terça-feira, 20 de outubro de 2009

Irmãos artistas burlam a censura na China

Por Jimmy Wang

Não é o tipo de escultura do líder Mao Tse-tung que se vê comumente na China. Ele está de joelhos, como suplicante, confessando; sua linguagem corporal e expressão facial são indicativas de remorso profundo. E tem mais: a cabeça dessa estátua de bronze em tamanho natural, intitulada “A Culpa de Mao” e criada pelos artistas irmãos Gao Zhen e Gao Qiang, pode ser separada do corpo —ela foi feita assim.

Mao's Guilt -"A Culpa de Mao"


Algumas exposições anteriores dos irmãos Gao, cujo trabalho as autoridades acham politicamente desafiador, foram fechadas, e o ateliê deles foi invadido e revistado. Em função disso, os irmãos guardam a cabeça de Mao escondida num local separado e a juntam ao corpo apenas em ocasiões especiais.


Normalmente a estátua fica acéfala, não identificável e não constituindo risco.
“É algo que eu espero que todos os chineses algum dia consigam aceitar e compreender”, disse Gao Zhen, 53, falando da estátua. “Nossa intenção foi retratar Mao como ser humano, uma pessoa como outras, confessando os males que cometeu.”


Em 3 de setembro, a cabeça foi tirada do esconderijo para ser exibida numa “festa” dos irmãos Gao —codinome dado a uma das exposições que eles promovem várias vezes por ano, com entrada restrita a convidados. O local da mostra só foi revelado algumas horas antes e divulgado boca a boca e por mensagens de texto cifradas.


Cabeças removíveis e exposições underground são apenas duas das táticas “guerrilheiras” empregadas ao longo dos anos pelos irmãos Gao para que seus fãs e amigos possam ver seu trabalho. Os Gao fazem parte de uma geração de artistas chineses de vanguarda que vem ampliando os limites da expressão artística.


No mundo cada vez mais aberto da arte chinesa, a nudez, antes proibida, hoje é corriqueira, e obras de arte parodiando a Revolução Cultural já são tão onipresentes que chegam a ser vistas como ultrapassadas. Mas o caso dos irmãos Gao serve para lembrar a todos que, especialmente neste momento em que a China comemora o 60° aniversário da Revolução Comunista, ainda há limites à expressão. Embora os artistas tenham liberdade cada vez maior para tratar de tópicos sociais e políticos, obras que tecem críticas explícitas a líderes chineses ou a símbolos da China ainda não são permissíveis.


A exposição “Vermelho Cinza”, que os irmãos Gao fizeram em 2006, foi reprimida pelas autoridades. Representantes do governo entraram na galeria e listaram obras “que precisavam ser retiradas”, contou Gao Qiang, 47. Os cartazes e catálogos da exposição foram proibidos.
O Distrito de Artes 798, onde moram os Gao, tem um escritório administrativo local que, entre outras coisas, fica atento para obras de arte que vê como inaceitáveis e prejudiciais ao distrito. “Eles sofrem pressões desde cima”, disse Gao Yuewen, 29, que trabalha no ateliê Gao e observou que as autoridades classificam os irmãos Gao “diferentemente” dos outros artistas —ou seja, os irmãos são vistos como suspeitos.


O trabalho mais abrangente da dupla é ao mesmo tempo explícito e crítico. A ideia é mostrar Mao sob outra perspectiva: como uma figura que tem falhas.


A figura de Mao encerra um significado pessoal para os dois irmãos. Durante a Revolução Cultural, o pai deles foi classificado como inimigo e arrastado para um lugar “que não era prisão nem delegacia de polícia, mas alguma outra coisa”, contou Gao Zhen. Após 25 dias, a família foi informada de que ele cometera suicídio. Seus filhos não acreditam: “Naquela época, se alguém não gostasse de você, lhe dava o rótulo de inimigo”, falou Gao. “Viemos a Pequim para entregar um abaixo-assinado em protesto contra a morte de nosso pai.”


A família recebeu indenização equivalente a mais ou menos US$ 290. “Foi um período muito doloroso”, prosseguiu Gao. “Éramos seis irmãos e uma mãe sem marido; não tínhamos um tostão.”


Kai Heinze, 33, diretor de uma galeria, comentou: “O trabalho dos irmãos Gao sobre Mao é é visto como provocação por muitos chineses. A obra aciona um gatilho, desafiando as pessoas a compreender e tolerar uma visão da história chinesa moderna que admite a ocorrência de falhas”.

http://www.gaobrothers.net/

Abaixo outras obras dos artistas:

The Execution of Christ

Miss Mao trying to poise herself at the top of Lenin's head

Mais de 200 obras de Oiticica são retiradas de casa incendiada


Caio Barreto Briso da Folha de S.Paulo, no Rio


Mais de 200 obras em papel do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980) foram retiradas ontem da casa no Jardim Botânico, zona sul do Rio, incendiada na madrugada de sábado, em incidente que provocou a destruição de grande parte dos trabalhos de um dos mais conhecidos artistas nacionais. As obras resgatadas estão danificadas não apenas pelo fogo, mas também pela água usada no combate ao incêndio.
Os mais de 200 desenhos de Oiticica encontrados em bom estado são das mostras "Grupo Frente" (1954) e "Metaesquemas" (1972), além de dois relevos, dois bilaterais e a maquete do projeto "Cães de Caça", um penetrável (instalação) que nunca foi montado.
Ontem à tarde, uma equipe do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) saiu do imóvel otimista. "Ainda não é possível estimar o percentual do que poderá ser salvo, mas acreditamos que boa parte do trabalho será recuperada", disse Claudia Storino, coordenadora de arquitetura e espaços museais do Ibram.

O início do trabalho de restauração --que, segundo César Oiticica, irmão do artista plástico, será coordenado pela norte-americana Wynne Phelan, que já restaurou quase toda a obra de Hélio Oiticica em 2006-- foi dividido em duas partes.

Enquanto um grupo de técnicos do Ibram irá separar o que ainda se encontra na reserva técnica --há alguns armários com obras, por exemplo, que não foram abertos, por causa dos escombros no caminho--, outro grupo ficará responsável por secar, higienizar e catalogar as obras já encontradas.

"Acreditamos que, até semana que vem, já será possível ter todo o material em papel higienizado", disse Storino.
Por enquanto, a reserva técnica --que fica no primeiro andar da casa, onde o fogo começou-- continua com um cheiro de queimado insuportável.

Hoje à tarde, a família de Hélio Oiticica irá retomar as buscas por fragmentos do acervo do artista, na casa de César Oiticica, responsável pela guarda do material.

A fuligem, impregnada nas paredes da casa, obrigou a família, por ordem médica, a interromper a procura no domingo. "Agora, com as máscaras de proteção, vamos voltar ao trabalho", disse César.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também ofereceu ajuda. A coordenadora de bens móveis e integrados do Iphan chegou ao Rio de Janeiro, de Brasília, ontem à noite. Storino afirma que o Ibram fará um diagnóstico sobre cada peça encontrada. "Ao fim deste processo emergencial, poderemos estimar o custo da restauração."

