terça-feira, 5 de maio de 2009

CAPACETE ENTRETENIMENTOS em SP


Capacete inicia programa de residências artísticas em São Paulo

O programa Capacete, com sede no Rio de Janeiro (RJ), inicia um programa de residências artísticas em São Paulo em um novo espaço. A inauguração do local ocorreu em 04/04/09, no edifício Copan (Av. Ipiranga, 200, bloco C, apto 221, Centro).
As primeiras residências artísticas na cidade começam em maio. Participam Mariana Castillo Deball (México); Ulrik Helthoft (Dinamarca), Tamar Guimarães (Brasil), Daragh Reeves (Inglaterra), Runo Lagomarsino (Itália-Suécia), Danilo Volpato (Brasil), Leonor Antunes (Portugal), Kim Faler (EUA), Sasha & Petri (Finlândia), Melanie Gilligan (Canadá) e Raphael Grisey (França).

Mais informações: www.capacete.net

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Panorama da Arte Brasileira I


Mostra de arte "Panorama estrangeiro' é atacada na web


por Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

Em vez de "Panorama da Arte Brasileira", "Brazilian Art Landscape" é como o artista Alex Cabral propõe que seja denominada a mostra com curadoria de Adriano Pedrosa, a ser inaugurada em outubro, no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo).
Já a artista Ligia Borba sugere "Panorama da Arte Brasilianista". O sarcasmo faz parte da maior parte das 58 mensagens já postadas (até o fechamento desta edição) no site Canal Contemporâneo, a partir da proposta de Pedrosa de não incluir artistas brasileiros na exposição com caráter bienal, criada há 40 anos.
No blog do Canal Contemporâneo --uma comunidade digital organizada pela artista Patrícia Canetti--, a grande parte dos comentários à proposta de Pedrosa, após reportagem publicada na Folha, é marcada por reações bastante violentas (http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/002119.html).
foto LeonardoWen
Curador da exposição, Adriano Pedrosa, em frente ao MAM

Um dos exemplos é como o artista Artur Barrio contesta Pedrosa: "Que presunção, que vaidade, que egocentrismo, que exclusão, que ignorância".
"Sabia que a proposta geraria polêmica, e o formato de blog propicia reações violentas. Como a curadoria é uma prática que exclui muito mais do que inclui, pois o conjunto incluso é sempre infinitamente menor do que o excluído, quanto mais reputada a mostra curada, maior o número de potencialmente frustrados ou irados em relação a ela", diz Pedrosa.

Opiniões favoráveis

A Folha ouviu outros 13 artistas e curadores (leia íntegra dos depoimentos na postagem abaixo) e a maioria, ao contrário do que ocorre no Canal Contemporâneo, posicionou-se a favor do projeto de Pedrosa. De todos, apenas a artista Carmela Gross e o curador Paulo Venancio Filho foram contrários à proposta.
A favor manifestaram-se os artistas Jac Leirner, Rivane Neuenschwander, Rosângela Rennó, Sandra Cinto e Ricardo Basbaum, além dos curadores Agnaldo Farias, Lisette Lagnado, Daniela Labra, Rodrigo Moura, Cristiana Tejo e Felipe Chaimovich.
Curador do MAM-SP, Chaimovich coloca a instituição em defesa de Pedrosa: "O 'Panorama' caracteriza-se pelo questionamento regular da natureza da arte brasileira e o debate gerado pela proposta curatorial de 2009 mostra a relevância de uma reflexão renovada a cada edição, quebrando expectativas e apontando interpretações inesperadas, como cabe a um museu de arte moderna".
No entanto, nem todos são a favor da ideia de forma integral, apresentando algumas ressalvas, como o artista e curador Ricardo Basbaum.
"Parece que somente os curadores são capazes hoje de provocar polêmicas; antes estas eram produzidas pelas obras, pelos artistas. Se pensarmos na 28ª Bienal, a discussão que mobilizou a opinião pública foi provocada pelos curadores e não por qualquer artista ou obra da mostra", diz ele.
"Isso me preocupa: obras e artistas não estão sendo mais percebidos enquanto agentes provocadores, e sim os curadores", completa Basbaum, que está em cartaz em São Paulo, na galeria Luciana Brito.
A polêmica, contudo, está ajudando o curador a redefinir sua própria exposição.
"A princípio, eu tinha pensado em fazer uma exposição mais esparsa, com um número menor de artistas, mas agora estou considerando incluir mais obras, mais exemplos de 'arte brasileira feita por estrangeiros', sem querer esgotar o assunto, mas tornando o argumento mais claro", diz Pedrosa.

Tradição

O "Panorama da Arte Brasileira" foi criado pela Comissão de Arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1969, portanto alguns anos após o desmonte do museu, ocorrido em 1962, quando seu fundador, Ciccillo Matarazzo, doou à Universidade de São Paulo toda a coleção do museu, o que deu origem à criação do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Sem acervo, o MAM criou então o Panorama como estratégia para se recriar e reorientar: o foco da coleção passaria a ser a produção contemporânea nacional, o que de fato é o perfil do museu, traindo em parte a denominação "de arte moderna".
Os prêmios de aquisição do "Panorama", que ocorrem desde sua primeira edição, foram uma importante forma de constituição do acervo da instituição e das poucas ações permanentes para tal fim num museu paulistano.
Em 1995, pela primeira vez, o "Panorama" foi organizado por um curador, no caso Ivo Mesquita, que rompeu com o formato tradicional da mostra por suportes, inspirado no espetáculo "O Livro de Jó", do Teatro da Vertigem.
Em 2003, sob a designação "Desarrumado", o "Panorama" apresentou pela primeira vez artistas estrangeiros, com curadoria do cubano Gerardo Mosquera. Além de 16 brasileiros, o curador apresentou o belga Wim Delvoye, o argentino Jorge Macchi e a chinesa Kan Xuan. Também pela primeira vez, o "Panorama" foi visto no exterior, em itinerância na Espanha.
Em 2005, organizado por Felipe Chaimovich, atual curador do MAM, o "Panorama" gerou polêmica ao comparar a produção contemporânea aos gêneros da pintura clássica.

Panorama da Arte Brasileira II


Depoimentos sobre as mudanças do "Panorama da Arte Brasileira"

da Folha de S.Paulo


CONTRA

"O sr. Adriano Pedrosa que se cuide! A sua estrangeirice é tamanha que um dia ele ainda vai ser deglutido pelos canibais de plantão!"
Carmela Gross, artista

"Será que não há no MAM uma mente lúcida para se opor a tamanha arrogância ridícula?"
Paulo Venancio Filho, curador

A FAVOR

"Um 'Panorama' com 'trabalhos nacionais de artistas estrangeiros' é, obviamente, fruto de uma ação que inverte e questiona territórios concretos e políticos. Frente à quantidade de exposições voltadas à produção nacional em 'n' instituições paulistas, a ideia para esse 'Panorama' do MAM me parece bem humorada, antiterritorialista e pertinente. O tratamento especial reservado à produção dos trabalhos e aos artistas deveria ser praxe em quaisquer instituições, só nos resta ver a qualidade da arte que se apresenta, apesar da resistência do meio local."
Jac Leirner, artista

"A ideia parece-me muito interessante. É sempre bom lembrar que a cultura sempre ultrapassou os limites fixados pela geopolítica. Por conta disso é que se pode dizer que o Brasil não é obra exclusiva daqueles que nasceram aqui. Já não foi dito que a literatura latino-americana começou na escrita do primeiro europeu impactado pelo que viu? E alguém aí discute que o Sergio Leone não é norte-americano e que depois dele o faroeste mudou um bocado? Embora brasileiros, temos lá nossa parcela de norte-americanos, franceses, ingleses, alemães..."
Agnaldo Farias, curador

"A proposta aponta para um esgotamento: depois do 'Antarctica Artes com a Folha', hoje o 'Rumos' cumpre a missão de mapear a arte feita no Brasil. A identidade das mostras muda. A 'Paralela' virou um 'Panorama' e o último 'Panorama' teve calibre de Bienal. Por ser uma mostra autoral, deve formular algo a partir de uma falta. Adriano é um dos embaixadores da arte brasileira no exterior, já tendo inserido Sandra Cinto, Marcelo Cidade e Marcellvs L. em mostras importantes."
Lisette Lagnado, curadora

