quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Artista cria mercado de pulgas para negociar segredos pessoais


Fazer compras sem dinheiro funciona em um único mercado de pulgas em Berlim, onde a moeda corrente são segredos pessoais. A artista responsável coleta depoimentos de seus clientes para construir uma peça radiofônica.

Para um modesto vestido de bolinhas verde e branco, a cliente tem que passar 10 minutos falando sobre moral e castidade. Um colar vale o relato de cinco minutos sobre um pequeno segredo sujo. E para levar para casa três livros, o interessado deverá dizer alguma coisa que nunca contou antes a ninguém.
"É claro que estou curiosa", conta Alexandra Müller, de 26 anos, idealizadora e organizadora do que chama de "mercado íntimo de pulgas", em Berlim.
Cada conversa com um cliente é gravada por ela, para ser posteriormente editada e usada na construção da dramaturgia de uma peça radiofônica. Os momentos mais apreciados pela artista são aqueles nos quais os clientes de seu mercado se esquecem de que ela está ali e continuam simplesmente falando de si mesmos.
Dar e receber
"Não acho que algum dia na vida conseguirei ter relações que funcionam", diz uma garota que prefere ser chamada de Sonja e que está interessada em levar para casa um boné verde. Por esse produto, ela "paga" com seis minutos de narração sobre uma ruptura amorosa. "Na minha última relação, tudo se desmoronou e a gente brigava todo dia. Foi uma separação lenta e dolorosa", diz a jovem frente aos gravadores da artista Alexandra Müller.
Nils, de 24 anos, por sua vez, tentou contar algum segredo nunca revelado anteriormente, a fim de levar em troca três livros usados. "Quando eu tinha 17 anos, era realmente muito importante ter experiência com garotas. Eu dizia a meus amigos que já tinha dormido com uma, mas não tinha. Inventei a história sobre um encontro num acampamento. Aquilo foi realmente embaraçoso para mim", relata o jovem.
Müller conta que uma outra mulher descreveu sua vida nas ruas como dependente de drogas. "E tinha uma francesa que não parava de falar e que descreveu durante 20 minutos seu jardim interno, sem que eu ao menos pudesse fazer perguntas. Foi realmente estranho", diz a artista, sempre disposta a ouvir os clientes por um intervalo de 5 a 20 minutos, dependendo do produto à venda.
O contato, porém, não é unilateral. Alexandra Müller também se dispõe a falar. Ela não só coleta segredos alheios, mas – em troca de suas próprias histórias pessoais – também compra produtos para revender em seu mercado. A fim de angariar um par de sapatos, ela discorreu sobre onde pensa estar vivendo daqui a 30 anos.
"Para mim, a arte performática sempre foi um meio de expressão, mas não necessariamente tem que ser sutil e abstrata. Pode significar apenas falar com pessoas normais e envolvê-las", comenta a artista.
Repensando a proteção de dados
A peça radiofônica baseada nesse mercado de pulgas inusitado não é o primeiro trabalho de Müller. Em abril de 2007, ela criou uma performance chamada Não chore. Trabalhe! Durante uma semana, a artista executou toda a espécie de trabalho que lhe pediam – exceto prostituição – e se surpreendeu sobre como as pessoas falavam sobre suas vidas, enquanto ela trabalhava para elas. "Eu tinha a sensação de que as pessoas compravam meu tempo", conta.
Müller acredita que, na era da informação, as pessoas estão mais dispostas a dividir informações pessoais. "Quero fazer com que as pessoas reflitam sobre como fornecem dados para os outros. Quando elas me contam histórias sobre suas vidas sexuais ou coisa parecida, têm a sensação de que estão revelando dados sobre si mesmas. Talvez em suas vidas reais elas também pensem assim", reflete a artista.

Um show, dois palcos

As performances de Müller começaram em agosto, em uma galeria de arte do bairro Prenzlauer Berg, em Berlim. No início de setembro, ela transferiu o projeto para uma antiga sede dos correios no bairro de Neukölln, onde deverá permanecer até 27 de setembro.
Esse novo ambiente combina especialmente com a concepção da artista. Afinal, as pessoas usam o correio para enviar cartas lacradas, nas quais escrevem seus segredos a amigos, entre outras coisas. Agora elas se dirigem ao mesmo local para se encontrar com a artista e contar segredos; no entanto, sem "lacrar" os mesmos.
Segundo Müller, outro detalhe importante do projeto são as performances em duas regiões bem distintas de Berlim. "Prenzlauer Berg é mais a Manhattan da cidade, um bairro muito descolado, com muita gente jovem. Neukölln é mais o Bronx de Berlim, onde vivem muitos estrangeiros", descreve a artista.
Pois, quanto mais variadas as histórias íntimas contadas, mais interessante se tornará sua peça radiofônica, a ser veiculada pela emissora alemã de rádio SWR.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Site vende e vigia direito de imagens de obras


Silas Marti da Folha de S. Paulo

Demorou 24 horas para retirar dois artistas brasileiros representados de forma ilegal de um site estrangeiro. A virtual Galerie Dada, com sede nos Estados Unidos e na Tailândia, oferecia reproduções de quadros de Antonio Henrique Amaral e Tarsila do Amaral, pintadas a óleo por "experientes graduados em belas artes".
É o mesmo site que oferece reproduções de trabalhos de Gauguin, Matisse, Picasso, Van Gogh, Miró, entre outros.

A cópia em tela de algodão com tinta Windsor & Newton de "Braziliana Litoral 2", quadro em que Antonio Henrique Amaral pintou um cacho de bananas, poderia ser vendida por algumas centenas de dólares.
Isso até que Cristiane Olivieri, do site InArts, respondeu ao alerta do próprio artista e disparou um e-mail ao portal, contando que detinha os direitos de uso daquela imagem.

"Não temos uma função policialesca, mas aquele era um uso criminoso da imagem", conta Olivieri. "Sabiam disso, tanto que receberam o e-mail e em 24 horas os artistas brasileiros já não estavam mais indicados."

No ar em fase de testes há um ano, o InArts representa o direito sobre imagens de trabalhos de 50 artistas. Não vendem obras de arte, mas cobram pela publicação de imagens delas em catálogos, livros e cartazes.

Enquanto esse é um trabalho comum de associações de artistas no mundo todo, o InArts é um dos primeiros sites a oferecer o serviço e a única empresa dedicada só a isso no país, com cada vez mais clientes.

Batalhas Jurídicas


Há alguns meses, herdeiros de Alfredo Volpi entraram em conflito com o Instituto Moreira Salles, que expôs obras do artista e tentava publicar imagens dos trabalhos num catálogo, que acabou saindo sem elas. O mesmo já aconteceu com Lygia Clark e outros artistas, o que motivou até um manifesto de curadores e críticos de arte contra herdeiros que cobravam demais pelas reproduções.

Valores, no caso de Volpi, chegam a R$ 150 mil, muito além do padrão internacional, e ameaçam que o artista fique de fora de mais um catálogo que deve ser publicado neste ano.

Na tentativa de tabelar os preços do mercado e evitar disputas jurídicas, o InArts estabelece valores objetivos a serem cobrados pela publicação de uma imagem, dependendo do tamanho da reprodução e a tiragem da edição em que o trabalho aparece -custos que variam de R$ 60 a R$ 2.000.

"Não é um valor que inviabiliza nenhum projeto, são bem razoáveis", diz Olivieri. "É uma maneira de a família conseguir fazer a manutenção do acervo, coisas que têm um custo."

Mesmo no caso de obras vendidas a outros colecionadores, herdeiros do artista continuam titulares dos direitos de imagem e podem cobrar por isso.

"É importante que o uso seja remunerado, porque a cadeia toda, do editor ao crítico que trabalha nos catálogos e nos livros, recebe pelo que faz", opina Olivieri. "A gente ajuda o artista a gerir um pedaço de sua vida, e ele fica livre para continuar no ateliê."