Destino em dúvida

A secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, reafirmou à Folha que seu desejo é, uma vez restaurado o acervo, levá-lo, em regime de comodato, para o Centro de Arte Hélio Oiticica, no Centro do Rio.
Na contramão da secretária, a gestora do Centro, Ana Durães, afirmou que o espaço tem estrutura para receber exposições temporárias, mas não um acervo permanente. "Somos um Centro de Arte, não um museu", disse.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Galeria Virgilio exibe pinturas de Lucia Laguna

Artista fluminense traz a São Paulo nove recentes

telas das séries Paisagem e Estúdio.

Abertura no dia 20 de outubro, terça-feira, às 19h30

Lucia Laguna, Estúdio 28, 2009 (acrílica e óleo s tela, 138 x 198)

A Galeria Virgilio inaugura no dia 20 de outubro, terça, às 19h30, a mostra individual “Janela” da artista fluminense Lucia Laguna, exibindo nove recentes obras em acrílica e óleo sobre tela, além de uma projeção em vídeo. Texto de apresentação de Marisa Flórido.

Para esta mostra, a artista selecionou duas obras da série “Estúdio”, onde recria o universo íntimo de seu estúdio de trabalho. Além destas, Lucia escolheu cinco telas de “Paisagem”, série em que se dedica a recriar pacientemente, por meio de sucessivas camadas de tinta, vedações e elaborações formais, as belas paisagens que vê a partir do ateliê, localizado no bairro de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro. Por fim, ela traz a público também três delicados trabalhos da série “Pequenos Formatos”, que são telas de 39 x 44 cm em que usa com grande liberdade formal as tintas de suas grandes telas recém acabadas.

“Creio que a pintura pode resgatar um tempo de olhar que se perdeu no caos de imagens que bombardeiam as cidades”, atesta a artista.

Para o crítico e curador Paulo Sérgio Duarte, Lucia segue a tradição não edipiana da grande arte contemporânea brasileira, que, segundo ele, ao invés de negar, guarda fortes relações e interações com a modernidade. “Ela não tem um pai superpoderoso para ser assassinado, que atravessa seu caminho, que passa com a roda em cima do seu pé”. Para ele, esta é uma relação “menos de filho para pai e mais de irmão para irmão, apenas como se o artista moderno fosse o irmão mais velho”, salienta em texto sobre a artista para mostra no Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Ainda segundo Duarte, a pintura da artista se insere naquilo que denomina a “estratégia da delicadeza”, dirigida a uma sociedade urbana, anônima a quem não interessa a origem da pintura ou a forma como foi feita, em oposição à “sociedade do espetáculo”, termo propalado pelo francês Guy Débord.

Segundo Paulo Herkenhoff, no texto “A Economia da Pintura”, de 2006, Lucia Laguna é uma das grandes revelações da pintura no Brasil do século XXI. Ao longo da elogiosa missiva, o crítico não poupa adjetivos à artista, cuja tela, afirma, “pode ser analisada como uma trama de acontecimentos pictóricos em busca do ponto de convivência (...)”. Para ele, “a densidade da pintura está na intensidade de tais acontecimentos e o modo como a artista busca um ponto de equilíbrio da presença deles no espaço pictórico conforme respostas conjunturais que excitam a intencionalidade. Cada acontecimento é um elemento da arquitetura da paisagem. A pintura é o resíduo imaginário deste processo”.

Lucia Laguna

Egressa das letras, a hoje consagrada artista Lucia Laguna foi professora de Língua Portuguesa na rede estadual até ingressar com o pé direito nas artes visuais em 1994, quando começou seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Teve como mestres Luís Ernesto, Charles Watson, João Magalhães, Katie van Scherperberg e Reinaldo Roels. Dando continuidade aos estudos, em 1998 matriculou-se no Curso de Teoria e História da Arte na mesma escola, onde foi aluna de Marco Veloso, Annabella Geiger, Paulo Sérgio Duarte e Paulo Herkenhoff, entre outros. Não à toa, estes dois últimos tornaram-se seus grandes admiradores, tendo lhe dedicado extensos e elogiosos textos críticos em que salientam a qualidade de sua produção. De 1996 a 2009, Lucia participou dos Dynamic Encounters – cursos intensivos de arte organizados por Charles Watson e realizados em viagens por Nova York e Europa.

A trajetória da artista é curta, porém meteórica, uma vez que, desde sua primeira mostra coletiva no Parque Lage, em 1997, Lucia expôs em nada menos que 24 mostras coletivas no Brasil, Espanha (Arco Madrid) e Suíça (Basel), com destaque para a sua participação na itinerância nacional da mostra “Paradoxos: Rumos Itaú Cultural 2005/2006”, além de duas edições da feira SP Arte. Cumpre salientar que a artista também foi uma das cinco vencedoras da edição 2006/2008 do Prêmio CNI-SESI Marcantônio Vilaça. Durante o mesmo período, realizou nada menos que nove mostras individuais em espaços institucionais e galerias em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Serviço:

Evento: Janela - exposição individual de Lucia Laguna

Local: Galeria Virgilio

Inauguração: 20 de outubro de 2009, terça-feira, a partir das 19h30

Período expositivo da mostra: de 21 de outubro a 14 de novembro

Endereço: Rua Virgílio de Carvalho Pinto, 426

CEP 05415-020, Pinheiros, São Paulo - SP

Telefones: (55 11) 3061 2999

Horários: de segunda a sexta, das 10 às 19h; e sábado, das 10 às 17h

Entrada franca

www.galeriavirgilio.com.br

Informações para a imprensa:

Adelante Comunicação Cultural

Décio Hernandez Di Giorgi

dgiorgi@uol.com.br

CRÍTICA: Tragédia / Acervo Oiticica


Obra não era preservada como merecia

po Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo




Por mais triste, lamentável e trágica que possa ser, a perda de praticamente todo o acervo do artista Hélio Oiticica representa, finalmente, o fim do fetiche pelo material em suas obras e a libertação de suas ideias.


Oiticica foi um dos mais originais e importantes artistas do século 20. Sua defesa em romper os limites entre arte e vida foi das mais radicais, mas apenas nos últimos 20 anos passou a ter o merecido reconhecimento e repercussão.
Dois momentos fundamentais nesse percurso foram a Documenta, em Kassel (Alemanha), em 1997, que mostrou muitos de seus projetos e obras, e a 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, organizada por Lisette Lagnado a partir de conceitos do artista, mas que já nem exibiu objetos do artista, para atestar que suas ideias estavam proliferadas no circuito da arte.


No entanto, enquanto suas ideias ganhavam importância, um certo desvio de suas propostas também crescia. Oiticica queria que os Parangolés, um de seus mais importantes conceitos, que tinham nas capas uma de suas materializações, fossem usados por todos.


No entanto, o fetiche pelo original -que em seu caso é o menos importante, acabou dominando e em muitas mostras essas capas eram vistas penduradas como tristes espectros de algo muito mais vital.


