua e Ricardo Ramalho. "Artistas e pensadores são convidados a estabelecer diálogos entre si, estabelecer redes com corpos vivos e a casa, adensar a experimentação, expor o que está escondido: um movimento cultural como obra de arte", é a definição da ação por seus integrantes, como se pode ver no blog elefantebranco2009.wordpress.com.

O mais interessante desse "movimento cultural", organizado por Alexandre Fehr, Eduardo Verderame e Túlio Tavares é de que a ação não pretende ser uma afirmação de marginalidade, mas uma exposição plástica, com todos os seus códigos usuais e estrutura expositiva. "A exposição foi feita com cerca de R$ 2 mil a R$ 3 mil do grupo", conta Fehr. É um trabalho de colaboração, feito em rede, e, ao mesmo tempo, como diz Tavares, são mostras individuais dos artistas sem que cada um tenha pensado a relação com o espaço especial para criar sua obra (a casa, que pertence à família de um dos participantes, pode ser tratada como um amplo e temporário site specific).

O visitante/espectador pode, assim, adentrar na poética ou universo de cada uma das obras de Elefante Branco. Há os trabalhos de caráter político, como de Peetssa, Brasiliano e Verderame; os que tratam da questão da memória (até relacionada com o tema casa), de Flávia Sammarone e Júlia Csekö; desenhos intimistas de Mônica Rizzoli; ou a poderosa instalação escultórica de Ana Paula Oliveira.

Artistas criam obras a partir de escala doméstica

fonte: Folha de S. Paulo

Delson Uchôa e Rochelle Costi abrem individuais

Fotografia da série "Desmedida', de Rochelle Costi, em mostra

De frente para o Minhocão, uma mulher estende as roupas molhadas num varal do lado de fora da janela. Rochelle Costi fixou a imagem na memória como índice da escala que fabricou para a individual que abre hoje na galeria Luciana Brito.
"É o paradoxo entre a intimidade e a cena urbana", descreve Costi, 48. "A casa é feita numa escala que nos acolhe, mas dentro da metrópole nós somos sempre pequenos. A casa dela continua sendo a casa dela."
E Costi pegou emprestada uma casa em miniatura para fotografar as nove imagens da mostra. Vista sempre à luz do sol, até parece uma casa real, não fosse a escala contestada por objetos gigantes que ocupam a sala, o sótão, a entrada.
Uma cartela de anzóis parece ganchos de açougue, cartões-postais enfileirados viram grandes telas estocadas no porão, uma caixinha de couro toma o lugar de um enorme baú.
Na fotografia que chama de síntese da mostra, Costi deita a cabeça de uma boneca solitária na sala. Causa estranhamento o olhar artificial do pedaço de plástico, agigantado, faminto. É também parte do arsenal da artista na batalha por uma delicadeza torpe, uma disjunção de espaços que deixam vazar pelas frestas suas memórias afetivas.
"Sempre trabalho muito pensando na realidade", diz Costi. "Foram intervenções no espaço que eu registrei e que foram presenciadas só por mim, a casa como contêiner de tudo."
Buscando lastro para essa realidade, ela revela que usou câmeras analógicas e deixa ver até os tubos de negativos numa das imagens. Não há intervenções digitais, como se a fotografia de agora já tivesse perdido qualquer vínculo com o real.
Talvez pelo mesmo motivo, para não perder contato com o concreto, Delson Uchôa, que também abre individual hoje na Luciana Brito, faz questão de pintar sobre o piso de seu ateliê. "Você descola o couro do chão", diz Uchôa, 53. "É o espaço sitiado da pintura, ambiente impregnado de pigmento."