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Shirin Neshat: Cinema

'Mulheres sem Homens' revela a luta pela democracia no Irã

Belo filme da diretora Shirin Neshat conta de modo delicado a vida de quatro mulheres no Irã dos anos 50

Flávia Guerra, de O Estado de S. Paulo


A diretora iraniana Shirin Neshat usa verde em sinal de protesto contra o presidente de seu país, Mahmoud Ahmadinejada, acusado de fraudar as últimas eleições.

Sob mais de dez minutos de aplausos, a diretora iraniana Shirin Neshat agradeceu ao público que lotou a Sala Grande do Festival de Cinema de Veneza, após a exibição de seu filme Zanan Bedoone Mardan (Mulheres sem Homens). O filme, que conta de modo delicado e até mesmo surreal a vida de quatro mulheres no Irã dos anos 50, teve recepção mais que positiva durante a sessão de gala. O longa, que concorre ao Leão de Ouro, mostra, em paralelo, o período em que um golpe de estado, que teve apoio inglês e liderança norte-americana, derrubou o então governo democrático e restituiu o poder ao xá.

De manhã, a recepção da imprensa já havia sido emocionante. Diretora e equipe fizeram questão de usar lenços verdes em apoio ao movimento atual contra o atual presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad, acusado de fraudar as últimas eleições.

Ao fim da sessão de gala, Shirin voltou a repetir que fez seu filme para que o mundo veja que o povo iraniano quer lutar pela democracia e pela liberdade. "E sobretudo as mulheres sempre lutaram por estes valores. Não importa o período, mostrar que a liberdade e a democracia são algo muito importante para os iranianos. Mais uma vez o verde deu o tom à sessão mais emocionada e emocionante do festival até agora.

Vale lembrar que, ainda que se passe em 1953, Mulheres sem Homens revela acontecimentos que influenciam até hoje a história do Irã. Após os golpe, o país se encaminhou para a Revolução Islâmica de 1979. Tal fato, por sua vez, conduziu o país ao governo de Ahmadinejad. "É até irônico como tudo foi uma coincidência. Mas de fato as cenas da repressão naquele 1953 são muito parecidas com as do último verão", comentou Shirin. "Há um século os iranianos lutam contra ditadores, que mudam de forma e ideologia. E tanto naquele período quanto hoje, nós mulheres somos símbolos desta batalha. Jamais esqueceremos a estudante Neda, que foi assassinada em pleno protesto, na frente do mundo todo", disse ela à plateia. E finalizou: "Nossa luta continua. E espero que este filme seja testemunho disso."

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Entrevista: Moacir dos Anjos


"Quero reavaliar a arte brasileira", diz curador da Bienal de SP


por Fabio Cypriano da Folha de S.Paulo


O curador pernambucano Moacir dos Anjos, 43, vai assumir sua curadoria mais ambiciosa, depois de obter elogios pela condução de mostras como a "Paralela", em 2004, e o "Panorama da Arte Brasileira", no MAM-SP, em 2007. A 29ª Bienal de São Paulo tem abertura marcada para setembro de 2010. O crítico de arte Agnaldo Farias vai ser o cocurador do evento.

Qual o papel da Bienal de São Paulo hoje?

Moacir dos Anjos - No âmbito internacional, contribuir para afirmar um modelo de exposição que guarde distância tanto do imediatismo que rege as feiras de arte quanto da estabilidade de valores que reina em museus. No contexto brasileiro, consolidar-se como instituição que, além de oferecer momentos de encantamento ao público, assuma com vigor sua missão crítica e formadora.

Pensando nesses dois temas --formação e encantamento-- quais Bienais paulistas se aproximaram do que você pretende organizar?

Dos Anjos - Das realizadas nas duas últimas décadas, creio que a 23ª (1996) e a 24ª (1998) foram as que melhor articularam essas duas dimensões que, acredito, devam estar simultaneamente presentes em uma exposição de arte.

Moacir dos Anjos, 46, será o curador da próxima Bienal de SP; ele quer "reavaliar a arte brasileira"

Numa pesquisa da Folha Online, a "a discussão do vazio" foi o que mais marcou a última bienal. O que você gostaria que marcasse sua Bienal?

Dos Anjos - O fato de ser uma exposição que levou a arte a sério. O que não se confunde, em absoluto, com querer uma mostra sisuda. Levar a arte a sério é apostar na sua capacidade de mover as pessoas ao ponto delas, no limite, mudarem os parâmetros com que se relacionam com seu entorno.

Que exposição já provocou isso em você?

Dos Anjos - Lembro-me, por exemplo, da visita que fiz a uma exposição do Anselm Kiefer, no MAM de São Paulo, em 1998. Embora seja um artista que hoje não admiro tanto quanto já admirei, aquele foi um desses momentos em que a arte provou, para mim, do que é capaz. Não há texto ou elaboração discursiva quaisquer capazes de proporcionar o que senti naquela mostra, onde a dor da guerra era abordada de modo direto sem ser meramente ilustrativa, e era, talvez até por isso, transformada em uma questão que importa a todos.

De certa forma, a arte mudou mesmo sua vida, afinal você era economista...

Dos Anjos - Sim, esse é um "statement" curatorial absolutamente sincero, porque é a minha própria história.

Um dos riscos que se pode cair ao se preocupar com "sensibilizar" é cair no espetáculo, não?

Dos Anjos - É evidente que existe um desafio em se fazer uma mostra cativante que, ao mesmo tempo, não apele ao consumo fácil de uma imagem, de uma ideia ou de uma forma. Costumo dizer que a Bienal tem o seu tempo próprio, que não é o do museu nem o da feira de arte. E o desafio é justamente trabalhar nesse intervalo, pois é aí que se pode afirmar a arte como algo sensoriamente envolvente e que tem, por isso mesmo, e não apesar disso, um papel relevante para desempenhar no mundo.

De que maneira isso será possível na 29ª Bienal?

Dos Anjos - Não há fórmulas, sendo necessário lançar mão de um conjunto de estratégias articuladas. E uma das principais diz respeito à forma de apresentação dos trabalhos no espaço. Queremos criar um ritmo expositivo envolvente e ritmado, que rompa a monotonia tão comum em grandes mostras e que faça o visitante se aproximar dos trabalhos. Crucial para isso será a criação de praças no meio da mostra, locais que servirão para descanso, reflexão e também para apresentação de performances ou palestras sobre as obras que estarão naquela vizinhança, permitindo uma relação diferenciada e diversificada com a arte ao longo do percurso.

No projeto da mostra, você sugere que a Bienal apresente 150 artistas. Quantos desses, você gostaria que fossem brasileiros? Por que a Bienal de São Paulo precisa ser uma vitrine para a arte brasileira se a Documenta de Kassel não faz essa pressão pela arte alemã?

Dos Anjos - Não há um número preestabelecido de artistas brasileiros na Bienal, embora a insipiência e a fragilidade dos mecanismos institucionais para absorção e circulação da produção artística existentes no Brasil --principalmente se comparados com os de um país como a Alemanha-- até possam justificar uma presença relativamente forte de artistas brasileiros na mostra. Desde, é evidente, que isto não signifique uma posição paternalista ou implique um rebaixamento dos padrões adotados para o conjunto da mostra. Mas o fato é que a história da Bienal de São Paulo é a de uma instituição cuja missão é a de se abrir ao mundo, ao diferente, e esta edição buscará honrar esse compromisso.

Como você define a "natureza irredutível da arte" explicitada no projeto?

