sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Artistas da próxima Bienal de São Paulo também destacam violência

Não é a primeira vez que Steve McQueen usa a violência como ponto de partida para uma obra. Em seu filme "Hunger", premiado há dois anos em Cannes, dramatizou a greve de fome de Bobby Sands, ativista do IRA, o Exército Republicano Irlandês, que morreu em protesto contra o governo de Margaret Thatcher nos anos 80.

Sem muitas palavras e com cenas que evocam o expressionismo agudo de um Francis Bacon, causa desconforto. Põe a miséria humana, o corpo que definha, no centro da ação.
Ainda inédito no Brasil, o longa pode ser exibido na próxima Bienal de São Paulo, junto de uma obra que McQueen ainda está produzindo para esta edição da mostra paulistana, que começa em setembro.

Violência e guerra também aparecem na obra de outros artistas já confirmados na Bienal de 2010. Harum Farocki, videoartista alemão, está de olho nos traumas de guerra dos soldados norte-americanos em combate no Oriente Médio.
José Antonio Vega Macotela expõe o sofrimento atrás das grades de um presídio na Cidade do México, trocando favores do lado de fora da prisão por obras feitas pelos detentos trancados em suas celas.

Na dimensão econômica do conflito, a cineasta belga Chantal Akerman vai explorar as origens da crise imobiliária que descambou para o colapso financeiro a partir do retrato de uma comunidade norte-americana, a parte pelo todo, que tenta entender como um lado desperta a ira do outro.

Folha de S. Paulo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

LIBIA CASTRO & ÓLAFUR ÓLAFSSON PARA VENEZA 2011

Depois da nomeação francesa de Christian Boltanski como artista representante do país na próxima Bienal de Veneza, é agora a vez do comitê da Islândia anunciar a nomeação da dupla espanhola-islandesa Libia Castro & Ólafur Ólafsson.

Os artistas trabalham em colaboração desde 1997, quando se conheceram, rapidamente chamando a atenção internacional. Em 2009 receberam o prestigiado prémio de arte holandês Prix de Rome pelo seu vídeo Lobbyists.

Video still from Lobbyists

A prática de Castro e Ólafsson envolve frequentemente uma investigação profunda no contexto social e político onde a sua obra é exposta, usando uma enorme variedade de mídias.

“Com Libia Castro e Ólafur Ólafsson, o pavilhão islandês em Veneza em 2011 vai apresentar um duo artístico que construiu um impressionante conjunto de exposições internacionais e uma prática individual envolvente que se destaca no mundo artístico atual”, afirma Christian Schoen, diretor do Centre for Icelandic Art e curador da Islândia das edições de 2007 e 2009 da Bienal de Veneza.

Disponível em: www.flashartonline.com

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Artistas retratam soldados que morreram no Iraque e no Afeganistão


Nos seis dias que passou numa base militar de Basra, no Iraque, Steve McQueen não teve acesso às linhas de combate. Ficou sozinho no quartel, à espera de notícias. Eram mortes que se amontoavam nas pilhas de estatísticas da presença britânica na guerra ao terror.

Estava lá a convite do governo, para produzir uma obra de arte que só ganhou formas em casa. Ele voltou a Londres disposto a dar rosto aos números anônimos que identificam os mortos em conflito. Britânico que estará na próxima Bienal de São Paulo, McQueen tenta há sete anos fazer circular no Reino Unido selos postais com as caras de homens e mulheres que perderam a vida.

Cartela de selos com o retrato de um dos soldados mortos em combate do artista Steve MacQueen

"Queria que todos no país participassem desse ato", conta o artista, em entrevista à Folha. "Teriam um abalo muito maior sobre a psique se vissem a cara desses soldados todo dia, quando pegassem suas cartas."

Isso não deu certo até agora. Mas "Queen and Country", que virou uma instalação com selos reunidos num grande gabinete, engrossa um movimento de artistas que tentam sublimar o anonimato das baixas de guerra por meio de retratos, filmes e fotografias.

Num eco distante do impacto provocado pela Guerra do Vietnã entre artistas dos anos 70, que turbinaram a linguagem da performance, conflitos ressurgem como motor potente por trás de uma nova arte política.
"As pessoas continuam usando o próprio corpo como arma", diz o artista. "Agora também usam esse corpo como protesto, é uma situação que não descarta a presença física e o uso dela para fazer guerra."

Suas cartelas de selos nunca enviados transitam por museus em gavetas de madeira. Quase 22 mil pessoas assinaram um manifesto pressionando o Royal Mail, o correio britânico, a adotar os selos, mas em vão. Enquanto isso, a National Portrait Gallery, em Londres, volta a exibir esses soldados numa exposição em março.

Desenhos

Vai disputar a atenção do público com rostos dos norte-americanos que morreram no Iraque e no Afeganistão. São desenhos da americana Emily Prince, agora na Saatchi Gallery, em Londres. Desde que estourou a guerra no Iraque, em 2003, ela visita sites com retratos dos mortos e refaz à mão contornos de suas caras.

Na série, espécie de performance obsessiva, Prince já retratou mais de 5.000 anônimos que encontrou on-line em páginas como Military City. "A questão era tornar mais real essas estatísticas", conta a artista em conversa com a Folha. "Ver a imagem de um desconhecido ainda é abstrato, mas é menos que números."

Um dos mais de 5.000 soldados mortos em combate desenhado por Emily Prince

Prince tenta aniquilar essa abstração. Encara cada retrato como cartografia da memória apagada por números e relatórios. Anula o que poderia ser só efeito retórico tentando construir o mais exato arquivo de desenhos, humanos, no lugar de fotos, maquinais.

"Desenho quase em tempo real, porque me irritam as ausências", diz Prince. "É um arquivo imperfeito, sei que nem todos eles estão ali, mas costumo voltar para ver se esqueci alguém."

Enquanto McQueen examina os desdobramentos do corpo como arma, Prince destrincha a natureza desse corpo. Enxerga o Exército como grande entidade anônima, de indivíduos com personalidades distintas engolidas no rolo compressor das táticas de guerra.

"Pensava no soldado como o garoto que já pagava de machão no colegial, mas agora vejo que são normais", diz Prince. "O Exército, como corpo, é capaz de cometer atrocidades, mas espero que entendam que há indivíduos ali, que não têm culpa."

Em Fort Hood, no Texas, a maior base militar dos Estados Unidos, esses garotos, com ou sem culpa, tentam garantir a individualidade. Embaixo dos uniformes, tatuam seus próprios medos, desejos, esperanças.

Uma documentarista de Austin viu no ritual pré-embarque um possível retrato da guerra. Passou três anos visitando um estúdio de tatuagem vizinho à base, entrevistando os soldados.

"Com a agulha cavando na pele, eles revelam coisas que não diriam numa entrevista comum", diz Nancy Schiesari, diretora de "Tattooed Under Fire" (tatuado sob fogo), que pode ser visto no YouTube. "É uma forma de arte: esses tatuadores canalizam os sentimentos dos soldados em desenhos que encaixam sobre os músculos."

Depois do corpo como arma e do corpo anônimo do Exército, Schiesari estuda o corpo ameaçado, tingido para a batalha. Um soldado mandou gravar o desenho de um feto numa jarra, outro fez uma caveira, mas o mais comum é fazerem o próprio nome, em partes do corpo que esperam ficarão intactas caso sejam mutilados.

SILAS MARTÍ da Folha de S.Paulo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A modernidade ocupa o mosteiro

Exposição reúne três artistas contemporâneos que dialogam com arquitetura românica do São Bento

Antonio Gonçalves Filho do Estadão

Alguém já disse que os intelectuais rejeitam a percepção porque esta leva a emoções profundas - para não dizer à espiritualidade, palavra que o dicionário da arte contemporânea parece ter expurgado. Pois foi justamente numa conversa entre intelectuais, o pintor Marco Giannotti e o monge Carlos Eduardo Uchôa, durante a exposição do primeiro no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em maio do ano passado, que o assunto arte e espiritualidade veio à tona. Presos a um esquema em que a arte ficou refém do mercado, ambos cogitaram a possibilidade de escapar dos cubos brancos das galerias para ganhar um espaço público pouco convencional. E nenhum lugar parecia mais adequado para discutir a relação arte e espiritualidade que um mosteiro. Até porque o monge artista Carlos Uchôa, autor de uma tese sobre Picasso, é beneditino, o de São Bento foi escolhido para abrigar uma exposição onde 16 salas são ocupadas por pinturas, fotos, vídeos e instalações dos dois artistas citados mais o parceiro da dupla, José Spaniol.

Projeto e intervenção contemplado com a verba de um programa do Iphan e patrocinado pela Petrobrás, a exposição Arte e Espiritualidade tem uma proposta ousada: a de dialogar com a arquitetura do mosteiro, um prédio construído no estilo românico das grandes abadias europeias e sufocado pela eclética arquitetura dos vizinhos no centro de São Paulo. Há na mostra desde pinturas de grandes dimensões, que representam temas como o das 14 estações da via-crúcis, executadas por Giannotti e Uchôa, até uma instalação de troncos de eucaliptos que representam o firmamento, passando por genuflexórios fixados de ponta-cabeça no teto dos parlatórios, que dão a eles um aspecto de cenário de um filme de William Friedkin - essas duas últimas obras assinadas por Spaniol. Há ainda lugar para fotografias líricas que evocam a espiritualidade por meio de sombras projetadas em piscinas e em rochas, ambas reveladoras das semelhanças da linguagem artística de Giannotti e Uchôa.