Membranas de pintura
Ele despeja resina acrílica sobre o piso do ateliê e depois descasca a tela do chão, juntando à obra o barro e a sujeira das lajotas. Foi dessa forma que fez os trabalhos agora expostos no pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza.
Na galeria paulistana, mostra o díptico "Inverno/Verão", que expôs em março na Bienal de Havana. Com motivos construtivos, são telas do tamanho da sala do artista, uma em tons terrosos, quentes e a outra com formas cristalinas e azuladas.
"São duas membranas de pintura", descreve o alagoano.
"Entre uma e outra, há um campo magnético, a ideia de estar dentro do quadro, a pintura percebida em metros cúbicos."
Na casa diminuta e na sala que vira tela estão propostas antagônicas de um mundo medido em escala doméstica. Do exercício sutil das miniaturas aos excessos coloristas, salas, quartos, portas e porões dão as coordenadas dessa arquitetura caseira a serviço da estética -a cartela opaca da cidade contraposta aos gritos dos verões e invernos luminosos do Nordeste.

ROCHELLE COSTI e DELSON UCHÔA
Quando: ter. a sex., 10h às 19h; sáb., 11h às 17h; até 31/7
Onde: Luciana Brito Galeria (r. Gomes de Carvalho, 842, tel. 3842-0634)
Quanto: entrada franca

sexta-feira, 3 de julho de 2009

7ª Bienal do Mercosul abre inscrições para Mesa de Encontros


Nos dias 21 e 22 de julho, a 7ª Bienal do Mercosul promove a Mesa de Encontros – Artistas em Disponibilidade: a educação como espaço para o desenvolvimento de micropolis experimentais, em Porto Alegre, no Salão de Eventos São José - Hotel Plaza São Rafael, com entrada gratuita mediante inscrição.

As inscrições estarão abertas de 06 a 19 de julho, através de formulário no site www.bienalmercosul.art.br/mesadeencontros.


Os encontros são destinados a educadores, artistas, estudantes e outros profissionais que queiram conhecer e discutir os projetos educativos dos artistas que participam do Programa de Residências do Projeto Pedagógico desta edição da Bienal. Os artistas apresentarão publicamente seus projetos na Mesa de Encontros com o objetivo de confrontar e debater suas propostas com profissionais internacionais interessados nos valores da arte como ferramenta para a educação.

Participam das Mesas, além dos artistas residentes, Lucas Rubinich - professor de sociologia (Argentina), Francisco Reyes Palma - historiador, curador e crítico de arte (México), Marcos Villela - doutor em Educação (Brasil), Tania Bruguera - artista e pedagoga (Cuba), Luis Alarcón e Ana María Saavedra - diretores da Galeria Metropolitana (Chile) e Ricardo Resende - diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte (Brasil).


Bob Wilson destila o pop dos sonetos de Shakespeare

fonte: DW

Rainha Elizabeth 1ª contracena com súdito

Traduzidos na linguagem altamente visual de Robert Wilson, os sonetos de Shakespeare se tornam uma fonte de dramas – poéticos e prosaicos. Musicados por Rufus Wainwright, os poemas adquirem algo de pop.


Encenar Shakespeare, não o dramático e sim o lírico: esse foi o intento do diretor norte-americano Bob Wilson em Shakespeares Sonette (Sonetos de Shakespeare), espetáculo em cartaz no Berliner Ensemble. E para tal, Wilson se associou ao compositor e músico americano-canadense Rufus Wainwright. O resultado é uma noite de variedades, com referência a todos os gêneros de entretenimento, desde a commedia dell'arte até sketches televisivos, passando pelo cabaré.

Georgette Dee

Se na era elizabetana os papéis femininos eram desempenhados por homens, Bob Wilson faz o mesmo, acrescentando a essa prática seu reverso: as atrizes fazem papéis masculinos. Essa inversão – a rainha Elizabeth 1ª, em seu trono, declamando um soneto com voz grave e o próprio Shakespeare, como jovem e ancião, em vozes femininas – intensifica ainda mais o tom farsesco do espetáculo. Tanto que nem o número esporádico do ator travesti Georgette Dee, de microfone na mão, chega a destoar muito do entorno shakespeariano.

"Se mais clara que o Sol, ao olhar cego irradia / e tão feliz me faz, de noite, em sonho, a forma / da tua sombra, que enlevo, ah! não fora de dia / essa sombra que em luz outras sombras transforma?" (soneto 43, na tradução de Jerônimo de Aquino). A contínua alternância de vozes, de personagens e de cenas confere à peça de Wilson um tom onírico, no qual o lirismo e o grotesco convivem, ao lado do sentimental e do patético.