Do ponto de vista do mercado, algo semelhante ocorria. As obras passaram a subir de preço exponencialmente, enquanto para o artista, durante sua vida, isso não era o fundamental, e seu trabalho passou a ser engessado naquilo que justamente ele criticava: o objetual.


Claro que é inacreditável que tudo tenha se esvaído dessa forma, até porque é a segunda vez que um incêndio destrói um acervo importante no Rio: foi assim que grande parte da coleção do Museu de Arte Moderna do Rio foi perdida, em 1978.


Claro que é lamentável que o precioso acervo de Oiticica não estivesse preservado da forma como merecia, numa instituição, mesmo que já existisse o Centro de Arte Hélio Oiticica, criado pela Prefeitura do Rio, palco de recentes polêmicas.


Durante um bom tempo, parte do que se queimou esteve lá armazenado e poderia estar a salvo. Mas isso faz parte da precariedade institucional que é típica no Brasil e das dificuldades que envolvem herdeiros em casos do tipo.


Recentemente, o Ministério da Cultura havia iniciado contatos para a criação de um museu Hélio Oiticica. Mas, essa institucionalização, se por um lado seria fundamental para preservar sua memória, poderia representar um risco ao institucionalizar sua obra, algo sempre contestado pelo artista.


Em Porto Alegre, artistas que participam da 7ª Bienal do Mercosul lamentavam ontem a perda desse acervo, mas também comentavam que parecia ser uma estranha vingança pelo tratamento que sua obra vinha ganhando.


Agora, se já não há mais original, então todos podem criar seu Parangolé. Felizmente, grande parte de seu acervo foi digitalizado e encontra-se disponível no site do Itaú Cultural, num dos mais importantes projetos de memória da arte brasileira. Os originais -e são milhares deles, pois tudo o que Oiticica pensava era obsessivamente descrito em seus cadernos- podem estar queimados, mas conseguiram sobreviver na internet, onde todos podem ter acesso, como o artista queria que fosse sua obra.

Diretora Centro Municipal Hélio Oiticica quer divulgar obras de Oiticica salvas de incêndio


Maior parte das obras estão guardadas em cofre da família e Centro Municipal já não é mais sede de projeto

Adriana Chiarini - O Estado de S.Paulo

A diretora do Centro Municipal Hélio Oiticica do Rio de Janeiro, Ana Durães, quer divulgar o que existe na reserva técnica de obras do artista que dá nome ao lugar e que se encontra trancada, com as chaves ainda com a família Oiticica, de acordo com ela. São algumas das obras que se salvaram do incêndio na sexta-feira à noite na casa do irmão do artista, César Oiticica, onde estava cerca de 90% do acervo, segundo a família.


Por dificuldades de negociação entre a Prefeitura e a família, o Centro Municipal não é mais sede do projeto de mesmo nome, nem está expondo atualmente nenhuma obra de Hélio Oiticica. Ana disse, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que quer promover um debate sobre os direitos dos herdeiros e do poder público sobre as obras dos artistas.
César Oiticica, irmão de Hélio, observa cômodo incendiado na zona sul do Rio de Janeiro



O que significa o incêndio dessas obras de Hélio Oiticica?

Estamos pesarosos porque a obra do Hélio tem valor histórico uma importância para a arte brasileira que é imensurável. É muito mais que o valor econômico. É uma perda terrível mesmo. Estamos consternados, de luto. Acho que a maioria dos artistas contemporâneos tem uma influência, tem um diálogo com Hélio.



Que obras de Hélio Oiticica estão no Centro?

Eu assumi em fevereiro. Quando eu entrei, o acervo já não estava mais aqui. Na reserva técnica que temos disponível, temos os penetráveis Iemanjá, Tia Ciata, Ninho e Rijanviera. Mas existe uma outra reserva técnica trancada. As chaves estão com a família e só eles sabem o que tem lá. Queremos abrir para a imprensa. As obras que estão aqui no Centro são as que estavam em uma exposição que inicialmente ia de dezembro a junho, chamada Penetráveis 1 e 2. Como tivemos um problema na última parcela de prestação, eles interromperam a exposição em abril e depois retomamos em julho e agosto. A gente tentou negociar uma forma de comodato para ver se o terceiro andar poderia ter as obras de Hélio. A negociação com a família estava complicada.



Que problema foi esse?

Essa exposição Penetráveis teve um valor alto e foi dividida em parcelas. Tinha uma última parcela, em torno de R$ 243 mil, que foi suspensa quando a nossa secretária (de Cultura, Jandira Feghali) assumiu. Ela resolveu fazer uma auditoria, o que é justo, e não foi só no Centro Hélio Oiticica, foi em toda a Secretaria. Eles (o Projeto Hélio Oiticica) teriam que receber em janeiro. Em janeiro, foi a posse e aí iniciou a auditoria. Teve uma demora. Quando entrei, eu nem sabia dessa parcela. Fizemos uma reunião com a família e nela dissemos que terminada a auditoria, eles iriam receber.



Mas o atraso incomodou?

Eles, apressadamente, resolveram fechar a exposição. Aí foi muito desagradável, porque parecia que estávamos querendo expulsá-los daqui, o que em momento algum, aconteceu.



O Chico Chaves, coordenador de Artes Visuais da Funarte, disse que a Secretaria Municipal não estava querendo pagar pela conservação das obras do acervo. Foi isso?

Desconheço. Na nossa gestão, nunca foi proposto conservação e nunca foi negado. Era um acordo para a renovação do contrato, que já tinha vencido na gestão anterior e que não podia ficar nessa forma.



Que contrato era esse? Da exposição?

Não, era um contrato da gestão anterior para o Projeto Hélio Oiticica ficar abrigado aqui. A exposição "Penetráveis" foi paga, tanto que eles retomaram. A exposição custou aproximadamente R$ 600 mil, divididos em cotas. Fora isso, eles recebiam mensalmente uma parcela de R$ 20,5 mil para a manutenção. É um valor considerável. Fomos supercordiais para tentar renegociar. Foi sugerido que eles fizessem nova proposta.



Eram dois contratos, um para o Projeto e outro para a exposição?

Não. Era um contrato só. Porque dentro do contrato do Projeto Hélio Oiticica, fizeram essa exposição. Foram pagas duas prestações e a última que era para pagar em janeiro é que atrasou, mas foi paga, acho que em abril. Nunca agimos de má fé. Eles chegaram a ir para os jornais dizer que estavam sendo expulsos. Tinha manifestação artística para pressionar. Jamais a Jandira disse que eles não receberiam. Queremos realizar um debate sobre essa questão das famílias dos artistas e do Estado sobre as obras.

Entrevista: Ferreira Gullar

Perda do acervo de Oiticica é "catástrofe", diz Ferreira Gullar

Ricardo Westin da Folha de S.Paulo

O poeta Ferreira Gullar, companheiro de Hélio Oiticica nas origens do movimento neoconcreto, chamou de "catástrofe" o incêndio que destruiu boa parte da obra do artista, na sexta. "O lamentável é que o incêndio destruiu uma das contribuições mais originais e audaciosas à arte brasileira."

