segunda-feira, 8 de março de 2010

Fundação já possui verba para Bienal deste ano

Não se ouviu o espocar de rolha saltando de uma garrafa de champanhe, mas o clima da reunião da diretoria da Fundação Bienal de São Paulo, na última segunda, era próximo à felicidade entorpecente provocada pelo espumante francês.

Nela, Heitor Martins, presidente da instituição, anunciou que já havia captado R$ 23 milhões para a organização da 29ª Bienal de São Paulo, com inauguração prevista para 21 de setembro, quando a estimativa mínima para o evento era R$ 20 milhões. Só em caixa, Martins já conta com R$ 11 milhões, o equivalente ao que foi gasto na última edição, em 2008, a chamada "Bienal do Vazio", que deixou um rombo de mais de R$ 4 milhões, também já pagos pela nova direção.

Essa situação rompe uma histórica crise, que teve início em 2000, quando a Bienal passou a ter dificuldades de captação e levou Ivo Mesquita a renunciar ao cargo de curador, quando se propôs o adiamento do evento. "A Bienal nunca se recuperou daquele choque. Creio que as últimas duas edições foram interessantes, mas não se comparam às anteriores", diz o curador costarriquense Jens Hoffmann, que dirige o Instituto de Arte Contemporânea Wattis, em São Francisco, e pretende visitar também a próxima edição.

Outros curadores estrangeiros, que não visitaram a última edição, como Agustín Perez Rubio, do Museu de Arte Contemporânea de Leon (Espanha), estão comprando suas passagens para SP. "Curadores como Chus Martínez e Yuko Hasegawa ajudam a dar prestígio à nova Bienal", diz Rubio.

Retomada

Assim, ao que tudo indica, é o momento da retomada da Bienal. "Creio que nos últimos anos, a Fundação era mais hermética, e nós conseguimos nos aproximar mais da sociedade, pois temos um projeto bem estruturado e estamos fazendo um esforço de comunicação", diz Martins, à Folha, que espera chegar aos R$ 30 milhões, valor considerado como ideal para organizar a 29ª Bienal.

Itaú Unibanco, Fiat, Oi, Deutsche Bank, Votorantim e Klabin são algumas das empresas que estão investindo na Bienal, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, revertendo o perfil da última década, marcada basicamente por investimento direto da União, um dos fatores que gerava atrasos. "Conseguindo endosso do patrocinador, criamos um engajamento e um maior controle de qualidade. Nossa perspectiva é criar agora vínculos de longo prazo", explica Martins. Pode parecer incrível, mas até agora a Bienal sequer tinha uma setor de captação. "Nós revertemos o perfil da Fundação, que até agora tinha mais funcionários envolvidos com funções administrativas do que com a preparação da própria Bienal", conta o presidente. Assim, foi terceirizada, por exemplo, a contabilidade e criadas três novas áreas, captação, design e relações institucionais, além de ter reforçada a produção. "Creio que tudo isso está sendo possível, pois a instituição nunca teve uma diretoria como essa, com perfis muito distintos. Temos advogados, financistas, professores e até organizadores de outras bienais. Posso ser o que mais aparece, mas não sou o que mais trabalha", diz Martins.

Apoio

O clima de otimismo, não vem só do parque Ibirapuera. Desde que foi lançado candidato a presidente, numa situação de vácuo enquanto a Bienal se afundava em dívidas, Martins já tinha o apoio das entidades culturais da cidade. "Nós o apoiamos, pois ele tinha uma história de relação com a arte contemporânea e acredito que fazia parte do projeto dele o contato com as outras entidades", conta Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado.

Essa mobilização inicial, concretizada numa carta de apoio, foi motivada pelo Ministério Público (MP), que chegou a indeferir a posse de Martins, já que sua mulher, Fernanda Feitosa, promove a SP Arte no prédio da Bienal. Mas o MP voltou atrás, após a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que proíbe ingerências de Martins no contrato de Feitosa com a Bienal.

Reunidas agora no "São Paulo Polo de Arte Contemporânea", um fórum que visa programar as atividades paulistanas durante a Bienal, as instituições museológicas da cidade, cujas reuniões contam até com o secretário estadual de Cultura, João Sayad, recolocam a instituição como figura central na cultura visual da cidade.

Em algumas edições recentes, é bom que se lembre, as mostras paralelas eram mais elogiadas do que a própria Bienal. "A Bienal agora tem a capacidade ser novamente o polo articulador dessa ação", diz Araújo.

FABIO CYPRIANO da Folha de S.Paulo

Galeria expõe obras de artista vetadas por família de Oiticica


Um dos artistas selecionados para o polêmico Panorama da Arte Brasileira "sem brasileiros", com curadoria de Adriano Pedrosa, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no ano passado, não mostrou as obras previstas para a mostra.

Obra de Jorge Pedro Núñez que se assemelha aos trabalhos de Hélio Oiticica

O venezuelano Jorge Pedro Núñez apresentaria colagens e fotomontagens que se apropriam de trabalhos de Hélio Oiticica (1937-1980), como os Metaesquemas e as Cosmococas, mas a família de Oiticica não autorizou sua apresentação por considerá-los plágio.

O MAM optou então por não comprar uma briga. No catálogo da mostra, contudo, estará a carta em que Núñez tentou convencer, em vão, os Oiticica a autorizar a exibição. As obras "não autorizadas", além de várias outras que se apropriam de outros artistas, como os quadrados de Josef Albers, estarão expostas, a partir de amanhã, na galeria Luisa Strina.

Apropriação é uma das modalidades mais praticadas na produção contemporânea. Ela pode ser vista nas colagens e gravuras de Rauschenberg, até recentemente em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, e mesmo no trabalho de Oiticica, que para criar suas Cosmococas utilizava fotografias, capas de discos, jornais e livros, como "Notations", de John Cage.

Em sua carta, Núñez explica que se trata de uma "homenagem" ao artista e que sua série de Cosmococas foi feita a partir do catálogo "Quasicinemas", da retrospectiva de Hélio Oiticica organizada pelo argentino Carlos Basualdo no New Museum, em Nova York. "Nem consultei a família Oiticica porque acho que esses trabalhos não têm nada a ver com plágio", disse Luisa Strina na montagem da mostra, anteontem. A Folha tentou falar com Cesar Oiticica, mas não obteve resposta. Além de Núñez, Strina apresenta também a série de 12 desenhos do argentino Matías Duville, "Esto Fue Otro Lugar".

Feitos em grande escala e apresentados no térreo da galeria, os desenhos lembram imagens de ficção científica criadas no início do século 20.

FABIO CYPRIANO da Folha de S.Paulo


MATIAS DUVILLE E JORGE PEDRO NÚÑEZ

Onde: Luisa Strina (r. Oscar Freire, 502; tel. 0/xx/11/3088-2471)

Quando: abertura amanhã, às 19h; de seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 10h às 17h; até 14/4

Quanto: grátis


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Adriano Pedrosa é anunciado como um dos curadores da próxima Bienal de Istambul

Adriano Pedrosa e Jens Hoffmann foram anunciados como sucessores do coletivo curatorial baseado em Zagreb WHW – What, How & for Whom, para serem curadores da 12ª edição da Bienal de Istambul. A bienal acontece entre os dias 17 de Setembro e 13 de Novembro de 2011.

Adriano Pedrosa, nascido em 1965 no Rio de Janeiro, vive e trabalha atualmente em São Paulo como curador, editor e escritor independente. É autor de inúmeras publicações internacionais e foi o curador no Museu de Arte da Pampulha em Belo Horizonte - MG (2001-2003); InSite_05, San Diego/Tijuana (2005); foi co-curador e co-editor nas publicações da 27ª Bienal de São Paulo (2006). Atualmente ele está no quadro editorial do The Exhibicionist: A Journal for Exhibition Making e é o diretor e fundador do Programa Independente da Escola São Paulo.

Jens Hoffmann, nascido em 1974 em San José, Costa Rica, é o diretor do CCA Watts Institute of Contemporary Art em San Francisco. Hoffmann trabalhou em várias das melhores instituições de arte do mundo, incluindo o Solomon R. Guggenheim Museum e o DIA Center for the Arts, ambos em Nova Iorque; o Kölnischer Kunstverein, em Colonia e o York and Kunst-Werke, em Berlim. Foi diretor do Institute for Contemporary Art London de 2003 a 2007. Hoffmann é o diretor fundador do The Exhibicionist: A Journal for Exhibition Making .

Disponível em: www.flashartonline.com

Fundação Bienal vai divulgar arte do Brasil no exterior

Com convênio de R$ 1,8 mi com o MinC, instituição oferecerá editais para que artistas realizem residências, publiquem livros e participem de mostras fora do país 

A partir do próximo mês, a Fundação Bienal de São Paulo se transformará em uma agência de divulgação da arte brasileira no exterior.