Shakespeare, ancião e jovem

A encenação de Bob Wilson revela o quanto a poesia de Shakespeare comporta. Por um lado, as composições de Wainwright têm o potencial de transformar os sonetos elizabetanos em hits pop – uma banalização que pode até encantar. Por outro, a prática da repetição exaustiva das mesmas palavras em diferentes contextos, recorrente nas peças de Wilson, ajuda a recuperar o que certos versos têm de sublime.

A escolha de uma fonte textual lírica para a encenação não torna o espetáculo pouco dramático. A técnica wilsoniana de inserir pequenos interlúdios esporádicos no fluxo do enredo (módulos cênicos denominados knee pieces por causa de sua função de articulação) é levada ao extremo na sua encenação dos sonetos de Shakespeare para o Berliner Ensemble. É como se o espetáculo fosse composto apenas de breves articulações dramáticas inter-relacionadas.

O design cênico altamente estilizado de Bob Wilson – que no início de seu êxito internacional contribuiu para limpar o palco de todos os naturalismos, seja nos adereços ou na forma de atuação – já se tornou marca registrada e se repete a cada nova encenação. Isso não é novidade. Em uma miscelânea de tantos gêneros pop como Shakespeares Sonette, no entanto, o modelo formal de Bob Wilson quase perde a intenção de seriedade, parecendo mais uma citação de si mesmo.

Autora: Simone Lopes

Revisão: Roselaine Wandscheer

quinta-feira, 2 de julho de 2009

BIOGRAFIA: Andreas Gursky

Fonte DW | publicação de maio de 2008

Andreas Gursky: mestre dos "dois olhares"

Suas fotos têm grande formato, são caras, cobiçadas e se transformaram em verdadeiros ícones no mercado de artes. Pela primeira vez, Andreas Gursky expõe, na cidade de Darmstadt, 15 de suas reproduções arquitetônicas.

Gursky: imagens que são metáforas

Não importa se no MoMA de Nova York, no Centro Georges Pompidou de Paris ou no Tate Modern de Londres: em todos os lugares onde as fotos de até sete metros quadrados de Andreas Gursky estão expostas, o observador se detém admirado. O artista radicado em Düsseldorf, considerado o "mestre do segundo olhar", conduz o observador a perceber suas imagens através de uma extraordinária coreografia de personagens e objetos.

Seus trabalhos são sempre compostos sob dois aspectos, explica Gursky. O observador que se aproxima pode "ler" as fotografias, indo até aos mínimos detalhes. À distância, contudo, elas mais parecem "megadesenhos". Um procedimento que foi usado pelo artista também para compor as 15 reproduções arquitetônicas, expostas desde 11 de maio no espaço Mathildenhöhe, na cidade de Darmstadt.

'99 centavos', pelas lentes de Andreas Gursky

Sua obra Paris, Montparnasse, por exemplo, com quatro metros de comprimento e quase dois de altura, reproduz, à primeira vista, um enorme complexo residencial na França, percebido, à primeira vista, como uma fachada austera, constituída de pequenas celas. Num segundo momento, percebe-se que a fotografia de grandes proporções documenta o ornamento da vida em sociedade naquele espaço.

Panorâmicas e mínimos detalhes

"Você tem a sensação de que pode adentrar cada um desses apartamentos, reconhecendo até uma lâmpada ou uma pessoa que está fechando naquele momento a cortina", diz Ralf Beil, diretor do Mathildenhöhe, ao comentar o paradoxo contido no trabalho de Gursky na união entre panorâmicas enormes e detalhismo absoluto.

'Edifìcio Copan', 2002

Não importa se o que se vê é a Bolsa de Valores de Chicago, o plenário de Brasília ou um lixão no México, as fotografias de Gursky reproduzem a realidade social com tamanha plenitude de detalhes, cores e estruturas, com um olhar praticamente isento de preconceitos.

Quando ele fotografa uma loja onde tudo é vendido a 99 centavos, sua encenação mantém, apesar de tudo, a serenidade e o bom humor. "O grande mérito de Andreas Gursky é fazer com que as imagens se transformem em metáforas. Elas funcionam como emblemas do mundo de hoje, apesar de serem totalmente artificiais e construídas", diz Beil.