O monge, que mantém seu ateliê ao lado do mosteiro, observa que as suas não são obras de arte religiosa stricto sensu. Ele não se dedica a nenhum tipo de arte sacra, mas existe, segundo o artista, uma religiosidade que perpassa o trabalho. Uchôa, que pintou os passos da Paixão desafiado por Giannotti, realizou a série de 14 telas pensando nas estações como uma "experiência de passagem", em que as figuras surgem e desaparecem no quadro, provocando o olhar do espectador. Autor de pinturas claras, que usavam o branco com a liberdade de um Cy Twombly, nessa série proliferam os vermelhos, trazendo uma carga de violência ausente em seus trabalhos anteriores.

Uchôa vê na arte contemporânea - mesmo nas instalações escatológicas de Damien Hirst e nas mutilações de Marina Abramovic - uma certa espiritualidade resultante da experiência do sofrimento, da dor. Para Giannotti, a arte contemporânea não aboliu a espiritualidade, apenas mostrou que "a beleza não está mais no deleite da contemplação, mas no juízo de alguém que busca um mundo melhor". E lembra inúmeros exemplos de artistas que fizeram do credo de Kandinski - de que toda grande arte é espiritual - obras monumentais, como as capelas assinadas por Matisse, Rothko, Volpi e pelo arquiteto suíço Peter Zumthor, prêmio Pritzker de 2009.

Sobre o papel da espiritualidade na arte contemporânea, José Spaniol, evocando o exemplo do alemão Joseph Beuys, mostra como é possível tratar figuras da simbologia cristã fora da tradição sem ser ofensivo. Sua instalação Ascensão é simples: são armários suspensos por estacas de eucalipto. A verticalidade é intencional. Basta apenas olhar para o alto. É para lá que aponta sua arte.

Arte, espírito e a metrópole


No aniversário da cidade, o Mosteiro de São Bento abre suas portas pela primeira vez ao público para mostrar obras contemporâneas em seu prédio centenário


Antonio Gonçalves Filho do Estadão

A busca da espiritualidade entre artistas modernos e contemporâneos, de Kandinski a Bill Viola, quase sempre rendeu obras-primas que evocaram a tradição pictórica medieval, renascentista ou barroca, atualizaram a iconografia dos grandes mestres, reutilizaram seus temas ou simplesmente inauguraram um novo capítulo na história da arte. Os exemplos são inúmeros e incluem Matisse, Rothko e, mais recentemente, o pintor alemão Gerhard Richter, que assinou há três anos os novos vitrais da Catedral de Colônia, na Alemanha.


Marco histórico da tradição cristã em São Paulo, o Mosteiro de São Bento, fundado em 1598 e até hoje no mesmo lugar, no centro da cidade, abre pela primeira vez suas dependências para mostrar arte contemporânea ao grande público, graças à iniciativa de um monge pintor, um Andrei Rublev extemporâneo no mundo escatológico de Damien Hirst. O monge, também diretor da Faculdade São Bento, Carlos Eduardo Uchôa, comemora seus 14 anos de mosteiro inaugurando uma ambiciosa exposição ao lado de dois outros artistas paulistanos conhecidos, Marco Giannotti e José Spaniol, todos eles nascidos na década de 1960.

São 16 salas ocupadas por pinturas, fotografias, vídeos e instalações dos três artistas, que apresentam trabalhos individuais e outros concebidos em parceria. Dialogando com o prédio do mosteiro (que não é o original do século 16, mas um projeto do arquiteto alemão Richard Berndl realizado há exatamente um século, em 1910), algumas dessas obras foram concebidas especialmente para espaços reservadíssimos como o parlatório (onde os monges recebem visitas) e a capela privada dos religiosos, até então mantida longe dos olhos do público. Ela é invadida por imagens da cracolândia paulistana, filmadas pelo monge Carlos Eduardo Uchôa num dia de chuva, provocando um violento contraste entre a paz do mosteiro e o genocídio praticado na vizinhança pelos traficantes de crack.

São imagens fantasmagóricas de dependentes vistos ao longe e incorporados ao cenário da metrópole sob a chuva torrencial que tem castigado São Paulo nas últimas semanas. Dois pisos abaixo, outra instalação, projetada pela dupla Marco Giannotti e José Spaniol, faz o percurso inverso. No auditório do mosteiro, uma projeção em looping de velas queimando em tempo real revelam aos visitantes o que fazem, afinal, esses monges no centro de uma cidade deteriorada: oram pela sofrida comunidade da urbe.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Detanico e Lain fazem mapas das estrelas



Dupla constrói desenhos a partir de cartografia estelar em nova individual 



Galeria em SP também recebe instalações de Ana Maria Tavares e desenhos e fotografias de plantas da artista Gabriela Albergaria 



Estão na fachada da galeria o Sol e a Lua. Lá no alto, são traços dispostos em círculo. Não lembram a radiação solar, nem a luz do satélite. Detanico e Lain, dupla de artistas com mostra na Vermelho, preferem o silêncio à estridência. 


Voltam à investigação das constelações que marcou sua última exposição no espaço. Escreveram então os nomes das estrelas com os tipos de uma fonte que inventaram. Eram círculos semitransparentes, sobrepostos. Tinham na própria forma a coloração mais forte e mais fraca dos astros.


Detanico Lain - Constelações do alfabeto (2010) - detalhe


Agora os artistas tratam da expansão do universo. Pegam a fonte Univers, de letras fragmentadas, e estouram os retalhos, branco sobre preto. Na parede de uma sala, está essa espécie de Big Bang tipográfico. "É como se a gente tivesse explodido o nome da tipografia", descreve Angela Detanico. "Está escrito como se fosse uma enunciação literal do que ela é." 


Mas por mais que tenha a realidade crua como base, pouco parece literal na obra desses artistas. Usam o mesmo sistema de classificação das estrelas empregado por astrônomos, mas enxergam outra beleza nesse substrato científico. 
Ligam os pontos entre as letras gregas que representam as estrelas para soletrar no espaço branco do papel palavras como "simetria" e "hemisfério". São desenhos abstratos que surgem da disposição nada abstrata dos astros no firmamento. 
"Esse é um mapa real, uma cartografia real", diz Detanico. "O que a gente fez foi usar essa designação para criar um céu de letras e escrever palavras como se fossem constelações."


Estão dadas as coordenadas. Da mesma forma que destrincham os pixels de uma imagem ou desfazem e recombinam os elementos sonoros de uma gravação, Detanico e Lain traduzem mapas já existentes, sejam eles de cidades ou de estrelas. 
Lembram a tradição minimalista, de Donald Judd ou Sol Le Witt, com seus sistemas pré-determinados de linhas e pontos associados aos planos. Mas não herdam a pretensão de livrar a arte de certa obrigação formalista. Tentam explicitar a harmonia dos sistemas, apontando novas ordens possíveis. 



Outras paisagens


Também toma outro rumo a obra de Gabriela Albergaria. No anexo da Vermelho, ela revisita os jardins de Versalhes em fotografias e desenhos, completando a impressão fotográfica com traços a lápis. Exerce outro controle sobre a representação, da mesma forma que os franceses domavam a natureza em seus jardins calculados. 
No andar de baixo, Ana Maria Tavares suspende o Rio e outras paisagens em caixas de vidro, que remetem à transparência da obra arquitetônica de Lina Bo Bardi. 
(SILAS MARTÍ) 




SERVIÇO

DETANICO E LAIN

Quando: de ter. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h; até 20/2
Onde: galeria Vermelho (r. Minas Gerais, 350, tel. 3138-1520)
Quanto: entrada franca

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bienal terá Nuno, Nan Goldin e McQueen

Fotografia de Nan Goldin - Trabalho da norte-americana enfoca amizades, amores, solidão e fragilidade


A natureza política da arte volta ao centro do debate na 29ª Bienal de São Paulo, em setembro. Não aquela arte panfletária, dos significados unidimensionais, mas uma arte capaz de mudar o jeito como vemos e refletimos sobre a sociedade - sendo irrelevante, portanto, se ela trata de conflitos ou não e a forma como articula seu discurso.

Nisso, a nova mostra, renascida após a crise da Bienal do Vazio, é de certa forma uma antítese à exposição de 2006, cujo tema era Como Viver Junto. Aquela bienal buscou juntar ideias e procedimentos conectados de alguma forma com a arte produzida no mundo nos anos 70 - como a performance, o discurso ativista e o debate de temas "urgentes", como meio ambiente e neocolonialismo.

O Estado teve acesso com exclusividade a uma lista dos artistas mais importantes já definidos para a jornada (a lista completa só deve ser anunciada oficialmente em fevereiro). O choque de significado da exposição do curador-chefe Moacir dos Anjos é um leque amplo. Começa com a arte ativista do chinês Ai Weiwei, de 53 anos, nascido num campo de trabalhos forçados por ser filho de um "inimigo" da revolução cultural (o poeta Ai Qing). Espraia-se pelas jornadas fotográficas nos seios das comunidades gays e transexuais, filtradas pelo olhar da americana Nan Goldin, de 57 anos.