Dos Anjos - Como aquilo que faz da arte uma fonte de conhecimento do mundo que não pode ser encontrado em outras esferas: Nem na ciência, nem na religião, nem no âmbito mais controlado da cultura. A arte é aquilo que sempre escapa às tentativas de redução a outros campos, sendo, em alguma medida, intraduzível. Paradoxalmente, é justamente por isso que ela importa tanto.

Independente dos nomes que estejam sendo cogitados e convidados para a Bienal, quais os artistas que, parafraseando o Mario Pedrosa citado em seu projeto, exerçam a experiência da liberdade?

Dos Anjos - São muitos, e não convém, evidentemente, citar muitos nomes a esta altura do desenvolvimento do projeto. Mas, menciono como exemplos de artistas visuais consagrados que ainda assim fazem da arte um "exercício experimental da liberdade", Artur Barrio e Jimmie Durham. Ou como fazem, no âmbito da música popular, Tom Zé ou Radiohead. Ou, no cinema, Chantal Akerman, Abbas Kiarostami ou Pedro Costa. Ou Jérôme Bel na dança.

Folha - A Bienal pretende reavaliar a história da arte brasileira após os anos 1960 e 1970. O que isso significa? Os anos 1980 não seriam os anos da pintura, como virou bordão?

Dos Anjos - O que se pretende é tão-somente sugerir, através da seleção de obras de artistas brasileiros que permearão toda a mostra, que essa visão de que tivemos uma arte política nos anos 1960 e 1970 e, a partir dos anos 1980, uma arte descompromissada com a realidade é equivocada. Arte política é aquela capaz de mudar o modo como experimentamos o mundo, não importando apenas se ela tematiza ou não conflitos, e muito menos qual o meio expressivo de que faz uso --pintura, texto, vídeo, instalação ou gravura.

Folha - Você pode dar alguns exemplos?

Dos Anjos - Há um trabalho, feito ainda nos anos 1930, que acho que pode ser tomado como um paradigma, na arte brasileira, da possibilidade de se pensar a relação entre arte e política de uma maneira mais ampla e relevante. É a Experiência Nº 2 de Flávio de Carvalho, aquela ação, ou proto-performance, em que ele caminha, de chapéu na cabeça, no sentido contrário da massa de fiéis que acompanha uma procissão, causando revolta e quase seu linchamento. Saltando direta e propositadamente para os anos 1980, poderia citar, entre vários outros exemplos possíveis, Rosângela Rennó ou Nuno Ramos, artistas que iniciam suas carreiras naquela década e cujas obras têm, assim como a Experiência Nº 2 de Flávio de Carvalho, essa capacidade de, mesmo quando não tematizam a política, nos fazer olhar o que está à nossa volta de um modo diferente; e se a arte faz isso, é evidente que ela faz política.

Folha - Nos anos 60 e 70, artistas e a arte tiverem uma resposta bastante clara ao contexto da época, criticando a ditadura e propondo novas formas de relação com a arte. O que a arte tem de importante para o contexto atual?

Dos Anjos - O mundo atual é marcado por um sem número de conflitos que nos atravessam a toda hora em intensidades e de maneiras distintas. E são muitos os artistas que, de diferentes maneiras, respondem a essa situação complexa, seja tentando compreendê-la ou intervindo nela diretamente. Respostas que são tanto mais relevantes quando vão além da ilustração desses conflitos ou da afirmação de princípios humanistas, por mais meritórios que estes sejam. O que torna a arte importante no contexto atual é justamente seu poder de abrir fissuras, através de seus próprios meios e valendo-se de uma língua que é só sua, nas convenções que ancoram nosso entendimento da realidade.

Fotógrafa Loretta Lux conta como a pintura influencia seus retratos

Mario Gioia da Folha de S.Paulo

Uma romântica em tempos digitais. Assim pode ser definida a artista alemã Loretta Lux, um dos principais nomes da fotografia em âmbito mundial e que é a principal estrela do Paraty em Foco.

Autorretrato da alemã Loretta Lux; fotógrafa é um dos destaques do Paraty em Foco

Espécie de "Flip da fotografia", o evento começa no dia 23 e se baseia em palestras e workshops de nomes de destaque da área. Neste ano, além de Lux, podem ser destacadas a presença da argentina Alessandra Sanguinetti e de coletivos de vários países, como o paulistano Garapa (mais informações podem ser encontradas no site www.paratyemfoco.com).

Em entrevista à Folha, Lux se aproxima mais da pintura para explicar a sua obra, incensada no circuito de artes internacional --ela ganhou em 2005 o Infinity Award for Art, um dos prêmios mais importantes na área, e suas imagens estão em museus como o Guggenheim, em Nova York, e o Reina Sofía, em Madri.

"Vejo-me como pintora que usa a câmera como ferramenta. Penso como pintora quando estruturo minhas composições, organizando formas e cores ao encenar a fotografia e trabalhar na tela do computador", conta ela.

"Meu processo de trabalho é muito mais próximo da pintura do que da fotografia, já que é bastante demorado e eu às vezes produzo apenas de três a cinco imagens por ano."

Os retratos hiperrealistas de crianças, marca principal de seus trabalhos, se relacionam ao ideário romântico que Lux carrega desde a sua formação. "Defino-os como retratos imaginários, porque não são de fato sobre as crianças que fotografei. Para mim, uma obra de arte precisa transcender o seu tema. As crianças em minhas imagens servem como metáfora para a inocência e o paraíso perdido da infância", diz ela.

Mas anuncia uma mudança de foco. "Minha série sobre crianças acabou. Logo começarei a explorar outros temas."

Lux nasceu em Dresden, na antiga Alemanha Oriental, e se graduou em artes em Munique. Desde pequena, era fascinada pelos mestres da pintura.

"Meu avô costumava emoldurar reproduções de retratos históricos de crianças para me dar como presente de aniversário. Lembro de ter em meu quarto reproduções da "Infanta Maria" e do "Príncipe Baltasar", de Velázquez, bem como outras imagens de infantes por Bronzino, Reynold, Gainsbourough e Goya."

Quando estudava artes, foi decisivamente influenciada por pintores do romantismo alemão, como Caspar David Friedrich e Philipp Runge.

"Tenho grande interesse pelos românticos. Eles se sentiam desiludidos diante da sociedade materialista e do início da industrialização. Rejeitavam o iluminismo e em lugar dele enfatizavam a intuição e o sentimento, exaltando a natureza."

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ministro da Cultura lança projeto na Bienal

fonte: O Estado de S. Paulo

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, esteve ontem à noite na Fundação Bienal de São Paulo para apresentar o Programa Brasil Arte Contemporânea, do qual a entidade, a Bienal do Mercosul de Porto Alegre e Funarte serão destaques como integrantes de seu comitê. Ferreira aproveitou para expressar o apoio do governo federal à nova diretoria executiva da instituição, presidida por Heitor Martins. "A Bienal de São Paulo é o grande evento globalizado da arte no Brasil", afirmou.

Depois do anúncio, Ferreira participou do jantar que a instituição realizou, no Ibirapuera, para arrecadar fundos. O Programa Brasil Arte Contemporânea foi publicado anteontem no Diário Oficial da União e já conta neste ano com orçamento de R$ 1,2 milhão. É destinado ao fortalecimento das artes plásticas e visuais brasileiras no mercado internacional e visa estimular as exportações setoriais e a divulgação das obras de artes nacionais.

"As dificuldades que a nova diretoria passou com o Ministério Público (do Estado de São Paulo) são fruto da herança da administração passada (de Manoel Pires da Costa). Ajudamos a produzir confiança no MP para a realização desse evento estratégico. Vamos apoiar diretamente a restauração do prédio da Bienal", afirmou o ministro.