Discípulo de Bernd e Hilla Becher

Para encenar e preparar suas imagens iconoclastas, Gursky não poupa verbas nem esforços. Não é raro ver o artista ser levantado, com todo seu equipamento, por uma grua no meio da cidade; ou mesmo fotografando de um helicóptero. O argumento usado pelo artista é o de que é necessário ganhar distância do objeto fotografado, a fim de manter a visão.
'Metrô da Sé', São Paulo, 2002

Andreas Gursky nasceu em Leipzig, em 1955, tendo estudado Artes na Escola Folkwangschule, em Essen, (conhecida como "a escola da Pina Bausch"), e na Academia de Artes de Düsseldorf. Ali foi aluno de Bernd e Hilla Becher, cuja obra revolucionou a fotografia na Alemanha. A proximidade dos Becher foi o impulso inicial na carreira de Gursky.

Os primeiros trabalhos do artista ainda mantinham um formato mais reduzido, e sua temática girava em torno da relação do homem com o meio ambiente. Em 1988, surgiram as primeiras reproduções em grande formato que o tornaram internacionalmente conhecido.

Multidões, paisagens naturais, arquitetura e interiores são alguns dos temas preferidos pelo fotógrafo. Gursky é, segundo ele próprio, um artista com muitas exigências em relação a seu trabalho. Alguém sempre em busca da "imagem insuperável", finaliza.

Rudof Schmitz/Sabine Damaschke (sv)

Vernissage-TV leva arte à tela do computador

fonte DW

Interessados em arte que não podem correr de exposição a exposição têm a oportunidade de acompanhar o circuito artístico de perto: os videoblogs da Vernissage-tv levam as últimas mostras à tela do computador.

"O que você ama também faz você chorar" é o lema do atual trabalho do artista alemão Tobias Rehberger, exibido nesta Bienal de Veneza. Rehberger pintou elipses negras no chão e nas paredes e posicionou uma mulher que roda em círculos na obra. No início da Bienal, ele abocanhou um Leão de Ouro com o trabalho.

Quem não pôde ver de perto a instalação de Rehberger em Veneza tem a oportunidade de saber exatamente o que o artista apresenta na cidade italiana através de um vídeo do blog de artes Vernissage-TV. Fundada em setembro de 2005, a web TV já tem mais de 1.100 vídeos na rede. E aproximadamente 50 mil vídeos baixados por dia.

Início casual

"A coisa cresceu mesmo", diz Heinrich Schmidt, que produz a TV ao lado de dois outros sócios e com a colaboração de correspondentes em diversas cidades do mundo. Tudo começou, como é o caso da maioria das boas ideias, mais ou menos por acaso. Para o site de um arquiteto conhecido, Schmidt foi encarregado de criar uma página na internet e documentar uma exposição, fazendo uso, inclusive, de um vídeo.

"Percebemos rapidamente que era muito agradável não só mostrar os trabalhos no museu como também as pessoas que veem esses trabalhos", conta Schmidt. Esse é o conceito básico do que se convencionou chamar de no-comment-videos: "As reportagens normais, na televisão, têm sempre comentaristas. Tudo é resumido de forma rápida e amarrada e bem preparado. Isso era exatamente o que não queríamos", explica Schmidt.


Bruce Nauman - Topological Gardens | representação dos EUA no Pavilhão Giardini da 53a Bienal Veneza - Fare Mondi

Na Vernissage-tv há vídeos apenas com som original. "Queremos levar o espectador da forma mais autêntica possível para as exposições", diz Schmidt. Pois crítica de arte é algo que existe de forma suficiente em outros lugares.

Além disso, a Vernissage-tv oferece entrevistas com artistas, galeristas, especialistas em arte ou até mesmo com produtores pop, como Pharel Williams, que conta, por exemplo, frente às câmeras, como ele e o artista japonês Takashi Murakami colaram milhares de diamantes numa lata de Pepsi.