Outros nomes: a palestina Emily Jacir, de 40 anos, nascida em Bagdá, que junta fotografia, vídeo e performance; o britânico Jeremy Deller, ganhador de um prêmio Turner; a alemã Isa Genzken, que também trabalha com diversos suportes; o belga Francis Alys, que vai do texto à animação; o português Artur Barrio; e o paraibano Antonio Dias e a carioca Alice Miceli.

Uma estrela confirmada é o inglês Steve McQueen, de 41 anos (que representou a Inglaterra na Bienal de Veneza do ano passado), que vem com seus filmes em preto e branco influenciados pela nouvelle vague e por Andy Warhol, e nos quais ele é geralmente um protagonista.

Cildo Meireles, nome fundamental da arte contemporânea, volta à mostra. Em 2006, o artista plástico Cildo Meireles tinha ameaçado deixar a Bienal de São Paulo caso o ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira continuasse no conselho da fundação Bienal. Ferreira foi afastado, mas já não havia tempo para Meireles enviar uma obra. Na época, ele estava com o plano de fazer a instalação Homeless Home (já montada na Bienal da Turquia, em 2003, e cuja origem era um desenho de 1968).

Homeless Home, prevista para ser montada no centro das cidades, volta a ser o foco em São Paulo. Recentemente, Cildo, comparando seu desenho de décadas atrás aos de hoje, observou que o que antes era "sofrimento, crônica social, política e catarse" cedeu lugar à "poesia", mas ressalta que muitas das preocupações que aborda nos "não-desenhos" já apareciam nos desenhos.

Outro nome essencial das grandes exposições nacionais é Nuno Ramos, que volta às mostras de arte após ganhar o Prêmio Portugal Telecom de Literatura com a obra Ó. Ramos tenciona mostrar, no vão central do prédio da Bienal, uma versão expandida de um trabalho com urubus que apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil do Distrito Federal. Aquele trabalho do CCBB era intitulado Bandeira Branca, e consistia em uma instalação com três urubus entre caixas acústicas de vidro e três túmulos de areia socada cobertos com pedras negras (homenagem a Goeldi).

A 29ª Bienal está marcada para ocorrer entre 21 de setembro e 12 de dezembro. Além de Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, curadores-chefes, haverá curadores convidados. Eles são a espanhola Rina Carvajal, do Miami Art Museum; o sul-africano Sarat Maharaj, que vive em Londres, onde é professor na Universidade Goldsmiths, e também nas universidade de Lund e Malmo, na Suécia; como assistentes, o angolano Fernando Alvim, que dirige A Trienal de Arte de Luanda; a japonesa Yuko Hasegawa, do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio; e a espanhola Chus Martinez, curadora-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. O presidente da instituição, Heitor Martins, estimou o custo da mostra em cerca de R$ 30 milhões.


Confirmados

Ai Weiwei, artista chinês

Alice Miceli, artista carioca

Antonio Dias, artista paraibano

Artur Barrio, artista português

Cildo Meireles, artista carioca

Emily Jacir, artista iraquiana

Flavio de Carvalho, artista carioca da geração modernista

Francis Alys, artista belga

Isa Genzken, artista alemã

Jeremy Deller, artista britânico

Livio Tragtenberg, compositor e músico paulistano

Nan Goldin, artista norte-americana

Nuno Ramos, artista paulistano

Steve McQueen, artista britânico



por Jotabê Medeiros do Estadão

DOCUMENTA DE KASSEL 2012


por FABIO CYPRIANO da Folha de S.Paulo


Diretora da próxima edição da Documenta conta como elabora a mostra

Desde 1972, a Documenta de Kassel é considerada a mais importante mostra de arte contemporânea. Uma das razões para tanto é que seus diretores têm cerca de quatro anos para organizá-la e, como diz a norte-americana Carolyn Christov-Bakargiev, em tom metafórico, "certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos".

Carolyn Christov-Bakargiev, diretora artística da Documenta de 2012

Indicada para diretora artística da Documenta, em dezembro de 2008, por comitê que contou com o brasileiro Paulo Herkenhoff e que teve como finalista Lisette Lagnado, Christov-Bakargiev, 52, ainda está na fase inicial da pesquisa. "Eu queria ter ido ao Brasil, em 2009, ver o Panorama [no Museu de Arte Moderna], do Adriano Pedrosa, mas, como só me desliguei do museu Castello di Rivoli [em Turim], em dezembro, acabei não conseguindo. Mas certamente irei agora em 2010, pois estou criando uma rede, e o país está em minha rota", contou à Folha, por telefone.

"Eu nunca gostei de trabalhar sozinha, eu gosto de colaborações, de pingue-pongue com muita gente. Foi assim que fiz a Bienal de Sydney e a Trienal de Torino", afirma a curadora. Christov-Bakargiev esteve no Brasil quando organizou a Bienal de Sydney, na Austrália, em 2008, e daqui levou quatro artistas para a exposição: Anna Maria Maiolino, Marcellvs L., Hélio Oiticica e Renata Lucas --que já foi convidada para a Documenta, segundo curadores próximos à norte-americana.

Ainda sem um projeto final, já que a mostra se realiza apenas em 2012, Christov-Bakargiev pretende manter algumas das marcas das últimas Documentas, entre elas descentralizar a arte ocidental, como afirma na entrevista abaixo.

Para ser selecionada como diretora artística você precisou elaborar um projeto?
 Carolyn Christov-Bakargiev - Não foi exatamente um projeto. O comitê de seleção me contatou e, para ser aceita como candidata, precisei responder a três questões. A primeira foi para que serve a Documenta e qual é o seu papel; depois, qual é minha metodologia -o que foi muito interessante, pois, estranhamente, nunca pensei nisso, e foi um exercício de autorreflexão. E, finalmente, o que é necessário -uma questão também interessante, porque, afinal, o que se pode dizer que é necessário? Mesmo a vida pode não ser necessária e, então, mudei [a questão] para o que se pode fazer.

Então, o que se pode fazer?
 Christov-Bakargiev - Bom, isso muda com o tempo, mas, basicamente, creio que a Documenta se transformou num estado da mente na paisagem contemporânea, tanto no mundo da arte como além dele. Creio que tenha se tornado um estado mental, pois nela se pode pensar no papel da cultura no mundo. Mas isso eu escrevi há mais de um ano e, talvez, eu mesma já tenha mudado de opinião (risos). Certo é que o mundo se transformou de maneira dramática e radical desde 1955. Hoje, como se sabe, é muito diferente, a arte se tornou popular -o que não era nem mesmo nos anos 1970, quando Harald Szeemann fez a Documenta. Assim, ela sempre esteve vinculada a esse desejo de uma consciência coletiva e, por outro lado, tem sido espaço para debater sobre o alto modernismo e os tempos pós-coloniais, uma negociação durante a globalização.

Mas qual é a diferença entre a Documenta e as bienais e feiras de arte?
 Christov-Bakargiev - As bienais, que hoje chegam a 154 em todo o mundo, possuem uma certa independência territorial e independência enquanto laboratórios de experimentação para novas praticas artísticas e novos modelos de sociedade. Já as feiras de arte, assim como o mercado da arte, não são experimentais e transferem para um objeto artístico um tipo de investimento simbólico de marcas imateriais. Como vivemos numa sociedade de marcas imateriais, que é o mundo digital, de repente as obras de arte são o mais importante produto da sociedade, pois são a materialização de marcas imateriais.
Além desses dois mundos, existe a Documenta, e o que a caracteriza é que ela ocorre a cada cinco anos --e esse tempo a transforma num dinossauro muito lento. Alguém me disse que deveríamos chamá-la de "ela já está atrasada", o que eu não vou fazer, mas, se pensamos no conceito de "inatualidade suprema", como tantos filósofos exploraram na importância de não se estar em dia, isso dá à Documenta um desafio, que é ter outro tempo. Certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos, é preciso um longo tempo para se estudar o comportamento de um animal, por exemplo.

E como você a vê até agora?
 Christov-Bakargiev - É uma exposição no centro da Europa, e sou consciente de que isso gera um problema duplo. Por um lado, defendo que toda exposição seja muito baseada no local onde ocorre, pois acredito que a verdadeira experiência da arte tem a ver com o corpo e, portanto, deve ter uma relação com o espaço onde acontece.
A Documenta não pode se fechar nela mesma, pois o incrível movimento que fez com Catherine David (1997) e com Okwui Envezor (2002) foi ajudar a descentralização da arte ocidental e ver a impossibilidade de pensar através de formas que não sejam complexas ou rizomáticas.
Seria absurdo isolar Kassel, sem se descentralizar demais, senão seria uma nova forma de neocolonialismo, o que também seria absurdo. Assim, eu não lhe contei o que vou fazer, mas os problemas com os quais me confronto.