O parangolé "Capa 23M'way Ke" de Hélio Oiticica, dedicado a Haroldo de Campos

Folha - Qual foi a pior perda?

Ferreira Gullar - Não sei exatamente o que se perdeu. Mas, se as pinturas do Hélio foram destruídas, a própria história do trabalho dele se perdeu. Embora pouca gente conheça, as pinturas estão na origem da experiência, o elemento nuclear do trabalho futuro dele. Eram de muito boa qualidade.

Folha - Qual foi a principal contribuição de Oiticica à arte brasileira?

Gullar - Hélio e Lygia Clark foram os dois artistas do grupo neoconcreto que levaram as experiências dessa proposta às últimas consequências. O grupo nasceu em função de uma superação de certas propostas concretistas, mais racionais e objetivas. O movimento introduziu nessa arte construtiva a experiência subjetiva e a emoção, antes descartadas.

Folha - Como?

Gullar - Eles foram os que levaram essa experiência às últimas consequências. O Hélio fez o "Parangolé", uma capa derivada da porta-bandeira da escola de samba, para o cara dançar com ela nas costas... Isso tem muito pouco a ver com pintura ou escultura. A experiência de Hélio dentro da linguagem neoconcreta chega ao limite com a série de "Bólides", construções em que se misturam formas cúbicas com material quase deletério, como se fossem vísceras. Quando vai para o "Parangolé", no meu ponto de vista, ele sai das artes plásticas. Mas é uma experiência válida.

Folha - De que forma Oiticica influenciou outros artistas?

Gullar - Não é que ele e Lygia tenham influído no desenvolvimento da arte contemporânea, mas foram antecipadores de tendências que vieram a se manifestar em seguida, como o que mais tarde se chamaria de instalações. O labirinto, a obra em que a pessoa penetra... Não é apenas ver a obra. É preciso participar, integrar e usar o próprio corpo como parte da obra. Isso é antecipador.

Folha - Como foi sua participação no movimento neoconcreto?

Gullar - O meu "Poema Enterrado" foi construído na mesma casa que sofreu o incêndio, na Gávea Pequena, atrás do Jardim Botânico, em 59. Hélio viu o meu desenho no jornal e teve de convencer o pai a permitir que o poema fosse instalado na casa nova. Era um poema no subsolo, e você entrava nele. A mesma coisa fez Hélio com "Cães de Caça" e "Labirintos".

Após incêndio, Centro Oiticica critica destino de obras de artistas mortos



Caio Barreto Briso da Folha Online, no Rio

Após o incêndio que destruiu grande parte do acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), na madrugada de sábado no Rio, a gestora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Ana Durães, criticou o destino que é dado ao acervo de muitos artistas mortos no Brasil.

"Não raro, as obras são mantidas pela família, mas elas fazem parte do patrimônio cultural da humanidade", disse em entrevista à Folha. Segundo ela, as obras deveriam ser integradas ao acervo de museus.

O curador do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM), Luiz Camillo Osorio, discorda. "Ela diz conceitualmente que é patrimônio da humanidade. Legalmente, a obra é da família."

Osorio diz que falta aos museus brasileiros uma política de aquisição de obras. "É um problema de gestão dos museus."

No entanto, Durães admite que o próprio Centro Hélio Oiticica não teria condições de receber o acervo do artista. As obras dele eram mantidas na casa do irmão, César Oiticica, no Jardim Botânico (zona sul) que se incendiou.

"Nosso espaço é um centro de arte, preparado para receber exposições temporárias, não temos estrutura museológica para manter um acervo permanente", disse Durães.

Na direção oposta, a secretária municipal de Cultura do Rio, Jandira Feghali, disse que o espaço teria condições de manter as obras de Oiticica. Afirmou que a secretaria tentou levar o acervo do artista para o centro várias vezes.
César nega: "Se tivesse acontecido teríamos dado gargalhadas. Lá não há segurança nem controle de umidade."

Restauração

César disse que foram achados ontem, em bom estado de preservação, cinco obras do seu irmão, que estavam no meio das cinzas. São dois relevos (um espacial e um de parede), dois bilaterais e a maquete do projeto "Cães de Caça", um penetrável que nunca foi montado.

A restauração das obras será coordenada pela americana Wynne Phelan, que já fez a restauração de quase toda a obra de Hélio Oiticica em 2006.

CRÍTICA: Bienal do Mercosul

Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, acerta na radicalidade


por Fábio Cypriano da Folha de S. Paulo


Já em seu início, em 1997, a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, com curadoria de Frederico Morais, era marcada por um caráter experimental. Naquela época, sua pretensão foi reescrever a história da arte a partir de uma visão não-hegemônica, ou seja, fora do eixo europeu e norte-americano.

Montagem de obra de Iran do Espírito Santo, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul

Agora, em sua sétima edição, esse caráter experimental alcança sua maior radicalidade, ao colocar o artista e seu processo criativo --e não mais a figura do curador-- como o centro de organização.

É uma das mostras mais inovadoras dentro do confuso universo das bienais, que costuma transitar entre o apelo fácil para o público e o discurso direcionado a especialistas.

"Grito e Escuta" foi concebida pela curadora argentina Victoria Noorthoorn e pelo artista chileno Camilo Yáñez, ao lado de outros oito artistas cocuradores --uns responsáveis por áreas específicas, como o projeto pedagógico, a cargo da argentina Marina de Caro, outros por segmentos expositivos, como a brasileira Laura Lima.

O resultado é um trabalho efetivamente polifônico, que apresenta exposições surpreendentes e muito distintas umas das outras.

Curiosamente, as mais tradicionais são as organizadas por Noorthoorn: "Ficções do Invisível", no Cais do Porto, e "Desenho das Ideias", no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Isso não significa que sejam menos impactantes.

A primeira, com uma cenografia elegante (de ilhas marcadas por tecidos negros), é uma constelação que tem no teatro e na dança seu começo e seu fim: começa com "Breath" (Respiração), uma peça de 67 segundos de Samuel Beckett encenada por Daniela Thomas, e termina com o coreógrafo francês Jérôme Bel em um vídeo metalinguístico.

Já "Desenho das Ideias" reúne um grupo mais histórico que trabalha com desenho, mas não só, buscando revelar o processo criativo de artistas como Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, Paulo Bruscky, Flávio de Carvalho e León Ferrari.

Curadorias dos artistas

O trabalho mais impactante, contudo, é de Iran do Espírito Santo, uma parede que parece um buraco negro, para onde é difícil deixar de olhar. Lenora de Barros, curadora da Radiovisual, alocou nesse segmento algumas obras, provocando interessantes fricções.

Contudo, são as curadorias dos artistas as grandes surpresas. A começar pela mostra "Absurdo", de Laura Lima, num dos armazéns do Cais do Porto, com o piso recoberto por nada menos do que 20 caminhões de areia.