Sem planos

Os pequenos documentários em vídeo do circuito internacional de artes da Vernissage-tv são curtos, informais e informativos. Um produto adicional perfeito para aqueles que já devoram os cadernos de cultura dos jornais e ainda não se sentem satisfeitos com as revistas especializadas e visitas "reais" a museus no fim de semana.

"Nossa ambição é fazer algo de que gostamos", fala Schmidt. Um plano rígido de trabalho, a web TV não tem, mesmo estando em seu quarto ano consecutivo de existência. O projeto consegue se autogerir graças à publicidade e cooperações diversas.

terça-feira, 30 de junho de 2009

"Présumés Innocents"

fonte: E-Flux

"Presumed Innocents", the trial: 10 years later"

Bordeaux Judge Reopens Decade-Old Child-Porn Charge
Against Curators Marie-Laure Bernadac, Henry-Claude
Cousseau, and Stéphanie Moisdon

Marlene Dumas, included in the exhibition, with one of her "obscenities."Photograph: Martin Godwin. June 30, 2009

Indicted at the end of 2006 , after six years of investigations, long period during which no element was produced that could have fed the prosecution (the specialized unit for minors and the rectorship gave a favourable opinion) and after the attorney general of Bordeaux called for a not guilty decision in march 2008 the trial judge Jean-Louis Crozier has just decided to refer before the magistrate's court Marie-Laure Bernadac, Henry-Claude Cousseau, and Stéphanie Moisdon, for having, within the exhibition entitled "presumed innocent- contemporary art and childhood " organized 2000 in the CAPC contemporary museum of art in Bordeaux exposed " violent and pornographic art works "*.

With this decision—which, in an extremely unusual move, disregards the conclusions of a Parquet investigation—the entire national and international artistic and professional community, together with the cultural image of France, have come under attack and stand accused, offended.

For the first time in France, two museum directors and a curator are to be tried in a criminal court for exhibiting works of art that have already been shown throughout the world or put on view since the Bordeaux exhibition in art shows that have not elicited the least unfavorable reaction from the public. The thinking that went into preparing the incriminated exhibition, focused on a major subject of art history, was developed collectively and was shared by the relevant state oversight authorities.

This court case from an earlier century, fiercely, relentlessly prosecuted by a single judge in contempt of artistic creation and individuals' right to accede freely to all forms of art, is indicative of a dangerous obscurantist attitude. The trial will take place in Bordeaux under pressure from a local child protection association named La Mouette, in turn supported by an extremist press that has already been found guilty of libel against one of the accused.

How is it possible that what is considered viewable and acceptable everywhere else should not be so in Bordeaux? What will be put on trial in the Bordeaux magistrates' court a few months from now is the work and personal and professional conviction of three figures of the world of art and culture unanimously recognized for their commitment to that world. They have already received thousands of messages of support from all horizons.

This attempt to "criminalize" artists and other actors for their creative work, together with the cultural sites that diffuse that work, requires us to be extremely vigilant about censorship of this kind, whose perpetrators are ever ready to use noble causes such as child protection to authoritarian, liberticidal ends.

MARIE-LAURE BERNADAC, HENRY-CLAUDE COUSSEAU, STEPHANIE MOISDON

* including works by Christian Boltanski, Gary Gross, Paul McCarthy, Mike Kelley, Cindy Sherman, Nan Goldin, Robert Mapplethorpe, Elke Krystufek, Carsten Höller, Annette Messager, Ugo Rondinone…..

FLIP: Sophie Calle

Livro de Sophie Calle deixa mistério sobre o que é verdade ou invenção; leia trecho


da Folha Online

"Histórias Reais"
Autora: Sophie Calle
Editora: Agir
ISBN: 8522008787
Páginas: 88
Quanto: R$ 34,90

A mesa 12, que ocorrerá no próximo sábado (4), às 11h45, reserva um algo a mais para o público da Flip-2009 (Festa Literária Internacional de Paraty). Sob o tema "Quatro Paredes", o primeiro encontro público entre a artista plástica francesa Sophie Calle, 55, e o escritor francês Grégoire Bouillier, 49, diluirá ainda mais as fronteiras entre realidade e ficção, presentes na obra de ambos.