Mostra se fortaleceu nos anos 70

A Documenta de Kassel foi criada em 1955, por Arnold Bode, para reintroduzir a arte moderna na Alemanha, perseguida durante o nazismo e considerada "arte degenerada" -o que chegou a ser o título de uma mostra apoiada por Hitler.
Assim, desde seu início, a Documenta -que começou a ser realizada com periodicidade irregular, mas em 1972 passou a ser organizada a cada cinco anos- teve uma visão internacionalista, contra o fechamento do nazismo.
Em 1972, sob orientação do suíço Harald Szeemann, que a mostra ganhou repercussão internacional, abrigando artistas do grupo Fluxus e da performance e valorizando a função crítica da arte. Desde então, é tida como a mais importante mostra de arte contemporânea.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bienal de Veneza 2011


BOLTANSKI REPRESENTARÁ A FRANÇA NA BIENAL

A França anuncia a sua presença na Bienal de Veneza de 2011, tendo Christian Boltanski como artista representante do pavilhão do país, com curadoria de Jean-Hubert Martin, antigo diretor do Centro Georges Pompidou de Paris.

Boltanski é especialmente conhecido pelas suas instalações evocativas de imagens de crianças, frequentemente ligadas à memória e ao Holocausto. Boltanski é também pintor e escultor.

ENTREVISTA: PAULO SERGIO DUARTE

por MARCOS AUGUSTO GONÇALVES da Folha de S. Paulo

Situação de museus de arte no país é deplorável

Para crítico e curador, políticas do Estado brasileiro "refletem estatuto da arte na consciência da elite, que é inexistente"

CRÍTICO, CURADOR e professor de história da arte, Paulo Sergio Duarte cita o abandono do Museu de Brasília como exemplo da indigência das políticas públicas em relação ao setor e diz que o Instituto Brasileiro de Museus é só "um escritório com diretoria e alguns assessores". Ele vê os museus como "instrumentos indispensáveis para qualquer sistema educacional que se preze" e advoga interação entre essas instituições e universidades.


Pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio, Duarte, foi curador da 5ª Bienal do Mercosul (2005) e do Projeto Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, no ano passado. Ele cobra do governo Lula a definição de prioridades e defende que os museus federais sejam centros de excelência e formação técnica. Quanto às mudanças na Lei Rouanet, propõe tratamento especial para investimentos em aquisição de acervos e infraestrutura de museus -hoje preteridos em favor do patrocínio de exposições temporárias.

Qual é a situação da rede de museus do país?
PAULO SÉRGIO DUARTE - É preciso lembrar logo que só vamos falar de museu de arte, a cultura em tão elevado estado de condensação que nós não chamamos de cultura, mas de arte. No caso desses museus, a situação é deplorável. Existem ilhas razoáveis que estão longe de dar um bom panorama histórico da arte no país.

Qual é a responsabilidade do governo nessa situação?
DUARTE - Não é um problema só de governo, este ou passados. A política cultural do Estado reflete o estatuto da arte na consciência da elite brasileira. E esse lugar simplesmente não existe, com raríssimas exceções. Repetindo o que digo há 30 anos: percorrendo, em qualquer uma das duas maiores cidades do país, todos os seus museus, é impossível para um professor dar um curso digno da história da arte do século 20.
Tenho insistido sobre o fato de que neste ano Brasília completa 50 anos. Onde está seu museu de arte? No antigo Clube das Forças Armadas, depois cedido para o Casarão do Samba, e posteriormente transformado no museu de arte. Está lá num prédio interditado, cercado por hotéis de arquitetura pífia. Até aqui, este é o lugar do museu na capital da nação. Eu defendo que se faça um concurso internacional para este museu, como foi feito no Rio para o Museu da Imagem e do Som.

Isso é simbólico quanto à importância que o poder público confere à arte?
DUARTE - Isto não acontece por mero acaso no país no qual sobra dinheiro para malas em automóveis e aviões de pastores evangélicos, fraldas de dólares debaixo das calças de cabos eleitorais e até nas meias de deputados. Qual pode ser o estatuto da arte nesse lugar? Como acreditar que a arte é um conhecimento específico, muito importante para compensar os efeitos da indústria cultural, e formar um olhar crítico no cidadão se, na capital do país, é tratada de modo tão lamentável?

Como você vê a atuação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado pelo governo?
DUARTE - Por enquanto, é um escritório com uma diretoria e alguns assessores.

Como ele deveria se estruturar?
DUARTE - Os museus são, antes de tudo, equipamentos necessários à formação de cidadania e um instrumento indispensável de qualquer sistema educacional que se preze. Com as tarefas enormes e com o alarme de emergências tocando todo dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, não pode dar a devida prioridade aos museus.
Parodiando Carl von Clausewitz, na sua frase que já se tornou clichê: os museus são importantes demais para ficar nas mãos de museólogos. Os acordos e convênios com universidades e institutos de ensino e pesquisa nas diversas regiões do país poupariam da inchação o quadro de pessoal do Ibram.
Acredito que, para o primeiro mandato do presidente Lula, estava correta a política do Ministério da Cultura de prospecção do campo realizada pelas consultas a câmaras setoriais, reuniões e estímulos à participação. Mas já é tempo de ter focos precisos, prioridades de efeitos multiplicadores. Acima de tudo, as instituições federais têm de ser centros de excelência e de formação técnica.

Que prioridades?
DUARTE - Por exemplo, os projetos educativos dos museus devem priorizar a formação de professores e secundariamente se voltar para o cidadão comum. As visitas de turmas de alunos de escolas e colégios devem estar sempre programadas como trabalhos práticos de professores preparados pelos próprios museus em programas de convênios com as secretarias de educação. Os programas educativos para professores devem estar voltados para os docentes de todas as áreas, e não apenas para aqueles de arte e educação artística. Só desse modo fará sentido a divulgação dos números de visitação de alunos; por enquanto servem para a satisfação demagógica e a prestação de contas a departamentos de marketing de patrocinadores.

Em relação a museus, o que deveria mudar na Lei Rouanet?
DUARTE - Eu considero que deveria haver mais estímulo fiscal aos investimentos em infraestrutura dos museus e aquisição de acervos do que para exposições temporárias. Não se trata de acabar com o estímulo às exposições e sua documentação em catálogos. Mas a aquisição de obras e publicações que exigem longas pesquisas e não estão vinculadas a um evento temporário mereceriam receber tratamento diferenciado. O mais grave, segundo li na Folha [Ilustrada, 24/11/09], é o governo querer disciplinar ou mesmo proibir a remuneração dos profissionais contratados para dirigir museus ou instituições culturais que adquiriram um estatuto autônomo, como organizações sociais. É um estímulo ao pior amadorismo ou a uma péssima elitização das direções das instituições: só ricos, pessoas que não vivem do que fazem, poderão ocupar essa direção, ou funcionários mal remunerados.

Que lições devemos tirar do incêndio que destruiu parte importante da obra de Hélio Oiticica?
DUARTE - A primeira lição é que não se deve nunca dispensar uma consultoria de risco indicada por uma boa empresa de seguros para qualquer edificação que for armazenar acervos preciosos. Mais do que isso: uma das cláusulas ao uso das leis de incentivo à cultura para instituições que preservam acervos seria a realização prévia da consultoria e o financiamento, pela própria lei de incentivo, da execução de todas as medidas técnicas que sejam recomendadas.
Acho que quem primeiro deveria dar esse exemplo é o próprio Ministério da Cultura, realizar essa consultoria em cada uma das instituições sob sua responsabilidade. A verdade é que em muitos casos nem as normas estabelecidas pelos Bombeiros são cumpridas.

Se compararmos arte contemporânea, mercado e instituições do Brasil com arte contemporânea, mercado e instituições de países mais avançados, quais são os principais descompassos?
DUARTE - Temos atualmente uma excelente produção de arte, reconhecida, antes de tudo, por importantes instituições e coleções estrangeiras. Nossas instituições apresentam os mesmos descompassos que existem para outras áreas, a começar pelo sistema educacional: quais são os descompassos que existem entre os sistemas educacionais brasileiro, japonês, alemão, americano, francês e inglês, por exemplo?
Nossas instituições de arte estão para as instituições desses países assim como [estão] nossa educação e nossos serviços de saúde. Quanto ao mercado, me parece que amadureceu muito, nos últimos 20 anos, em São Paulo; se estrutura no Rio e em Belo Horizonte, mas depende exclusivamente de colecionadores particulares. As instituições públicas não têm recursos regulares para aquisições.