Paisagem lunar, num contraponto brilhante com o rio Guaíba, que se vê por grandes portas, ela reúne obras projetadas em telas, como o lindo vídeo de Marcellvs L., ou mesmo na areia, como Márcia Xavier, ou então numa pequena casa, como o surreal vídeo "Lucia", assinado pelos chilenos Niles Atallah, Joaquin Cociña e Cristóbal Léon. Esse é um dos trabalhos mais incríveis da mostra, uma mistura de William Kentridge e Stanley Kubrick.

Esse pavilhão é das experiências mais vibrantes que se pode ter em arte contemporânea.

Finalmente, o armazém que reúne as mostras "Texto Público", organizada por Artur Lescher, e "Biografias Coletivas", a cargo de Camilo Yáñez, é outro destaque. Nesses dois segmentos, fortalece-se uma tese que é desenvolvida ao longo de toda a Bienal: a junção arte e vida, princípios que nortearam os anos 1960 e 70, é hoje o cerne do pensamento mais intrigante na cena contemporânea.

SERVIÇO


Quando: de ter. a dom., das 9h às 21h; até 29/11

Onde: Armazéns do Cais do Porto, Santander Cultural e Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; tel. 0/ xx/51/3433-7686

Quanto: entrada franca

Cotação: ótimo

sábado, 17 de outubro de 2009

Fogo destrói boa parte das obras de Hélio Oiticica no Rio

Família do pintor, falecido em 1980, estima prejuízos de cerca de US$ 200 milhões com as obras destruídas Um incêndio destruiu, no final da noite de sexta-feira, 16, na região do Jardim Botânico, no bairro de Botafogo, zona sul do Rio, parte da residência do pintor e arquiteto César Oiticica, irmão do pintor, escultor e artista plástico Hélio Oiticica, que morreu em 1980 aos 42 anos.

Cerca de 2 mil obras foram destruídas. Prejuízo estimado é de 200 milhões de dólares

Na casa estavam cerca de 2 mil obras do artista. "Perdemos cerca de 200 milhões de dólares, mas esse não é o valor principal, o valor em dinheiro não significa nada. E uma perda que o mundo inteiro irá lastimar. A cultura brasileira ficou ferida. Eu me sinto pessimamente", disse César em entrevista à Rádio CBN. Viaturas do quartel de Humaitá foram deslocadas para a residência, mas ainda não se sabe o que teria causado o incêndio, que começou no primeiro andar da casa. Segundo a família, os bombeiros demoraram para chegar na casa e começar o combate ao fogo.

Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiro

Um incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.

O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.

Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.

Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.

Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.

Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.

A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.

Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.

Parangolé

Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.

Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".

Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.

Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.

Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.

No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

7ª Bienal do Mercosul abre nesta sexta - 16/10


7ª Bienal do Mercosul leva trabalhos de mais de 200 artistas ao Rio Grande do Sul


Começa nesta sexta-feira (16) e vai até 29 de novembro a Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre (RS). Em sua sétima edição, o evento apresenta trabalhos de mais de 200 artistas de diversos países, como Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, EUA, França, México, Suíça, Reino Unido, Uruguai e Venezuela.

Detalhe de "In Out (Antropofagia)", de Anna Maria Maiolino

O objetivo da edição deste ano da Bienal do Mercosul é a ênfase nos processos de criação, mais do que em temas específicos - daí o tema "Grito e Escuta".

Tendo como curadores-gerais a argentina Victoria Noorthoorn e o chileno Camilo Yáñez, a Bienal gaúcha traz 60% de trabalhos inéditos, produzidos especialmente para as exposições previstas na programação.

Exposições

Serão sete exposições ao todo. "Biografias Coletivas" se propõe a apresentar obras criadas a partir de uma biografia pessoal e a refletir sobre aspectos da sobrevivência, da reprodução e do prazer.

"Ficções do Invisível" reúne artistas que colocam em cena sua própria relação com o processo artístico, onde temas como o questionamento interno e a relação entre obra e vida privada são abordados.

A mostra "Absurdo", por sua vez, opera sobre a estranheza e a ideia de instabilidade e convida o público a pensar sobre os limites formais de mostras de arte.

Como o próprio nome sugere, "Texto Público" ocorrerá, em sua maior parte, no espaço público de Porto Alegre, com trabalhos iluminados que tornarão visíveis pontos estratégicos da cidade e um programa de rádio que promete estimular a participação popular.

"A Árvore Magnética" comentará a prática artística com obras construtivas (trabalhos que somam elementos) e destrutivas (nas quais há subtração de partes), ao passo que "Projetáveis" abordará trabalhos "projetáveis" em seus vários sentidos: o projetável como o imaginado, aquilo que cria novos públicos ou aquilo que representa um território, como na cartografia.

Por fim, dentro da série de mostras da 7ª Bienal do Mercosul, "Desenho das Ideias" vai explorar a linguagem das performances e abusar de referências de imagens físicas, mentais, sonoras e verbais.

SERVIÇO

7ª BIENAL DE ARTES VISUAIS DO MERCOSUL - GRITO E ESCUTA

Quando: de 16 de outubro a 29 de novembro de 2009
Horário: de terça a domingo, das 9h às 21h
Onde:
Armazéns do Cais do Porto - Av. Mauá, 1050, Centro, Porto Alegre
- "Absurdo" (entradas A3 e A4)
- "Ficções do Invisível" (A4)
- "Biografias Coletivas" e "Texto Público" (A5)
- "Árvore Magnética" (A6)
Santander Cultural - Rua Sete de Setembro, 1028, Centro, Porto Alegre
- "Projetáveis"
MARGS - Museu de Artes do Rio Grande do Sul - Praça da Alfândega, s/nº, Centro, Porto Alegre
- "Desenho das Ideias"
Quanto: entrada franca. Agendamento para grupos no 0xx51 3433-7686. Mais informações no site www.bienalmercosul.art.br


ARTE CONTEMPORÂNEA NA CASA BRANCA



No passado, presidentes norte-americanos como Kennedy sempre escolheram retratos antigos para decorar a Casa Branca. No entanto, com Obama, sopram ventos de mudança na seleção das obras que irão embelezar a casa presidencial.

As obras, desde a bailarina de bronze de Degas até às pinturas de palavras de Ed Ruscha, vêm da National Gallery of Art, do Hirshhorn Museum, do Sculpture Garden e do Smithsonian American Art Museum.

I Think I'll..., 1983, óleo sobre tela.

O Presidente americano, Barack Obama, queria algumas grandes obras de arte moderna e contemporânea, segundo afirmou Henry Cooper, senior curator na National Gallery, que trabalhou em colaboração com o curador da Casa Branca, Bill Allman, para fazer estas importantes instalações.

A coleção de obras está focada em alguns dos grandes nomes da pintura americana do pós-guerra, de Rothko e Diebenkorn a Edward Corbett, ou artistas mais contemporâneos como Ed Ruscha e Susan Rothenberg.