Bouillier, antigo companheiro da artista, rompeu o relacionamento por e-mail, terminando o texto com a frase "Cuide de você". Calle então pediu a 107 mulheres das mais diferentes profissões que lessem e interpretassem sua reação diante daquela resposta. Esse conjunto de expressões femininas foi filmado por Calle, tornou-se uma obra de sucesso ("Prenez Soin de Vous", a famosa frase, em francês), e representou a França na Bienal de Veneza, em 2007. O livro que leva o mesmo nome é um dos assuntos que será abordado pela escritora na Flip. No próximo mês, ela vem a São Paulo para inaugurar a exposição, no SESC Pompéia.

Outra surpresa que Calle traz ao país é a publicação de "Histórias Reais" (Agir, 2009), sua primeira obra a ser lançada por aqui. O livro relata as experiências autobiográficas da escritora. Das aventuras pessoais --infância, cotidiano e relacionamentos-- à experiência sensorial de seus traços, desta vez no texto e não na tela, ela revela-se por vezes uma menina que segue os conselhos do pai e vai ao médico, uma moça que compartilha suas intimidades com desconhecidos, e uma mulher que convive com os entrementes da relação com "Greg" (Grégoire Bouillier). O que seria verdade ou invenção? O mistério fica sob a responsabilidade do leitor.

Trechos extraídos do livro "Histórias Reais" :

Os seios milagrosos
Quando eu era adolescente, praticamente não tinha seios. Para imitar minhas amigas, comprei um sutiã que, evidentemente, não me servia para nada. Minha mãe, que exibia com orgulho um busto esplendoroso, e que nunca perdia uma oportunidade de fazer uma gozação, apelidara-o de porta-nada. Ainda posso ouvi-la. Durante os anos que se seguiram, lentamente, meu peito foi aumentando. Mas nada muito excitante. E de repente, em 1992 - a transformação se deu em seis meses -, ele começou a crescer. Sozinho, sem tratamento nem intervenção exterior, milagrosamente. Juro. Triunfante, mas na verdade sem muita surpresa, atribui a performance a vinte anos de frustração, de inveja, de devaneios, de suspiros.

O nariz
Eu tinha quatorze anos e meus avós queriam mandar corrigir algumas das minhas imperfeições. Iriam refazer meu nariz, disfarçar a cicatriz da minha perna esquerda com um pedaço de pele retirada das nádegas, e ainda corrigir as orelhas de abano. Eu não estava convencida, mas me tranqüilizaram: até o último instante eu poderia desistir. Uma consulta foi marcada com o doutor F., famoso cirurgião plástico. Foi ele que acabou com as minhas dúvidas. Dois dias antes da operação, ele se suicidou.

O porco
É uma história meio louca. Eu tinha trinta anos. Um homem me procurou dizendo que tínhamos projetos similares. Concordei em marcar um encontro com ele, sempre tenho medo de perder alguma coisa. Sua arte consistia em pedir a desconhecidas que dormissem com ele. Eu mesma já não havia pedido a estranhos que deitassem na minha cama para serem fotografados? Ele combinou de me levar a um churrasco em Neuilly. Durante a noite inteira, banquei a empregada. Grelhei salsichas, servi, limpei. Ocupada, o tempo passava mais depressa. Tarde da noite, ele me deixou na porta de casa, curvou-se, procurou meus lábios. Empurrei-o, dizendo: "Quem disse que quero beijá-lo?" Ele respondeu: "Não faz mal, você come como um porco!" Vários anos se passaram, mas essa frase continua me atormentando. Não lembro mais nada desse indivíduo, mas ele continua sentado à minha mesa.

O strip-tease
Eu tinha seis anos e morava na rua Rosa-Bonheur, com meus avós. Todos os dias, quando voltava para casa, ia tirando a roupa no elevador e chegava nua ao sexto andar. Em seguida, atravessava depressa o corredor e, assim que entrava no apartamento, ia me deitar. Vinte anos depois, era numa barraca de um parque de diversões, em Pigalle, que eu me despia todas as noites, usando uma peruca loura, caso meus avós, que moravam no bairro, viessem a passar por ali.