E as doações?
DUARTE
- Dou um exemplo. A diretora do Museu Nacional de Belas Artes declarou que recebeu em poucos anos milhares de doações. O número publicado chegava a dezenas de milhares, embora isso possa ter sido um erro tipográfico. Mas, se é verdade, é evidente prova do elevado grau de indigência que conduz a política cultural de artes visuais. Integrar o acervo do Museu Nacional de Belas Artes deve ser privilégio reservado às obras de artistas que constituem um patrimônio do povo brasileiro e cuja fruição vai efetivamente formar o olhar do cidadão no campo da arte. Visite-se a sala de arte moderna e contemporânea do museu e ver-se-á que, além das inúmeras lacunas, existe quase sempre a inversão de valores: quanto menos importante o artista mais espaço ocupa sua obra. É uma aula completa do que não deve ser feito.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

ARTIGO PRÉ BIENAL

Experimentando Carvalho

por Camila Molina do Estado

Neste ano, você vai ouvir falar muito dele, o rei das experiências

Em 1931, o artista Flávio de Carvalho (1899-1973) realizou a Experiência nº 2 em São Paulo: de boné, andou em sentido contrário ao cortejo de uma procissão de Corpus Christi. Esta ação quase o levou a ser agredido pelas pessoas, que o consideraram um desrespeitador dos costumes religiosos. Interessado no estudo da antropologia e da psicanálise, ele teve de ser protegido pela polícia. Hoje, certamente, esse ato "pode parecer quase uma bobagem, uma provocação que não teria mais impacto", como diz Moacir dos Anjos, coordenador geral da 29ª Bienal de São Paulo, cuja mostra, este ano, em setembro, terá justamente Flávio de Carvalho e aquela experiência contraconvencional como uma das âncoras principais para tratar do tema Arte e Política. Será o ano de Carvalho.

Juntando a participação de destaque do artista na próxima Bienal e ainda a retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) vai dedicar a esse criador entre 15 de abril e 13 de junho, 2010 já se configura mesmo como o ano do resgate de Flávio de Carvalho, oportunidade mais do que especial para se pensar a contribuição plural desse artista - pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo, engenheiro, vanguardista -, que atuou num contexto de passagem do moderno para o contemporâneo. Soma-se, ainda, o lançamento, em 2010, do livro Dialética da Moda, que a editora Cosac Naify prepara como coletânea de artigos que Carvalho publicou em 1956 no extinto Diário de São Paulo - naquele mesmo ano, ele realizou a Experiência nº 3, passeando pelo Viaduto do Chá com seu New Look, traje formado por saiote com pregas, blusa com mangas folgadas, meia arrastão e sandália de couro. E tem mais: a mostra La Deriva És Nuestra, que ocorrerá a partir de 4 de maio no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, na Espanha - coletiva com curadoria de Lisette Lagnado que tem Flávio de Carvalho como ponto de partida, principalmente sua relação com arquitetura e urbanidade.

Pode até ter sido uma coincidência a junção de todas essas iniciativas em torno do artista, mas é curiosa a movimentação ao redor de um único criador. "Este é um momento de quebra de certezas e a obra de Flávio de Carvalho surge naturalmente por ele ser um artista nessa linha, contemporâneo porque faz questionar o nosso próprio tempo", diz Moacir dos Anjos. "É importante criar essa repercussão, repensar a história da arte no País, que exclui certos artistas, pouco afeitos a definições, porque perturbam sua narrativa", afirma ainda o coordenador da 29ª Bienal. "A obra de Flávio de Carvalho é de difícil interpretação e ele entra na reflexão sobre o que é moderno e contemporâneo, algo que tem ligação com o timing do MAM", diz Felipe Chaimovich, curador do museu, que convidou Rui Moreira Leite para conceber a retrospectiva. "Esse rumor em torno dele é para mim surpreendente", afirma Lisette Lagnado, que está há dois anos preparando a exposição para o Reina Sofia.

Flávio de Carvalho é um artista que criou em várias frentes. Formado em Engenharia, estudou em Paris e na Inglaterra entre 1911 e 1922, voltando a São Paulo pouco tempo depois da realização da Semana de Arte Moderna de 22. Seus primeiros projetos modernos foram dedicados à arquitetura, entretanto, não foram concretizados, como o que participou, em 1927, do concurso Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Já naquela época era tido e havido como o "revolucionário romântico", definiu o arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965).

"Ele, em qualquer momento, estava na onda sem estar nela propriamente", diz Rui Moreira Leite, autor do livro Flávio de Carvalho - O Artista Total (Editora Senac) e curador da retrospectiva no MAM. Entre tantas atividades, travou contato com os surrealistas europeus; fundou, em 1932, o Clube dos Artistas Modernos (CAM), com Antonio Gomide, Di Cavalcanti e Carlos Prado; faz performances como a Experiência nº 2; pinturas de raiz expressionista (a exposição de 1948, no Masp, lhe dá a visibilidade ampla); cenário e figurinos para A Cangaceira, um dos espetáculos do Ballet do 4º Centenário de São Paulo; escreve e lança livros; realiza a Experiência nº 4, de cunho antropológico, na Amazônia, com quase 60 anos.

Sendo assim, a retrospectiva no MAM não vai se centrar no Flávio de Carvalho artista plástico, porque seria muito pouco. O mote, segundo o curador, será os vínculos que o criador estabeleceu em sua trajetória, culminando numa produção tão plural. "Vamos acompanhar a cabeça do Flávio, mas a dificuldade é que não se pode exagerar na quantidade de informação", diz Moreira Leite. "Flávio sempre passou uma ideia de ser maluco, mas era tudo muito claro para ele." A retrospectiva, com documentos, livros, ampliações fotográficas, projetos e obras originais (do museu e de outras instituições e de colecionadores particulares) ocupará a Grande Sala do MAM.

Por outro lado, ao mesmo tempo, na Sala Paulo Figueiredo do museu, se dará uma relação de Flávio de Carvalho com a contemporaneidade, por meio da mostra A Cidade do Homem Nu, com curadoria do colombiano Inti Guerrero. Nela a obra do artista estará em diálogo com imagens do cantor Ney Matogrosso e de criadores nacionais e internacionais como Claudia Andujar, Cristina Lucas, Miguel Angel Rojas e Daria Martin.

Já na 29ª Bienal de São Paulo o desafio, por enquanto, será o de apresentar a Experiência nº 2 (da qual não se há nenhum registro físico), na vertente da relação entre arte e política. "Como descrever a ação sem falar do contexto de uma São Paulo conservadora, religiosa? Pensamos em criar ambiente que revele a potência desse trabalho", diz Moacir dos Anjos. A mostra ainda está em fase de plena pesquisa, mas não interessa ao projeto da 29ª Bienal ter "uma sala especial Flávio de Carvalho", como adianta o curador. "Nosso interesse principal é atualizar a exposição de Flávio de Carvalho." Moacir dos Anjos também frisa que não se trata de um redescobrimento do artista no Brasil e que a escolha dele como um destaque de "potência para a arte contemporânea" pode render outros frutos. "Ele é relativamente pouco conhecido internacionalmente e esta é uma proposição da Bienal para fora", diz o curador.

'Waltercio e sua sintonia poética

Salas e Abismos propõe reflexão sobre as múltiplas formas com que o artista explorou a arquitetura

A relação entre a obra de arte e o espaço que a circunda, que sempre foi uma das questões motrizes do trabalho de Waltercio Caldas, recebe agora atenção especial do artista, tornando-se elemento central não apenas da alentada exposição Salas e Abismos, em cartaz até fevereiro no Museu Vale, em Vila Velha (ES), mas também fio condutor do livro homônimo, a ser lançado no próximo mês, em coedição pelo museu capixaba e pela editora Cosac Naify. Percorrendo ambientes criados pelo artista desde a década de 80 em diversos espaços do Brasil e do exterior e reunindo textos pontuais de Paulo Venâncio Filho, Paulo Sérgio Duarte e Sônia Salzstein, a obra propõe uma espécie de reflexão visual sobre as múltiplas e obsessivas formas com que Waltercio explorou a arquitetura.


Ao longo de 240 páginas, o leitor tem acesso a 28 ambientes criados pelo artista, desde Ping-Ping (obra criada em 1980) até sua mais recente instalação, O Silêncio do Mundo, uma espécie de imersão cromática de grande impacto e marcada por uma espécie de suspensão silenciosa. Há também amplo espaço dedicado a obras de difícil acesso ao público brasileiro, como aquelas feitas para Bienais de Veneza (1997 e 2007) ou para as recentes exposições que o artista realizou na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela), ambas em 2008.

Assim como na exposição - que a partir de junho poderá ser vista em versão ampliada também no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro -, onde cada uma das salas retratadas parece desdobrar-se na outra, o livro propõe um encadeamento, um diálogo entre imagens com grande sintonia formal e poética. Como explica o artista, são trabalhos realizados em diferentes épocas de sua vida, que apresentam soluções distintas para questões diferentes e que, no entanto, possuem uma surpreendente unidade. São como "versões contínuas e incessantes da mesma sala", sintetiza por sua vez o curador Paulo Venâncio Filho.

Aspectos como a contraposição entre linhas e planos, uma recorrente exploração do contraste entre transparência e densidade cromática ou o adensamento do espaço vazio por meio de sutis, porém potentes, elementos simbólicos e rítmicos se destacam, traçando uma linha de união entre as obras. Não à toa Sonia Salzstein fala em "inteligência formal camaleônica" ao se referir aos desdobramentos na obra de Waltercio. Trata-se de uma teia de significações que se expande em diferentes sentidos, temporais e espaciais.

Não importa se a escala é diminuta, como em pequenas associações de objetos, como em Cabe ao Abismo Construir Seus Personagens, ou se a ação assume grandes dimensões (é o caso por exemplo de Quarto Amarelo, uma intervenção-homenagem à arquitetura de Álvaro Siza no Centro Galego de Arte Contemporânea). O que está em jogo é sempre a relação entre o ambiente e a obra. Ou, mais especificamente, entre a cena construída e o espectador. "O que me interessa não é simplesmente montar uma exposição, mas buscar relações, tentar entender a maneira como o corpo humano se move, como o olhar se comporta", explica Waltercio, lembrando que esse tipo de questão já o movia desde as primeiras maquetes que construiu, ainda em meados da década de 60.