No início de março, serão divulgados quatro editais que permitirão a concessão de verbas para artistas realizarem residências artísticas, participarem de mostras e publicarem livros com subsídios da Fundação, através de um convênio que foi firmado com o Ministério da Cultura (MinC).


"No ano passado, visitamos a Inglaterra, a França e a Espanha e conhecemos os órgãos daqueles países que fomentam a arte no exterior e achamos que esse tipo de ação tem a ver com a Bienal, que produz muitos vínculos entre a produção nacional e o exterior", diz Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal.


Segundo o diretor de estudos e políticas culturais do MinC, Afonso Luz, o convênio com a Bienal foi possível por conta da Portaria 61, assinada pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, em agosto de 2009, criada com "o objetivo de estabelecer instrumentos à internacionalização da arte contemporânea brasileira". "A Bienal foi a primeira entidade a apresentar uma proposta de convênio, mas iremos estabelecer outras parcerias", contou Luz à Folha.


No total, o MinC está repassando R$ 1,8 milhão à Fundação Bienal, que irá alocar, como contrapartida, mais R$ 200 mil para o projeto, sendo que o total deve ser gasto até o fim do ano. Serão disponibilizados prêmios de R$ 10 mil para que 50 artistas participem de mostras, R$ 12,5 mil para 15 residências artísticas e R$ 25 mil para apoio a 15 publicações em línguas estrangeiras.


As solicitações deverão ser feitas diretamente pelos artistas no site da Bienal, que também será lançado no próximo mês. O programa prevê ainda 20 prêmios de R$ 6,5 mil para textos acadêmicos que abordem arte contemporânea brasileira e economia da arte, além de três estudos a serem encaminhados ao MinC: o mercado de arte no exterior, a circulação de obras de arte e o regime tributário.


Com isso, a Fundação Bienal se torna uma espécie de Conselho Britânico, órgão público inglês que fomenta arte no exterior. E o que levou o MinC a terceirizar essa função? "Esse é um debate de uma década atrás. Se o setor público quiser fazer tudo sozinho, ele já não consegue. Parcerias são necessárias e a Bienal tem sido a ponta de lança da arte brasileira no exterior", afirma Luz.


Além de lançar esse novo programa, Martins comemora o pagamento de todas as dívidas da fundação, de cerca de R$ 4 milhões, além de ter R$ 9 milhões em caixa, com a garantia da captação de R$ 20 milhões, o que chegará perto dos R$ 30 milhões (orçamento da 29ª Bienal de São Paulo, programada para setembro).

FABIO CYPRIANO da Folha de S. Paulo

Crítica: Mostra revela importância de Matta-Clark




A Bienal de São Paulo tem sido responsável, desde sua origem, pela atualização do público na produção contemporânea, mas, como exposição de grande porte, raramente consegue se aprofundar nas poéticas individuais. Gordon Matta-Clark foi um dos pilares da 27ª Bienal, de 2006, mas só com "Desfazer o Espaço" será possível compreender de fato toda a sua importância. 


A atualidade de Matta-Clark está em discutir temas que seguem fundamentais na sociedade, como a ocupação de espaços públicos e privados, a alimentação e o pensamento ecológico por meio de obras que seguem com forte apelo visual. 


Expor artistas como Matta-Clark, com muitos trabalhos que dependem em grande parte de documentação, poderiam tornar a exposição enfadonha, mas não é o que ocorre.

As curadoras Gabriela Rangel e Tatiana Cuevas, na mostra organizada pelo Museu de Arte de Lima, optaram por um correto equilíbrio entre trabalhos e projetos, obras mais teatrais com outras que demandam maior atenção. De certa forma, isso se inspira no próprio artista, que apresentava muitas de suas ações na arquitetura por meio de colagens fotográficas, tirando do registro um mero caráter documental. 


A exposição traz muitas obras de Matta-Clark pouco conhecidas, como a série de desenhos "Árvore da Energia", que produz um intenso diálogo com o registro da performance "Tree Dance" (dança na árvore), de 1971, também na mostra. É nas intervenções arquitetônicas, contudo, que a mostra aponta de fato a relevância de Matta-Clark. Em Paris, Berlim e Nova York, suas ações repensaram edifícios icônicos, e seguem repercutindo nas novas gerações de artistas.

FABIO CYPRIANO da Folha de S. Paulo



SERVIÇO

GORDON MATTA-CLARK: DESFAZER O ESPAÇO

Quando: de ter. a dom., das 10h às 18h; até 4/4
Onde: Museu de Arte Moderna de São Paulo (pq. Ibirapuera, portão 3, tel. 00/xx/11/5085-1300)
Quanto: R$ 5,50; dom., grátis
Avaliação: ótimo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Exposição em Düsseldorf resgata trajetória de Robert Mapplethorp


Polêmica marcou o trabalho do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe. Espaço de exposições NRW-Forum em Düsseldorf organiza grande retrospectiva de sua obra, exibindo 150 fotos do artista.


Uma grande retrospectiva do trabalho de Robert Mapplethorpe poderá ser visitada a partir deste sábado (06/02) no espaço de exposições NWR-Forum em Düsseldorf.

As imagens do fotógrafo norte-americano voltam à Alemanha para contar a trajetória desse artista famoso por sua irreverência: são 150 fotos sobre nudez, homossexualidade, flores, imagens de esculturas e autoretratos.


Não é à toa que a exposição tem limite de idade – apenas maiores de 16 anos podem prestigiá-la. As lentes de Mapplethorpe sempre foram voltadas para nudez, atos sexuais e práticas sadomasoquistas.

Retrato de Arnold Schwarzenegger

O trabalho do fotógrafo, que faleceu em 1989, foi alvo de debates controversos, principalmente nos Estados Unidos. Suas exibições foram marcadas por boicotes, censura e já sofreram cancelamentos. "Eu olho para a perfeição da forma. Eu faço isso em retratos, em fotos de pênis, em fotos de flores", declarou Mapplethorpe.

Na Alemanha, as fotos do artista ajudaram a inspirar o movimento estético de gerações que cresceram nos anos 1980 e 1990. Na época, as fotos de Mapplethorpe eram vendidas como pôsteres e coladas em dormitórios estudantis.

Em Düsseldorf, a exposição abrange imagens captadas com Polaroids, em 1973, até autoretratos de 1988. A novidade é que a visita guiada da exposição será feita por celular, e os visitantes poderão deixar comentários gravados a custo de uma ligação local. Esses registros ajudarão a criar um espaço virtual de compreensão do trabalho de Robert Mapplethorpe.

Fonte: www.dw-world.de
Autora: Nádia Pontes
Revisão: Carlos Albuquerque

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

MAC não divulga mostra em cartaz no Ibirapuera

Está em cartaz no MAC-Ibirapuera (terceiro andar do pavilhão da Bienal) uma mostra com dezenas de obras de arte em guarda da instituição e provenientes de processos judiciais contra o extinto Banco Santos (do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira), contra o empresário Naji Nahas (apreendidos durante a operação Satiagraha) e contra o traficante colombiano Juan Carlos Abadia. Inexplicavelmente, o MAC não divulga a exposição sequer em seu site (www.mac.usp.br). A mostra merece uma visita, pois é possível notar nela a variedade de artistas modernos e contemporâneos, brasileiros (em sua grande maioria) e estrangeiros que fizeram parte das coleções do banqueiro, do empresário e do traficante, embora a instituição também omita nas legendas a qual das três coleções cada obra pertencia. Da mesma forma que o MAC não divulgou a exposição, não divulga a data de seu encerramento. O museu está aberto ao público de terça a domingo, das 10h às 18h.

www.mapadasartes.com.br

Bienal de SP: Reunião de cúpula


Num clima de encontro das Nações Unidas, curadores da 29ª Bienal de São Paulo debatem os rumos da mostra que começa em setembro, com a proposta de falar de política por meio da arte 

É denso o ar na sala. Estão sentados à mesa dois brasileiros, um angolano, uma espanhola, uma venezuelana, um sul-africano e uma japonesa. Discutem a ascensão do Brasil como potência global, a crise econômica que varreu o mundo, mudanças na noção de família e sexualidade, o desmanche das utopias modernas.



Não é uma reunião das Nações Unidas. É o terceiro andar do pavilhão da Bienal de São Paulo, que começa em setembro e vai encher o espaço desenhado por Oscar Niemeyer -com a proposta de falar de política por meio da arte.


Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, os brasileiros à frente da curadoria, estão reunidos nesta semana com seus convidados estrangeiros. A Folha acompanhou parte do encontro, que tem a missão de responder até amanhã as questões que vão nortear essa exposição.


De Londres, veio o sul-africano Sarat Maharaj. Fernando Alvim, angolano que mora na Bélgica, também veio. Chus Martínez, espanhola, e Rina Carvajal, venezuelana radicada nos EUA, formam o grupo hispânico. Yuko Hasegawa, do Japão, representa o Oriente.