A reforma do pavilhão começará neste ano. Segundo o Ministério da Cultura (MinC), já serão disponibilizados neste ano R$ 4 milhões. O aporte a partir de 2010 contará também com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Martins explicou que as primeiras providências serão tratar de colocar hidrantes e saídas de emergência. A parte mais cara (de cerca de R$ 10 milhões) será a climatização total do edifício, com 30 mil m² (apenas 10% da área é climatizada). "É uma exigência de museus de todo o mundo, essa é uma limitação que restringe nosso acesso a obras e à curadoria", afirmou Martins. Segundo ele, a 29ª Bienal será inaugurada em 21 de setembro de 2010. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

7ª Bienal anuncia artistas escolhidos para a mostra Projetáveis


Concurso internacional mobilizou mais de 800 artistas em 45 países

A 7ª Bienal do Mercosul anuncia os artistas selecionados para participar da mostra Projetáveis, uma das sete exposições desta edição, que acontece em Porto Alegre/Brasil, de 16 de outubro a 29 de novembro deste ano. A exposição, que será apresentada no Santander Cultural, vai mostrar 19 obras de 25 artistas, que estarão também na web através do site www.bienalmercosul.art.br. Outros 13 artistas terão seus trabalhos exibidos no site. Confira abaixo a lista completa.
Concebida pelo curador adjunto e artista argentino Roberto Jacoby, esta exposição sugere a arte como espaço para a projeção de ideias, de planificação, de comunicação, da imaginação. A curadoria convidou artistas de todo o mundo a apresentarem projetos “projetáveis” em seus vários sentidos: o projetável como o imaginado, aquilo que cria novos públicos ou aquilo que representa um território, como na cartografia. A convocatória, aberta a artistas de todo o mundo, foi realizada entre os meses de maio e agosto e recebeu cerca de 800 projetáveis. Artistas de quase 50 países, como Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Brasil, Bélgica, Bósnia Herzegovina, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Croácia, Cuba, Dinamarca, Emirados Árabes, Equador, Eslovênia, Espanha, Estados Federados da Micronésia, EUA, França, Grécia, Holanda, Hungria, Índia, Irã, Iraque, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Lituânia, Malta, México, Paquistão, Porto Rico, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Romênia, Rússia, Sérvia, Suécia, Tailândia, Ucrânia, Uruguai e Venezuela, inscreveram seus projetos.
Para Jacoby, esse formato de exibição implicou em uma grande aposta: “foi com muita ansiedade que esperamos os projetos e, felizmente, a resposta foi numerosa e diversa”. “O critério de seleção teve que ser suficientemente amplo para incluir estratégias artísticas muito diferentes entre si: desde trabalhos mais ligados à internet, até os que somente a utilizam como veículo de distribuição. Desde vídeos até obras com luzes e sons, performances, animações, colagens feitas com desenhos digitais, filmes com alta qualidade de produção, investigações urbanas e ações de amplo alcance comunitário”, explica Jacoby, afirmando que, em todos os casos, priorizou-se a consistência entre o aspecto conceitual, a forma de realização e a proposta de exibição.

Projetáveis – artistas participantes

Exposição + site

• Alejandra Prieto e Nicolás Rupcich - Chile
• Antoni Abad - Espanha
• Cinthia Marcelle - Brasil
• Colaboratório / Renata Marquez e Wellington Cançado - Brasil
• Fabiana de Barros - Brasil/Suíça
• Fernando da Silva Pião - Brasil
• Fernando Velázquez - Uruguai
• Furallefalle / Iñaki Lopez Ordoñez e Vanessa Castro - Espanha
• Grupo CDM - Centro de Desintoxicação Midiática / Ricardo Perufo Mello, Eduardo Montagna da Silveira e Leonardo de Jesus Furtado - Brasil
• Gustavo Marrone - Argentina
• Karina Peisajovich - Argentina
• Martin Kohout - República Tcheca
• Oto Hudec - Eslováquia
• Paul Matosic - Reino Unido
• Ran Huang - China
• Sara Wolfert e Mathias Tervo - Suécia
• Shirin Sabahi - Irã
• Terence Gower - Canadá
• Tina Willgren - Suécia

Artistas selecionados para o site

• Andrei Rubina Thomaz - Brasil
• Chico Zelesnikar - Brasil
• Christian de Lutz - EUA
• Hiwa K (Munir Al Azawi) - Iraque
• Jorn Ebner - Alemanha
• José Alfredo Jiménez Ortiz - México
• Lázaro Saavedra (artista convidado) - Cuba
• Maria Linares - Colômbia
• Marina Camargo - Brasil
• Olga Mink - Holanda
• Patrick Fontana, Fave e Aelters - França

10ª BIENAL DE LYON - 2009

A 10ª Bienal de Lyon que ocorre entre 16 de Setembro e 3 de Janeiro, sob o título “O espectáculo do quotidiano”. Com curadoria de Hou Hanru, o projeto artístico desta bienal visa problematizar a sociedade do espectáculo, condição fundamental da existência contemporânea, e reafirmar, na esteira de Michel de Certeau, as possibilidades concretas de contornar a ordem estabelecida tendo por base a criatividade subjacente às práticas do quotidiano.

Cerca de 60 artistas provenientes de diferentes partes do mundo estarão reunidos em torno dos cinco projetos especiais, “A magia das coisas ou a reinvenção do quotidiano”; “Elogio da deriva”; “Um outro mundo é possível”; “Vivamos em conjunto”; e “Veduta”, que se caracterizam por uma estrutura multidimensional cujo objetivo é refletir, conceitualmente e fisicamente, o dinamismo e a complexidade do tema geral proposto.

Lista dos artistas participantes:

• Adel Abdessemed
• Bani Abidi • Maria Thereza Alves
• Fikret Atay
• Bik Van Der Pol
• Pedro Cabrita Reis
• Sophie Dejode & Bertrand Lacombe
• Jimmie Durham
• Latifa Echakhch
• Mounir Fatmi
• Dora Garcia
• Shilpa Gupta
• Ha Za Vu Zu
• HeHe
• Oliver Herring
• Tajahiro Iwasaki
• Kuswidananto A.K.A. Jompet
• Leopold Kessler
• Ian Kiaer
• Lee Mingwey
• Mark Lewis
• Michael Lin
• Lin Yilin
• Liu Qingyuan & YAH
• Barry McGee
• Robert Milin
• Carlos Motta
• Wangechi Mutu
• Eko Nugroho
• Adrain Paci
• Dan Perjovschi
• Société Réaliste
• Olivier Ressler
• Pedro Reyes
• Rigo 23
• Sarkis
• Katerina Seda
• Sarah Sze
• Tsang Kinwah
• Un Nous
• Eulália Valldoserra
• Agnès Varda
• Wong Hoy Cheong
• Huang Yongping
• Xijing Men
• Yang Jiechang
• Yangjiang Group
• L’École du Magasin

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Allan McCollum: Americano desafia os originais



Allan McCollum faz individual com pastiche da reprodução em massa: vasos, formas e quadros idênticos

Artista conceitual que esteve na última Bienal de São Paulo ganha primeira mostra de peso no Brasil, aberta pela galeria Luciana Brito

Silas Martí da Folha de S. Paulo

Allan McCollum não acredita em auras atrofiadas. Não importa que as obras de arte não sejam mais únicas. Seu trabalho é feito de cópias, substitutos e originais questionáveis.
Desde que é possível produzir quase tudo em grande escala, o mercado de arte se equilibra tentando restringir circulações, edições de gravuras e impressões fotográficas, mantendo a escassez como motor da demanda e âncora dos preços.
Na contramão, McCollum, ou seu discurso, dispensa objetos únicos. "A reprodução cria outro tipo de aura, uma aura que inclui o espectador", diz o americano, que abre hoje individual na galeria Luciana Brito.