Ele conta que sempre o intrigou a paralisia das obras de arte. Ao contrário de outras formas de expressão artística, que se movem diante do espectador, as artes visuais dependem da mobilidade do espectador para adquirir sentido. "São as pessoas que andam e não a obra", acrescenta, atribuindo a isso um certo receio pessoal em aceitar a pintura como uma questão produtiva. Não que elementos pictóricos como a cor e a linha estejam ausentes de seu trabalho. Eles tem aí uma presença fundamental, mas questionadora. Surgem não para referendar a ilusão da representação no espaço bidimensional, mas sim para ampliar os ângulos de percepção, contribuindo com o jogo de escalas, materiais e ambientes.

Maria Hirszman do ESTADÃO

SERVIÇO
Salas e Abismos, Waltercio Caldas
Museu Vale
Pátio da Antiga Estação Pedro Nolasco Pedro Nolasco s/n - Argolas
Vila Velha / Espirito Santo
CEP 29114-920
Telefone: 55 (27) 3333-2484
24 de outubro a 21 de fevereiro terça a domingo, das 10 às 18h e sexta, das 12 às 20h

EXPOSIÇÃO EM SP: Gary Hill


Circumstances/Circunstâncias',
mostra de sensação visual

O americano Gary Hill foi um dos precursores da videoarte, nos anos 70 e traz cinco instalações ao MIS


Na obra ‘Viewers’, 15 homens encaram (em silêncio) o visitante.]

Gary Hill se considera um ‘artista da linguagem’. Apesar de nunca ter abandonado a escultura (primeira técnica a que se dedicou), foi como um dos precursores da videoarte que ele ganhou fama nos anos 70.
Agora, o artista multimídia tem cinco obras em Circunstances/Circunstâncias, no Museu da Imagem e do Som (MIS). "As ideias me vêm como um flash; eu simplesmente sinto e faço", diz ele. E talvez seja essa a melhor forma de aproveitar a exposição - sentindo todas as obras.

SERVIÇO

Onde: MIS. Av. Europa, 158, Jd. Europa, 2117-4777.
Quando: 12h/19h (dom. e fer., 11h/18h; fecha 2ª).
Abre 4ª (20).
Até 21/3.
Quanto: R$ 4 (dom., grátis).

ARTIGO MUITO BOM: por LUCIANO TRIGO



O bigode de Sarah Maple

Ainda que existam artistas contemporâneos relevantes, no cenário pós-histórico em que vivemos, quem dita todas as regras é o mercado




NO COMEÇO dos anos 50, Matisse recebeu de seu filho Pierre, marchand radicado em Nova York, catálogos que reproduziam obras de Pollock e outros artistas do expressionismo abstrato. Ele mostrou os catálogos a Picasso, seu velho amigo e rival, que rejeitou de forma categórica aquela nova maneira de pintar, "francamente desagradável".


Matisse ponderou que um artista não pode compreender -e, portanto, não deve julgar- as inovações de seus sucessores. Picasso discordou: "Sou contra esse tipo de coisa".


A conversa é narrada por Françoise Gilot em suas memórias. Procuro lembrar-me dela quando escrevo sobre a produção artística contemporânea. Picasso, gênio que revolucionou ao menos três vezes a história da arte, destruindo uma convenção após a outra, não foi capaz de aceitar um movimento moderno que, de certo modo, era um desdobramento das inovações que ele próprio desencadeara. 
A história está cheia desses exemplos de artistas que causaram escândalo por estarem à frente de seu tempo. Mas, por necessária que seja, essa constatação, sintetizada no argumento de Matisse, não deve virar um dogma limitador da reflexão crítica -do contrário, toda e qualquer bobagem que se apresente como arte estará protegida de antemão de contestação.


Não estamos longe disso, aliás.


Por exemplo, a jovem Sarah Maple vem sendo apontada como a nova revelação da arte contemporânea. Dá para conhecer um pouco de sua já premiada produção no site www.sarahmaple.com - onde ela é apontada como herdeira de Tracey Emin (que, por sua vez, se consagrou internacionalmente ao expor como obra de arte a própria cama desarrumada, com lençóis sujos, camisinhas etc). 
Daqui a um ano ou dois aparecerá a herdeira de Sarah, que será premiada pela Tate Gallery, ganhará destaque na mídia e também inscreverá seu nome na história da arte.


Uma das obras de Sarah Maple é uma fotografia em que ela aparece com um penteado fashion, um batom berrante e creme de barba no rosto simulando um bigode. O autorretrato é intitulado "A tribute to Frida". Para não deixar dúvidas sobre a piada, a artista usa no peito um button de Frida Kahlo. Só faltou uma legenda explicando que a mexicana tinha bigode.


Quanta profundidade! Sem falar na luz, nas cores, na composição... Trata-se, sem dúvida, de verdadeira Picassa.


Em outra série de fotografias, disponível no site e intitulada "Cocks", Sarah fotografa a si mesma com diferentes "paus" (um galho, um telefone, um guarda-chuva, um exemplar do livro "Código da Vinci" ("Da Vinci Cock!") -uma ideia que exige uma idade mental de aproximadamente cinco anos. Se é esse o nível do debate sobre as questões de gênero na arte hoje, estamos mal das pernas.


Também se afirma que Sarah contribuiu para o debate sobre a opressão sexual e religiosa ousando usar burca e seios de plástico. Será mesmo? Ou se trata apenas de mais uma reedição do surrado recurso de provocar polêmica barata?

Em 1919, quando Marcel Duchamp também recorreu a um bigode (na Mona Lisa) para chamar a atenção, isso até fazia sentido. Mas que relevância tem essa "transgressão" 90 anos depois?


Uma fração significativa da arte contemporânea está cada vez mais parecida com a indústria da música: muita atitude, rebeldia de butique, rostinho bonito e zero talento.


Haverá quem diga: sempre houve artistas medíocres, é melhor ignorar esse tipo de obra. Discordo. Sarah Maple não é uma pobre coitada, uma inocente que mereça desdém ou compaixão. Ela encarna a "mainstream" da arte contemporânea: é essa a produção que as instâncias mais poderosas do sistema da arte reconhecem, promovem, premiam e vendem (nos dois sentidos) como o que de melhor se faz hoje. É esse o padrão que se estabelece, diante da complacência geral e da falência da crítica.


Isso não passa em branco: tem impacto até no mais bem-intencionado estudante de arte, que se matricula numa escola de artes visuais e se depara com um mundo em que técnica, talento, disciplina e estudo não têm mais importância. Que conhecimento da história da arte é necessário para tirar uma fotografia segurando um celular como se fosse um pau?


Ainda que existam artistas contemporâneos relevantes, como existem, no cenário pós-histórico em que vivemos, quem dita todas as regras é o mercado, sem que exista nenhuma reflexão crítica independente e informada como contrapoder. 
Diferentemente dos artistas e movimentos modernos, que contestavam as instituições e o mercado, hoje se adere incondicionalmente a ambos. E, como há técnicas para fazer as pessoas comprarem (em sentido real e figurado) qualquer coisa, muitas vezes a mediocridade triunfa, por mais que se tente dourá-la com discursos vazios e citações pedantes.

LUCIANO TRIGO, jornalista e escritor, é autor, entre outras obras, de "A Grande Feira - Uma Reação ao Vale-Tudo na Arte Contemporânea".

EXPOSIÇÃO EM SP: Andy Warhol


Depois de passar por Buenos Aires, chega em março à Estação Pinacoteca, em São Paulo, uma megaexposição com 170 obras de Andy Warhol. Será a maior mostra do artista no Brasil. Entre os trabalhos, estão os retratos de Marilyn Monroe e Jackie Kennedy e as latas de sopa Campbell's.

NOTÍCIAS: 29ª Bienal

EMPRÉSTIMO

Os curadores da 29ª Bienal de São Paulo viajaram para Nova York, no fim do ano passado, para tentar conseguir com o MoMA retratos do grupo guerrilheiro Baader-Meinhof, que fazem parte do seu acervo. Mas a direção do museu vetou o empréstimo. Segundo a assessoria da Bienal, o MoMA tem um cronograma de empréstimos para os próximos três anos, no qual o pedido brasileiro não estava previsto.

Em tempo: a Bienal confirma a participação da artista alemã Isa Genzken e do belga Francis Alys na mostra e diz que 40 dos 40 artistas convidados aceitaram expor no evento.

MAIS UMA BIENAL NO BRASIL

Bahia retoma Bienal de arte em 2011

Iniciativa substitui o Salão da Bahia, organizado há 16 anos, e visa inserir o Estado em circuito internacional 




Após 43 anos, a Bahia retoma a realização de uma bienal de arte contemporânea, que deve ser realizada no início de 2011, em vários espaços de Salvador. O anúncio seria feito ontem, na abertura da exposição "Coleção MAM-BA: 50 anos de Arte Brasileira", no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), pelo governador Jaques Wagner.