"Temos pessoas muito polidas e bem informadas trabalhando juntas", resume Maharaj, que estudou numa universidade segregada, na era do apartheid, e já foi codiretor da Documenta de Kassel. "Estamos pensando a mostra como uma máquina de criar ideias, capaz de investigar o mundo."


Misturando heranças, eles jogam um xadrez geopolítico. Falam de arte carregando algumas bandeiras, já que têm os pés fincados em mais de uma pátria. Enquanto a chuva arrasa a cidade lá fora, um pavilhão imaculado aguarda as definições que sairão desse encontro.


Em parte, têm a missão de saturar o espaço monumental que ficou às mínguas na última edição da Bienal. No lugar de um andar vazio, aquele que foi pichado e virou emblema da derrocada da mostra, prometem 120 artistas divididos em seis núcleos internos e até 400 eventos paralelos nos três meses da exposição, que está orçada em cerca de R$ 30 milhões.


"É a abertura de novas frentes de pensamento", diz Moacir dos Anjos. "Vamos emoldurar os intervalos de pesquisa."


Agnaldo Farias acrescenta que essa será uma Bienal experimental, que tenta redefinir o papel do público numa exposição. "É criar um problema onde não havia", diz ele. "Nossa ideia é que certa opacidade do discurso é fundamental."


Sim, é vago. Até agora, pouco de concreto tem saído a público sobre essa Bienal. Estão confirmados os nomes de artistas como Ai Weiwei, Steve McQueen, Chantal Akerman, Cildo Meireles, Nan Goldin, Nuno Ramos, Flavio de Carvalho, Anri Sala, Harun Farocki. Também se sabe que será uma mostra sobre arte e política.



Texturas do político


"Não estamos falando de ativismo, tem muitas texturas do político", diz Carvajal, do Museu de Arte de Miami. "A condição geopolítica do mundo hoje repercute na produção dos artistas, não será um apanhado histórico da violência."


Tanto que o apartheid, lembrança na vida de curadores como Maharaj e Alvim, ficou de fora. Artistas angolanos e sul-africanos que estarão na mostra, os mesmos que servirão de eixo central para a Trienal de Luanda, evento que começa em setembro na capital angolana, são jovens que despontaram depois da segregação racial.


"Estão fazendo novos experimentos", diz Alvim, curador convidado em São Paulo e diretor da mostra angolana. "Essa é uma parte do mundo que passa por profundas transformações filosóficas e estéticas."


Do seu lado do globo, Hasegawa, diretora do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, enxerga na ascensão econômica da China uma chave de leitura para a transformação do papel da arte no Oriente. No lugar da estética histriônica, pop e inflada de artistas como Takashi Murakami, ela vê uma fusão entre criação visual e dinheiro.


"Acabou esse momento", diz Hasegawa. "Vivemos outro tipo de capitalismo, a arte é outro fenômeno cultural, está no meio de uma ventania que vem do mundo econômico."


São ares que sopram também no Brasil. São Paulo, como sede dessa Bienal, será o centro de um debate e vai ocupar um núcleo dentro do pavilhão. "Esse não é o Brasil do passado, esse é o Brasil perturbado, mexido", diz Maharaj. "É uma potência econômica e cultural."


Mais quieta, Chus Martínez, diretora do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, galega que quando jovem virou muçulmana para visitar o Irã, diz só que será uma Bienal para "repensar, reconstruir, aferir, calibrar, pesar o mundo".

SILAS MARTÍ da Folha de S. Paulo

Curadores da 29ª Bienal de SP debatem os rumos da mostra



Após mais de dez horas de debates, anteontem, com toda a equipe curatorial da 29ª Bienal de São Paulo, o curador geral da mostra, Moacir dos Anjos, e a espanhola Chuz Martinez, curadora assistente da mostra, além de curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, falaram por cerca de uma hora com a . Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Folha de S. Paulo- A diretora-geral da Documenta de Kassel, Carolyn Christov-Bakargiev, disse em entrevista à , que bienais são laboratórios, vocês concordam?

Chus Martínez - Durante os anos 1990, falava-se muito em laboratório de experimento, e é um termo muito usado, mas que ainda têm significado. Quando se fala de experimento, não quer dizer que não saiba o que se faz, de sorte que não se sabe e nem se queira saber o resultado exato de onde se quer chegar, mas que se joga com alguns parâmetros possíveis de controle para se estudar algo. Nesse sentido, a Bienal de São Paulo é ultraespecífica, o que significa muito, não só para as pessoas de São Paulo, como para todo o continente e o resto do mundo. É uma bienal que não possui só eventos, mas tem uma vida histórica que se repete, e de certa forma reverbera em cada uma de suas edições. É normal pensar que não é só um laboratório mas uma academia para expor, pensar e refletir como se constrói a história da arte no país, no continente latino-americano e como é a história da recepção entre os próprios países. É um lugar fundamental para estudar a produção artística, como se relaciona essa produção com sua própria história, e como sua história se relaciona com a produção de outros. Assim, é um momento fundamental de sincronização de muitas energias, maneiras de fazer, de um evento que vai muito mais além de um momento festivo, eu diria para todos, mas, sobretudo, para o continente. Nós, de fora, vemos isso com mais força, porque existe a Bienal de Veneza, a Carnegie International [nos EUA] e a Bienal de São Paulo e há poucas outras com essa história, além da Documenta, e todas refletem não o "branding" (a criação da marca) de uma cidade, como ocorreu nos anos 1990, mas uma história da vontade de uma comunidade artística em posicionar uma produção e pensá-la de forma sistemática. A cada dois anos, com isso, são criados pontos de encontro e por isso a possibilidade da Bienal de São Paulo desaparecer a foi um escândalo, já que ela representa muito mais que uma exposição.

- E o que será, então, a 29ª Bienal?
Moacir dos Anjos - Há vários aspectos em que a Bienal vai exercer esse papel de pensar as questões de um modo, como Chus falou, não de uma maneira anárquica, mas de uma maneira investigativa, um laboratório tem esse aspecto de investigar aquilo que não se sabe ainda exatamente o que é, mas que ainda assim é importante buscar.
O que temos trabalhado muito nesses dias é investigar novas formas de construir formas de relação entre o público e a obra. Outra questão que norteia nossas discussões é como pensar a arte internacional a partir de um país como o Brasil, que nesse momento passa por uma situação especial na geopolítica do mundo, em conjunção com uma série de outros países que também assumem papel crucial. E não é apenas uma mudança de forças geopolíticas, mas a emergência de forças que não atuavam, o que muda a equação e fazer uma exposição no Brasil, nesse momento, tem um significado especial.

- A casa de leilão Phillips de Pury vai organizar um leilão dedicado, pela primeira vez, apenas com obras de países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), em abril. É a essa nova cena que vocês se referem?

Dos Anjos - A definição do BRIC passa por outros fóruns que não é a da reflexão artística e nós não estamos, de forma alguma, amarrados a essa necessidade de afirmar um bloco formado por esses quatro países. Nosso papel, aliás, é desenhar outras possibilidades de associação.
Martínez - Não é uma questão desde onde, mas de que falamos. Uma vez que se saiba o que se quer falar, ficará muito claro para quem. Não se busca primeiro as pessoas para se começa a conversar, mas primeiro é preciso ter algumas preocupações e então buscar parceiros para um diálogo sobre tais assuntos. Há muitas confusões, por um lado as pessoas estão cansadas de falar do mundo globalizado e da mundialização, mas, por outro, de formas mais raras e diferentes, se volta à noção de estado-nação e nacionalidades. E creio que a arte, se tem algo, é questionar essas noções estritamente políticas de fronteiras e separar realmente as perguntas e não os passaportes.

- Nesse sentido, depois de dois dias discutindo o projeto da Bienal, que perguntas vocês querem fazer?

Martínez - De forma geral, o interessante nessas reuniões é que as pessoas estão preocupadas em como se faz um projeto substantivo, em como se relaciona um projeto substantivo, que tenha significado para o momento em que se abra ao público, com a mesma história desse projeto. E, finalmente, como se reverbera o que se faz em São Paulo em outras comunidades fora da cidade. Nesse sentido, a discussão tem se focado em novas formas de falar, novas formas de investigar, novas formas de ser substantiva. Ter a coragem de, desde uma exposição, apelar a formas de investigação que vão além da arte de mostrar, mas que quer recorrer ao pensar, à escritura, à academia, à própria memória histórica. Nesse sentido é um dicionário de preocupações que não tem ainda nome e sobrenome, mas tem um itinerário sólido de que não seja apenas um evento.
Dos Anjos - Resumindo, uma questão fundamental que se quer fazer é qual a relevância de organizar a Bienal de São Paulo, hoje. Não é simplesmente organizar uma mostra, mas é algo além disso: criar uma forma de entendimento do mundo, uma forma de geração de conhecimento e afirmar a necessidade da arte para pensar o mundo. Essa é a ambição.
Martínez - É aproximar o público, qualquer que seja sua filiação, de moradores de rua a envolvidos na academia, familiarizando-os com os modos e métodos de trabalho dos artistas. Os artistas não apenas proporcionam uma imagem ou um resultado final, eles são agentes duplos, eles são dos poucos personagens que habitam muitos mundos e por conta dessa capacidade, eles são os melhores investigadores.