"Vejo certa magia em alguém com os mesmos sapatos que o meu, a xícara de café, a mesma coisa nas mãos de tanta gente."
Num pastiche da reprodução em massa, McCollum dispõe 50 vasos idênticos lado a lado, 70 pinturas de um retângulo negro, milhares de moldes de madeira quase iguais, 12 dos mesmos cachorros de gesso.
São cópias feitas a partir do molde de um cão original petrificado pela erupção do Vesúvio há quase dois milênios. Um museu de Nápoles replicou o bicho que morreu e fez outras três cópias, espalhadas pela Itália. McCollum usou uma delas para reproduzir sua série.

"Tem o cachorro que viveu em Pompeia, o primeiro molde do século 19, as cópias do museu e agora essa cópia e as cópias dela", lembra. "Mas estão ligadas ao cachorro original e ao sofrimento original dele."
McCollum gosta de lembrar Brecht e como o dramaturgo alemão usava artifícios para revelar que a peça era a peça, que aqueles eram atores, que a plateia era a plateia. Ele tenta fazer o mesmo em suas instalações.
"Isso é o duplo de uma galeria de arte, como num palco, no centro da ação", diz McCollum.
"Antes, fazia objetos singulares, mas não viam esses objetos como acessórios cênicos."
De certa forma, toda a obra de McCollum vira objeto cênico também, um sinal dela mesma, vista como a obra ao fundo, no cenário, dentro da teatralidade orquestrada pelo artista, como se essa fosse uma performance. Ele propõe a exposição toda como grande instalação, uma curadoria autofágica levada às últimas consequências.
Mas não é um trajeto sem escalas. Lá onde era possível programar uma máquina para executar todas as cópias, McCollum decide dar as próprias pinceladas, muda as cores e reajusta dimensões milimétricas. Tudo parece igual, mas não é.
"Estou buscando o melhor dos dois mundos", admite o artista. "Decidir se algo é original ou cópia é ambíguo, uma construção social, a ideia de que o rei é o filho de Deus e de que todos os peões são idênticos."
Suas quase cópias são vendidas a preço de original, mas sempre em série. "Cobro mais se são mais objetos e menos se são menos objetos", explica.
"Tem preços diferentes, porque algumas pessoas querem pagar mais pelos originais."

SERVIÇO

ALLAN MCCOLLUM
Quando: ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h
Onde: Luciana Brito (r. Gomes de Carvalho, 842, tel. 3842-0634)
Quanto: entrada franca

11ª BIENAL DE ISTAMBUL

A 11ª Bienal de Istambul será inaugura em 12 de Setembro e decorrerá até 8 de Novembro de 2009. Será comissariada pelo coletivo What, How and for Whom/WHW, organização formada em 1999 por um grupo de curadores, com sede em Zagreb. “What Keeps Mankind Alive?” é a proposta curatorial deste coletivo que se apropria do título de uma canção escrita em 1928 por Bertolt Brecht, para a peça “A Ópera dos Três Vinténs”, com o objetivo de olhar o presente à luz do passado e investigar as possibilidades de a arte reexaminar velhas e novas relações entre o compromisso político e o gesto artístico.

Lista de artistas participantes:

• Jumana Emil Abboud
• Vyacheslav Akhunov
• Mounira Al Solh
• Nevin Aladağ
• Doa Aly
• Karen Andreassian
• Yüksel Arslan
• Zanny Begg
• Lida Blinova
• Anna Boghiguian
• KP Brehmer
• Bureau d\'études
• Cengiz Çekil
• Danica Dakić
• Lado Darakhvelidze
• decolonizing.ps by Sandi Hilal, Alessandro Petti, Eyal Weizman
• Natalya Dyu
• Rena Effendi
• Işıl Eğrikavuk
• Etcétera...
• Hans-Peter Feldmann
• Shahab Fotouhi
• İnci Furni
• Igor Grubić
• Nilbar Güreş
• Margaret Harrison
• Sharon Hayes
• Vlatka Horvat
• Wafa Hourani
• Hamlet Hovsepian
• Sanja Iveković
• Donghwan Jo & Haejun Jo
• Jesse Jones
• Alimjan Jorobaev
• Michel Journiac
• KwieKulik [presented by Zofia Kulik]
• Siniša Labrović
• Signs of Conflict: Political Posters of Lebanon\'s Civil War [a project by Zeina Maasri]
• David Maljković
• Marwan
• Avi Mograbi
• Rabih Mroué
• Aydan Murtezaoğlu & Bülent Şangar
• Museum of American Art-Belgrade
• Marina Naprushkina
• Deimantas Narkevičius
• Ioana Nemes
• Wendelien van Oldenborgh
• Mohammad Oussama
• Erkan Özgen
• Trevor Paglen
• Nam June Paik
• Marko Peljhan
• Darinka Pop-Mitić
• Lisi Raskin
• María Ruido
• Larissa Sansour
• Hrair Sarkissian
• Ruti Sela & Maayan Amir
• Canan Şenol
• Société Réaliste
• Mladen Stilinović
• Tamás St.Auby
• Jinoos Taghizadeh
• Oraib Toukan
• Vangelis Vlahos
• Simon Wachsmuth
• Artur Żmijewski
• What is to be done / Chto delat?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Doug Aitken em Inhotin


Norte-americano premiado na Bienal de Veneza faz primeira obra no Brasil

Silas Marti da Folha de S.Paulo

Uma fratura exposta na terra abriu outra fenda em Doug Aitken. Quando o artista viu a mina aberta do outro lado da montanha em Brumadinho, decidiu que nenhuma imagem expressaria a mesma sensação, a não ser a própria paisagem de terra vermelha, mata verde e montanhas azul profundo.

Obra do artista Doug Aitken, na foto, transmite ao vivo, de um buraco de 200 m de profundidade, os ruídos subterrâneos de uma montanha

Em Inhotim, Aitken desistiu de fabricar imagens e buscou só a trilha sonora para o "efeito alucinógeno" de toda a terra. Cavou um buraco de 200 metros no alto de uma montanha e instalou oito microfones ao longo do trajeto. O som, do gotejar de lençóis freáticos ao estrepitar de rochas desconhecidas, reverbera numa construção de vidro em volta do rasgo.

Esse pavilhão, primeira obra do americano no país, será aberto em setembro, com mais oito trabalhos no museu mineiro de arte contemporânea.

Aitken já mostrou o sono de algumas celebridades na fachada do Museu de Arte Moderna de Nova York. Eram curtas projetados no prédio em Manhattan: Cat Power e Seu Jorge percorriam sonâmbulos cenários escancarados à metrópole.

Anônimos também deram vida a paragens elétricas e desertos e minas surgem auscultados, fundidos, refeitos nas investigações visuais de Aitken.

Agora é só o som e a paisagem que já existe. "Aqui é menos ficção e mais a qualidade física, tátil da paisagem", descreve Aitken. "É imaterial, esse volume deslocado de terra se transforma em volume literal de som."

O pavilhão em círculo de Inhotim dá vista panorâmica aos vales e montanhas que se alastram infinitos lá fora. Mas surgem nítidos só quando encarados de frente, já que um filtro nos vidros torna difusa a imagem quando vista a partir de qualquer outro ângulo.

"Queria focar a percepção do espectador, não de um jeito dominante, mas oferecer uma vista de cada vez", diz o artista. "Isso dá forma arquitetônica ao som: o buraco no meio cria perspectiva, um vórtice ótico."

Percepção expandida

É o ponto central que concentra o olhar num vazio cheio de som. "Isso leva a outro lugar", resume Aitken. "É uma janela para um mundo perceptivo, não de ícones, mitologias, mas uma janela para uma forma de percepção expandida."

Não foge do que os renascentistas propunham pintando janelas nos afrescos: abrir fendas para outros mundos, religiosos, imaginários, alegóricos. Mas ao contrário de Michelangelo, Aitken nunca termina sua obra.