"Existem muitas mostras deste tipo no mundo todo, e a premissa de que um artista tenha de pertencer a um lugar específico como justificativa para a sua participação já não é mais o suficiente (vide o fim das representações nacionais na 27ª Bienal de São Paulo). Além disto, acho válido (re)pensar o nosso país como um lugar que assimile diversas culturas, gerando assim discussões mais abrangentes inclusive e sobretudo sobre nossa própria identidade."
Rivane Neuenschwander, artista

"Não conheço todos os argumentos de Adriano Pedrosa, mas acredito que sua proposta pode indicar uma questão interessante, a de se permitir indagar o que faz de uma arte brasileira _se é a nacionalidade de seu autor, o país onde ele cria, a temática de sua obra, entre outros. Porém, a proposta corre o risco de se concretizar numa mostra repleta de clichês: a miséria, o carnaval, o sensual, a luta de classes, o precário, o exuberante etc, são aspectos facilmente encontrados em leituras estrangeiras superficiais sobre o Brasil. Acredito, contudo, que Pedrosa é bastante hábil para se desviar desse risco e se quiser, poderá levar a cabo uma discussão eficaz sobre o panorama da arte (e do circuito de arte) brasileira."
Daniela Labra, curadora

"A ideia de uma bienal nacional, que, de dois em dois anos, dê conta da totalidade da produção emergente, está esgotada há muito tempo. A verdade é que não dá tempo de fazer um update neste período, o que gera exposições muito parecidas umas com as outras. Com a proposta do Pedrosa, o MAM deixa claro que pensa o 'Panorama' como uma exposição que pode questionar seu formato até limites radicais. A ideia de pensar arte brasileira através dos óculos do estrangeiro é, em si, questionável, mas acho que faz sentido propor um formato radicalmente diferente a cada edição do 'Panorama', já que sua essência e origem não têm mais relevância no panorama de hoje."
Rodrigo Moura, curador do Instituto Cultural Inhotim

"Cada vez mais artistas brasileiros são convidados a desenvolver trabalhos específicos em exposições internacionais e, do lado oposto, várias obras são produzidas, no Brasil, por artistas estrangeiros e muitas vezes não podemos usufruí-las. Essas trocas são saudáveis e devem ser prestigiadas. Além do mais, gosto muito da idéia de desvincular o 'brasileiro' do 'nacionalista', como disse o Adriano Pedrosa. O 'Panorama' não precisa ser encarado como mais uma coletiva de arte brasileira que acontece de dois em dois anos, com um curador diferente (aliás, pelo que me consta, a 'Paralela' também adotou esse perfil). Particularmente não vejo problema algum, de vez em quando, vermos um 'Panorama' diferente, como aconteceu quando o Gerardo Mosquera convidou estrangeiros pra integrarem a mostra curada por ele, em 2003; se o ponto de vista for bom, e a arte for boa e feita no Brasil, não pode ser feita por estrangeiro?
Rosângela Rennó, artista

"É interessante notar como cada 'Panorama' responde a seus antecedentes, seja para negá-los ou reafirmá-los ou partir de nortes anteriormente abertos. O foco do evento parece ter se cristalizado em sua própria história e na afirmação e/ou desconstrução de uma estética nacional do que firmar posicionamentos críticos diante de uma produção artística de uma época inscrita num lugar chamado Brasil.
Eu achava que a discussão literal em torno da identidade e do pertencimento nacional já tivesse vivido seu esgotamento e migrado para pontuações de poéticas provenientes de vários 'lugares', mas pelo visto ela ainda suscita malabarismos curatorais e reações nacionalistas acaloradas."
Cristiana Tejo, curadora da Fundação Joaquim Nabuco (PE)

"O 'Panorama da Arte Brasileira' do Museu de Arte Moderna de São Paulo caracteriza-se pelo questionamento regular da natureza da arte brasileira. O debate gerado pela proposta curatorial de 2009 mostra a relevância de uma reflexão sempre renovada a cada edição do 'Panorama', quebrando expectativas e apontando interpretações inesperadas, como cabe a um museu de arte moderna."
Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP

"Acho a provocação do Adriano Pedrosa interessante. Mas o curador terá de ser capaz de reunir trabalhos que realmente provoquem uma reflexão sobre o tema - e não simplesmente figurar slogans superficiais. É preciso sair de provincianismos nacionalistas - resquício da ditadura militar - e atuar politicamente no mundo, internacionalmente. Muitas vezes somente ligações políticas internacionais podem provocar a renegociação de impasses políticos locais. Muitas instituições brasileiras são provincianas e se esquivam do debate global da arte contemporânea, assim como dos debates locais. Os dois pólos não estão tão distantes e reverberam um no outro.
Mas uma coisa me intriga principalmente, e para mim é o ponto que me chama mais a atenção: parece que somente os curadores são capazes hoje de provocar polêmicas; antes estas eram produzidas pelas obras, pelos artistas. Se pensarmos na 28ª Bienal, a discussão que mobilizou a opinião pública foi provocada pelos curadores e não por qualquer artista ou obra da mostra. Isso me preocupa: obras e artistas não estão sendo mais percebidos enquanto agentes provocadores, e sim os curadores. Entretanto, acredito que os principais agentes provocadores são de fato as obras. O curador teria que re-aprender a recolocar o conflito 'obra x sociedade', e não apenas 'evento x sociedade', 'exposição x sociedade' - e assim sair do centro da cena."
Ricardo Basbaum, artista e curador

"Eu penso que o 'Panorama da Arte Brasileira' que propõe um olhar sobre a influência da mesma na produção internacional é um projeto que vai além de uma mostra coletiva. Constatar que a arte brasileira deixou de ser periférica, que é uma referência no contexto internacional é algo que só a fortalece. Nós, artistas brasileiros, estaremos representados sim, de uma maneira muito mais profunda. 'Panorama' significa uma visão ampla, em todas as direções, sem obstáculos."
Sandra Cinto, artista


Austrian Pavilion


Austrian Pavilion

53rd International Art Exhibition
La Biennale di Venezia
June 7 - November 22, 2009

Elke Krystufek
Dorit Margreiter
Franziska & Lois Weinberger

Commissioners
VALIE EXPORT and Silvia Eiblmayr

Elke Krystufek: Ernst Ludwig we´ll say was exactly like that, 2009
Dorit Margreiter: Pavilion, 2009, film still
Franziska & Lois Weinberger: NOUS Komplexität des Unbestimmten / Herbarium, 1994


Austria is presenting three artistic positions: Elke Krystufek, Dorit Margreiter and Franziska & Lois Weinberger. All have developed new works for the Austrian pavilion. Each of these artistic positions deals with a specific theme, and while their art differs greatly, they all share a structural approach, which critically questions the orders determining social aspects of our lives, our culture and politics.

Elke Krystufek condenses several themes in her painting installation TABOU TABOO (2009): Polynesia, the mythical place as it was conceived and conveyed in Modern European art, and the issue of a specifically "female gaze". The title TABOU TABOO is a reference to the film "Tabu" by F. W. Murnau and further to Sigmund Freud's "Totem und Tabu". Krystufek replaces the word "Austria" on the outside of the pavilion with the word "Tabu", and thus attacks the identity of the building.

Dorit Margreiter's work Pavilion (2009) is a film dealing with the place of its production and its mis-en-scène: the pavilion constructed by Austrian architect Josef Hoffmann, opened 1934 in the Giardini of Venice. Margreiter explores the pavilion as an utopian space of art, forming an architectural sculpture in itself. Pavilion is a grainy black-and-white film with a surreal quality. Its staged rendition at the actual site mirrors the pavilion in its space and in time, it is a projection of itself onto itself.

Laubreise (2008/09) by Franziska & Lois Weinberger is an outside piece, an accessible architectural sctructure located between pavilion and canal which houses an object inside. Laubreise as well as other works by F. & L. Weinberger deal with the relationship between "nature" and "culture"; their work is about the subtle „peripheries of perception" of an "invisible nature / spiritual nature" (L. Weinberger). Inside the pavilion an installation gives insight into Weinberger's work from 1976 until today.