- Essa preocupação parece muito pedagógica, em aproximar a arte das pessoas, o que poderia parecer contraditório ao papel que vocês apontam para a Bienal que é fortalecer o meio artístico...

Martínez - Ao contrário, não precisamos aproximar a arte das pessoas, ela já está ai. Estamos em muitas crises, mas não nessa. Existe um entendimento tácito, não falado, não é preciso levar a arte às pessoas, a Bienal é um lugar de relações e a arte se ocupa de se aproximar das pessoas, não é preciso uma terceira mão que empurre, as próprias obras se aproximam. Mesmo na Espanha onde questiona a relação entre público e arte contemporânea, o museu [Macba] ganha visitantes o tempo todo e nós temos um dos programas mais duros e conceituais da Espanha e mesmo assim ganhamos gente. Há uma aproximação da obra, as pessoas pensam, o espectador é corresponsável no mundo em que vive. Nós não somos um "delivery service" (serviço de remessa).
Dos Anjos - Há duas coisas aí. A Bienal de São Paulo é profundamente exitosa, porque talvez seja a exposição mais visitada do planeta, com a exceção da última edição que é um caso à parte. Há uma participação intensa do público. Por outra lado, é preciso distinguir o projeto educativo, que é uma preocupação institucional, em potencializar essa exposição, a dar acesso ao máximo de participação do universo escolar, num país onde estudantes não têm acesso aos museus como a Bienal. Isso tudo não se confunde com o poder que a arte tem de comunicar, de falar da vida das pessoas, de criar uma forma de conhecimento que não se reduz a nenhuma outra forma.
Martínez - É preciso por na mesa que a arte, além de ter um componente estético, sempre é uma produção que pensa, que pensa através dos sentidos. E ao pensar através dos sentidos dos sentidos se produz um conhecimento que, atualmente, é fundamental para entender o mundo. E é ai que entra o público, porque em um mundo tão complexo, a complexidade da arte em lugar de ser um problema é onde as pessoas se sentem mais cômodas. O entusiasmo que se percebe no público da Bienal de São Paulo, e de qualquer tipo de público, é o entusiasmo de encontrar-se com uma realidade que não se parece e não mimetiza a sua própria e lhe dá capacidade de liberdade e pensamento que não existe no dia a dia.
Dos Anjos - Quando dizemos que estamos interessados na relação entre espectador e obra é porque a arte, o tempo todo, propõe novas formas de relação com o mundo e estamos interessados nessa relação produtiva, que gera conhecimento quando o público se depara com essas formas que não mimetizam o dia a dia. Nesse sentido que a arte é política.

- Como vocês vão repensar o pavilhão da Bienal?

Martínez - Dentro do pavilhão nós vamos criar outros seis pavilhões, a ser projetados por arquitetos e artistas, o que irá representar momentos de suspensão na mostra, onde será possível ver vídeos, performances, encontrar pessoas, para assim alterar o ritmo da visita. Interessa-nos muito criar formas distintas para a compreensão da mostra. Será como uma pele dentro de outra pele. Vão ser pausas produtivas.

- Vocês têm essa reunião agora e...

Dos Anjos - Novamente em maio, quando, creio, vamos ter uma clareza muito maior, inclusive em termos físicos, porque falamos fisicamente da Bienal, mas em termos abstratos, pois não temos a lista final dos artistas nem a lista de obras. Discutimos mais em termos de atmosfera, no sentido geral da exposição, mas é impossível saber com ela será concretamente, agora.

- E com tantos curadores, como a mostra deve ser organizar, vão existir curadorias específicas?

Dos Anjos - Não, a ideia é ter uma só exposição e não várias, nós somos um time. Por isso é tão prazeroso, mas ao mesmo tempo tão cansativo. Têm sido muito interessante as discussões, pois questões emergem e amadurecem, algumas são descartadas e outras adicionadas, até que exista uma plataforma partilhada de ideias e intenções que possam dar uma cara integrada à exposição.

- Até onde chegaram as discussões, o que se pode esperar da 29ª Bienal?

Martínez - É uma equipe que está tentando com muitas ambições que superam um passeio do que sucede na arte contemporânea, será algo além disso. Queremos convidar o espectador a participar de um panorama de perguntas que, creio que lhe vai interessar, porque têm a ver em como se educa o indivíduo contemporâneo, que posição tem o sujeito dentro do sistema de liberdade e coação, quais a relações possíveis entre os mil mundos que vivemos, desde o mundo cotidiano até o mundo que chega pela televisão, em todos os tipos de plano. Será um intento de engrandecer a experiência do espectador, de criar uma viagem mental que seja agradável. Será uma Bienal que terá muitas velocidades: quem quiser ver rápido poderá ver rápido, mas terá também muitas ferramentas para poder pensar mais.

FABIO CYPRIANO da de S.Paulo

Bienal de SP: Curadoria foca em lista de preocupações


Apenas daqui a três meses a 29ª Bienal de São Paulo deve ganhar contornos definidos.
Reunido durante essa semana, o time curatorial do evento está trabalhando em um "dicionário de preocupações", como define Chus Martínez, curadora convidada da mostra, além de curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona.

Será em maio, quando pela segunda vez todo o time estiver reunido, que se chegará ao formato final. "Falamos fisicamente da Bienal, mas em termos abstratos, pois não temos a lista final dos artistas nem a lista de obras. Discutimos mais em termos de atmosfera, no sentido geral da exposição, mas é impossível saber como ela será concretamente agora", disse o curador geral Moacir dos Anjos, anteontem, à Folha, acompanhado por Martínez.

De acordo com alguns verbetes do "dicionário de preocupações" que Martínez apresentou, o projeto é muito ambicioso. Segundo ela, algumas das questões trabalhadas são: como se educa o indivíduo contemporâneo; que posição tem o sujeito dentro do sistema de liberdade e coação; quais as relações possíveis entre os mil mundos que vivemos, desde o mundo cotidiano até o mundo que chega pela televisão.

Nesse sentido, a Bienal "Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar" certamente será um evento que irá tratar do mundo atual. "A arte, o tempo todo, propõe novas formas de relação com o mundo, e estamos interessados nessa relação produtiva, que gera conhecimento quando o público se depara com essas formas que não mimetizam o dia a dia", conta Dos Anjos.

O reposicionamento do Brasil dentro do sistema global e como pensar a arte a partir dele é outro verbete dos curadores.

Contudo nem tudo é abstração. Espacialmente, a 29ª Bienal deverá possuir vários ritmos, graças à criação de seis pavilhões dentro daquele projetado por Oscar Niemeyer.

Cada um deles será comissionado a um artista ou arquiteto, e eles funcionarão como pausas reflexivas dentro da mostra. Segundo Martínez, eles irão representar "momentos de suspensão da mostra, onde será possível ver vídeos, performances, encontrar pessoas, para alterar o ritmo da visita".

FABIO CYPRIANO da Folha de S. Paulo

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Artistas da próxima Bienal de São Paulo também destacam violência

Não é a primeira vez que Steve McQueen usa a violência como ponto de partida para uma obra. Em seu filme "Hunger", premiado há dois anos em Cannes, dramatizou a greve de fome de Bobby Sands, ativista do IRA, o Exército Republicano Irlandês, que morreu em protesto contra o governo de Margaret Thatcher nos anos 80.

Sem muitas palavras e com cenas que evocam o expressionismo agudo de um Francis Bacon, causa desconforto. Põe a miséria humana, o corpo que definha, no centro da ação.
Ainda inédito no Brasil, o longa pode ser exibido na próxima Bienal de São Paulo, junto de uma obra que McQueen ainda está produzindo para esta edição da mostra paulistana, que começa em setembro.

Violência e guerra também aparecem na obra de outros artistas já confirmados na Bienal de 2010. Harum Farocki, videoartista alemão, está de olho nos traumas de guerra dos soldados norte-americanos em combate no Oriente Médio.
José Antonio Vega Macotela expõe o sofrimento atrás das grades de um presídio na Cidade do México, trocando favores do lado de fora da prisão por obras feitas pelos detentos trancados em suas celas.

Na dimensão econômica do conflito, a cineasta belga Chantal Akerman vai explorar as origens da crise imobiliária que descambou para o colapso financeiro a partir do retrato de uma comunidade norte-americana, a parte pelo todo, que tenta entender como um lado desperta a ira do outro.