Captados ao vivo, os roncos subterrâneos chegam à superfície sem partitura. Não seguem roteiro prévio, nem têm hora para se repetir. Aitken só tem certeza da gama de frequências capaz de atingir o ouvido humano, sabe que notas agudas demais ficam de fora desse canto terrestre.

Na transmissão direta, que amortece sobressaltos com a âncora dos graves, também ficam de fora os contornos. Aitken abre mão do acabamento, deixa em aberto a duração -uma sinfonia rochosa eterna enquanto durar o museu.

"São notas imprevisíveis", diz o artista. "Penso na possibilidade de o som não se limitar à duração da música do disco, de não ser música, ser só o som descontrolado, ao vivo."

Numa ópera coletiva, na Basileia, Aitken encenou uma revolta de lanterninhas e seguranças. Incitaram a plateia com gritos, numa espécie de leilão fictício, e um blecaute programado, mas a euforia tinha hora para acabar. "Era só som, não tinha nada à venda, mas era como se acelerasse o rap mais rápido de todos", lembra. "Era um som de dimensões físicas."

Em Brumadinho, Aitken dissolveu as barreiras do espetáculo e encontrou as medidas de sua obra aberta. Está na silhueta negra das montanhas, no azul escuro do céu e nos ruídos soturnos da terra. "É atraente a ideia do trabalho que não termina nunca, que não entra em loop", diz. "Essa ideia do artista no estúdio, finalizando seu trabalho, é talvez algo do passado."

7ª BIENAL DO MERCOSUL


É internacional, mas os latinos são a prioridade


Camila Molina

Desde seu início, em 1997, a Bienal do Mercosul, sempre em Porto Alegre, nasceu tendo como objetivo ser uma vitrine da arte latino-americana. "Ela é cada vez mais internacional, quer ser ainda melhor, mas quem quiser ver arte latino-americana, vai ver aqui", diz Mauro Knijnik, pres didente da Fundação Bienalo Mercosul. A última edição do evento, em 2007, com curadoria do espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, foi um marco no caráter de internacionalização da mostra, com uma expansão de participação de artistas de outras partes do mundo, inclusive, estrelas como o sul-africano William Kentridge Kentridge e o inglês Steve McQueen.

A Bienal de Porto Alegre, apesar de estar se tornando cada vez mais global, conserva o Mercosul em seu nome. "Porque os parceiros mais destacados e a maioria das obras são dos países do Mercosul", diz Knijnik. Segundo o presidente, entretanto, os recursos para a realização da Bienal foram sempre brasileiros, por meio da Lei Rouanet e da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul - a deste ano, orçada em R$ 7,5 milhões, já captados.

Em suas primeiras cinco edições, a Bienal do Mercosul se prendia até mesmo a ter curadores convidados dos países vizinhos para reforçar a parceria. "A 6ª contratou um europeu e para a 7ª fizemos uma seleção internacional", diz Knijnik - e então foi selecionado o projeto argentino-chileno de Victoria Noorthorn e Camilo Yáñez. "Para nossa surpresa, países que não poderíamos imaginar, distanciados de nós, mandaram propostas, como Escócia ou Irlanda", afirma ainda o presidente da Fundação Bienal do Mercosul. "É uma proposta inovadora, internacional." Liliana Magalhães, do Santander Cultural, diz que no sul "somos Mercosul". "Não precisamos formalizar porque somos irmãos aqui embaixo", afirma ela, completando que sobressaem parcerias com Argentina e Uruguai.

Bienal do Mercosul anuncia ''aperitivo''


A grande mostra começa em outubro, mas em setembro tem início a prévia

Camila Molina do Estadão


A Bienal do Mercosul vem se consolidando a cada edição como um dos mais importantes eventos de artes visuais brasileiros, dentro e fora do País, em âmbito global. Neste ano, a 7ª Bienal do Mercosul começa no dia 15 de setembro, com uma programação prévia, e segue até 4 de outubro, no Santander Cultural de Porto Alegre. É já um esquenta motores para a grande mostra, marcada para ocorrer entre 16 de outubro e 29 de novembro em três espaços da capital gaúcha - sete exposições ficarão abrigadas nos Armazéns do Cais do Porto, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul e ainda no Santander. Sob título provisório de Pré-Bienal - Índices e Anotações, o evento prévio será de dias intensos de exibições de filmes, realização de palestras - com curadores e artistas -, shows e oficinas pedagógicas que apresentam as referências do que será apresentado na grande exposição propriamente dita, sob o tema Grito e Escuta.

"É uma pré-visão da 7ª Bienal do Mercosul para que já se conheçam as inquietudes que moveram o evento e não suas obras", diz o artista chileno Camilo Yáñez, que divide a curadoria-geral desta edição com a argentina Victoria Noorthoorn. O Estado obteve com exclusividade a programação da Pré-Bienal, que terá, por exemplo, shows de Arnaldo Antunes e Márcia Xavier e do francês François Virot no hall do Santander; exibição do clássico O Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel ; dos documentários Power of Ten (1968), do casal de arquitetos Charles e Ray Eames, de Cildo (2009), de Gustavo Moura, sobre o artista Cildo Meireles (com bate-papo depois com os dois criadores) e de Mas Allá de Estos Muros, de Juan Ignacio Sabatini, sobre Juan Downey, participante da 7ª Bienal; dos filmes Ouvindo Imagens, de Michel Favre, Insolação, de Daniela Thomas, e Versus Inversus, de Anna Maria Maiolino; palestra da curadora Victoria Noorthoorn com o ator Luiz Paulo Vasconcellos (aproveitando o Porto Alegre em Cena de Teatro). "Esta é uma Bienal dinâmica, rizomática, não tem uma estrutura clássica. Artes visuais é ponto de partida e não de chegada e, por isso, ela terá muita performance, coreografia, a Rádiovisual, shows", vai ainda explicando Yáñez.

O projeto de Grito e Escuta foi selecionado a partir de um edital que recebeu 69 propostas de curadores de todo o mundo, como diz o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, Mauro Knijnik. A 7ª edição do evento, concebida por Victoria e Yáñez, mas tendo como curadores ainda os argentinos Marina De Caro e Roberto Jacoby, os brasileiros Artur Lescher, Laura Lima e Lenora de Barros, o chileno Mario Navarro, o mexicano Erick Beltrán e o colombiano Bernardo Ortiz (todos artistas), centra-se na questão dos processos artísticos e não na concentração de obras já prontas. Por isso, muitos dos trabalhos são resultado da experiência dos artistas na cidade de Porto Alegre, por meio de residências que começaram em julho (entre eles, do francês Nicholas Floch, que passou cinco semanas na comunidade do Morro da Cruz, e dos brasileiros João Modé e Cadu Costa). "Eles criaram trabalhos mais diretos com o ritmo da cidade, que não serão esculturas públicas", afirma Yáñez - a edição retrasada da Bienal, por exemplo, deixou para Porto Alegre esculturas permanentes de José Resende e Carmela Gross, entre outras.

Como a Pré-Bienal é um evento para preparar os visitantes sobre os temas de cada uma das sete mostras desta edição (Absurdo, Ficções do Invisível, Biografias Coletivas, Texto Público, Árvore Magnética, Projetáveis e Desenho das Ideias), muitos dos trabalhos que integram sua programação (quase toda gratuita, exceto os shows dos domingos, a R$ 10) foram escolhidos pelos próprios artistas participantes. Ela foi uma proposta do próprio Santander Cultural, que a acolhe, como diz a superintende da instituição, Liliana Magalhães. "Como o trabalho criativo é o tema desta Bienal do Mercosul, o preparar de um evento como este é um momento riquíssimo", diz Liliana, reforçando também o caráter pedagógico da atividade. Todo o espaço do Santander (Rua Sete de Setembro, 1.028, Centro) será dedicado à Pré-Bienal, inclusive a grade de exibições do Cine Santander (com entradas de R$ 3 a R$ 6).