Catalog
VALIE EXPORT and Silvia Eiblmayr (eds.):
Elke Krystufek. Dorit Margreiter. Franziska & Lois Weinberger
Austrian Pavilion, 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia
Contributions by Hildegund Amanshauser, Xabier Arakistain, Roel Arkesteijn, Barbara Clausen, interview by Dieter Buchhart, introduction by V. EXPORT and S. Eiblmayr, Verlag der Buchhandlung Walther König, Cologne 2009.

La Biennale di Venezia
Austrian Pavilion
Giardini della Biennale di Venezia

Opening times: 10 am - 6 pm
Giardini closed on Mondays (except June 8 and November 16)
Vaporetto lines from train station and Piazzale Roma
No. 1 via Canale Grande until station Giardini (approx. 1 hour)
No. 41, 51 and 61 (only from Piazzale Roma) until station Biennale

On behalf of the Austrian Federal Ministry for Education, the Arts and Culture

Office Austrian Pavilion
quartier21
Museumsplatz 1
1070 Vienna
AUSTRIA
Tel. / Fax. +43 1 522 51 69
pavillon@biennale09.at
http://www.biennale09.at

domingo, 3 de maio de 2009

Residência Artística

Workshop do Pavillon/ Palais de Tokyo na Residência Artística FAAP.

De 27 a 10 de maio, a Residência Artística FAAP acolhe os atuais residentes do Pavillon, núcleo de pesquisa e produção artística do Palais de Tokyo, Paris.
Tomando como ponto de partida as noções de deriva e psicogeografia da Internacional Situacionista, os nove artistas de diferentes nacionalidades, em conjunto com 4 ex-alunos da FAAP, experimentam no Brasil duas realidades urbanas aparentemente opostas: o caos e a ausência de planejamento de São Paulo e a experiência do urbanismo totalmente planificado de Brasília. Duas faces, verso e reverso, da cidade moderna.

Um open studio, programado para o próximo dia 9 de maio - sábado – acontecerá na Residência Artística FAAP, no Edifício Lutetia, situado na Praça do Patriarca, 78. Esta será, portanto, a oportunidade de conhecer, tanto os artistas quanto seus trabalhos.

O projeto que integra a programação do Ano da França no Brasil 2009, teve apoio do CulturesFrance e do Consulado da França, em São Paulo, sendo realizado pelo Pavillon/ Palais de Tokyo e a FAAP Fundação Armando Alvares Penteado.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PALESTRAS EM MAIO NO MAM - SP



Acontece nos dias 14 e 15 de maio, no Auditório Lina Bo Bardi do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma série de palestras dedicada a pensar e repensar cada etapa da produção artística. Com um time de oradores que vale parar para escutar. Entre eles, a curadora da Tate Modern, de Londres, Tanya Barson; a do parisiense Centre Georges Pompidou, Emma Lavigne; e o brasileiro Rodrigo Moura, responsável pelo Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, no interior mineiro.

Informações:

MAM
Parque do Ibirapuera, portão 3 - s/nº
São Paulo - SP - Brasil
04094-000
Tel.: (11) 5085-1300
Fax: (11) 5085-2342

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ARTIGO: Performance


DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE TEHCHING HSIEH? *


por EMANUEL CAMEIRA do site português ArteCapital.com

Mas quem foi que lhe disse que a arte devia ser vida?
Esta noite improvisa-se de Luigi Pirandello

Ainda desconhecidas para alguns, as performances de Tehching Hsieh (Taiwan, 1950) medem-se literalmente por anos. Também por isso são marcos numa linguagem artística em aberto desde a década de 60 do século , quando outro era já o registo, mais voltado para uma desmaterialização do objecto, refazendo o entendimento formalista sobretudo ao querer privilegiar na obra de arte aspectos de conceito e de processo e, como tão bem notou Lucy Lippard (1), concebendo-a em termos efémeros, interdisciplinares, na directa interacção com o público e próxima do quotidiano. Mas explicar o recente interesse curatorial e académico pelo trabalho de Hsieh implica contudo situá-lo primeiro entre uma teia de circunstâncias onde constam a crescente atenção ocidental a artistas asiáticos (muitos da diáspora europeia e norte-americana), o actual peso dos estudos performativos no quadro da teoria cultural ou mesmo a emergência de projectos expositivos baseados na reconstituição de performances históricas.

Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1978 – 1979

Corria o ano de 1974 e Hsieh desembarcava ilegalmente num pequeno porto de Filadélfia. Essa condição de outsider, de imigrante ilegal, constitui aliás algo com que lidará até à amnistia de 1988, decorria a derradeira das suas seis performances, quase todas acontecidas na vibrante cena nova-iorquina. E sob que forma? Sempre a excessiva presença do corpo preso a situações-limite, de intenso desgaste físico e mental: vemo-lo enjaulado no atelier e impedido de qualquer tipo de estímulo (2), contacto material ou humano (pedia-se inclusive o silêncio da audiência nas poucas vezes que a houve), picando o ponto hora a hora, na pele de sem-abrigo, amarrado a Linda Montano pese embora nunca lhe podendo tocar, recusando fruir de actividades de cariz artístico. Obras portanto singularíssimas, as “one year performances”, nelas se intensificaram as ligações da arte com a vida mediante o recurso a uma longa e metafórica duração anual. Diz o artista:

Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1980 – 1981

One year is the largest single unit of how we count time. It takes the earth a year to move around the sun. Three years, four years is something else. It is about being human, how we explain time, how we measure our existence. A century is another mark, which is how the last piece was created. (3)

Tehching Hsieh, “One Year Performance (Outdoor Piece)”, 1981 – 1982

De facto, “Earth” é diferente. A 31 de Dezembro de 1986 Tehching Hsieh nada revela do conteúdo da performance. A arte que produzirá apenas será descrita no fim, treze anos depois. Quem esteve na Judson Church de Manhattan e então assistiu ao anúncio, “I kept myself alive. I passed the Dec 31, 1999”, pôde testemunhar a desconstrução dessa espécie de ontologia da performance associada grosso modo à ideia de acontecimento momentâneo e não tanto à experiência vivida extensamente no tempo. A absoluta diluição da arte na vida, aqui flagrante, mostra uma radicalidade que concretiza o tal princípio de Allan Kaprow segundo o qual the line between art and life should be kept as fluid, and perhaps indistinct, as possible (4). Ora, destituída de parâmetros palpáveis, a obra está na vida de Hsieh. Transfiguração da vida porque no plano da arte ou desmistificação desta por via das contingências do dia a dia (lembre-se a ocasião em que adormece e deixa de picar o ponto ou a rixa de rua que o força a entrar num espaço coberto, a esquadra), parecem surgir enquanto possíveis rotas de sentido.

Tehching Hsieh, “One Year Performance (Art-Life)”, 1983 – 1984

Julgo ter sido Jacinto Lageira a afirmar a necessidade de na performance reconhecer a integração das componentes física, sensível da acção, e formal, do intelecto. Verdade é que sem sujeito para a viver a forma não ganharia existência. Porém, o performer pensa emergido na especificidade de um corpo já vivido, material pensante, dotado de história. Parte do fascínio de Tehching Hsieh provém daí:

His destination: Manhattan, center of the art world. Once there, though, Hsieh found himself ensnared in the benumbing life on an illegal immigrant. He eked out a living at chinese restaurants and construction jobs, feeling alien, alienated and creatively barren until it came to him: he could turn his isolation into art. Inside an unfinished loft, he could build himself a beautiful cage, shave his head, stencil his name onto a uniform and lock himself away from a year. (5)


Tehching Hsieh, “One Year Performance”, 1985 - 1986

Na performance, a obra encontra-se na imanência da encarnação. Há um sujeito que vejo e me interpela acerca de variados traços da vida individual e social, privacidade, trabalho, liberdade, alteridade. Hsieh estabelece pois com a arte uma nova e visceral vinculação, submetida a sua corporalidade à pura passagem do tempo, a um duradouro e repetitivo conjunto de tarefas e constrangimentos.