Em 1966 e 1968, também por iniciativa do governo do Estado, Salvador foi sede de duas bienais. A primeira edição premiou Hélio Oiticica, Lygia Clark, Rubem Valentim e Rubens Gerchman. A segunda, fechada no dia seguinte da abertura, por imposição da ditadura militar, não teve continuidade. Criada por um decreto estadual, a nova Bienal substitui o Salão da Bahia, organizado há 16 anos no MAM-BA.


"Além de ser um resgate histórico, a organização dessa Bienal visa inserir a Bahia em um circuito internacional", diz Daniel Rangel, da diretoria de museus da Secretaria de Estado da Cultura da Bahia, que, com Solange Farkas, é um dos idealizadores da mostra. A Bienal Internacional de Arte da Bahia deve ocorrer em diversos locais da cidade, como o MAM, o Palacete das Artes (onde funciona o Museu Rodin), o Museu de Arte da Bahia, o Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, e o Museu de Arte da Bahia, todos vinculados ao governo do Estado, e ainda em novos locais no cais no porto.


"Era preciso pensar um novo modelo depois de 16 anos de Salão e essa Bienal terá um foco, que é dialogar com as bienais periféricas e apresentar a produção africana e latino-americano", conta Farkas. Até março, segundo Farkas e Dantas, será constituído um conselho que irá escolher o curador da primeira edição.


"Nossa ideia é fortalecer o circuito de arte da Bahia, do qual fazem parte cinco salões e Bienal do Recôncavo. O que buscamos é aprimorar o que existe aqui", afirma Farkas.

Exposição faz balanço de salão de arte na Bahia

Com 82 obras, mostra revê história de tradicional evento com a produção brasileira



MAM cria política para melhorar compra de obras de artistas como Pierre Verger e Mario Cravo Neto, mal representados no museu 


Há 16 anos, dezembro era o mês de abertura do Salão da Bahia, um dos eventos de maior visibilidade da nova produção nacional, no Museu de Arte Moderna da Bahia.


Com o fim do salão, por meio do decreto que criou a Bienal da Bahia, publicado no "Diário Oficial" do Estado na última sexta, a "Coleção MAM-BA, 50 Anos de Arte Brasileira" representa um balanço do projeto.


"O salão foi praticamente a única forma de aquisição e isso representa um problema sério para o museu, pois como é possível que artistas como Miguel Rio Branco, Mario Cravo Neto e Pierre Verger estejam tão mal representados aqui?", questiona Solange Farkas, diretora do MAM-BA e organizadora da mostra. Agora, Farkas dará início a uma nova política de aquisição, por meio de um Núcleo de Arte Contemporânea.


A mostra se divide em quatro módulos: "Contemporâneos", "Fotografia", "Modernistas" e "Rubem Valentim", este ocupando sozinho a capela do local, numa espécie de instalação.

"Modernistas", composto por apenas cinco obras, representa as primeiras aquisições do museu, quando de sua criação, em 1949, com telas que hoje são ícones da produção nacional, como "O Boi", de Tarsila do Amaral, ou "Vendedor de Passarinhos", de Portinari.


Modernistas, fotógrafos e contemporâneos, aliás, dividem o mesmo espaço, o famoso casarão reformado por Lina Bo Bardi. Lá estão alguns dos nomes com maior projeção da produção nacional, como Marepe, Regina Silveira, Leda Catunda, Cravo Neto e Verger.


Elegante, a exposição foi muito elogiada pelos conselheiros do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), empossados na última sexta em Salvador. "Essa mostra coloca o museu em um novo patamar, no mesmo nível de instituições internacionais", comentou o curador Fabio Magalhães.

SERVIÇO

Quando: de ter. a dom., das 13h às 19h, sáb., das 13h às 21h; até 28/3
Onde: MAM-BA (av. Contorno, s/nº, Salvador, tel. 0/xx/71/3117-6133)
Quanto: entrada franca

Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo

CRÍTICA: Livro "As Vidas dos Artistas", de Calvin Tomkins

por Fábio Cypriano da Folha de S.Paulo


Com a voz dos artistas, livro retrata a arte contemporânea

Poucos são os livros que conseguem abordar a produção atual sem cair em estereótipos ou mesmo forçar a barra ao encaixar certos artistas como meros oportunistas que se aproveitam da recente explosão do mercado de arte contemporânea.

Livros falam sobre a vida de grandes nomes da arte contemporânea

"As Vidas dos Artistas", de Calvin Tomkins, faz parte do seleto grupo que traz uma abrangente visão dos procedimentos de produção contemporânea ao dar a voz, em primeiro plano, aos próprios artistas. Nos últimos dez anos, Tomkins, autor da ótima biografia de Marcel Duchamp, "Duchamp" (Cosac Naify, 2005), publicou perfis de protagonistas da arte contemporânea, como Jeff Koons, Damien Hirst e Matthew Barney para a revista "The New Yorker".

O livro, uma reunião de dez desses perfis, revela-se um típico exercício de jornalismo literário, com textos extensos, que mostram intimidade entre o autor e os artistas: Tomkins vai ao cinema com Cindy Sherman, visita a casa de veraneio de Jasper Johns em St. Martin, no Caribe, anda de táxi com Hirst, caminha pela cratera de James Turrel, no norte do Arizona (EUA).

Em cada situação, o autor revela detalhes que ilustram o procedimento criativo de cada um, acrescentando ainda depoimentos de outros artistas, galeristas, críticos e amigos. Os demais escolhidos são Julian Schnabel, Richard Serra, Maurizio Cattelan e John Currin.

Obra sem título de Cindy Sherman, produzida com bonecas mutiladas em 1994, após um divórcio

Estrelas contemporâneas

O próprio autor afirma, na introdução do livro, que a seleção não apresenta "nenhum denominador comum, entre eles", mas, na verdade, todos são estrelas de primeira grandeza no cenário atual, afinal Sherman é uma das principais renovadoras da fotografia, Serra, da escultura e Johns, da pintura. No entanto, tal divisão por suporte, como se sabe em arte contemporânea, é inútil, e aí está um dos méritos de Calvin Tomkins, que, em vez de investigar o meio usado pelo artista, interessa-se pela sua própria forma de vida.

Contudo isso não é realizado em um desenrolar de fofocas, como o universo das celebridades tanto preza, mas de forma discreta e contextualizada, onde o autor aborda desde a formação de cada artista até suas relações com museus e galerias.

Momentos-chave


Há muitas passagens intrigantes. Uma das melhores é quando Kim Levin, crítica do "Village Voice", arrasou, em um texto, as pinturas de mulheres um tanto deformadas de Currin, por considerá-las machistas, quando de sua primeira individual na galeria Andrea Rosen, em 1992. Dez anos depois, em 2003, ela assume e diz "Eu estava errada", o que atesta como o escrever da história pode ser alterado quando o artista segue sua carreira.

Claro, há histórias mais extravagantes, como os surtos hedonistas de Hirst, que costumava baixar a calça e mostrar a genitália nas festas, mas tais situações são apenas detalhes de uma inteligente e intrigante narrativa da produção atual, principalmente daquela produzida nos Estados Unidos, para onde os textos foram criados. Quem ler "As Vidas dos Artistas", se usar as lentes corretas, vai compreender muito melhor o que é a arte contemporânea.

AS VIDAS DOS ARTISTAS
Autor: Calvin Tomkins
Editora: Bei
Quanto: R$ 57 (280 págs.)
Avaliação: ótimo

EXPOSIÇÃO

MAM celebra dez anos do Núcleo Contemporâneo e aumenta acervo


O MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) inicia suas atividades de 2010 com uma comemoração. A casa estreia a mostra "Dez Anos do Núcleo Contemporâneo", que celebra uma década da iniciativa que ajudou a formar um grupo de apreciadores da arte contemporânea e aproveita ainda para aumentar o acervo com obras conquistadas por meio do programa.

Com o dinheiro angariado pelo Núcleo --o espectador paga anuidade individual de R$ 714 para participar de atividades exclusivas e ganhar passe livre nas exposições, entre outros benefícios--, o MAM comprou a obra "Quadris de Homem = Carne/Mulher = Carne" (1995), de Laura Lima, e conquistou o título de primeiro museu brasileiro a ter uma performance em sua coleção artistica. Na mostra comemorativa, ela será apresentada no próximo dia 26, quando será lançado o catálogo da exposição.

Essa instalação humana divide espaço com outras 29 obras selecionadas de um montante de 169 trabalhos que pertencem ao Núcleo. Entre elas estão "O Telhado" (1998), de Marepe, "Nota sobre uma Cena Acesa ou os Dez Mil Lápis" (2000), de José Damasceno, e "Templo" (2000), de Franklin Cassaro.

"Entre o Figurativo e o Abstrato" (1983), de Leda Catunda, e "The Descent from the Cross (after Caravaggio)" (2000), de Vik Muniz, firmam o foco do programa no experimentalismo artístico contemporâneo.

A curadoria da exposição comemorativa é de Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP.