Com a crise econômica mundial, a 7ª Bienal do Mercosul teve sua duração reduzida para 45 dias. O evento prévio, que de certa forma estende esta edição, é uma oportunidade para conhecer filmes históricos da Fundação John Cage e obras do coletivo chileno de videoarte Hoffmanns House.


Destaques

15 DE SETEMBRO: Exibição do documentário Power of Ten, dos arquitetos Charles e Ray Eames, e palestra com os curadores gerais da 7ª Bienal do Mercosul, Victoria Noorthorn e Camilo Yáñez

17 DE SETEMBRO: Exibição de vídeos do coletivo chileno Hoffmans House e palestra com os artistas Carlos Cabezas e Pablo Rivera, participantes da mostra

20 DE SETEMBRO: Espetáculo multimídia com Arnaldo Antunes e Márcia Xavier como parte do programa Domingo no Átrio (17 horas, R$ 10)

27 DE SETEMBRO: Exibição do clássico desenho Fantasia, da Disney, e show de rock alternativo do francês François Virot (17 horas, R$ 10)

30 DE SETEMBRO: Exibição de O Cão Andaluz, de Buñuel, e palestra com a artista Laura Lima e integrantes do grupo de teatro Falus & Stercus

2 DE OUTUBRO: Projeção de filmes da Fundação John Cage

3 DE OUTUBRO: Exibição de Cildo (15 h e 17 h) e conversa com Cildo Meireles e Gustavo Moura

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Prêmio Porto Seguro de fotografia anuncia vencedores

Considerada a mais importante premiação da categoria, o Prêmio Porto Seguro Fotografia 2009 anunciou os vencedores nesta terça-feira (25).

Trabalho do fotógrafo Miguel Rio Branco, vencedor da categoria especial do prêmio

Além do prêmio especial no valor de R$ 40 mil, que foi para o fotógrafo Miguel Rio Branco, os fotógrafos Felipe Bertarelli, Andréa Bernardelli e Sofia Dellatorre Borges também foram premiados. Cada um deles receberá a quantia de R$ 18 mil.

A categoria revelação, que premia o vencedor com R$ 10 mil, foi para Breno Rotatori. A entrega dos prêmios será no dia 6 de outubro, no Espaço Porto Seguro de Fotografia, e a exposição com os trabalhos dos vencedores estará aberta ao público a partir do dia 7 do mesmo mês.

A comissão que avaliou os trabalhos foi formada por Cildo Oliveira, Mariano Klautau, Maria Hirszman, Tadeu Chiarelli, German Lorca.

Filme traça painel crítico e utópico sobre mulheres no Irã




por Silas Marti
da Folha de S.Paulo


É árido o terreno de Shirin Neshat. Mulher, artista, iraniana, ela equilibra gênero, origem e profissão num vácuo.

Acostumada a gritar para ninguém ouvir, Neshat acaba de trocar as artes visuais pelo cinema, algo que compara a trocar a poesia pela prosa. "Sou muito lenta, hipnótica", resume em entrevista à Folha. "Mas sei que se continuar assim, vou perder meu público."

Há dez anos, Neshat venceu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza por sua obra artística. Ela volta à cidade agora para competir por outro Leão, desta vez no Festival de Cinema, que começa no mês que vem.

Mas não são tão distintos os projetos. Na esteira do estardalhaço causado pela também iraniana Marjane Satrapi e seu cartum-manifesto "Persépolis", Neshat deve ganhar projeção mundial com "Women Without Men", ou mulheres sem homens, filme que junta as mesmas personagens que povoam suas videoinstalações.

São cinco mulheres: a submissa, a solitária, a devassa, a revolucionária e a artista. Migraram do romance da iraniana Shahrnush Parsipur, escrito há 20 anos, para as instalações de Neshat --e agora vão ao cinema, num painel crítico e utópico da condição feminina no Irã.

Neshat tem um pouco de cada uma delas. Diz ser complexada com o próprio corpo, que vê como um problema no país. Também se espelha na revolucionária e acredita, como a artista, que a válvula de escape numa sociedade repressora é mesmo a fantasia, utopias forjadas a qualquer custo.

"Essa é a forma mais universal de traduzir certas opiniões", diz Neshat. "Artistas podem ser grandes comunicadores da tragédia humana sem pregar ideologia ou propaganda."

No filme, Teerã vive o golpe de Estado que derrubou o premiê Mohammed Mossadegh em 1953, e as mulheres de Neshat se refugiam num jardim encantado --a violência diluída em tintas fantásticas.

Não que a mulher precise de uma redoma para viver, mesmo no Irã. "Não sou uma feminista de verdade", diz Neshat. "A ideia de utopia transcende gênero e nacionalidade."

Neshat planta as flores de seu jardim acreditando numa "necessidade de refúgio, exílio" universal. "Homens e mulheres fogem em busca de segurança, numa questão existencial", diz. "É possível abandonar esse mundo para encarar a própria condição humana."

Embora estenda a questão para abarcar também os homens, Neshat fez toda a sua obra girar em torno de ser mulher. São opostos absolutos que dão carga aos trabalhos. Numa videoinstalação dos anos 90, pôs lado a lado um homem e uma mulher. Ele canta para um teatro lotado; ela grita, chora, urra diante da plateia vazia.

Se a raiz imediata da obra é a proibição que mulheres cantem em público no Irã, Neshat extrai algo maior do contexto. Questiona o que deve criar uma artista mulher diante de um público ausente, como pode soar uma canção no vácuo.

"Não sou uma mulher obcecada por mulheres, só entendo a cabeça delas e tento revelar por elas a complexidade da sociedade, da religião", diz. "Mulheres no Irã são fascinantes, pela forma que confrontam a autoridade, a censura, mas não reduzo meu trabalho a isso."

Melancolia nostálgica

Mais do que isso, Neshat carrega nas imagens e metáforas para narrar seus dramas femininos. "É muito visual, ponho muita ênfase no poder das imagens", diz a artista. "Faço algo minimalista e metafórico."

Nessa proposta, Neshat não olha para nomes do cinema iraniano. Descarta Abbas Kiarostami, diretor mais conhecido de seu país, como "convencional", mesmo com seu ritmo arrastado e longuíssimos planos estáticos. Ela diz buscar a melancolia nostálgica de cineastas do Leste Europeu: Andrei Tarkovsky e Krzysztof Kieslowski.

"Kieslowski é poderosíssimo do ponto de vista moral, visual nem tanto", diz, sobre o polonês. "Tarkovsky tem um visual profundo. É muito sombrio, talvez porque venha de um país comunista", diz, sobre o russo.

Ela também não se desliga da política. Sabe que fez um dos poucos filmes que discute de forma aberta o apoio de britânicos e norte-americanos ao golpe de Estado que instaurou um regime totalitário no Irã, o que chama de momento "monumental" na história do país.

Não difere muito dos episódios de dois meses atrás, quando o presidente ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito, desencadeando ondas de protestos violentos.

"Há uma ressonância incrível entre as imagens de 1953 e as de hoje", diz ela. "As pessoas saíram às ruas então pedindo o mesmo que querem agora. É um sentimento de traição."

Obra histórica de Flavio de Carvalho está à venda em SP



Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

O traje "New Look de Verão", uma das mais importantes peças da arte brasileira do século 20, usado por Flavio de Carvalho em sua "Experiência nº 3", em 1956, está à venda, a partir de hoje. É o carro-chefe da mostra "Sob um Céu Tropical", na galeria James Lisboa Escritório de Arte.