Obras como I Think I’ll (1983) e Maybe no, maybe yes de Ruscha são muito importantes porque representam este momento histórico dividido entre esperança e incerteza. Será que Obama representa uma mudança importante? Bom, pelo menos no que diz respeito à arte da Casa Branca, sim.

Arte brasileira busca consolidar prestígio no mercado internacional



Quando a Bienal do Mercosul abrir suas portas nesta sexta-feira em Porto Alegre, galeristas brasileiros estarão de olho no colecionador estrangeiro. Para especialistas, vários indicadores sugerem que a arte brasileira viveria hoje seu momento de maior prestígio da história.

De acordo com Tanya Barson, curadora de arte latino-americana da galeria britânica Tate Modern, a arte brasileira tem hoje um impacto muito mais amplo no circuito internacional do que em qualquer outro momento de sua história.
A colecionadora e diretora da feira internacional de arte de São Paulo (SP Arte), Fernanda Feitosa, concorda. Ela diz que, desde que o evento foi criado, há cinco anos, o número de galerias participantes dobrou, e o público também.

E lembra que um dos marchands mais famosos do mundo, o britânico Jay Joplin, esteve na SP Arte em abril desse ano. "Achei muito sintomático que o Jay Joplin, ícone da arte dos anos 90, tenha dedicado uma semana da agenda dele ao Brasil".
A presença de Jay Joplin - dono da galeria londrina White Cube e figura-chave nas carreiras de Damien Hirst e outros grandes nomes da arte britânica - na SP Arte também chamou a atenção do jornal alemão DieWelt.

Também em abril, o jornal publicou uma reportagem afirmando que a arte do Brasil teria alcançado reputação sem precedentes no mundo.
Como evidências do fenômeno, o Welt citou, além da visita de Jay Joplin à SP Arte, a exposição do brasileiro Cildo Meireles na galeria britânica Tate Modern, ano passado (um recorde de audiência) além da presença de cada vez mais obras do Brasil no acervo da galeria.
Obra 'Desvio para o Vermelho - 1967- 84', de Cildo Meirelles

O valor das obras no mercado internacional, disse o jornal, também estaria subindo.
Fatores Econômicos
Para o professor de História da Arte Contemporânea da Unicamp Nélson Aguilar, curador geral da 22ª e 23ª bienais de São Paulo e da 4ª Bienal do Mercosul, existe mesmo um maior reconhecimento da arte brasileira no exterior.

Ele disse à BBC Brasil que a emergência do país no cenário econômico internacional tem influência nisso. E apontou para o crescente interesse pela arte de outros integrantes do grupo dos Bric, como Índia e China.
Aguilar acredita, no entanto, que no caso do Brasil o reconhecimento de hoje não se explica apenas por fatores econômicos.

"Artistas contemporâneos como Ernesto Neto e Beatriz Milhazes só são interessantes porque estão ligados organicamente ao que veio antes. Uma cultura só se universaliza quando os artistas dela são filhos de artistas da mesma cultura."
O especialista está se referindo a uma linhagem que inclui, mais atrás, artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Mira Schendel.

"Nos anos sessenta, nós sabíamos que o Oiticica era um gênio, e que a Lygia Clark e a Mira Schendel estavam fazendo um trabalho importantíssimo. Víamos esses artistas passarem batidos no exterior mas sabíamos que a visão da crítica estrangeira era eurocêntrica e restrita".
Aguilar diz que a Inglaterra, no entanto, sempre foi mais aberta. E lembra as exposições pioneiras desses três artistas nas galerias Signals e Whitechapel, em Londres, nos anos 60.

Identidade


Tanya Barson tem uma interpretação diferente.

"Eu não diria que o mundo das artes britânico fosse tão iluminado a ponto de reconhecer a importância daquelas carreiras naquele período. A Tate, por exemplo, não comprou obras desses artistas, com exceção de uma, de Sérgio Camargo, naquela época".

"A situação é completamente diferente hoje e o mundo está reconhecendo quão imensamente significativa é a arte brasileira, tanto em termos de sua produção contemporânea quanto em sua história recente".

Ela cita como exemplo o trabalho do carioca Cildo Meireles.
"O trabalho dele tem substância, consistência e rigor intelectual e ele é um dos mais importantes artistas vivos. Estava mais do que na hora de ele ser tema de uma exposição de grande porte, como a feita pela Tate."

Barson fala com paixão da arte do Brasil, um país que ela visita regularmente porque, nas palavras dela, "a Tate não pode deixar de ficar atenta à produção de jovens artistas emergindo hoje no Brasil".

"Artistas brasileiros se relacionam com a arte moderna de uma maneira totalmente única, inovam e dialogam muito bem com arte européia e americana, mas fazem algo completamente distinto. Eles não só podem ser incorporados, como também desafiam o cânon da história da arte que contamos".

Hoje a Tate Modern tem em seu acervo obras de mais de 20 artistas brasileiros, entre eles Hélio Oiticica, Lygia Clark, Mira Schendel, Cildo Meireles, Ana Maria Pacheco, Vik Muniz, Adriana Varejão, Ernesto Neto, Fernanda Gomes, Sérgio Camargo e Leonílson.

Sem Consenso

Alguns, como a artista paulistana Mariannita Luzzati, são mais céticos em relação à posição da arte brasileira no mundo hoje.

Luzzati vive parte do tempo na Inglaterra e exibe seu trabalho regularmente no Brasil e no exterior. Ela é representada por galerias nos dois países. Em 2001, dois de seus quadros foram comprados pelo Museu Britânico, em Londres.
"Tenho certeza de que se tivesse nascido e estudado na Inglaterra, estaria melhor hoje do que sendo brasileira na Inglaterra", ela disse à BBC Brasil.

A artista disse ter observado um interesse um pouco maior por parte da Tate em adquirir alguns artistas brasileiros, mas acha que, quando se trata de competir no mercado internacional, a arte do Brasil ainda está "engatinhando".

Luzzati faz uma lista dos velhos problemas que afligem o setor: falta de investimento público na divulgação da arte brasileira no exterior, despreparo dos museus, e, também, o perfil do colecionador brasileiro.
"A maioria dos colecionadores no Brasil compra como um sinal de status e prefere o artista que está fazendo sucesso na Inglaterra ou nos Estados Unidos, porque ele dá mais status do que o brasileiro".

"Eu espero que o Brasil seja a bola da vez, que a arte brasileira estoure como estourou a arte chinesa, mas no caso da China, antes do investimento estrangeiro, houve milhares de colecionadores chineses investindo em chineses".

Números


Se nos basearmos em números, a idéia de que o Brasil seja mesmo a bola da vez no mercado internacional de arte se torna um sonho distante: as obras brasileiras ainda não atingiram os valores milionários alcançados por trabalhos de pesos pesados da arte contemporânea mundial.