A carta de amor
Sobre a mesa, está jogada displicentemente, há anos, uma carta de amor. Eu nunca havia recebido uma carta de amor. Encomendei uma a um escritor público. Oito dias depois, recebi uma linda carta de sete páginas, escrita à mão, em versos. Havia custado cem francos, e o homem dizia: "... sem fazer um só gesto, segui você por toda parte...".

O dado
Sempre gostei que decidissem por mim. Com B. tínhamos uma regra: nos dias pares ele decidia, nos dias ímpares era eu. Quando ele foi para a América, deu-me um dado de presente para substitui-lo.

O dado (continuação)
Um dia, num vernissage, um jovem aproximou-se de mim e se apresentou. Tinha o mesmo sobrenome de B. Manifestei minha surpresa diante da semelhança até entre a ortografia, pouco comum, de seu sobrenome e do sobrenome do meu amante. Sua resposta foi galante: dois homens com o mesmo sobrenome me amavam. No dia seguinte, convidou-me para compartilhar sua cama. Confiei minha decisão ao dado. Por intermédio de seu presente, B. aprovava seu sucessor.

O mau hálito
Eu tinha trinta anos e meu pai achava que eu tinha mau hálito. Sem falar nada comigo, ele marcou uma consulta com um clínico qualquer. Fui. Assim que cheguei, pelo jeito dele, compreendi logo que se tratava de um psicanalista. Sabendo da implicância que meu pai sempre manifestara para com essa profissão, expliquei a ele a situação: "Houve um engano. Meu pai acha que tenho mau hálito, mas ele me mandou a um clínico geral". O psicanalista retrucou: "Você sempre faz o que seu pai manda?" Tornei-me sua paciente.

O divórcio
Nas minhas fantasias, eu sou o homem. Greg logo percebeu. Talvez tenha sido por isso que um dia ele me propôs que eu o fizesse urinar. Isso se tornou um ritual entre nós: eu ficava atrás dele, desabotoava-lhe as calças sem ver, tirava o pênis, fazia um esforço para colocá-lo na posição adequada e visar bem. Depois, recolocava-o lentamente no lugar e fechava a braguilha. Pouco depois da nossa separação, sugeri a Greg que tirássemos uma foto como lembrança desse ritual. Ele aceitou. Então, num estúdio do Brooklyn, diante da câmera, fiz com ele urinasse em um balde de plástico. Essa foto serviu de pretexto para que eu pusesse a mão no seu sexo, pela última vez. Naquela noite, aceitei o divórcio.

O outro
Aquele homem me agradava, mas na nossa primeira noite de amor tive medo de olhar para ele. Eu achava que ainda amava Greg, e temia ser dominada pelo pensamento de que aquele não era o homem que deveria estar ali, na minha cama. Preferi fechar os olhos. A incerteza persistia na escuridão. Um dia, fiz a bobagem de dizer a ele porque eu mantinha as pálpebras fechadas na cama. Ele não deixou transparecer seus pensamentos. Alguns meses depois, finalmente livre do fantasma de Greg, abri os olhos, certa de que a partir daquele momento era aquele outro que eu queria ver. Eu não sabia que seria nossa última noite: ele ia me deixar.

"Aquilo que acontece possui uma tal antecipação que nunca podemos ir ao seu encontro e conhecer sua verdadeira aparência".

Valores cobrados por herdeiros de artistas dificultam realização de mostras

Silas Marti da Folha de S.Paulo

Obras de Alfredo Volpi e Lygia Clark vão ter destaque na mostra que o Museum of Fine Arts de Houston planeja abrir em Zurique no fim deste ano, mas nenhuma imagem delas estará no catálogo. A não ser que as famílias dos artistas aceitem receber menos pelas fotos, como vai pedir nesta semana a curadora do museu.

Mari Carmen Ramírez já não pôde publicar imagens de Volpi num catálogo que o museu de Houston publicou em 2007 e agora briga para evitar o mesmo desfecho. "Estamos falando em milhares de dólares, quando o normal é nunca pagar mais de US$ 300 por cada imagem", afirmou Ramírez, à Folha.

Herdeiros podem cobrar pelas imagens e pela exposição das obras mesmo que as peças tenham sido vendidas a museus ou a colecionadores.