Folha de S. Paulo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

LIBIA CASTRO & ÓLAFUR ÓLAFSSON PARA VENEZA 2011

Depois da nomeação francesa de Christian Boltanski como artista representante do país na próxima Bienal de Veneza, é agora a vez do comitê da Islândia anunciar a nomeação da dupla espanhola-islandesa Libia Castro & Ólafur Ólafsson.

Os artistas trabalham em colaboração desde 1997, quando se conheceram, rapidamente chamando a atenção internacional. Em 2009 receberam o prestigiado prémio de arte holandês Prix de Rome pelo seu vídeo Lobbyists.

Video still from Lobbyists

A prática de Castro e Ólafsson envolve frequentemente uma investigação profunda no contexto social e político onde a sua obra é exposta, usando uma enorme variedade de mídias.

“Com Libia Castro e Ólafur Ólafsson, o pavilhão islandês em Veneza em 2011 vai apresentar um duo artístico que construiu um impressionante conjunto de exposições internacionais e uma prática individual envolvente que se destaca no mundo artístico atual”, afirma Christian Schoen, diretor do Centre for Icelandic Art e curador da Islândia das edições de 2007 e 2009 da Bienal de Veneza.

Disponível em: www.flashartonline.com

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Artistas retratam soldados que morreram no Iraque e no Afeganistão


Nos seis dias que passou numa base militar de Basra, no Iraque, Steve McQueen não teve acesso às linhas de combate. Ficou sozinho no quartel, à espera de notícias. Eram mortes que se amontoavam nas pilhas de estatísticas da presença britânica na guerra ao terror.

Estava lá a convite do governo, para produzir uma obra de arte que só ganhou formas em casa. Ele voltou a Londres disposto a dar rosto aos números anônimos que identificam os mortos em conflito. Britânico que estará na próxima Bienal de São Paulo, McQueen tenta há sete anos fazer circular no Reino Unido selos postais com as caras de homens e mulheres que perderam a vida.

Cartela de selos com o retrato de um dos soldados mortos em combate do artista Steve MacQueen

"Queria que todos no país participassem desse ato", conta o artista, em entrevista à Folha. "Teriam um abalo muito maior sobre a psique se vissem a cara desses soldados todo dia, quando pegassem suas cartas."

Isso não deu certo até agora. Mas "Queen and Country", que virou uma instalação com selos reunidos num grande gabinete, engrossa um movimento de artistas que tentam sublimar o anonimato das baixas de guerra por meio de retratos, filmes e fotografias.

Num eco distante do impacto provocado pela Guerra do Vietnã entre artistas dos anos 70, que turbinaram a linguagem da performance, conflitos ressurgem como motor potente por trás de uma nova arte política.
"As pessoas continuam usando o próprio corpo como arma", diz o artista. "Agora também usam esse corpo como protesto, é uma situação que não descarta a presença física e o uso dela para fazer guerra."

Suas cartelas de selos nunca enviados transitam por museus em gavetas de madeira. Quase 22 mil pessoas assinaram um manifesto pressionando o Royal Mail, o correio britânico, a adotar os selos, mas em vão. Enquanto isso, a National Portrait Gallery, em Londres, volta a exibir esses soldados numa exposição em março.

Desenhos

Vai disputar a atenção do público com rostos dos norte-americanos que morreram no Iraque e no Afeganistão. São desenhos da americana Emily Prince, agora na Saatchi Gallery, em Londres. Desde que estourou a guerra no Iraque, em 2003, ela visita sites com retratos dos mortos e refaz à mão contornos de suas caras.

Na série, espécie de performance obsessiva, Prince já retratou mais de 5.000 anônimos que encontrou on-line em páginas como Military City. "A questão era tornar mais real essas estatísticas", conta a artista em conversa com a Folha. "Ver a imagem de um desconhecido ainda é abstrato, mas é menos que números."

Um dos mais de 5.000 soldados mortos em combate desenhado por Emily Prince

Prince tenta aniquilar essa abstração. Encara cada retrato como cartografia da memória apagada por números e relatórios. Anula o que poderia ser só efeito retórico tentando construir o mais exato arquivo de desenhos, humanos, no lugar de fotos, maquinais.

"Desenho quase em tempo real, porque me irritam as ausências", diz Prince. "É um arquivo imperfeito, sei que nem todos eles estão ali, mas costumo voltar para ver se esqueci alguém."

Enquanto McQueen examina os desdobramentos do corpo como arma, Prince destrincha a natureza desse corpo. Enxerga o Exército como grande entidade anônima, de indivíduos com personalidades distintas engolidas no rolo compressor das táticas de guerra.

"Pensava no soldado como o garoto que já pagava de machão no colegial, mas agora vejo que são normais", diz Prince. "O Exército, como corpo, é capaz de cometer atrocidades, mas espero que entendam que há indivíduos ali, que não têm culpa."

Em Fort Hood, no Texas, a maior base militar dos Estados Unidos, esses garotos, com ou sem culpa, tentam garantir a individualidade. Embaixo dos uniformes, tatuam seus próprios medos, desejos, esperanças.

Uma documentarista de Austin viu no ritual pré-embarque um possível retrato da guerra. Passou três anos visitando um estúdio de tatuagem vizinho à base, entrevistando os soldados.

"Com a agulha cavando na pele, eles revelam coisas que não diriam numa entrevista comum", diz Nancy Schiesari, diretora de "Tattooed Under Fire" (tatuado sob fogo), que pode ser visto no YouTube. "É uma forma de arte: esses tatuadores canalizam os sentimentos dos soldados em desenhos que encaixam sobre os músculos."

Depois do corpo como arma e do corpo anônimo do Exército, Schiesari estuda o corpo ameaçado, tingido para a batalha. Um soldado mandou gravar o desenho de um feto numa jarra, outro fez uma caveira, mas o mais comum é fazerem o próprio nome, em partes do corpo que esperam ficarão intactas caso sejam mutilados.

SILAS MARTÍ da Folha de S.Paulo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A modernidade ocupa o mosteiro

Exposição reúne três artistas contemporâneos que dialogam com arquitetura românica do São Bento

Antonio Gonçalves Filho do Estadão

Alguém já disse que os intelectuais rejeitam a percepção porque esta leva a emoções profundas - para não dizer à espiritualidade, palavra que o dicionário da arte contemporânea parece ter expurgado. Pois foi justamente numa conversa entre intelectuais, o pintor Marco Giannotti e o monge Carlos Eduardo Uchôa, durante a exposição do primeiro no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em maio do ano passado, que o assunto arte e espiritualidade veio à tona. Presos a um esquema em que a arte ficou refém do mercado, ambos cogitaram a possibilidade de escapar dos cubos brancos das galerias para ganhar um espaço público pouco convencional. E nenhum lugar parecia mais adequado para discutir a relação arte e espiritualidade que um mosteiro. Até porque o monge artista Carlos Uchôa, autor de uma tese sobre Picasso, é beneditino, o de São Bento foi escolhido para abrigar uma exposição onde 16 salas são ocupadas por pinturas, fotos, vídeos e instalações dos dois artistas citados mais o parceiro da dupla, José Spaniol.

Projeto e intervenção contemplado com a verba de um programa do Iphan e patrocinado pela Petrobrás, a exposição Arte e Espiritualidade tem uma proposta ousada: a de dialogar com a arquitetura do mosteiro, um prédio construído no estilo românico das grandes abadias europeias e sufocado pela eclética arquitetura dos vizinhos no centro de São Paulo. Há na mostra desde pinturas de grandes dimensões, que representam temas como o das 14 estações da via-crúcis, executadas por Giannotti e Uchôa, até uma instalação de troncos de eucaliptos que representam o firmamento, passando por genuflexórios fixados de ponta-cabeça no teto dos parlatórios, que dão a eles um aspecto de cenário de um filme de William Friedkin - essas duas últimas obras assinadas por Spaniol. Há ainda lugar para fotografias líricas que evocam a espiritualidade por meio de sombras projetadas em piscinas e em rochas, ambas reveladoras das semelhanças da linguagem artística de Giannotti e Uchôa.

O monge, que mantém seu ateliê ao lado do mosteiro, observa que as suas não são obras de arte religiosa stricto sensu. Ele não se dedica a nenhum tipo de arte sacra, mas existe, segundo o artista, uma religiosidade que perpassa o trabalho. Uchôa, que pintou os passos da Paixão desafiado por Giannotti, realizou a série de 14 telas pensando nas estações como uma "experiência de passagem", em que as figuras surgem e desaparecem no quadro, provocando o olhar do espectador. Autor de pinturas claras, que usavam o branco com a liberdade de um Cy Twombly, nessa série proliferam os vermelhos, trazendo uma carga de violência ausente em seus trabalhos anteriores.