Tehching Hsieh parou de criar a partir de 31 de Dezembro de 1999. Alexandra Munroe, curadora sénior de arte asiática no museu Solomon R. Guggenheim arrisca a seguinte interpretação:

maybe he was a man choosing art as a tool to demonstrate a certain philosophical set of conditions, and it served his purpose, so he doesn’t need it anymore. I think he’s bigger than art on some level. I think – I’ll be really extreme here – that he killed art so he could transcend it. (6)

Tehching Hsieh, “Earth”, 1986 – 1999

Até dia 18 de Maio uma réplica da jaula construída no âmbito da primeira “one year performance” pode ser vista no MoMA. Um mês antes termina no Solomon R. Guggenheim a exposição “The third mind: american artists contemplate Ásia, 1860-1989”, que documenta a segunda das performances.

Emanuel Cameira

NOTAS

* Título adaptado de De que falamos quando falamos de performance, revista Marte, nº 3, edição da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2008.
(1) Lippard, Lucy R. (1997), Six years: the dematerialization of the art object from 1966 to 1972, California, University of California Press.
(2) Exceptuando a alimentação que diariamente lhe era levada por um amigo.
(3) Retirado da entrevista a Hsieh disponível em www.thebrooklynrail.org/arts/sept03/tehchinghsieh.html
(4) In Harrison, Charles e Wood, Paul (eds.) (2003), Art in Theory 1900-2000 – an anthology of changing ideas, Oxford, Blackwell Publishing, p. 720.
(5) Sontag, Deborah (2009), “The art of pushing the boundaries of life”, in International Herald Tribune, 27 de Fevereiro, disponível em www.iht.com/articles/2009/02/27/arts/artist.php


Volpi no Rio


Exposição no Instituto Moreira Salles reúne telas raras de Alfredo Volpi

O Rio já viu muitas exposições de Alfredo Volpi, mas a curadora Vanda Klabin conseguiu, numa pesquisa em coleções particulares, encontrar obras raramente ou nunca antes expostas. Na mostra "Volpi: dimensões da cor", aberta ao público no Instituto Moreira Salles (IMS), Vanda olha para o Volpi do fim dos anos 1950 e do início dos 60, momento em que o pintor abandona as paisagens e marinhas e começa a delinear os elementos que marcariam toda a sua produção artística posterior.


- É um período muito significativo e fecundo na obra do Volpi, em que ele introduz elementos puramente abstratos, com os quais sedimenta seu afastamento do naturalismo - afirma Vanda.
Em seu caminho para a geometria, Volpi, sem nunca se filiar a movimentos artísticos, recebeu influência de concretos e neoconcretos. Uma série de obras na exposição representa essa aproximação, causando um estranhamento em relação ao que mais se conhece de Volpi. Numa montagem sem divisórias, em que todas as obras são vistas em conjunto, o visitante pode atentar para as relações entre essas telas e outras mais diretamente identificadas com Volpi, como a geometria das suas famosas bandeiras, que começaram a aparecer em meados da década de 1950 - e que nada mais são, como mostra Vanda, elementos geométricos, cada qual um "quadrado do qual se retira um triângulo".
Têmpera revela o movimento dos pincéis


Exposição de Alfredo Volpi, no Instituto Moreira Salles - Mônica Imbuzeiro Apesar da ligação com a arte construtiva, em grande parte feita através dos amigos Willys de Castro e Theon Spanudis (signatário do Manifesto Neoconcreto, em 1959), Volpi manteve a "antimoderna" técnica da têmpera, que substituíra sua pintura a óleo em 1944. Nascido na Itália, Volpi nunca se naturalizou brasileiro, apesar de ter vindo aos 2 anos, com os pais imigrantes, para São Paulo, e só ter voltado uma vez à Europa, em 1950. Depois dessa viagem, inspirado pela tradição da pintura italiana, Volpi não abandonou mais a têmpera. Deixando a tinta rarefeita, a técnica revela ao espectador o movimento do artista.
Depois do flerte com o concretismo, Volpi se afastou completamente do movimento e começou a explorar os signos que se repetem em sua obra posterior. Bandeiras, fachadas e elementos náuticos se alternam como elementos geométricos que se repetem, em diferentes combinações. Na mostra, Vanda põe lado a lado obras com composições semelhantes, em que o artista varia apenas as cores.

INFORMAÇÕES

Local: Instituto Moreira Salles (INFORMAÇÕES)
Preço(s): Grátis.
Data(s): Até 5 de julho de 2009.
Horário(s): Terça a sexta, 13h às 20h; sábado, domingo e feriados, 11h às 20h.

ALELUIA

Funarte vai financiar Brasil em Veneza

por Fabio Cypriano da Folha de S.Paulo

O Ministério da Cultura por meio do Fundo Nacional da Arte (Funarte) deve viabilizar a representação brasileira na Bienal de Veneza, prevista para ser inaugurada no dia 7 de junho, que podia não ocorrer por falta de patrocínio.
Afundada em dívidas, a Fundação Bienal de São Paulo que, desde 1993, indica os representantes brasileiros em Veneza, não tem como pagar os custos da representação na mais tradicional das bienais. A seleção foi feita por Ivo Mesquita, curador da última edição da Bienal de São Paulo, e traz o fotógrafo paraense Luiz Braga e o pintor alagoano Delson Uchôa.
Luiz Braga/Divulgação
Fotografia do paraense Luiz Braga, que estará na Bienal de Veneza deste ano

"Fomos procurados pelos galeristas dos artistas e por Mesquita para ajudar a realizar a representação em Veneza e estamos conseguindo os recursos. Seria uma vergonha não abrir o pavilhão brasileiro", disse à Folha Ricardo Resende, 47, diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte, no Rio.
Uma carta assinada pelo curador, pelos artistas e seus galeristas (Eduardo Leme, no caso de Braga, e Luciana Brito, para Uchôa) foi enviada ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, pedindo o apoio do órgão para viabilizar a representação nacional, orçada em R$ 350 mil.
Contudo, para conseguir chegar a tal objetivo, o Ministério da Cultura precisa que a Fundação Bienal renuncie à função. "Como o Ministério das Relações Exteriores estabelece, por um convênio, que a Fundação Bienal é a entidade que organiza e produz a representação, é preciso que ela abra mão dessa tarefa", conta Resende.
"Não tenho certeza se de fato é preciso abrir mão de alguma coisa, mas certamente vamos fazer tudo possível para fazer com que a Funarte se torne a comissária da representação nacional", declarou à Folha o presidente da Fundação Bienal, o empresário Manoel Francisco Pires da Costa, 70, que está deixando o cargo e não atuou na negociação.
O convênio firmado entre o Ministério das Relações Exteriores e a Fundação Bienal vence no próximo mês de junho e Resende irá propor que, a partir de então, o Ministério da Cultura passe a assumir essa responsabilidade. "Eu acho ótimo que a Funarte assuma a representação em Veneza; se isso tivesse ocorrido desde o primeiro dia que assumi a Bienal, tudo teria sido muito mais fácil", disse Pires da Costa.


Bienal de São Paulo sem Presidente



Após desistência de Matarazzo, Bienal continua em busca de presidente

por Fabio Cypriano da Folha de S.Paulo

Um vácuo de poder assombra a Fundação Bienal. Por pouco a representação brasileira não vai a Veneza, o que deve acontecer graças a galeristas e ao Ministério da Cultura.
Em parte, tudo isso está ocorrendo pelo fato de não se descobrir pessoas dispostas a assumir o cargo de presidente da instituição. O último ato desse roteiro foi a desistência do secretário municipal Andrea Matarazzo (Coordenação das Subprefeituras).