Para a diretora da SP Arte Fernanda Feitosa, isso pode na verdade aumentar os atrativos da arte brasileira.
"Um quadro da Beatriz Milhazes aqui na feira estava sendo vendido por US$ 500 mil", disse Fernanda Feitosa, diretora da SP Arte, à BBC Brasil. "Um Cildo Meireles não custa a mesma coisa que um artista comparável a ele no mercado internacional. Então ainda existe muito espaço para uma valorização da arte brasileira. Você não está comprando no topo".

Uma pessoa poderia talvez ajudar a fechar esse debate mas, famosamente, não dá entrevistas.
Apesar de várias solicitações da BBC Brasil, o lendário galerista e investidor britânico Jay Joplin não estava disponível para explicar o que foi fazer no Brasil em abril deste ano.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Instalação imita buraco negro na Tate Modern

Câmara de 30 metros de artista polonês Miroslaw Balka cria enorme espaço de escuridão


Exibição da câmara vai até o dia 5 de abril de 2010 no Tate Modern

Exibição da câmara vai até o dia 5 de abril de 2010 no Tate Modern


A instalação "How It Is", (Como É, em tradução-livre) foi aberta ao público nesta terça-feira no museu Tate Modern, em Londres. A enorme instalação ocupa o Turbine Hall, o espaço de exposições na entrada do museu.

Ao entrar na enorme câmara de metal, que tem 30 metros de comprimento por 10 metros de largura, os visitantes têm a impressão de estar entrando em um buraco negro. "É tudo e nada, de certa forma", diz o artista polonês Miroslaw Balka, criador da obra. "Quando decidi fazer a escultura eu realmente não sabia sobre o que ela seria."

Segundo ele, seu trabalho é também sobre a sensação de se familiarizar com uma situação que no início parece estranha, mas que depois se torna normal, menos assustadora.

Ao entrar na escultura, o visitante, que não enxerga quase nada, tem os outros sentidos aguçados, podendo prestar mais atenção no eco de seus passos ou na textura aveludada das paredes.

Os organizadores da exposição dizem que funcionários com lanternas irão patrulhar a escultura para ajudar visitantes que possam entrar em pânico por cauda da escuridão.

Esta é a décima instalação anual da série Tate Unilever. Nos anos anteriores, as exposições incluíram uma enorme fenda, criada por Doris Salcedo e também uma série de slides gigantes do artista belga Carsten Holler. A instalação "How It Is" ficará em cartaz na Tate Modern até o dia 5 de abril de 2010.

GUGGENHEIM ANUNCIA FINALISTAS PARA HUGO BOSS PRIZE 2010



A Solomon R. Guggenheim Foundation selecionou os seis finalistas para o seu Hugo Boss Prize 2010. O prêmio de 100 mil dólares, oferecido a cada dois anos pela marca alemã de roupa masculina, é indicado a artistas que tenham realizado trabalhos de importante contribuição para a arte contemporânea.

Ao contrário de muitos prêmios artísticos, este não tem restrições de idade ou nacionalidade, os finalistas são frequentemente uma mistura de figuras internacionais, o que se verifica também este ano. “O fato de haver artistas do Oriente Médio e Ásia reflete como continuamos a aprender cada vez sobre arte por todo o mundo”, disse Nancy Spector, curatora chefe da fundação e presidente do júri – composto por seis pessoas.

A lista deste ano é uma lista ecléctica que se inclina fortemente para artistas conceituais e performaticos. Não inclui nenhum pintor. Os finalistas são o artista chinês Cao Fei; o artista alemão Hans-Peter Feldmann; a artista conceptual estabelecida em Berlim Natascha Sadr Haghighian, ; Roman Ondak, artista eslovaco que representou o seu país na Bienal de Veneza de 2009; o artista libanês Walid Raad; e o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Desde a sua criação em 1996, o Hugo Boss Prize foi atribuído ao artista americano Matthew Barney (1996), ao artista escocês Douglas Gordon (1998), a artista eslovena Marjetica Potrc (2000), ao artista francês Pierre Huyghe (2002), ao artista tailandês Rirkrit Tiravanija (2004), a artista britânica Tacita Dean (2006), e a artista palestina Emily Jacir (2008).

Disponível em: www.artforum.com

Veja abaixo imagens de obras dos finalistas de 2010:


Obra do artista Cao Fei


Obra do artista Hans-Peter Feldmann


Obra da artista Natascha Sadr Haghighian


Obra do artista Roman Ondak


Detalhe de uma obra de Walid Raad & Atlas Group




Trailer do filme Síndrome do Século do cineasta Apichatpong Weerasethakul



Ai Weiwei: Artista chinês questiona "cultura da desculpa" em Munique

fonte: DW-World

Ai Weiwei é considerado o principal artista chinês da atualidade. Nesta semana, foi aberta em Munique sua esperada mostra "So Sorry", em que denuncia o vazio de significado dos pedidos de desculpa de governos e empresas.

Weiwei pintou vasos neolíticos com tinta industrial

Na última documenta, Ai Weiwei levou 1.001 chineses a Kassel através do projeto Conto de Fadas. Os chineses fizeram parte da exposição e suas vivências, parte da arte. Foi o maior projeto já realizado para a documenta de Kassel.
Em sua nova exposição So Sorry (sinto muito), aberta ao público nesta segunda-feira (12/10) em Munique, Weiwei faz alusão a milhares de pedidos de desculpas apresentados por governos e empresas a fim de expressar seu pesar por tragédias e erros cometidos, sem a preocupação de admiti-los ou repará-los, explica o blog que acompanha a exposição.

Pedidos de desculpas estão nas manchetes de todos os lugares, inclusive da China, comenta o blog. No entanto, a expressão "desculpa" passou a ter um sentido de "estou pouco me lixando", sinalizando que já é tarde demais para reparar um erro. Será preciso desenvolver uma nova "cultura da desculpa" para expressar nosso pesar, questionam os organizadores da mostra.
Três anos se passaram desde o surgimento da ideia até a realização da exposição. "Nós temos que deixar um comentário sobre as coisas ruins no nosso mundo, senão nos tornamos parte delas", afirmou Weiwei na última sexta-feira. So Sorry poderá ser visitada até 17 de janeiro próximo no museu Haus der Kunst em Munique.

Recontextualizando objetos

Instalações 'Soft Ground' e 'Rooted Upon' em Munique

Na produção de suas obras, Weiwei frequentemente se apropria de objetos – antiguidades chinesas, por exemplo, árvores ancestrais, raízes ou artefatos espirituais – para então modificá-los.
Também em So Sorry diversos trabalhos explicitam a ideia de Ai Weiwei de destruir ou modificar o uso de antiguidades preciosas, recolocando-as em um contexto totalmente novo. Weiwei imergiu simplesmente cinco vasos neolíticos, produzidos entre 3000 a.C. e 5000 a.C, em tinta industrial para dar-lhes um visual de linha de produção. da mesma forma, destruiu urnas da Dinastia Han (cerca de 200 a.C-200 d.C), jogando-as sobre o calçamento de pedra.

Piso suave

Mochilas lembram mortos em terremoto

Além de conhecidos trabalhos que empregam diversas mídias, a exposição em Munique traz duas novas obras que Weiwei realizou exclusivamente para a Haus der Kunst. O tapete Soft Ground (piso suave) cobre 380 metros quadrados do espaço de exposição.