Uchôa vê na arte contemporânea - mesmo nas instalações escatológicas de Damien Hirst e nas mutilações de Marina Abramovic - uma certa espiritualidade resultante da experiência do sofrimento, da dor. Para Giannotti, a arte contemporânea não aboliu a espiritualidade, apenas mostrou que "a beleza não está mais no deleite da contemplação, mas no juízo de alguém que busca um mundo melhor". E lembra inúmeros exemplos de artistas que fizeram do credo de Kandinski - de que toda grande arte é espiritual - obras monumentais, como as capelas assinadas por Matisse, Rothko, Volpi e pelo arquiteto suíço Peter Zumthor, prêmio Pritzker de 2009.

Sobre o papel da espiritualidade na arte contemporânea, José Spaniol, evocando o exemplo do alemão Joseph Beuys, mostra como é possível tratar figuras da simbologia cristã fora da tradição sem ser ofensivo. Sua instalação Ascensão é simples: são armários suspensos por estacas de eucalipto. A verticalidade é intencional. Basta apenas olhar para o alto. É para lá que aponta sua arte.

Arte, espírito e a metrópole


No aniversário da cidade, o Mosteiro de São Bento abre suas portas pela primeira vez ao público para mostrar obras contemporâneas em seu prédio centenário


Antonio Gonçalves Filho do Estadão

A busca da espiritualidade entre artistas modernos e contemporâneos, de Kandinski a Bill Viola, quase sempre rendeu obras-primas que evocaram a tradição pictórica medieval, renascentista ou barroca, atualizaram a iconografia dos grandes mestres, reutilizaram seus temas ou simplesmente inauguraram um novo capítulo na história da arte. Os exemplos são inúmeros e incluem Matisse, Rothko e, mais recentemente, o pintor alemão Gerhard Richter, que assinou há três anos os novos vitrais da Catedral de Colônia, na Alemanha.


Marco histórico da tradição cristã em São Paulo, o Mosteiro de São Bento, fundado em 1598 e até hoje no mesmo lugar, no centro da cidade, abre pela primeira vez suas dependências para mostrar arte contemporânea ao grande público, graças à iniciativa de um monge pintor, um Andrei Rublev extemporâneo no mundo escatológico de Damien Hirst. O monge, também diretor da Faculdade São Bento, Carlos Eduardo Uchôa, comemora seus 14 anos de mosteiro inaugurando uma ambiciosa exposição ao lado de dois outros artistas paulistanos conhecidos, Marco Giannotti e José Spaniol, todos eles nascidos na década de 1960.

São 16 salas ocupadas por pinturas, fotografias, vídeos e instalações dos três artistas, que apresentam trabalhos individuais e outros concebidos em parceria. Dialogando com o prédio do mosteiro (que não é o original do século 16, mas um projeto do arquiteto alemão Richard Berndl realizado há exatamente um século, em 1910), algumas dessas obras foram concebidas especialmente para espaços reservadíssimos como o parlatório (onde os monges recebem visitas) e a capela privada dos religiosos, até então mantida longe dos olhos do público. Ela é invadida por imagens da cracolândia paulistana, filmadas pelo monge Carlos Eduardo Uchôa num dia de chuva, provocando um violento contraste entre a paz do mosteiro e o genocídio praticado na vizinhança pelos traficantes de crack.

São imagens fantasmagóricas de dependentes vistos ao longe e incorporados ao cenário da metrópole sob a chuva torrencial que tem castigado São Paulo nas últimas semanas. Dois pisos abaixo, outra instalação, projetada pela dupla Marco Giannotti e José Spaniol, faz o percurso inverso. No auditório do mosteiro, uma projeção em looping de velas queimando em tempo real revelam aos visitantes o que fazem, afinal, esses monges no centro de uma cidade deteriorada: oram pela sofrida comunidade da urbe.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Detanico e Lain fazem mapas das estrelas



Dupla constrói desenhos a partir de cartografia estelar em nova individual 



Galeria em SP também recebe instalações de Ana Maria Tavares e desenhos e fotografias de plantas da artista Gabriela Albergaria 



Estão na fachada da galeria o Sol e a Lua. Lá no alto, são traços dispostos em círculo. Não lembram a radiação solar, nem a luz do satélite. Detanico e Lain, dupla de artistas com mostra na Vermelho, preferem o silêncio à estridência. 


Voltam à investigação das constelações que marcou sua última exposição no espaço. Escreveram então os nomes das estrelas com os tipos de uma fonte que inventaram. Eram círculos semitransparentes, sobrepostos. Tinham na própria forma a coloração mais forte e mais fraca dos astros.


Detanico Lain - Constelações do alfabeto (2010) - detalhe


Agora os artistas tratam da expansão do universo. Pegam a fonte Univers, de letras fragmentadas, e estouram os retalhos, branco sobre preto. Na parede de uma sala, está essa espécie de Big Bang tipográfico. "É como se a gente tivesse explodido o nome da tipografia", descreve Angela Detanico. "Está escrito como se fosse uma enunciação literal do que ela é." 


Mas por mais que tenha a realidade crua como base, pouco parece literal na obra desses artistas. Usam o mesmo sistema de classificação das estrelas empregado por astrônomos, mas enxergam outra beleza nesse substrato científico. 
Ligam os pontos entre as letras gregas que representam as estrelas para soletrar no espaço branco do papel palavras como "simetria" e "hemisfério". São desenhos abstratos que surgem da disposição nada abstrata dos astros no firmamento. 
"Esse é um mapa real, uma cartografia real", diz Detanico. "O que a gente fez foi usar essa designação para criar um céu de letras e escrever palavras como se fossem constelações."


Estão dadas as coordenadas. Da mesma forma que destrincham os pixels de uma imagem ou desfazem e recombinam os elementos sonoros de uma gravação, Detanico e Lain traduzem mapas já existentes, sejam eles de cidades ou de estrelas. 
Lembram a tradição minimalista, de Donald Judd ou Sol Le Witt, com seus sistemas pré-determinados de linhas e pontos associados aos planos. Mas não herdam a pretensão de livrar a arte de certa obrigação formalista. Tentam explicitar a harmonia dos sistemas, apontando novas ordens possíveis. 



Outras paisagens


Também toma outro rumo a obra de Gabriela Albergaria. No anexo da Vermelho, ela revisita os jardins de Versalhes em fotografias e desenhos, completando a impressão fotográfica com traços a lápis. Exerce outro controle sobre a representação, da mesma forma que os franceses domavam a natureza em seus jardins calculados. 
No andar de baixo, Ana Maria Tavares suspende o Rio e outras paisagens em caixas de vidro, que remetem à transparência da obra arquitetônica de Lina Bo Bardi. 
(SILAS MARTÍ) 




SERVIÇO

DETANICO E LAIN

Quando: de ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h; até 20/2
Onde: galeria Vermelho (r. Minas Gerais, 350, tel. 3138-1520)
Quanto: entrada franca

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bienal terá Nuno, Nan Goldin e McQueen

Fotografia de Nan Goldin - Trabalho da norte-americana enfoca amizades, amores, solidão e fragilidade


A natureza política da arte volta ao centro do debate na 29ª Bienal de São Paulo, em setembro. Não aquela arte panfletária, dos significados unidimensionais, mas uma arte capaz de mudar o jeito como vemos e refletimos sobre a sociedade - sendo irrelevante, portanto, se ela trata de conflitos ou não e a forma como articula seu discurso.

Nisso, a nova mostra, renascida após a crise da Bienal do Vazio, é de certa forma uma antítese à exposição de 2006, cujo tema era Como Viver Junto. Aquela bienal buscou juntar ideias e procedimentos conectados de alguma forma com a arte produzida no mundo nos anos 70 - como a performance, o discurso ativista e o debate de temas "urgentes", como meio ambiente e neocolonialismo.

O Estado teve acesso com exclusividade a uma lista dos artistas mais importantes já definidos para a jornada (a lista completa só deve ser anunciada oficialmente em fevereiro). O choque de significado da exposição do curador-chefe Moacir dos Anjos é um leque amplo. Começa com a arte ativista do chinês Ai Weiwei, de 53 anos, nascido num campo de trabalhos forçados por ser filho de um "inimigo" da revolução cultural (o poeta Ai Qing). Espraia-se pelas jornadas fotográficas nos seios das comunidades gays e transexuais, filtradas pelo olhar da americana Nan Goldin, de 57 anos.

Outros nomes: a palestina Emily Jacir, de 40 anos, nascida em Bagdá, que junta fotografia, vídeo e performance; o britânico Jeremy Deller, ganhador de um prêmio Turner; a alemã Isa Genzken, que também trabalha com diversos suportes; o belga Francis Alys, que vai do texto à animação; o português Artur Barrio; e o paraibano Antonio Dias e a carioca Alice Miceli.