Bruno Miranda/Folha Imagem
Secretário Andrea Matarazzo desistiu da Fundação Bienal

Já o atual presidente, Manoel Francisco Pires da Costa, diz que está limitado em suas funções: "Eu não consegui dinheiro, pois a Bienal de Veneza não era minha obrigação, mas do próximo presidente." Mas foi o próprio Pires da Costa que indicou o curador do pavilhão, Ivo Mesquita. "Fiz isso pedindo anuência ao embaixador Rubens Barbosa, meu amigo, que no final do ano passado era o candidato a ser meu sucessor", diz o presidente.
Esse vazio de poder incomoda ao presidente do Conselho da Fundação, Miguel Pereira, que convocou uma reunião para o próximo dia 5.
"Esse presidente [Pires da Costa] é não desejado, é preciso que o conselho assuma responsabilidades, pois eu não posso decidir sozinho", diz Pereira.
Por enquanto, o nome que mais circula entre os conselheiros é o do empresário e colecionador Heitor Martins, casado com Fernanda Feitosa, diretora da feira SP Arte.
A empresa de auditoria que analisa as contas do mandato de Pires da Costa - assim que elas forem aprovadas ele deixa de ser presidente - também está em fase final de seu trabalho e, segundo a Folha apurou, o déficit da instituição é de R$ 2,9 milhões, abaixo dos R$ 4 mi divulgados por Matarazzo.
Pires da Costa relativiza esses valores: "O déficil real da Fundação Bienal está em cerca de R$ 600 mil, o restante são regras contábeis que devem ser descontadas, como por exemplo cerca de R$ 900 mil de imobilizados, que não são dívidas."
O presidente ainda afirma que a há pelo menos R$ 200 mil a receber da participação de países estrangeiros na última edição da Bienal.
"O que temos é um grave problema de fluxo de caixa, mas isso é algo constante aqui", diz ele.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Franceses ensinam: as aparências enganam



Meias Verdades, no Rio, é mostra que discute limites entre realidade e ficção

por Roberta Pennafort

Nas fotografias nas paredes, as mulheres estão com a aparência de manequins. No vídeo, uma viagem pelos Estados Unidos, narrada por uma das viajantes - terá sido real ou inventada? Em instalações videográficas, diversas histórias são contadas supostamente por pessoas diferentes, mas... no fim, parece até que se trata de um mesmo homem. O que é ficção? O que é realidade? A questão está no ar em Meias Verdades, exposição a ser aberta ao público amanhã no Oi Futuro, no Rio.

Parte do extenso calendário cultural do Ano da França no Brasil, a mostra, que ficará em cartaz até 28 de junho, traz à cidade trabalhos de Sophie Calle, Pierrick Sorin e Valérie Belin, "os três maiores artistas contemporâneos da França atualmente", diz Adon Peres, curador, com Ligia Canongia.

"A questão (do que é realidade e ficção) é cada vez mais frequente nas artes visuais, e também na literatura. O curioso é que na montagem da exposição, os próprios funcionários do Oi Futuro já erraram na hora de identificar as mulheres e os manequins."



Trailer do Filme Double Blind(No Sex Last Night), de 1992 da artista Sophie Calle em exposição no Oi Futuro, no Rio.

Peres se refere às fotos de Valérie Belin, manipuladas digitalmente de modo a aproximar as imagens de jovens modelos a rostos inumanos, todos perfeitos, como avatares. Capazes de "condensar o silêncio, como se as coisas e seres ali estampados prescindissem do discurso, desconfiassem da palavra e, mais, bastassem a si mesmas com imagens", como descreve a curadora, as obras de Valérie - uma artista em ascensão, com obras presentes no Museu Contemporâneo da Fotografia de Paris - ocuparão o primeiro andar do Oi Futuro.

"O que eu quero que as pessoas vejam é o tratamento pictórico da imagem, de modo que se perguntem se estão vendo uma foto ou uma pintura hiper-realista", explica Valérie, que admira o trabalho dos colegas franceses e também de artistas brasileiros, como Ernesto Neto, Cildo Meireles e Vik Muniz. "São muitas questões que quero levantar: O que é a vida, hoje? Como ela é moldada pelas metamorfoses e forças de destruição?" O centro cultural é bem apropriado para a mostra, por tratar de tecnologia e arte em seus espaços. Em seu segundo andar, estão dois vídeos de Sorin. Retrato de Cidade mostra embarcações que navegam por um rio tendo como tripulantes personagens interpretados pelo artista.

Em Projetos de Artistas, o videomaker, que se utiliza do humor em seus trabalhos e já veio para a Bienal Internacional de São Paulo, também assume distintos papéis: travestido de artistas, zomba deles.

Sophie Calle exibirá seu filme Double Blind, de 1992, no terceiro andar. Nele, ela apresenta aos espectadores o norte-americano Gregory Shepard como seu companheiro de um ano. Os dois filmam uma viagem que fazem juntos, de cadillac, de Nova York à Califórnia, que é narrada pela artista. Mas não é possível saber se aquilo aconteceu mesmo ou não.

Destaque na Bienal de Veneza, em 2007, Sophie, também escritora, é presença confirmada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho. Ela foi o ponto de partida de Meias Verdades. "Diante da obra, sofremos um duplo impacto, em si contraditório: ou acreditamos verdadeiramente no que vemos e no que lemos ou enveredamos pela desconfiança de que os textos mentem, ou inventam e, nesse caso, não sabemos exatamente o que fazer com os ?documentos? fotográficos", avalia Ligia Canongia. É ver para crer - e desconfiar.

Contemporâneos

SOPHIE CALLE: Celebrada artista francesa, nascida em 1953, Sophie Calle trabalha nos campos da fotografia, da instalação e da arte conceitual. Em julho, sua individual Prenez Soin de Vous chegará ao Brasil: será apresentada no Sesc Pompeia, em São Paulo, e, depois, a partir de setembro, no MAM da Bahia.

VALÉRIE BELIN: Artista nascida em 1964, Valérie se dedica ao gênero fotográfico.

PIERRICK SORIN: Filmes de curta duração e videoinstalações são os terrenos explorados por este profissional multimídia, nascido em 1960.


GERALDO DE BARROS - MODULAÇÃO DE MUNDOS

Exposição de Geraldo de Barros reúne 133 obras do fotógrafo no SESC Pinheiros

por Mario Gioia da Folha de S.Paulo

"A composição é para Geraldo um dever." A avaliação de Pietro Maria Bardi sobre a obra fotográfica de Geraldo de Barros, que apresentava sua primeira individual no Masp, em 1951, serve como guia para nova exposição sobre o artista, aberta hoje no Sesc Pinheiros.
"Geraldo de Barros - Modulação de Mundos" tem curadoria de João Bandeira, do Centro Universitário Maria Antonia, e de Fabiana de Barros, filha do artista, radicada em Genebra.

Fotografia que faz parte da exposição sobre Geraldo de Barros no Sesc Pinheiros

Mesmo não sendo uma retrospectiva, "Modulação de Mundos" sintetiza as diversas facetas de Barros (1923-1998), exibindo 133 obras --73 fotografias, 36 móveis e 24 "pinturas-objeto", feitas em fórmica.
Pintor ligado ao grupo Ruptura --protagonista de mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1952, que marca o início da arte concreta no Brasil--, Barros também foi nome-chave na renovação da fotografia brasileira entre o final dos anos 40 e o começo da década seguinte.
Não menos importante é sua atividade como designer, responsável pela cooperativa Unilabor (de 1954 a 1964) e pela empresa Hobjeto (de 1964 a meados dos anos 80).

Modulações

"Conhecendo mais a obra do Geraldo e acompanhando essas diversas mostras, o que mais me chamou a atenção em sua obra é essa tendência para o modular", diz Bandeira, 48.
Assim, por exemplo, a série de fotografias "Fotoformas", feita de 1948 a 1952, utilizaria um conjunto fixo de formas que seriam trabalhadas em diversas combinações pelo artista para dar resultados diversos.
"A mesma imagem do telhado da estação da Luz rendeu diversas fotografias, com Geraldo experimentando diversos rearranjos", explica Bandeira.
Já no design, Barros utilizava um número pequeno de partes constitutivas de móveis (caixas retangulares, armações metálicas) para criar linhas variadas.
"Com isso, ele faz a transição do móvel moderno feito em escala artesanal para um padrão industrial. Esse pensamento modular foi decisivo no sucesso da Unilabor e da Hobjeto", avalia o curador.
Já nas pinturas feitas em fórmica nos anos 80, Barros utiliza cores básicas em formas geométricas que facilitam sua reprodução. E a fórmica permite que a pintura ganhe uma identidade mais "industrializada".
"Ele antecipa essa ideia quando confecciona um panfleto na Bienal de São Paulo, em 1979, dando instruções ao público de como fazer cinco protótipos de seus quadros", conta ele. O folheto, assim como diversos documentos de época, também serão expostos.