O padrão do tapete de lã reproduz fielmente as 989 pedras do piso original, sobre o qual o tapete foi posicionado – incluindo os traços deixados por 70 anos de exposições. Cada pedra foi fotografa e sua posição, registrada. O tapete foi tecido a mão na província chinesa de Hebei.
Sobre o tapete, Weiwei posicionou sua gigante instalação de troncos de árvores Rooted upon (enraizados acima), que o artista realizou recentemente.

Dando nome às vítimas

Weiwei foi operado em Munique após ser agredido pela polícia na China

Em Remembering (lembrando), outra instalação produzida especialmente para a exposição em Munique, 9 mil mochilas escolares em cinco diferentes cores foram penduradas na fachada do prédio da exposição em memória às vítimas do terremoto que abalou a província chinesa de Sichuan em 2008.
Os caracteres chineses resultantes da distribuição das mochilas na superfície de 100 x 10 metros da fachada formam a frase com a qual a mãe de uma das vítimas relembrou sua filha: "Durante sete anos, ela viveu feliz nesse mundo".

Com a ajuda de uma equipe de voluntários e contra a resistência do governo chinês, Ai Weiwei pesquisou os nomes das vítimas, entre elas 5 mil crianças em idade escolar, e os publicou em seu blog, que já foi bloqueado diversas vezes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"A arte nas feiras é fraudulenta", diz crítica americana


Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

No próximo dia 15, o circuito internacional do mundo das artes migra para Londres, onde ocorre a feira de arte Frieze, considerada uma das três mais importantes do planeta, junto com Art Basel, na Suíça, e Art Basel - Miami Beach, nos EUA.

Com 150 expositores, cinco deles brasileiros (Fortes Vilaça, Casa Triângulo, Gentil Carioca, Luisa Strina e Vermelho), o que se vê nelas, segundo a crítica americana Rosalind Krauss é, simplesmente, uma "fraude".

Feira Frieze, em Londres, no ano passado

"Eu acredito que a arte promovida nas feiras de arte internacionais é fraudulenta", escreveu à Folha Krauss, que irá abrir, no próximo dia 25, o 3º Simpósio de Arte Contemporânea do Paço das Artes. Ela ministrará a palestra "Reconfigurações no Sistema da Arte Contemporânea". Ainda há vagas para o simpósio.

Há exatos 30 anos, Krauss, 67, publicava um dos mais célebres ensaios sobre arte contemporânea, "A Escultura no Campo Expandido", na revista "October", que ajudara a fundar, em 1976, após ter se firmado como crítica na "Artforum".

No texto, a autora apontava para uma nova forma de realização escultórica para além dos parâmetros modernistas, ruptura histórica que teria sido feita por artistas como Robert Morris, Robert Smithson, Richard Serra, Walter De Maria e Bruce Nauman, entre outros.

No Brasil, a autora, que é professora da Universidade Columbia, em Nova York, desde 1992, tem publicado os livros "O Fotográfico", "Caminhos da Escultura Moderna" e "Papéis de Picasso".

Sua produção mais recente, contudo, de 2004, a antologia "Art Since 1900" (arte desde 1900), realizada em conjunto com Hal Foster, Yve-Alain Bois e Benjamin Buchloh, ainda não foi traduzida. Ao rever a história da arte no século 20, o livro tem o feito inédito de acrescentar os brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark como protagonistas da cena artística.

Curiosamente, no entanto, Krauss não considera familiar a produção nacional: "Estou ansiosa com minha visita como uma oportunidade em conhecê-la", relatou ela.

Na troca de e-mails com a reportagem, Krauss, que também atua como curadora, contou que a influência do mercado na produção contemporânea será o tema central de sua conferência. Condena as feiras, pois "são puro espetáculo, envolvendo o observador com uma atmosfera sedutora sem demandar atenção ou trabalho por parte do visitante para analisar a habilidade que um trabalho tem em criar significados".

As críticas da norte-americana não se restringem às feiras mas também às "instalações", como são chamadas obras imersivas, onde o público participa de forma coletiva, defendidas pela estética relacional, conceito criado pelo curador francês Nicolas Bourriaud.

"Ao se mover da experiência privada de um trabalho para uma coletiva, a estética relacional simplesmente segue a análise de Marshall MacLuhan em "A Galáxia de Gutenberg", que descreve a superação da privacidade na leitura de um livro pela atividade coletiva de se assistir televisão, o que nós podemos chamar de espetáculo."

A espetacularização da arte, torna-se assim um dos temas que Krauss irá abordar no simpósio. No entanto, a crítica parafraseia Catherine David, curadora da 10ª Documenta, em Kassel, na Alemanha, para afirmar ainda que não crê "na pureza ou na oposição ontológica entre arte e mídia".

"Catherine disse que busca organizar mostras como se fossem filmes, e que quem ainda acredita no "cubo branco" é ingênuo ou estúpido", destaca Krauss. O "cubo branco" é uma expressão desenvolvida pelo crítico Brian O'Dogherty para a galeria, comercial ou de um museu, representar a garantia da autonomia de uma obra de arte, ou seja, sua total separação do mundo fora dele.

Finalmente, como alternativas oferecidas pela arte no início do século 21, Krauss conta que irá abordar o trabalho de artistas como o alemão nascido na República Tcheca Harun Farocki, o norte-americano Christian Marclay e o sul-africano William Kentridge, todos eles vinculados de certa forma ao cinema, e a francesa Sophie Calle, que recentemente mostrou sua instalação "Cuide de Você" em São Paulo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Panorama da Arte Brasileira 2009

Panorama da Arte Brasileira reúne estrangeiros neste ano

Segundo curador, exposição é 'da arte, não dos brasileiros'; Caetano Veloso e Niemeyer foram insipração

O Panorama da Arte Brasileira, realizado há 40 anos pelo MAM, reúne cerca de 30 artistas nesta edição. Mas, apesar da proposta de mostrar a produção nacional, apenas dois deles são brasileiros.
"O panorama é da arte e não dos artistas brasileiros", defende o curador Adriano Pedrosa. Entre os temas verde-amarelos que inspiraram os artistas internacionais estão referências a Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer. Um exemplo é a obra ‘Aqui Tudo Parece Que Ainda é Construção e Já é Ruína’, do britânico Cerith Wyn Evans, feita a partir da canção ‘Fora da Ordem’, de Caetano Veloso. A frase é escrita com fogos de artifícios queimados. O nome da edição 2009, ‘Mamõyguara Opá Mamõ Pupé’, significa, em tupi, ‘estrangeiros em todo lugar’. Bem apropriado.

SERVIÇO


MAM - Parque do Ibirapuera
Onde: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 3. Tel: 5085-1300
Quando: A partir de domingo, 4, até 20/12. Das 10h às 17h30. Fecha às segundas-feiras
Quanto: R$ 5,50. Grátis aos domingos