Uma estrela confirmada é o inglês Steve McQueen, de 41 anos (que representou a Inglaterra na Bienal de Veneza do ano passado), que vem com seus filmes em preto e branco influenciados pela nouvelle vague e por Andy Warhol, e nos quais ele é geralmente um protagonista.

Cildo Meireles, nome fundamental da arte contemporânea, volta à mostra. Em 2006, o artista plástico Cildo Meireles tinha ameaçado deixar a Bienal de São Paulo caso o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira continuasse no conselho da fundação Bienal. Ferreira foi afastado, mas já não havia tempo para Meireles enviar uma obra. Na época, ele estava com o plano de fazer a instalação Homeless Home (já montada na Bienal da Turquia, em 2003, e cuja origem era um desenho de 1968).

Homeless Home, prevista para ser montada no centro das cidades, volta a ser o foco em São Paulo. Recentemente, Cildo, comparando seu desenho de décadas atrás aos de hoje, observou que o que antes era "sofrimento, crônica social, política e catarse" cedeu lugar à "poesia", mas ressalta que muitas das preocupações que aborda nos "não-desenhos" já apareciam nos desenhos.

Outro nome essencial das grandes exposições nacionais é Nuno Ramos, que volta às mostras de arte após ganhar o Prêmio Portugal Telecom de Literatura com a obra Ó. Ramos tenciona mostrar, no vão central do prédio da Bienal, uma versão expandida de um trabalho com urubus que apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil do Distrito Federal. Aquele trabalho do CCBB era intitulado Bandeira Branca, e consistia em uma instalação com três urubus entre caixas acústicas de vidro e três túmulos de areia socada cobertos com pedras negras (homenagem a Goeldi).

A 29ª Bienal está marcada para ocorrer entre 21 de setembro e 12 de dezembro. Além de Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, curadores-chefes, haverá curadores convidados. Eles são a espanhola Rina Carvajal, do Miami Art Museum; o sul-africano Sarat Maharaj, que vive em Londres, onde é professor na Universidade Goldsmiths, e também nas universidade de Lund e Malmo, na Suécia; como assistentes, o angolano Fernando Alvim, que dirige A Trienal de Arte de Luanda; a japonesa Yuko Hasegawa, do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio; e a espanhola Chus Martinez, curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. O presidente da instituição, Heitor Martins, estimou o custo da mostra em cerca de R$ 30 milhões.


Confirmados

Ai Weiwei, artista chinês

Alice Miceli, artista carioca

Antonio Dias, artista paraibano

Artur Barrio, artista português

Cildo Meireles, artista carioca

Emily Jacir, artista iraquiana

Flavio de Carvalho, artista carioca da geração modernista

Francis Alys, artista belga

Isa Genzken, artista alemã

Jeremy Deller, artista britânico

Livio Tragtenberg, compositor e músico paulistano

Nan Goldin, artista norte-americana

Nuno Ramos, artista paulistano

Steve McQueen, artista britânico



por Jotabê Medeiros do Estadão

DOCUMENTA DE KASSEL 2012


por FABIO CYPRIANO da Folha de S.Paulo


Diretora da próxima edição da Documenta conta como elabora a mostra

Desde 1972, a Documenta de Kassel é considerada a mais importante mostra de arte contemporânea. Uma das razões para tanto é que seus diretores têm cerca de quatro anos para organizá-la e, como diz a norte-americana Carolyn Christov-Bakargiev, em tom metafórico, "certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos".

Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da Documenta de 2012

Indicada para diretora artística da Documenta, em dezembro de 2008, por comitê que contou com o brasileiro Paulo Herkenhoff e que teve como finalista Lisette Lagnado, Christov-Bakargiev, 52, ainda está na fase inicial da pesquisa. "Eu queria ter ido ao Brasil, em 2009, ver o Panorama [no Museu de Arte Moderna], do Adriano Pedrosa, mas, como só me desliguei do museu Castello di Rivoli [em Turim], em dezembro, acabei não conseguindo. Mas certamente irei agora em 2010, pois estou criando uma rede, e o país está em minha rota", contou à Folha, por telefone.

"Eu nunca gostei de trabalhar sozinha, eu gosto de colaborações, de pingue-pongue com muita gente. Foi assim que fiz a Bienal de Sydney e a Trienal de Torino", afirma a curadora. Christov-Bakargiev esteve no Brasil quando organizou a Bienal de Sydney, na Austrália, em 2008, e daqui levou quatro artistas para a exposição: Anna Maria Maiolino, Marcellvs L., Hélio Oiticica e Renata Lucas --que já foi convidada para a Documenta, segundo curadores próximos à norte-americana.

Ainda sem um projeto final, já que a mostra se realiza apenas em 2012, Christov-Bakargiev pretende manter algumas das marcas das últimas Documentas, entre elas descentralizar a arte ocidental, como afirma na entrevista abaixo.

Para ser selecionada como diretora artística você precisou elaborar um projeto?
 Carolyn Christov-Bakargiev - Não foi exatamente um projeto. O comitê de seleção me contatou e, para ser aceita como candidata, precisei responder a três questões. A primeira foi para que serve a Documenta e qual é o seu papel; depois, qual é minha metodologia -o que foi muito interessante, pois, estranhamente, nunca pensei nisso, e foi um exercício de autorreflexão. E, finalmente, o que é necessário -uma questão também interessante, porque, afinal, o que se pode dizer que é necessário? Mesmo a vida pode não ser necessária e, então, mudei [a questão] para o que se pode fazer.

Então, o que se pode fazer?
 Christov-Bakargiev - Bom, isso muda com o tempo, mas, basicamente, creio que a Documenta se transformou num estado da mente na paisagem contemporânea, tanto no mundo da arte como além dele. Creio que tenha se tornado um estado mental, pois nela se pode pensar no papel da cultura no mundo. Mas isso eu escrevi há mais de um ano e, talvez, eu mesma já tenha mudado de opinião (risos). Certo é que o mundo se transformou de maneira dramática e radical desde 1955. Hoje, como se sabe, é muito diferente, a arte se tornou popular -o que não era nem mesmo nos anos 1970, quando Harald Szeemann fez a Documenta. Assim, ela sempre esteve vinculada a esse desejo de uma consciência coletiva e, por outro lado, tem sido espaço para debater sobre o alto modernismo e os tempos pós-coloniais, uma negociação durante a globalização.

Mas qual é a diferença entre a Documenta e as bienais e feiras de arte?
 Christov-Bakargiev - As bienais, que hoje chegam a 154 em todo o mundo, possuem uma certa independência territorial e independência enquanto laboratórios de experimentação para novas praticas artísticas e novos modelos de sociedade. Já as feiras de arte, assim como o mercado da arte, não são experimentais e transferem para um objeto artístico um tipo de investimento simbólico de marcas imateriais. Como vivemos numa sociedade de marcas imateriais, que é o mundo digital, de repente as obras de arte são o mais importante produto da sociedade, pois são a materialização de marcas imateriais.
Além desses dois mundos, existe a Documenta, e o que a caracteriza é que ela ocorre a cada cinco anos --e esse tempo a transforma num dinossauro muito lento. Alguém me disse que deveríamos chamá-la de "ela já está atrasada", o que eu não vou fazer, mas, se pensamos no conceito de "inatualidade suprema", como tantos filósofos exploraram na importância de não se estar em dia, isso dá à Documenta um desafio, que é ter outro tempo. Certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos, é preciso um longo tempo para se estudar o comportamento de um animal, por exemplo.

E como você a vê até agora?
 Christov-Bakargiev - É uma exposição no centro da Europa, e sou consciente de que isso gera um problema duplo. Por um lado, defendo que toda exposição seja muito baseada no local onde ocorre, pois acredito que a verdadeira experiência da arte tem a ver com o corpo e, portanto, deve ter uma relação com o espaço onde acontece.
A Documenta não pode se fechar nela mesma, pois o incrível movimento que fez com Catherine David (1997) e com Okwui Envezor (2002) foi ajudar a descentralização da arte ocidental e ver a impossibilidade de pensar através de formas que não sejam complexas ou rizomáticas.
Seria absurdo isolar Kassel, sem se descentralizar demais, senão seria uma nova forma de neocolonialismo, o que também seria absurdo. Assim, eu não lhe contei o que vou fazer, mas os problemas com os quais me confronto.