GERALDO DE BARROS - MODULAÇÃO DE MUNDOS
Quando: abertura hoje, às 20h; de ter. a sex., das 10h30 às 21h30, e sáb., dom. e feriados, das 10h30 às 18h30; até 28/6
Onde: Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, tel. 3095-9400); livre

terça-feira, 28 de abril de 2009

Prêmio Turner 2009



Prêmio Turner de arte quer atrair mais público e não causar só perplexidade

Fonte: Reuters


O Prêmio Turner, um dos principais troféus de arte contemporânea do mundo, pretende fazer em 2009 o que ainda não conseguiu fazer no passado: atrair o público.
O prêmio anual, que comemora sua 25ª edição este ano, ganhou uma reputação de provocativo e impopular fazendo o Reino Unido - com seus tabloides incluídos - debater acaloradamente sobre o "o que é arte?".
Os quatro artistas finalistas de 2009, revelados nesta terça-feira, podem ser mais fáceis de ser entendidos que muitos candidatos anteriores, garantem os juízes.

O finalista Roger Hiorns é conhecido por sua exposição de 2008 "Seizure", na qual encheu um apartamento abandonado de um bloco londrino dos anos 60 de sulfato de cobre líquido que gradativamente encrustou toda a superfície com brilhantes cristais azuis.

Obra 'Seizure', do artista Roger Hiorns, finalista do Prêmio Turner. Foto EFE

É de alguma forma um alquimista moderno - disse a jurada e conservadora Andrea Schlieker.
Ele utiliza materiais ordinários, de detergente líquido a perfume ou fogo e os converte em algo mágico e maravilhoso - elogiou Andrea.

O finalista Enrico David, de origem italiana, está, segundo o jurado e crítico de arte Jonathan Jones, obsecado pela figura e com o corpo humano.

Obra do artista Enrico David, finalista do Prêmio Turner. Foto EFE

É uma espécie de surrealista contemporâneo - afirmou Jonathan.

Entre os finalistas de 2009 há uma mulher, Lucy Skaer, que faz desenhos e esculturas que frequentemente têm fontes fotográficas como ponto de partida.

Obra do artista Richard Wright finalista do Prêmio Turner. Foto EFE

O quarto candidato é Richard Wright, de 49 anos. O prêmio reconhece artistas ativos no Reino Unido e de menos de 50 anos.
Wright é especializado em grandes murais feitos especificamente para o espaço em que estão. Jonathan disse que suas obras recordam tanto a geometria exata dos azulejos islâmicos como os afrescos medievais.

Obra da artista plástica Lucy Skaer, finalista do Prêmio Turner. Foto EFE

As obras dos artistas finalistas estarão em exibição a partir do dia 7 de outubro e o ganhador será anunciado no dia 7 de dezembro.


sexta-feira, 24 de abril de 2009

Participação brasileira na Bienal de Veneza está em risco

Vergonha Nacional


Maurício Moraes Colaboração para a Folha

O vazio que marcou a última edição da Bienal de São Paulo pode chegar ao pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, o evento mais importante das artes plásticas no mundo. Até o momento, a Fundação Bienal não garante a produção da mostra, orçada em R$ 350 mil.

Afundada em dívidas que ultrapassam R$ 4 milhões e em meio a uma crise política, a instituição pode esvaziar a representação artística e do Estado brasileiro em Veneza, já que o pavilhão é considerado território diplomático do país.

Para levantar fundos, a Bienal entrou às pressas com pedido no Ministério da Cultura para captação de recursos via lei Rouanet, mas não deve haver tempo hábil para os trâmites.

"Não aparecer em Veneza é lamentável, uma perda incrível para o circuito brasileiro", diz Ivo Mesquita, curador da representação brasileira e responsável pela última edição da Bienal de São Paulo. "Os reis escandinavos, por exemplo, vão representar seus países. É um dano na imagem do Brasil."

Os artistas selecionados para o pavilhão brasileiro são o fotógrafo paraense Luiz Braga e o pintor alagoano Delson Uchôa. Ambos seguem produzindo normalmente, apesar da incerteza sobre a mostra.

Segundo apurou a Folha, a Fundação Bienal protocolou em 17 de março um projeto de captação de fundos via lei Rouanet para custeio da representação brasileira em Veneza. O pedido está sob analise técnica e, na melhor das hipóteses, poderá ser votado apenas em maio, quando acontece a próxima reunião do Conselho Nacional de Incentivo à Cultura.

Somente a partir daí, a fundação estaria apta a buscar um patrocinador e fazer a captação. As obras, no entanto, deveriam ser despachadas no dia 5 de maio, para a produção da mostra, que será inaugurada no dia 7 de junho.

Sem decisão

O presidente da Fundação Bienal, Manoel Pires da Costa, que deve deixar o cargo em breve, reconhece que "por enquanto não há nenhuma decisão" sobre o pavilhão do Brasil em Veneza. "Não posso tomar a decisão do próximo presidente", esquiva-se. A Bienal procura há cinco meses um novo nome para substituir Pires da Costa, que está à frente da fundação há três mandatos.

O mais cotado para assumir é Andrea Matarazzo, secretário paulistano das Subprefeituras. Segundo o presidente do conselho da fundação, o arquiteto Miguel Alves Pereira "o Manoel [Pires da Costa] já não decide mais nada". Ele crê que haverá representação, mas não dá garantias nem sabe de onde poderia vir o dinheiro.

O Itamaraty, responsável pela manutenção do pavilhão do Brasil em Veneza, disse por meio de sua assessoria que trabalha com a possibilidade da representação brasileira.

Em nota, o Ministério da Cultura diz que desde outubro "vem buscando o entendimento com as instituições brasileiras e italianas para resolver esta situação extremamente delicada que se abriu com a crise administrativa da Fundação Bienal de São Paulo e o vazio institucional então decorrente". Segundo o comunicado, o ministério "não pode resolver de forma unilateral a questão, nem substituir administrativamente a instituição responsável".

quinta-feira, 23 de abril de 2009

FRANÇA NA TELA



Mostra de vídeos do Museu de Arte Moderna de Paris traz a São Paulo uma geração de herdeiros da nouvelle vague

por Silas Martí da Folha de S. Paulo




"Zidane, Un Portrait du 21ème Siécle", de Philippe Parreno e Douglas Gordon

Cada grão de areia no deserto do Novo México corresponde a um ponto prata no filme super-8 que Dominique Gonzalez-Foerster usou em "Atomic Park". É seu resumo sombrio da era Bush gravado onde os Estados Unidos testaram a bomba atômica antes de aniquilar Hiroshima e Nagasaki.
Outro francês, Melik Ohanian, projetou sem tela, num deserto da Califórnia, o filme "Punishment Park", obra de Peter Watkins banida por 25 anos nos EUA, crítica à lei dos anos Nixon que previa torturar os militantes dos direitos civis. Em cena, só o projetor e a trilha sonora do filme, com o deserto como pano de fundo.
São obras centrais da mostra "Entre-Temps", com 21 vídeos do Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris, que começa hoje no Museu da Imagem e do Som e tem outra parte aberta amanhã no Paço das Artes, dentro do Ano da França no Brasil.
Herdeiros estéticos da nouvelle vague e do nouveau roman, movimentos franceses de cinema e literatura dos anos 70, artistas como Gonzalez-Foerster, Ohanian, Philippe Parreno e Pierre Huygue, nomes fortes da cena internacional presentes na mostra, levam ao vídeo uma fragmentação da narrativa e a noção de tempo dilatado.