Volpi também ficou de fora do catálogo de uma grande individual dedicada à sua obra em cartaz até o fim desta semana no Instituto Moreira Salles do Rio, porque não foi pago o valor pedido pelo advogado da família, que era de R$ 150 mil.

Organizadores da mostra ofereceram R$ 35 mil à família para fazer a exposição e publicar um catálogo, mas não houve acordo. Agora, a filha de Volpi e seu advogado ameaçam processar o IMS por terem feito a mostra sem autorização.

"As famílias estão cada vez mais ávidas, eu não sei aonde vai parar isso", disse o crítico Ronaldo Brito, que já teve cópias apreendidas de seu livro "Neoconcretismo", com uma obra de Lygia Clark na capa --segundo parentes da artista, a editora Cosac Naify não pagou para reproduzir imagens.

No fim do ano passado, a galerista Raquel Arnaud sofreu para organizar uma exposição de Volpi no Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo, mas acabou cedendo e pagou R$ 50 mil --valor que conseguiu baixar dos R$ 100 mil originais-- pelas imagens. "A gente brigou muito por causa disso", lembra Arnaud.

É um problema que se arrasta. A curadora independente Denise Mattar diz que passou cinco anos de sua vida indo a fóruns porque foi processada pela família de Di Cavalcanti quando fez duas mostras no Rio, nos anos 90.
"A coisa é uma bola de neve", diz Mattar. "A família acaba contratando um advogado, que também quer dinheiro. Vai virando um círculo complexo."

Zelo pela imagem

De um lado, curadores, instituições e críticos de arte reclamam que a cobrança das famílias prejudica a realização de exposições, arriscando jogar no ostracismo a obra de um artista. Do outro, parentes e advogados dizem que é preciso zelar pela imagem dos que já morreram, e que isso tem um preço.

"Tem que ter um limite para isso, porque limita o acesso à obra", diz Vanda Klabin, curadora da mostra de Volpi agora em cartaz no IMS do Rio. "É preciso deixar uma margem em que você possa trabalhar."

Ronaldo Brito fala em tornar "invisível" a história da arte brasileira. "A difusão da obra de arte brasileira vai encontrando obstáculos, e isso influi no preço das próprias obras", diz o crítico Paulo Sergio Duarte. "Até do ponto de vista da lógica do capital, a coisa é torta."

Incômodo

"Se eu estivesse advogando para um artista menor, talvez nossa política fosse diferente", diz Salvador Ceglia Neto, advogado da família de Volpi, à Folha. "Volpi é Volpi, a força da obra dele é maior do que isso."

Ele descarta que os valores cobrados possam jogar o artista no anonimato. Diz que as críticas partem de colecionadores, que querem suas obras divulgadas, e de críticos, que querem mais exposições sobre as quais escrever. Também diz que esse é o custo para barrar a circulação de obras falsas de Volpi.

"Com essa cobrança acabamos forçando a formalização das transações", diz Ceglia Neto. "Os proprietários das obras querem ficar no anonimato e essa política incomoda."

"A gente está num mercado capitalista", diz Patrícia Volpi, neta do artista. "O argumento é sempre que estão fazendo uma homenagem, mas ninguém diz estar atrelando a marca a outra marca." No caso, a primeira marca é Volpi, e a segunda, o IMS, ligado ao Unibanco.

"Não houve exposição que deixou de ser feita por causa disso", diz Álvaro Clark, filho de Lygia. "Eu não vejo dificuldade. É que antigamente as coisas eram mais liberais."

Ele diz que sua Associação Cultural Mundo de Lygia Clark cobra em média 165 por imagem de obra. Mas é preciso que o trabalho em questão tenha um certificado de autenticidade emitido por eles. "Não cobramos pela certificação. Só pedimos que a pessoa contrate um fotógrafo para fazer a imagem da obra e um museólogo para fornecer um condition report [laudo de condições]", diz.

Clark diz que hoje há cerca de 580 obras certificadas e que gasta recursos dos direitos autorais para barrar falsificações. "É um processo claro e limpo. Quero limpar o mercado."