SERVIÇO

DEZ ANOS DO NÚCLEO CONTEMPORÂNEO

Quando: ter. a dom., das 10h às 17h30; até 4/4
Onde: MAM (pq. Ibirapuera, portão 3, tel. 5085-1300)
Quanto: R$ 5,50

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

BIBLIOGRAFIA: 15 longos minutos de fama


Quatro lançamentos comprovam a longevidade de Andy Warhol como fenômeno pop e contam como o artista construiu uma personalidade rentável e midiática


Andy Warhol, em frente ao bar Serendipity, em Nova York, em 1961



Andy Warhol gostava de se olhar no espelho para não ver nada. "Um crítico disse que eu era o nada em si, o que não ajudou muito", escreveu o artista. "Mas, se perguntassem qual é meu problema, eu diria: pele."

Homem que se tornou o nome mais conhecido da arte no século 20, Warhol odiava a própria cara. No mundo de celebridades que ajudou a arquitetar, criou um personagem magnético para ocultar suas falhas. Virou marca rentável até hoje.

Quatro livros lançados nos últimos meses do ano passado exploram o mito Warhol e repetem nas livrarias o alvoroço provocado pelas obras do artista pop em museus e galerias.

"Andy Warhol", de Arthur Danto, e "Pop - The Genius of Andy Warhol" (pop - o gênio de Andy Warhol), de Tony Scherman e David Dalton, são análises biográficas do artista. Enquanto o primeiro traça um paralelo entre Warhol e nomes atuais, como Jeff Koons, Damien Hirst e Takashi Murakami, o segundo mergulha nos detalhes da década de 1960, a fase mais produtiva de Warhol.

ANDY WARHOL
Autor: Arthur C. Danto
Editora: Yale University Press
Quanto: US$24(cerca de R$42) (192 págs.)

POP - THE GENIUS OF ANDY WARHOL
Autor: Tony Scherman e David Dalton
Editora: Harper Collins
Quanto: US$40(cerca de R$70) (509 págs.)

"I Sold Andy Warhol (Too Soon)" (eu vendi Andy Warhol cedo demais), de Richard Polsky, dá a dimensão de mercado da história, narrando o aumento dos preços das obras do artista em leilões e galerias.

POP - THE GENIUS OF ANDY WARHOL
Autor: Richard Polsky
Editora: Other Press
Quanto: US$24(cerca de R$42) (288 págs.)

Lançado no Brasil há dois anos, "A Filosofia de Andy Warhol", primeira tradução para o português do livro escrito pelo artista, se junta a "Popism" no segundo semestre, livro que ele fez com Pat Hackett, que redigiu seu diário a partir de conversas telefônicas.

A FILOSOFIA DE ANDY WARHOL
Autor: Andy Warhol
Editora: Cobogó
Quanto: R$43 (272 pags.)

Ele mesmo tinha preguiça de escrever. Se nas festas em Nova York Warhol era a figura midiática, de óculos escuros e cabelos arrepiados, não escondia o lado frágil quando estava entre seus assistentes. Era inseguro, inepto. Dependia até das duas empregadas guatemaltecas, que recolhiam os embrulhos de doces e chocolate em torno de sua cama todos os dias pela manhã.

"A maior coisa que ele fez foi criar esse personagem, como Buster Keaton ou Charlie Chaplin, um tipo clássico", diz David Dalton, autor de "Pop", que foi assistente do artista. "Ele criou uma imagem indelével, virou o oposto do que era."

Dalton documentou a construção e o sucesso dessa segunda pele e agora vê seu livro chegar às listas dos mais vendidos.

"Ele era como o Mickey Mouse", diz Arthur Danto. "Ninguém sabia como era a cara dos outros artistas, mas todo mundo consegue desenhar o rosto de Warhol." No auge da fama, o artista chegou a contratar um sósia para dar palestras e fazer aparições em seu lugar.

Foi por seu "charme profundo", nas palavras de Danto, que Warhol chegou à condição máxima de celebridade, despertando adoração e ódio. Anos antes de John Lennon, sofreu um atentado. Levou tiros calibre 32 no baço, estômago, fígado, esôfago e nos pulmões. Sobreviveu, sabendo que passava a ser também um mártir.

Pouco importa que Valerie Solanas, a psicótica autora dos disparos, não tivesse o artista como alvo. "A beleza ameaçada fica mais bela", escreveu Warhol após o episódio. "Se eu não fosse famoso, não teria levado tiros por ser Andy Warhol."

"Ele é como os Beatles", diz Richard Polsky. "Todo livro lançado sobre ele é um sucesso de vendas, as pessoas compram tudo com o nome Warhol."

Tanto que, quando Polsky comprou uma obra de Warhol, escreveu um livro narrando o episódio. Um colecionador finlandês ficou de olho no trabalho até que o autor decidiu leiloar a obra descrita no livro cinco anos depois. "Ele tinha lido o livro, pegou um jatinho e veio comprar o quadro em Nova York", lembra Polsky, que fez outro livro sobre a venda.

Entre as muitas teorias e poucas explicações concretas para o fenômeno Warhol, ele mesmo resume a questão numa frase: "Isso é porque as pessoas, mais do que qualquer outra coisa, querem estrelas".


Silas Marti da Folha de S.Paulo

BIBLIOGRAFIA


Livros falam sobre a vida de grandes nomes da arte contemporânea

Silas Marti da Folha de S.Paulo

Foi pelo outro lado da câmera que Matthew Barney virou artista. Pagou o curso em Yale com o dinheiro que ganhou como modelo, posando para a Ralph Lauren. Cindy Sherman transformou um "divórcio doloroso" em bonecas mutiladas.

Com a voz dos artistas, livro retrata a arte contemporânea

No Brasil, Cildo Meireles lembra a alucinação que teve aos seis anos de idade, paralisado numa cama. Cao Guimarães descobriu o "desejo pelo proibido" quando viu o arquivo de fotos do avô médico, com xifópagos e vítimas de barriga d'água. A prisão do marido, na ditadura, também foi motor para a obra de Anna Bella Geiger.

Dois livros lançados agora exploram a biografia dos maiores nomes da arte contemporânea no Brasil e no exterior. Buscam nos relatos desses artistas o lastro para a produção que inundou o mercado e arrebatou a crítica ao mesmo tempo.

Em "As Vidas dos Artistas", Calvin Tomkins, crítico de arte da "New Yorker", perfila dez artistas que viraram grifes, entre eles Matthew Barney, Damien Hirst, Jeff Koons, Richard Serra. Nos trópicos, Felipe Scovino lança "Arquivo Contemporâneo", coleção de 13 entrevistas com gigantes da arte brasileira --Cildo Meireles, Tunga, Adriana Varejão.

AS VIDAS DOS ARTISTAS
Autor: Calvin Tomkins
Editora: Bei
Quanto: R$ 57 (280 págs.)

ARQUIVO CONTEMPORÂNEO
Autor: Felipe Scovino
Editora: 7Letras
Quanto: R$ 48 (310 págs.)

Fazem uma análise sintética da última geração de criadores alçados à condição de celebridade. Dão a palavra aos próprios artistas, que esquadrinham desde o sucesso em leilões e galerias à presença nas maiores exposições do planeta e estripulias no plano pessoal.

Tomkins, 84, partiu com a missão de separar o joio do trigo. De milhares de artistas que conheceu, escolheu os que julgou pertinentes. "Um resultado da liberdade ilimitada na arte é a superprodução de coisas medíocres", constata o autor, em entrevista à Folha. "Essa situação tem atraído muitos não artistas, que acham que fazer arte é coisa fácil."

Ele tenta provar o contrário narrando a odisseia de Damien Hirst atrás dos tubarões e vacas que mergulhou em formol. Lembra a viagem ao deserto do Arizona para ver a cratera de luz de James Turrell, os excessos de maquiagem, roupas e perucas de Cindy Sherman.

No meio do caminho, sobra tempo para falar dos amigos roqueiros de Hirst, como o baixista do Blur, Alex James, do romance de Cindy Sherman com o ator Steve Martin, do egocentrismo embaraçoso de Julian Schnabel, da briga de Richard Serra com Frank Gehry.

São ecos da era que começou com Andy Warhol e o culto à personalidade que passou a valer também nas artes visuais.

É um contraste gritante com a situação brasileira. Enquanto os Estados Unidos viveram o boom econômico do pós-guerra, artistas nacionais extraíram forças da repressão militar. A máxima de Hélio Oiticica --"da adversidade vivemos"-- se ajusta quase com perfeição aos relatos dessa geração.

Cildo Meireles esmiúça o contexto em que circulou suas garrafas de Coca-Cola com mensagens subversivas. Cao Guimarães lembra como fazia todos os filmes na cozinha de seu apartamento em Londres.

Oiticica e Lygia Clark, pioneiros da arte invendável, surgem como grandes referências dessa geração, mas não evitaram que, mesmo no Brasil, tudo se rendesse ao mercado.

Artista que desponta lá fora, Adriana Varejão conta que a única lembrança que tem da primeira vez que viu a obra de Clark é o autógrafo que ganhou da artista. Meireles reduz tudo a um "universo do fetiche".

Na obra de Cindy Sherman, Tomkins vê o que se aplica à situação atual _o desejo de se agarrar "às coisas, à juventude, ao glamour, à esperança".