"New Look de Verão", traje usado em 1956 por Flavio de Carvalho que está à venda

Carvalho (1899-1973) é não só um dos artistas mais experimentais no Brasil, como um dos precursores do happening e da performance na história da arte. Em 1931, ao caminhar de chapéu em sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi, ele quase foi linchado. A polêmica foi registrada pelo próprio artista no livro "Experiência nº 2".

Contudo, Carvalho ainda é subavaliado pelo mercado de arte, tanto que o marchand James Lisboa estima que o "New Look" seja vendido por R$ 500 mil cada um, enquanto a tela "Mulata com Ramalhete de Flores" (1936), de Di Cavalcanti, na mesma exposição, está estimada em R$ 2 milhões. Cavalcanti (1897-1976) produziu mais de 25 mil trabalhos em vida, e a obra na mostra está longe de ter a importância histórica do "New Look". Os dois trajes na exposição pertenciam a sobrinhos do artista.

"Ele é o primeiro artista que trabalhou moda e arte", diz o pesquisador Flavio Roberto Lotufo, cujo tema de mestrado foi a "Experiência nº 3". Segundo Lotufo, em 18/10/1956, Carvalho andou pela cidade com dois conjuntos de saia e blusa: um de cor vermelha (que pertenceria à Faap, segundo o pesquisador) e o outro, que está na mostra.

A terceira blusa foi usada em outras ocasiões. De acordo com Lotufo, ele usou o conjunto várias vezes. As saias se perderam --na mostra há uma que serve como modelo da original. A Faap não confirmou para a Folha se possui um traje original.

Carvalho passará a ter destaque internacional no ano que vem, quando Lisette Lagnado organiza uma mostra, no museu Reina Sofía, em Madri, tendo o artista como figura central. "A apresentação das roupas está menos voltada para suas características, mas para a faceta de arquiteto e urbanista que foi o Flavio. Para ele, a cidade do século 20 passava necessariamente por uma mudança de comportamentos, livre de tabus", afirma a curadora.

SERVIÇO

SOB UM CÉU TROPICAL
Quando: abertura hoje, às 19h30; de seg. a sex., das 10h às 19h, e sáb., das 10h às 14h; até 26/9
Onde: James Lisboa Escritório de Arte (r. Dr. Melo Alves, 397, SP, tel. 0/xx/11/3061-3155); livre
Quanto: entrada franca

sábado, 22 de agosto de 2009

Cores de Matisse chegam à Luz


O pintor que iluminou a cena moderna ganha mostra na Pinacoteca que sintetiza seu percurso


por Antonio Gonçalves Filho do Estadão


O poder transcendental da pintura do francês Henri Matisse (1869-1954), que atravessou o século 20 como principal rival de Picasso, é inquestionável. Tanto que Émilie Ovaere, curadora adjunta do museu que leva seu nome na França, ao organizar a exposição Matisse Hoje na Pinacoteca do Estado, aberta a partir de 5 de setembro, reuniu, além de 80 obras suas, trabalhos de pintores contemporâneos franceses que ainda fazem uso de suas técnicas e invenções. Como eles, Matisse buscava, acima de tudo, a expressão. Injustamente, diziam dele que tudo o que procurava não ia além de uma satisfação puramente visual. Acusavam-no, enfim, de ser decorativo. Ele, parafraseando Delacroix, respondia que os artistas não são compreendidos, apenas aceitos. E defendia o decorativo como uma qualidade essencial de uma obra de arte. Concordam com ele seus cinco discípulos contemporâneos que dialogam com Matisse na exposição.

Natureza Morta com Magnólia (1941)

Assim, a mostra da Pinacoteca traz pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e papéis recortados "comentados" visualmente pelos artistas Cécile Bart, Christophe Cuzin, Frédérique Lucien, Pierre Mabille e Phillipe Richard, cinco representantes da arte contemporânea francesa que não fazem feio ao lado do deus da cor, um homem que atravessou duas guerras mundiais sem permitir, como disse o crítico italiano Giulio Carlo Argan (1909-1992), que a dor do mundo entrasse em sua pintura. A arte, defendia Argan, "conserva e restitui aos homens a alegria de viver que a tragédia destrói". Por isso, Matisse é, conforme a visão do crítico, um dos pilares da ponte artística que uniu a França ao resto do mundo (oriental, inclusive).

A mostra, diz a curadora Emilie, faz um percurso retrospectivo da pintura "incorruptível" de Matisse - e não só dela. Ele vem acompanhado de obras contemporâneas que exploram os temas básicos de sua arte: a cor, a linha, o arabesco e o espaço, que, segundo o pintor, não tinham autonomia para desprezar as relações entre esses elementos constituintes da boa pintura. E há inúmeros exemplos dela na exposição, desde uma paisagem feita no final do século 19 em Belle-île-en-Mer, uma ilha na costa atlântica da Bretanha, até os papéis recortados da fase terminal, época em que Matisse se concentra nos vitrais e ornamentos litúrgicos da Capela de Vence e sua caligrafia abre falência por conta de um derrame cerebral que o levou à morte em 1954.

Felizmente, essa "indesejada das gentes" não marca presença na mostra - alegre, colorida, sensual -, que tem pinturas icônicas como Torso Grego e Vaso de Flores (1919) e Natureza Morta com Magnólia (1941), esculturas de bronze (Nu au Canapé), gravuras , livros ilustrados e as collages com papéis recortados dos anos 1940. Por essa época, Matisse, submetido a uma colostomia e preso a uma cadeira de rodas, passou a usar a tesoura no lugar do pincel. Com a ajuda de assistentes, ele criou collages de grandes dimensões que chamou de ?gouaches découpés?. Painéis serigrafados (da série Océanie) e pranchas do livro Jazz, publicado em 1947, completam a exposição, que traz ainda fotografias do ateliê do artista feitas por Cartier-Bresson e Man Ray.

Essas imagens registram mais que a figura do pintor. Documentam seu modo de produção. A curadora Emilie chama a atenção para a relação afetiva que Matisse mantinha com os objetos, intensa como a de Morandi com suas garrafas. "Ele gostava de se ver rodeado por flores e mulheres", observa, lembrando que as fotos de Cartier-Bresson flagram o pintor integrado à arquitetura do ambiente do ateliê como se fizesse parte da decoração. E, mesmo idoso, transpira sensualidade, saudoso de suas odaliscas. A esse respeito, a curadora é tão cautelosa como a biógrafa inglesa do pintor, Hilary Spurling, que jura ter Matisse feito amor "apenas na tela" com sua modelo Lydia - ela começou como enfermeira da mulher do artista e virou sua assistente. "Os ingleses são um pouco moralistas, não é mesmo?", observa a curadora francesa, elogiando o primeiro volume da biografia, mas acirrando a histórica rivalidade com os súditos da rainha. Em tempo: a biógrafa inglesa esqueceu que madame Matisse exigiu a demissão de Lydia. A razão parece óbvia.

De qualquer modo, mulheres não faltam na mostra. A fixação de Matisse pelo corpo feminino, por cores vibrantes, tecidos, roupas e acessórios - justificada pela biografia do pintor, nascido em um povoado têxtil (Le Cateau-Cambrésis)- é sintetizada no óleo Odalisque à la Cullote Rouge (1921). De cores vivas, ele traz uma odalisca em pose sensual e distante da paleta sombria do começo de carreira, que seguia os mestres do Louvre. É possível, percorrendo a mostra, organizada de forma cronológica, acompanhar a evolução dessa pintura, da influência de Cézanne e dos orientais até os sintéticos papéis recortados, passando pelas obras fauvistas e as de caráter decorativo, que dão espaço, em 1914, a uma expressão mais sofisticada - e que será analisada num colóquio (promovido pela Pinacoteca) e num livro (Matisse: Imaginação, Erotismo, Visão Decorativa) que a editora Cosac Naify lança durante a mostra (aberta até 1º de novembro).