Mostra se fortaleceu nos anos 70

A Documenta de Kassel foi criada em 1955, por Arnold Bode, para reintroduzir a arte moderna na Alemanha, perseguida durante o nazismo e considerada "arte degenerada" -o que chegou a ser o título de uma mostra apoiada por Hitler.
Assim, desde seu início, a Documenta -que começou a ser realizada com periodicidade irregular, mas em 1972 passou a ser organizada a cada cinco anos- teve uma visão internacionalista, contra o fechamento do nazismo.
Em 1972, sob orientação do suíço Harald Szeemann, que a mostra ganhou repercussão internacional, abrigando artistas do grupo Fluxus e da performance e valorizando a função crítica da arte. Desde então, é tida como a mais importante mostra de arte contemporânea.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bienal de Veneza 2011


BOLTANSKI REPRESENTARÁ A FRANÇA NA BIENAL

A França anuncia a sua presença na Bienal de Veneza de 2011, tendo Christian Boltanski como artista representante do pavilhão do país, com curadoria de Jean-Hubert Martin, antigo diretor do Centro Georges Pompidou de Paris.

Boltanski é especialmente conhecido pelas suas instalações evocativas de imagens de crianças, frequentemente ligadas à memória e ao Holocausto. Boltanski é também pintor e escultor.

ENTREVISTA: PAULO SERGIO DUARTE

por MARCOS AUGUSTO GONÇALVES da Folha de S. Paulo

Situação de museus de arte no país é deplorável

Para crítico e curador, políticas do Estado brasileiro "refletem estatuto da arte na consciência da elite, que é inexistente"

CRÍTICO, CURADOR e professor de história da arte, Paulo Sergio Duarte cita o abandono do Museu de Brasília como exemplo da indigência das políticas públicas em relação ao setor e diz que o Instituto Brasileiro de Museus é só "um escritório com diretoria e alguns assessores". Ele vê os museus como "instrumentos indispensáveis para qualquer sistema educacional que se preze" e advoga interação entre essas instituições e universidades.


Pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio, Duarte, foi curador da 5ª Bienal do Mercosul (2005) e do Projeto Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, no ano passado. Ele cobra do governo Lula a definição de prioridades e defende que os museus federais sejam centros de excelência e formação técnica. Quanto às mudanças na Lei Rouanet, propõe tratamento especial para investimentos em aquisição de acervos e infraestrutura de museus -hoje preteridos em favor do patrocínio de exposições temporárias.

Qual é a situação da rede de museus do país?
PAULO SÉRGIO DUARTE - É preciso lembrar logo que só vamos falar de museu de arte, a cultura em tão elevado estado de condensação que nós não chamamos de cultura, mas de arte. No caso desses museus, a situação é deplorável. Existem ilhas razoáveis que estão longe de dar um bom panorama histórico da arte no país.

Qual é a responsabilidade do governo nessa situação?
DUARTE - Não é um problema só de governo, este ou passados. A política cultural do Estado reflete o estatuto da arte na consciência da elite brasileira. E esse lugar simplesmente não existe, com raríssimas exceções. Repetindo o que digo há 30 anos: percorrendo, em qualquer uma das duas maiores cidades do país, todos os seus museus, é impossível para um professor dar um curso digno da história da arte do século 20.
Tenho insistido sobre o fato de que neste ano Brasília completa 50 anos. Onde está seu museu de arte? No antigo Clube das Forças Armadas, depois cedido para o Casarão do Samba, e posteriormente transformado no museu de arte. Está lá num prédio interditado, cercado por hotéis de arquitetura pífia. Até aqui, este é o lugar do museu na capital da nação. Eu defendo que se faça um concurso internacional para este museu, como foi feito no Rio para o Museu da Imagem e do Som.

Isso é simbólico quanto à importância que o poder público confere à arte?
DUARTE - Isto não acontece por mero acaso no país no qual sobra dinheiro para malas em automóveis e aviões de pastores evangélicos, fraldas de dólares debaixo das calças de cabos eleitorais e até nas meias de deputados. Qual pode ser o estatuto da arte nesse lugar? Como acreditar que a arte é um conhecimento específico, muito importante para compensar os efeitos da indústria cultural, e formar um olhar crítico no cidadão se, na capital do país, é tratada de modo tão lamentável?

Como você vê a atuação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado pelo governo?
DUARTE - Por enquanto, é um escritório com uma diretoria e alguns assessores.

Como ele deveria se estruturar?
DUARTE - Os museus são, antes de tudo, equipamentos necessários à formação de cidadania e um instrumento indispensável de qualquer sistema educacional que se preze. Com as tarefas enormes e com o alarme de emergências tocando todo dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, não pode dar a devida prioridade aos museus.
Parodiando Carl von Clausewitz, na sua frase que já se tornou clichê: os museus são importantes demais para ficar nas mãos de museólogos. Os acordos e convênios com universidades e institutos de ensino e pesquisa nas diversas regiões do país poupariam da inchação o quadro de pessoal do Ibram.
Acredito que, para o primeiro mandato do presidente Lula, estava correta a política do Ministério da Cultura de prospecção do campo realizada pelas consultas a câmaras setoriais, reuniões e estímulos à participação. Mas já é tempo de ter focos precisos, prioridades de efeitos multiplicadores. Acima de tudo, as instituições federais têm de ser centros de excelência e de formação técnica.

Que prioridades?
DUARTE - Por exemplo, os projetos educativos dos museus devem priorizar a formação de professores e secundariamente se voltar para o cidadão comum. As visitas de turmas de alunos de escolas e colégios devem estar sempre programadas como trabalhos práticos de professores preparados pelos próprios museus em programas de convênios com as secretarias de educação. Os programas educativos para professores devem estar voltados para os docentes de todas as áreas, e não apenas para aqueles de arte e educação artística. Só desse modo fará sentido a divulgação dos números de visitação de alunos; por enquanto servem para a satisfação demagógica e a prestação de contas a departamentos de marketing de patrocinadores.

Em relação a museus, o que deveria mudar na Lei Rouanet?
DUARTE - Eu considero que deveria haver mais estímulo fiscal aos investimentos em infraestrutura dos museus e aquisição de acervos do que para exposições temporárias. Não se trata de acabar com o estímulo às exposições e sua documentação em catálogos. Mas a aquisição de obras e publicações que exigem longas pesquisas e não estão vinculadas a um evento temporário mereceriam receber tratamento diferenciado. O mais grave, segundo li na Folha [Ilustrada, 24/11/09], é o governo querer disciplinar ou mesmo proibir a remuneração dos profissionais contratados para dirigir museus ou instituições culturais que adquiriram um estatuto autônomo, como organizações sociais. É um estímulo ao pior amadorismo ou a uma péssima elitização das direções das instituições: só ricos, pessoas que não vivem do que fazem, poderão ocupar essa direção, ou funcionários mal remunerados.

Que lições devemos tirar do incêndio que destruiu parte importante da obra de Hélio Oiticica?
DUARTE - A primeira lição é que não se deve nunca dispensar uma consultoria de risco indicada por uma boa empresa de seguros para qualquer edificação que for armazenar acervos preciosos. Mais do que isso: uma das cláusulas ao uso das leis de incentivo à cultura para instituições que preservam acervos seria a realização prévia da consultoria e o financiamento, pela própria lei de incentivo, da execução de todas as medidas técnicas que sejam recomendadas.
Acho que quem primeiro deveria dar esse exemplo é o próprio Ministério da Cultura, realizar essa consultoria em cada uma das instituições sob sua responsabilidade. A verdade é que em muitos casos nem as normas estabelecidas pelos Bombeiros são cumpridas.

Se compararmos arte contemporânea, mercado e instituições do Brasil com arte contemporânea, mercado e instituições de países mais avançados, quais são os principais descompassos?
DUARTE - Temos atualmente uma excelente produção de arte, reconhecida, antes de tudo, por importantes instituições e coleções estrangeiras. Nossas instituições apresentam os mesmos descompassos que existem para outras áreas, a começar pelo sistema educacional: quais são os descompassos que existem entre os sistemas educacionais brasileiro, japonês, alemão, americano, francês e inglês, por exemplo?
Nossas instituições de arte estão para as instituições desses países assim como [estão] nossa educação e nossos serviços de saúde. Quanto ao mercado, me parece que amadureceu muito, nos últimos 20 anos, em São Paulo; se estrutura no Rio e em Belo Horizonte, mas depende exclusivamente de colecionadores particulares. As instituições públicas não têm recursos regulares para aquisições.

E as doações?
DUARTE
- Dou um exemplo. A diretora do Museu Nacional de Belas Artes declarou que recebeu em poucos anos milhares de doações. O número publicado chegava a dezenas de milhares, embora isso possa ter sido um erro tipográfico. Mas, se é verdade, é evidente prova do elevado grau de indigência que conduz a política cultural de artes visuais. Integrar o acervo do Museu Nacional de Belas Artes deve ser privilégio reservado às obras de artistas que constituem um patrimônio do povo brasileiro e cuja fruição vai efetivamente formar o olhar do cidadão no campo da arte. Visite-se a sala de arte moderna e contemporânea do museu e ver-se-á que, além das inúmeras lacunas, existe quase sempre a inversão de valores: quanto menos importante o artista mais espaço ocupa sua obra. É uma aula completa do que não deve ser feito.