"Atomic Park"Dominique Gonzalez-Foerster

"O filme começa no presente, recua ao passado e reencontra a experiência terrível dos testes atômicos numa explosão cromática", resume Gonzalez-Foerster, 44. "O deserto vira um imenso cubo branco, em que tudo se destaca."
"É a tentativa de capturar a dimensão luminosa dessa paisagem", diz Ohanian, 40, sobre seu filme no deserto. "Uma projeção sem tela é metáfora para um mundo sem projetos, orientado pela ausência." Não espanta que a retomada estética proposta por esses artistas recorra aos vazios da América como cenário -a filosofia que deu base às ideias cinematográficas e literárias nos anos 70 ganhou mais adeptos nos EUA e acabou sendo suprimida na França, como gritos perdidos num deserto.
Seguindo esse embaralhamento narrativo e temporal, Philippe Parreno e Douglas Gordon apontam 17 câmeras para os passos de Zinedine Zidane em campo, numa partida entre Real Madrid e Villareal. Transformam os 90 minutos do jogo num retrato atemporal do atleta: escrutínio da forma física plano a plano e espécie de ode à solidão do jogador em meio ao espetáculo coletivo.
Também sozinha, num tempo suspenso e irreal, a personagem de mangá Ann Lee, de cabelos e olhos azuis, protagoniza uma série de filmes de Parreno, Pierre Huygue e Gonzalez-Foerster. Cada artista dá sua versão da história, mas ela acaba sempre reclamando que não foi desenhada para sobreviver.

ENTRE-TEMPS

Quando: abertura hoje, às 19h30 (MIS) e amanhã, às 20h (Paço); de ter. a sex., das 12h às 19h; sáb. e dom., das 11h às 18h (MIS); de ter. a sex., das 11h30 às 19h; sáb. e dom., das 12h30 às 17h30 (Paço); até 28/ 6 (MIS); até 22/6 (Paço)
Onde: MIS (av. Europa, 158, tel. 0/ xx/11/2117-4777); Paço das Artes (av. da Universidade, 1, tel. 0/xx/ 11/3814-4832)
Quanto: entrada franca


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Nicolas Bourriaud é lançado no Brasil pela Martins Fontes

Fonte: www.martinseditora.com.br

Coleção Todas as Artes, da editora Martins, lança Estética Relacional e Pós-produção, do teórico e crítico de arte Nicolas Bourriaud

ESTÉTICA RELACIONAL (Coleção Todas as Artes)
Autor: Nicolas Bourriaud
Editora: Martins
ISBN: 978-85-99102-97-8
Preço: R$ 25,50
Páginas: 152 pp.
Tradução: Denise Bottmann




PÓS-PRODUÇÃO - COMO A ARTE REPROGRAMA O MUNDO CONTEMPORÂNEO (Coleção Todas as Artes)
Autor: Nicolas Bourriaud
ISBN: 978-85-61635-11-4
Preço: R$ 19,80
Páginas: 112 pp.
Tradução: Denise Bottmann



Os livros apresentam pontos em comum ao descrever a sensibilidade coletiva na qual se inserem as novas formas da prática artística, tomando como ponto de partida o espaço mental que a internet abriu para o pensamento. Enquanto Estética Relacional trata do aspecto convivial e interativo dessa revolução, Pós-produção apreende as formas de saber geradas pelo surgimento da rede, propondo orientações diante do caos cultural e deduzindo novos modos de produção a partir dessa desorganização.
Estética Relacional é uma obra composta por textos - atualizados e revisados - publicados em revistas especializadas, como Documents sur l´Art, e em catálogos de exposições, além de alguns inéditos. No final do livro há um glossário para facilitar a leitura e familiarizar o leitor com os termos empregados na área de artes.
Bourriaud levanta questões sobre os verdadeiros interesses da arte contemporânea, suas relações com a sociedade, a história e a cultura. Discute a necessidade de saber interpretar as novas abordagens da arte com relação a sua forma material, tendo como ponto de partida a arte dos anos 1960.
O escritor investiga a sensibilidade coletiva em que se inscrevem essas novas formas da arte, detendo-se na vertente convivial e interativa dessa revolução, procurando saber por que os artistas passaram a produzir modelos de socialidade e a se situar dentro da esfera inter-humana.
Com as relações humanas estabelecidas dentro de espaços de controle que decompõem o vínculo social em elementos distintos, a prática artística aparece como um campo fértil de experimentações sociais ao efetuar ligações que possibilitam abrir algumas passagens obstruídas e várias utopias de proximidade.
Em "Pós-produção", o autor nos mostra como entender e interpretar as novas manifestações artísticas de arte em nossa época abordando as relações entre a cultura, em geral, e a obra, em particular. Todas essas práticas, embora muito diferentes em termos formais, recorrem a formas já produzidas. Elas inscrevem a obra de arte numa rede de signos e significações, em vez de considerá-la como forma autônoma ou original.
O ponto de partida da obra é o espaço mental mutante que a internet - ferramenta central da era da informação - abriu para o pensamento, apreendendo as formas de saber que o gera. Assim, é possível orientar-se no caos cultural em que estamos mergulhados, deduzindo, a partir dele, novos modos de produção.
Bourriaud mostra que, surpreendentemente, as ferramentas mais utilizadas para produzir esses modelos relacionais são as obras ou estruturas formais preexistentes, em que os produtos culturais e as obras de arte constituem um estrato autônomo capaz de fornecer instrumentos de ligação entre os indivíduos.

Sobre o autor:
Nicolas Bourriaud (França, 1965). Escritor, crítico de arte, curador de várias exposições(atualmente curador da mostra ALTERMODERN – Tate Triennial 2009
 - veja entrevista na postagem do dia 03 de março), fundador da revista Documents sur l''Art, é autor de teorias sobre a arte contemporânea, explicitadas em seus títulos: Formes de vie - L''art moderne et l''invention de soi e Pós-produção - Como a arte reprograma o mundo contemporâneo, também lançamento da Martins.


Link
ALTERMODERN – Tate Triennial 2009

Tate Britain, 4 Fevereiro – 26 Abril 2009
http://www.tate.org.uk/britain/exhibitions/altermodern/

Bibliografia
NICOLAS BOURRIAUD

Radicant
-Nova Iorque, Sternberg Press & Berlin (Merve Verlag), 2009.

Postproduction
-Dijon, Les presses du réel, 2004.
-Nova Iorque, Lukas & Sternberg, 2001.

Formes de vie. L’ art moderne et l’ invention de soi
-Paris, Denoël, 1999.

Esthétique relationnelle
-Dijon, Les presses du réel, 1998.


sábado, 18 de abril de 2009

Jorge Macchi – Last Minute na Pinacoteca



Artista argentino constrói relógio gigante em SP


por Silas Martí da Folha de S.Paulo


Nenhum minuto é igual a outro na obra de Jorge Macchi. Ele já inventou um relógio digital em que os números eram palitos de fósforo, que mudavam com o passar das horas, sem nunca pegar fogo. Também já desenhou um relógio em que o ponteiro dos segundos era uma gota de sangue.

Mantendo a cor vermelha do desenho, o artista argentino montou agora seu maior relógio: um grande círculo que ocupa a sala octogonal da Pinacoteca do Estado. O ponteiro gigante dá uma volta completa em 60 segundos, varrendo o chão com um sensor para tocar uma espécie de sinfonia do tempo.

Jorge Macchi e Edgardo Rudnitzky no relógio gigante na Pinacoteca do Estado

São as imperfeições do piso traduzidas pelo músico Edgardo Rudnitzky, parceiro de Macchi, numa trilha incidental para cada minuto que passa. "Música e tempo são bons amigos", diz Rudnitzky, 52. "Esse é um tempo interno, de expectativas, que se alarga com mudanças mínimas minuto a minuto."

Mas quase nada acontece. Macchi enxerga o tempo como intervalo entre dois acontecimentos que ele nunca revela. Suas obras mostram o interstício, o espaço morto grávido de passado e futuro entre instantes de uma narrativa secreta.

Se no relógio de fósforos e na gota de sangue que marcava os segundos ele confessa que "existia a possibilidade de uma catástrofe que nunca vinha", aqui o tom é outro. "Importa a contemplação, a imagem da continuidade", diz Macchi, 45.

É um quadro que ganha mais força ainda sob o teto de vidro da Pinacoteca. O passeio do sol pelo céu desloca as sombras desse relógio no chão, numa terceira dimensão embalada pela música do próprio espaço, já que o piso funciona como partitura da composição.

"A sala se transforma num relógio duplo, solar e de segundos", descreve Macchi. "Queríamos um vínculo com a arquitetura, o aspecto mais poderoso desse lugar", diz Rudnitzky.

Poderoso porque vazio. Macchi já martelou pregos numa parede formando a partitura de uma sinfonia, também já instalou um globo de espelhos no teto de uma sala esburacada como alusão à algazarra morta do fim de festa. Agora são só as paredes despidas em torno de outro tipo de tempo e música que fogem ao tiquetaque maçante.

No lugar da catástrofe consumada ou vindoura, a paz dos minutos quase iguais. "É um eterno retorno, mas com leves mudanças, mais espaço para o som", diz Macchi. "Um psicólogo diria que estou curado."

JORGE MACCHI
Quando: abertura hoje, às 11h; de ter. a dom., das 10h às 18h; até 31/5
Onde: Pinacoteca do Estado (pça. da Luz, 2, tel. 3324-1000)
Quanto: R$ 4; grátis sáb.


sexta-feira, 17 de abril de 2009

Em crise, Bienal é adiada para 2011

Instituição procura novo presidente

por Catia Seabra da Folha de S. Paulo


Enfrentando severa crise, o conselho de administração da Bienal de São Paulo já trabalha com adiamento de um ano da mostra de arte. Pelo calendário apresentado ao secretário municipal Andrea Matarazzo(recém-convidado a assumir a presidência da fundação), a próxima Bienal está programada para 2011. Não mais para o ano que vem, como originalmente previsto. Além disso, planejada para este ano, a Bienal de Arquitetura só deverá acontecer a partir de 2010.
Até lá, o futuro presidente ganharia fôlego para sanear as contas da fundação, negativas, pelo menos, há dois anos.
O prédio onde ocorre a Bienal de São Paulo e a Bienal de Arquitetura, projetado por Oscar Niemeyer e que fica no parque Ibirapuera

Segundo números obtidos pela Folha, a Fundação Bienal de São Paulo encerrou 2008 com uma dívida de curto prazo de R$ 4,657 milhões, sendo R$ 2,39 milhões com fornecedores e R$ 859 mil em empréstimos.
Ainda de acordo com o documento(encaminhado ao conselho fiscal e chamado de "minuta" pela presidência da Bienal) a fundação gasta, ao longo do ano, mais do que arrecada.
Em 2008, sua receita foi de R$ 13,9 milhões, e as despesas, R$ 15,6 milhões: um buraco de R$ 1,643 milhão. Em 2007, o déficit foi de R$ 1,551 milhão.

Procura-se
Desde outubro, o conselho da Bienal procura um sucessor para o atual presidente da fundação, Manoel Pires da Costa. Pelo estatuto, seu mandato estaria encerrado no dia 6 de fevereiro, dois meses depois da conclusão da Bienal.
Mas a debilidade financeira está afugentando os potenciais pretendentes. Presidente do conselho administrativo da fundação, o arquiteto Miguel Pereira conta que, antes de Matarazzo, outros cinco foram sondados para o cargo.
Os números da fundação, reconhece, os desencoraja. "A bienal está demorando a resgatar o prestígio e credibilidade. Sofremos um revés acentuado, principalmente nos últimos dois anos", afirma Pereira.
Também dedicado à escolha do novo presidente, o conselheiro Julio Landmann conta que a lista de convidados incluiu José Olympio, Rubens Barbosa e Suzana Steinbruch.
"Não me lembro de outra Bienal em que o novo presidente não estivesse conhecido até meados de março. Estamos no mínimo um mês atrasados", diz Landmann.
Aberta essa lacuna, o conselho está, segundo Landman, disposto a adiar a Bienal para 2011. "Eu jamais faria em 2010. Não me parece lógico. O conselho, por si só, já está convencido de que não seria ideal. Vamos dizer: não teria empecilho jogar ela para frente por mais um ano", admite Landmann.
Ao ser convidado pelo conselho, Matarazzo foi informado de que a intenção é montar a Bienal de artes somente em 2011. É a data que fixa o tamanho do mandato do novo presidente.

Consenso
"Há um consenso de que a mostra foi postergada para 2011. Estou trabalhando com esse prazo", afirma Matarazzo, à espera da revisão de uma auditoria sobre os números da Bienal. Até o presidente Manoel Pires da Costa reconhece: "Não é uma coisa absurda, em função do que está acontecendo na economia do mundo, deixar para fazer a Bienal daqui a dois, três anos".
Pires da Costa(que teve a minuta de balanço questionada pelo conselho fiscal) prefere generalizar a crise: "É um problema da economia do mundo".
Na semana passada, as contas da Bienal foram apresentadas para o conselho de administração. Contratada pela fundação, a empresa Deloitte Touche Tohmatsu apontou ressalvas nas demonstrações financeiras da fundação. A auditoria será revista.
O presidente da Bienal chegou a agendar uma entrevista com a Folha para falar sobre a saúde financeira da fundação. Mas, por orientação de seu advogado, o encontro foi cancelado. Em nota, a assessoria disse esperar o fim da auditoria.
Matarazzo, por sua vez, depende desses números para tomar sua decisão. "Nunca tinha cogitado isso. O que me sensibiliza é o risco de a Bienal terminar", acrescenta ele, que carrega o sobrenome de Ciccillo Matarazzo, fundador da instituição.


Pires da Costa tem trajetória polêmica na Fundação Bienal



por Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo


Manoel Francisco Pires da Costa entrou para a Fundação Bienal de São Paulo no final de 2000, numa das vagas abertas após uma série de conselheiros, entre eles Milú Villela, deixarem a instituição, depois de polêmicas que culminaram com a renúncia do então curador da 25ª Bienal, Ivo Mesquita.

Auxiliando na captação de um evento já em desgaste, Pires da Costa aproximou-se do então presidente da Fundação, o arquiteto Carlos Bratke, que lançaria seu nome para sucedê-lo, com apoio de Edemar Cid Ferreira, em julho de 2002. Na época, Pires da Costa era filiado ao PPS e havia sido presidente da BM&F (Bolsa de Mercadorias e de Futuros), cargo que teve que deixar após ser acusado, em 1996, de má gestão administrativa no Banco Patente pelo Conselho do Sistema Financeiro Nacional.
Manoel Francisco Pires da Costa, atual presidente da Bienal

A primeira polêmica com Pires da Costa na Bienal ocorreu em junho de 2003, quando Ethel Leon, curadora da 5ª Bienal de Arquitetura, pediu demissão do cargo por "falta de apoio institucional e verbas", quatro meses antes da mostra.

Em março de 2005, Pires da Costa foi reeleito presidente. Após uma enxurrada de críticas à 26ª Bienal, que teve Alfons Hug como curador, o presidente abriu mão de indicar um substituto e realizou um processo seletivo, organizado por um conselho, que escolheu Lisette Lagnado para cuidar da 27ª Bienal de São Paulo, realizada em 2006.

Em abril de 2007, às vésperas da segunda reeleição, Pires Costa se autodenunciou ao Ministério Público, admitindo que contrariou o estatuto da Bienal, que proíbe que membros da instituição forneçam bens à instituição, por usar sua empresa TPT para publicar a revista "BienArt".

Naquele mesmo mês, pela primeira vez na história da Bienal, o Conselho Fiscal recusou as contas da gestão de Pires da Costa, por "julgá-las comprometidas", mas a instituição reelegeu o empresário com um "voto de confiança" e a condição de uma comissão de ex-presidentes averiguarem as contas de sua gestão, que não chegou a nenhuma conclusão.

Em maio de 2007, a Folha publicou que, além de fazer negócios com a Bienal pela TPT, Costa comprava duplicatas que a instituição tinha para receber das firmas que alugavam espaços no pavilhão de exposições. Além disso, sua mulher recebia pela jardinagem e arranjos florais da Bienal e a corretora de seu genro fez os seguros da 27ª Bienal.

O Ministério Público considerou que, apesar de irregular, o negócio de Pires da Costa com a TPT não trouxe prejuízos à Fundação, mas realizou um Termo de Ajustamento de Conduta, no qual, entre outras coisas, o empresário comprometeu-se a não contratar empresas de parentes de diretores, conselheiros da Fundação e seus parentes de até o terceiro grau.

Assim como ocorreu com a mostra do "vazio", no ano passado, que não pagou artistas e prestadores de serviço dentro dos prazos estabelecidos, problemas com pagamento também marcaram a edição de 2006, que só teve suas contas encerradas quase dois anos depois de seu término.